É nós na fita

O slackline no Brasil passa pela Era dos Descobrimentos. Se há menos de uma década o esporte era recém-chegado ao país, no último ano ele viveu o boom de sua vertente mais extrema: o highline

Por Mario Mele


XEQUE-MATE: Caio Afeto calcula bem os movimentos durante seu highline na Cachoeira
do Tabuleiro (MG)

(FOTO: Allan Pinheiro)


O HIGHLINE É A VERTENTE MAIS EXTREMA do slackline. Nele, a fita é esticada a vários metros de altura e muitas vezes se estende por dezenas de metros. Recentemente, um grupo no Facebook chamado Pico do Highline publicou uma listagem de todas as travessias abertas no Brasil. As informações foram reunidas com a colaboração dos próprios praticantes, e o resultado foi surpreendente. “São mais de 70”, diz, admirado, o atleta capixaba Caio Afeto, uma das referências do esporte por aqui.

O highline exige o controle emocional de um buda somado a técnicas avançadas de equilíbrio e ancoragem de corda – por uma medida de segurança, o praticante geralmente vai com uma fita presa ao corpo para se proteger de eventuais quedas. Mas nem toda essa trabalheira conseguiu acanhar o crescimento do esporte no Brasil. Segundo Caio, testemunha da evolução da modalidade no país, há dois anos não existiam nem 30 picos brasileiros de highline.


TENTATIVA E ERRO: Rafael Bridi não se intimida com os 95 metros de extensão do highline
do Cânion de Furnas (MG)
(FOTO: Caio Afeto)

Caio tem 26 anos e escala desde 2006. Foi assim que começou a explorar as montanhas do Espírito Santo. Chegou a se formar em Engenharia de Petróleo, mas nunca exerceu a profissão porque achou que seria difícil trocar a vida nas alturas pela rotina em um escritório localizado, na melhor das hipóteses, a parcos metros do nível do mar. Em 2010, ao ser apresentado ao highline, decidiu que faria apenas isso da vida.

Sua primeira vez foi no bucólico distrito de Matilde, no sul do Estado, onde abriu um highline sobre uma cachoeira – algo até então inédito no país. A 70 metros de altura (o equivalente a um prédio de 30 andares), andou 40 metros se equilibrando na fita e estabeleceu um recorde nacional de distância que perduraria por três anos. “O highline me faz acreditar que eu posso ir além dos meus limites e também me deu a oportunidade de viajar e conhecer pessoas”, diz Caio, que também já esticou sua fita pela África do Sul.

No ano passado, através do projeto HighVibe, ele e o mineiro Gustavo Fontes, outro escalador que passou a levar o highline a sério, rodaram o Brasil durante seis meses e abriram 20 novas travessias. Sem patrocínio, a dupla percorreu seis estados, explorando vales cinematográficos. Uma grande mão na roda foi a ajuda que receberam de praticantes locais, fundamental para descobrir novos vãos, chegar até eles e montar todo o equipamento. Durante a jornada, sem querer, acabaram promovendo uma grande socialização dentro da comunidade de highline brasileira. Logo no primeiro ano, o HighVibe chamou a atenção da mídia e foi noticiado até na televisão. “Nossa intenção agora é seguir produzindo conteúdo novo para fomentar o esporte e, ao mesmo tempo, continuar procurando novos desafios”, diz o mineiro de 29 anos.


"SER MINEIRO": Câmera de bordo de Caio Afeto registra seus passos sobre a
Cachoeira do Tabuleiro (MG)
(FOTO: Caio Afeto)


A PEREGRINAÇÃO DO HIGHVIBE começou na Serra do Cipó (MG). Na Cachoeira do Tabuleiro, a mais alta do estado, eles esticaram 89 metros de fita a 320 metros de altura. Na ocasião, ninguém conseguiu atravessar sem cair. Vencer a sensação de vulnerabilidade é dos maiores desafios do highline, e só cinco meses depois, em setembro do ano passado, é que o alemão Lukas Irmler conseguiu chegar ao outro lado.

Lukas é um fenômeno mundial do esporte, e em 2013 passeou por 120 linhas diferentes de highline na Europa, Ásia e América do Sul. Com 25 anos, é dono de vários recordes na modalidade, como o de maior altitude, alcançado quando atravessou um vale nos Andes peruanos a 5.222 metros acima do nível do mar. O highline feito na Cachoeira do Tabuleiro, um recorde sul-americano de distância, é outra marca impressionante que leva no currículo. “Na verdade, abrimos esse projeto pensando no Lukas”, conta Caio. “Nos conhecemos em uma campanha da Adidas Outdoor em que participamos, e percebi que ele seria um dos poucos capazes de mandar aquela travessia.”

Só em Minas Gerais, Caio e Gustavo estabeleceram 16 novas linhas, em lugares como a Serra da Bocaina e o Cânion de Furnas. Em Furnas, montaram o highline Logística, o mais longo do Brasil até hoje, com 95 metros de distância por 35 de altura – um jogo de concentração e equilíbrio que ninguém conseguiu ainda decifrar.


Em junho, eles se juntaram ao catarinense Rafael Bridi, o principal nome do highline de seu estado. Em Florianópolis, o trio abriu duas novas travessias e repetiu outros dois projetos. Entre as inéditas, está a impressionante Baleia Azul, uma linha de 70 metros de comprimento por 25 metros de altura. “De lá, se tem uma vista privilegiada de um dos costões da praia da Lagoinha, um lugar mágico da Ilha da Magia”, descreve o local.

Aos 27 anos, Rafael acaba de trancar o curso de Engenharia Civil no nono semestre (sim, o penúltimo) para se dedicar integralmente ao esporte. “Quero curtir este momento feliz da minha vida, e não seria possível conciliar o highline com uma carga horária pesada de estudos.” Em outubro, ele inovou ao conectar dois prédios em Balneário Camboriú (SC) com a fita e inaugurar um “parque de diversões” a 130 metros de altura sobre a cidade. De volta à natureza, em Urubici, interior do estado, Rafael andou 60 metros se equilibrando ao lado de uma queda d’água quase duas vezes maior. “É uma das linhas mais bonitas que já fiz”, sentencia ele, que batizou a travessia com o nome da sensação que ela lhe deu: Calma na Alma. “Ainda pretendo voltar à faculdade e me formar, mas o highline é o que eu faço atualmente, e não tenho vergonha nenhuma em dizer que é a melhor profissão do mundo”, admite Rafael.

Em abril, o primeiro highline de Florianópolis completou um ano. E foi Rafael quem instituiu esta linha. Em 2014, ele também se tornou o primeiro brasileiro a atravessar o highline Tartaruga Sinistra, em Niterói, um longo e exposto trajeto de 47 metros de extensão. A Tartaruga Sinistra havia sido percorrida pela primeira vez em 2013, quando o astro do slackline Andy Lewis visitou o Brasil e aproveitou para deflorar alguns highlines ao redor da Cidade Maravilhosa. Rafael repetiu a via, como dizem na escalada, e mais uma vez se sentiu em casa: no meio do nada e acima de tudo.

Além dos projetos concluídos em Minas Gerais e Santa Catarina, o HighVibe já organizou uma travessia noturna na icônica Pedra da Gávea (RJ) e abriu outra, de dia, ligando pelo ar os estados da Bahia e de Alagoas. Batizada de Divisa, esta última é um highline de 40 metros de distância que passa a uma altura de 80 metros sobre o Rio São Francisco.

Gustavo e Caio aproveitam suas habilidades de escaladores para colocar o highline em lugares cada vez mais inusitados. Eles e outros atletas assumem que a cereja do bolo do highline brasileiro hoje é a travessia dos Cinco Pontões, no Espírito Santo, mais um projeto que leva a assinatura do HighVibe. Nele, a fita foi colocada num vazio de 46 metros extensão a 400 metros de altura, onde apenas poucos e (muito) bons conseguiram se equilibrar. Em outras palavras, é uma passarela trêmula pelo maior monumento natural do Espírito Santo. Só para se chegar no pico, já é preciso vencer uma escalada nada fácil.


SIESTA: Rafael relaxa no Vale de Yosemite (EUA)
(FOTO: Ligia Duclós)


JÁ SE PASSARAM QUASE 10 ANOS desde que o montanhista paulista radicado no Rio de Janeiro, Hugo Langel, desbravou a Pedra da Gávea (RJ) pela primeira vez. Em 2005, em um ato tão vaguardista quanto o primeiro voo de asa-delta ou a primeira onda surfada no país, Hugo montou o highline sobre um despenhadeiro de 900 metros e deixou todos pasmos: ele se tornava o primeiro brasileiro a fazer um highline. Até hoje, a Pedra da Gávea é considerada uma travessia clássica e uma das mais difíceis do mundo, por conta das fortes rajadas de vento que batem no local.

Não faltam outros bons atletas no estado fluminense. Além de Hugo, Allan Pinheiro, Sancler Lopes, Ralf Cortês, Gabriel Aglio, Gideão Melo e Bruno Migueis são alguns nomes que hoje elevam o nível da fita no eixo Rio-Niterói. No Parque Estadual Serra da Tiririca, em Niterói, o highline Enseada do Bananal foi o primeiro a ser aberto no Brasil. Em 1995, o escalador britânico Neil Gresham passeou por aqui e se equilibrou naquelas alturas. Mas o esporte ficou no vácuo por uma década, até Hugo assinar sua travessia na Gávea. Também na capital, Bruno Migueis assinou quatro linhas, entre elas uma exótica travessia sobre a praia da Joatinga, com 40 metros de extensão acima de um nada amigável aglomerado de pedras pontiagudas. “Acabei pegando a ‘febre da conquista’, principalmente porque o número de praticantes está crescendo”, diz.

Portador desta particular “patologia”, ele é mais um que transformou a “arte do equilíbrio” em profissão. Em maio, atravessou um novo trecho de 35 metros na Pedra da Gávea para abrir mais um highline cascudíssimo por lá, chamado “Delírios Tropicais”. E é também idealizador do Slack Camp, um evento que reúne highliners do mundo todo para troca de experiências. Em setembro, acontece a terceira edição, no bairro carioca Alto da Boa Vista – o nome e o local, situado a 385 metros do nível do mar, são mais que apropriados para o projeto. “Como atleta, já tentei conseguir patrocínio, mas não tive sucesso. Percebi então que só vai haver profissionalismo quando o esporte tiver um número considerável de praticantes”, diz Bruno. “Só assim vai existir o ‘mercado de slackline’, e os atletas passarão a ser importantes.” Segundo o paulista Guilherme Caetano, que também integrou a expedição à Cachoeira do Tabuleiro (MG), graças ao evento muitas pessoas deram os primeiros passos na fita com a devida orientação e segurança. “Ainda não há uma pesquisa científica sobre o highline no Brasil, mas empiricamente percebemos que o número de praticantes tem se multiplicado rapidamente”, acredita.

Consequentemente, cresce também a lista de picos para o esporte. Guilherme acredita que a Chapada dos Veadeiros, em Goiás, seja um mar de oportunidades, e por isso ela é seu próximo foco. Já Caio Afeto ainda sonha com um épico highline sobre as Cataratas do Iguaçu – ele já visualizou uma travessia por este Patrimônio Natural da Humanidade, e agora quer colocar a ideia em prática. Graças as suas habilidades alpinísticas, ele e o parceiro Gustavo Fontes também querem fazer escaladas cada vez mais técnicas até cumes de difícil acesso, inaugurando novos highlines ainda inimagináveis.

Para a nossa sorte, essa galera está ficando boa em documentar as próprias aventuras, produzindo fotos e vídeos bem editados sobre suas conquistas e superações. A comunicação com o público é um trabalho fundamental para atletas que pretendem sobreviver da renda de um esporte não competitivo. Ainda que não parem de surgir marcas nacionais próprias de highline, aperfeiçoando o nível dos equipamentos, patrocínios razoáveis ainda são coisa rara. Tentar viver apenas “da corda” no Brasil ainda é viver numa corda-bamba, financeiramente falando.


SOBRE AS ONDAS: Rafael tenta dominar a fita enquanto
atravessa a praia Lagoinha do Leste, em Floripa (SC)

(FOTO: Niklas Winter)


>> A segurança no highline

APESAR DA VULNERABILIDADE que transparece nas fotos, o highline é um esporte seguro. Diferentemente do que acontece com o base jump, quase não se veem notícias sobre fatalidades entre os que se equilibram na fita. Acidentes ocorrem mais quando o aparato está montado em pequenas alturas e vira uma armadilha a ciclistas e corredores distraídos. “No highline, um dos perigos são caras que, por total desconhecimento, usam equipamentos inadequados”, diz o catarinense Rafael Bridi. “E, sem perceberem, colocam a própria vida e a de outras pessoas em risco.”

Para manusear cordas, fitas e mosquetões com pleno conhecimento de causa, é indicado que todo highliner faça um curso de escalada. Para se equilibrar nas alturas, além de o atleta normalmente usar um resistente pedaço de corda que o mantém conectado à fita o tempo inteiro, é necessário que sejam feitas ancoragens em pontos diferentes, e que elas sejam firmes. Não é um procedimento que pode funcionar mais ou menos.

Facilmente um praticante inexperiente pode cometer erros e acabar com a brincadeira. “Deve-se tomar cuidado, por exemplo, para não deixar a fita principal e nem a corda back-up [que segue por baixo da fita durante toda a extensão da via] em atrito com a pedra”, orienta o mineiro Gustavo Fontes. “Elas podem arrebentar. Isso é um erro grave que já causou acidentes dentro e fora do Brasil – felizmente nenhum fatal.”

Até cinco anos atrás, os highliners tinham que adaptar seus equipamentos de escalada para armar travessias nas alturas. Hoje, no entanto, há marcas que produzem equipamentos específicos para a prática. Como a alemã Landcruising (landcruising-slacklines.de), que fabrica desde mochilas para transportar a fita e equipamentos, até mosquetões e fivelas especiais, que facilitam a montagem e deixam a travessia mais segura. “A montagem do highline é um quebra-cabeça que exige total atenção e concentração, e eu gosto dessa parte”, diz Rafael. “Depois disso é só diversão.”


>> Só na fita


NO HIGHLINE, A LINHA TÊNUE entre ter o controle absoluto da situação e o desafio de dar um passo além é conhecida como freesolo – quando o highline é feito sem corda de segurança. Nesse quesito, o norte-americano Andy Lewis é mestre. Em Utah (EUA), certa vez ele se equilibrou durante uma travessia de 53 metros a uma altura de 60 metros contando somente com a própria confiança como equipamento de segurança. No Brasil, o capixaba Caio Afeto foi o primeiro a atravessar essa barreira, realizando quatro travessias freesolo no Brasil e outras quatro na África do Sul. “Hoje sou grato por ter tido um sentimento tão especial e continuar vivo”, diz.

É unânime entre os highliners que o freesolo é uma opção de quem realmente sabe que evoluiu no esporte, e não coisa de louco ou inconsequente. Ou, como define o brasiliense Guilherme Caetano, “é a expressão de toda a experiência de um atleta.” Mas ele mesmo assume que ainda não se sente preparado.

Rafael Bridi também não é motivado pelo freesolo, mas vê a prática como uma extensão natural do highline. “Acho um desrespeito falarem que esses atletas estão se arriscando à toa, porque a vida é a coisa mais importante para qualquer um. Mas eu não me sentiria bem em ver alguém sem muito controle da fita tentando atravessar dessa forma.” Ao que parece, os highliners estão conscientes do próximo passo.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de junho de 2014)

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