Próxima parada: diversão

Comandado pelo canoísta extremo norte-americano Tyler Bradt, veleiro está dando a volta ao mundo atrás de aventuras multiesportivas épicas – e sem nenhum roteiro pré-estabelecido a cumprir

Por Bruno Romano


UM BRINDE: Tyler (à esq.) celebra com os amigos, entre eles seu pai (de boné vermelho),
pouco antes de zarpar para o oceano
(FOTO: Wizard’s Eye Expedition/ Tyler Bradt)


VENTOS DE MAIS de 90 km/h chacoalhavam o veleiro como se fosse um barquinho de papel em uma brincadeira de criança. Uma tempestade com ondas gigantes e um vulcão brilhante no horizonte deixavam o clima ainda mais brutal. Um verdadeiro teste de fogo para uma “nave” de 43 pés, repleta de equipamentos esportivos e domada por aventureiros experientes (porém iniciantes em travessias de oceano). Era só mais uma noite a bordo do Wizard’s Eye, nome da embarcação e da expedição de cinco anos circunavegando a Terra liderada pelo canoísta norte-americano Tyler Bradt. Na viagem, a única regra é não ter nenhuma meta, nem mesmo um roteiro pré-definido, a não ser respeitar as regras de uma circunavegação.


Tyler se safou dessa fúria da natureza em alto-mar, que rolou a poucas semanas no Pacífico, com a mesma habilidade e ousadia com que conquistou em 2009, desta vez de caiaque, a Palouse Falls, uma colossal queda d’água de 57 metros localizada em Washington (EUA) – até hoje, o recorde mundial em descidas de cachoeira. “Nossa travessia noturna foi o ponto mais selvagem da expedição até agora. Mas todo dia tem sido uma nova aventura desde que começamos”, conta Tyler, direto das Ilhas Fiji, local escolhido para aguardar a passagem da temporada de ciclones no Pacífico e dar início à segunda perna da jornada. Tirando alguns perrengues, os últimos meses de Tyler revelaram-se uma longa, divertida e sonhada férias de verão.


A aventura começou em janeiro de 2013. Após quatro anos de preparação, Tyler encarou uma viagem de carro de 3.400 quilômetros de Missoula, em Montana (EUA), até o porto de La Paz, no México, onde o Wyzard’s Eye o aguardava. Por ter gostado do nome (e para respeitar a superstição de não batizar novamente um barco), ele decidiu manter o “Olho do Mágico” como estava e apenas fez algumas adaptações na embarcação. Em março, o veleiro finalmente estava pronto para sentir o sabor da água salgada em seu reformado casco. Antes de levantar âncora rumo ao outro lado do Pacífico, em uma mistura de alívio e empolgação, Tyler deu a receita para a coragem e o desapego que o acompanhariam nos próximos meses: “Temos tudo o que achamos necessário. Faltam algumas coisas que gostaríamos, é verdade, mas não temos nada do que não precisamos. Isso me parece uma ótima situação”.


De parapente a caiaques, a tripulação do Wizard’s Eye está pronta para explorar qualquer
tipo de aventura extrema na terra, na água ou no ar
(FOTO: Wizard’s Eye Expedition/ Tyler Bradt)


Um dos pontos altos da viagem é a troca de experiência com locais e “figuras”, como este
marinheiro no porto de La Paz, no México, que ajudou nos preparativos finais do veleiro
(FOTO: Wizard’s Eye Expedition/ Tyler Bradt)


Patrocinada por marcas que já apoiavam Tyler nas quedas extremas em cachoeiras pelo mundo, a expedição possui um objetivo amplo: circunavegar o planeta em cinco anos, sem pressa, velejando com equipamentos de última geração para que a tripulação se dirija corretamente até certos lugares do mundo que são ideais para se praticar esportes outdoor. Tyler tem carta branca para convocar os amigos quando e onde quiser. O roteiro e a tripulação do Wyzard’s Eye variam assim como os ventos que sopram na vela içada no imponente mastro de 42 metros. Os mais assíduos “marinheiros” têm sido Ryan Lambert, surfista e capitão do veleiro na travessia do Pacífico, e Jordan Kilgore, base jumper de destaque no cenário internacional que aproveita a aventura para ensinar a arte dos saltos para Tyler.


"Não sabemos o que vamos encontrar, mas viveremos os melhores momentos da nossas
vidas buscando”, diz canoísta e fotógrafo Rayno Van Heerden, tripulante do veleiro,
nesta foto se divertindo com uma criança fijiana
(FOTO: Wizard’s Eye Expedition/ Tyler Bradt)

“Eu não poderia fazer isso tudo sozinho. Por sorte, meus amigos mais próximos são atletas talentosos, que também sabem filmar, fotografar e se sair bem de perrengues”, diz o canoísta. No meio do Pacífico, a experiência de Ryan foi fundamental para tirar Tyler de uma roubada: ele já estava com dificuldade de respirar e delirava de dor depois de ser queimado por uma caravela-portuguesa (uma “água viva” cheia de tentáculos). “A milhares de quilômetros de qualquer pedaço de terra, um bom kit médico e a tranquilidade do Ryan salvaram o dia e, provavelmente, minha vida”, lembra.


Mais experiente velejador do grupo, o surfista Ryan Lambert (à dir) foi o “capitão”
durante a travessia do Pacífico – em dias de mar calmo, Tyler deu uma folga para
o amigo; ao lado, f
inalmente “em casa”, Tyler tira onda com seu caiaque no arquipélago
de Tuamotu, na Polinésia Francesa – a primeira grande cachoeira da expedição foi
explorada na parada seguinte, em Fiji.
(FOTO: Wizard’s Eye Expedition/ Tyler Bradt)


Tyler deixa o caiaque de lado e aproveita para colocar em prática suas aulas de parapente –
muitos dos picos explorados são saltos inéditos em ilhotas fora dos mapas turísticos
(FOTO: Wizard’s Eye Expedition/ Tyler Bradt)


Entre uma sessão e outra, Tyler curte o dia com um surfista local e sua namorada Tania Heater,
que embarcou no veleiro nas ilhas Fiji
(FOTO: Wizard’s Eye Expedition/ Tyler Bradt)

Essa sintonia perfeita entre equipamentos top de navegação e uma forma de viajar “à moda antiga” tem ajudado a trupe a cumprir, com sucesso, a saborosa missão de surfar ondas perfeitas em locais extremamente remotos, saltar de penhascos inéditos e ser bem-recebida em regiões pouco exploradas do planeta. Além do estoque de água, comida, ferramentas e itens de emergência para longas travessias, o Wyzard’s Eye carrega equipamentos de base jump, wingsuit, parapente, caiaque, surf, stand-up paddle, escalada, mergulho, pesca submarina e kiteboard.

“A beleza de toda essa experiência é que os bons momentos são merecidos depois de longas horas de trabalho duro dentro do barco. Na minha mente, isso torna a expedição e nossas conquistas ainda melhores”, resume o comandante. Se o que vale é a jornada e não o destino, a tripulação do Wyzard’s Eye está provando dia a dia o sabor (e o valor) da aventura. Dentro da embarcação, o inesperado é só mais um motivo para se divertir.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de julho de 2014)

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