Ele tem a força

Enquanto se mantém no topo do ranking brasileiro de SUP Race Unlimited, o gaúcho Andre Torelly ainda rema por lugares nunca antes explorados com uma prancha


Por Lucas Franceschini


NA CORRENTEZA: André rema sozinho no rio Mendoza, na Argentina
(FOTO: Nico)

EM 2013, O GAÚCHO ANDRÉ TORELLY lançou-se em um projeto que o levou a paisagens completamente exóticas. Tudo a bordo de um prancha de stand-up paddle, o meio de transporte predileto do atleta gaúcho, e de um par de tênis de corrida. A expedição inédita teve como intenção divulgar o esporte e mostrar na prática qual a pegada do Ultra Paddle Run, modalidade criada pelo próprio André e que une o SUP a corridas de longas distâncias.

A primeira etapa da aventura foi perto de casa, no mês de junho. Na cidade de Barra do Ribeiro, localizada a poucos quilômetros de Porto Alegre, sua cidade natal no Rio Grande do Sul, André subiu em seu stand-up nas margens do grande lago do Guaíba e começou a remar. Foram 28 quilômetros de ritmo forte sobre a água gelada, cercado por um cenário de virar a cabeça, até alcançar à praia das Pombas, dentro da reserva ecológica de Itapuã. De lá, André trocou o boardshort por um short de corrida e partiu para mais 30 quilômetros de trilha. Naquele dia, foram 5 horas e 42 minutos de muito suor e cabeça feita.

Depois de concluir a primeira parte do projeto em seu próprio estado, o gaúcho decidiu que era a hora de ir um pouco mais longe e rumou para o Paraná. “A Ilha do Mel é muito conhecida por corridas em trilhas e tem até algumas provas realizadas por lá. Mas ninguém tinha realizado a volta na ilha com o pranchão”, diz.

André acampou sozinho durante três dias em uma praia para esperar a chuva diminuir e as condições climáticas colaborarem. Quando São Pedro finalmente deu uma trégua, André caiu na água e remou sem parar por exatos 34,5 quilômetros até circunavegar a ilha, passando no caminho por uma reserva ecológica e incontáveis praias. Depois da remadinha básica, André colocou os pés na areia e correu em pouco mais de duas horas a distância de uma meia maratona. “Nos dois primeiros quilômetros de corrida, as pernas pediam para parar. Demorou um pouco até entrarem no ritmo, mas a natureza deu o gás”, comenta ele em um dos vídeos sobre a aventura publicados em seu site oficial (André filma todas as suas provas e viagens e disponibilizadas os filmes no site www.torellys.com). Ao fim do dia, mais 56 quilômetros foram para a conta, totalizando 95 quilômetros de projeto.

Após a dura experiência na Ilha do Mel, André estava pronto para remar até o fim do mundo em busca de novas aventuras. E foi para Ushuaia, a última ponta de terra do continente sul-americano – apelidado justamente de “fim do mundo”. “Durante a viagem para lá eu estava bem nervoso. Pensava em muito vento, frio e neve”, conta. Acertou em cheio. Sua ideia era atravessar de SUP uma parte do Canal de Beagle, localizado no arquipélago de Tierra Del Fuego, na divisa da Argentina com o Chile. Depois, correria mais três quilômetros até o topo de uma das montanhas da cordilheira de Martial Glacier, nos Andes.

Era novembro. Misturado ao cenário gélido, com as montanhas brancas de neve ao fundo, o atleta partiu do Clube Náutico do Ushuaia pela água congelante e degladiou-se contra a temperatura abaixo de zero rumo às montanhas. Foram 18 quilômetros de muita dificuldade. Ao chegar em terra firme, manteve as roupas de frio e correu sobre a neve até o cume de uma das montanhas da região. A experiência foi inesquecível. “A viagem para o Ushuaia foi a mais radical que já fiz”, resume.


FIM DO MUNDO: O gaúcho caminha no Canal de Beagle, em Ushuaia
(FOTO: Andre Larrea)


AOS 33 ANOS DE IDADE, André dedica sua vida ao stand-up paddle. Após conhecer a modalidade durante uma passagem pela Costa Rica em 2006, o gaúcho ficou fissurado na ideia de deslizar sobre as ondas com pranchão e remo. “Voltei para o Brasil e, por ser difícil conseguir pranchas de SUP na época, decidi produzir meus próprios equipamentos. Como tinha uma empresa de fabricação de pranchas de surf, foquei nos equipamentos de SUP e minha vida mudou”, conta. Morando em Porto Alegre, seu local de treinamento tornou-se o grande lago Guaíba.

Um ano depois se apaixonar pelo SUP, André participou de sua primeira competição em provas de longas distâncias. Ao mesmo tempo, resolveu dedicar-se integralmente ao esporte. Em 2011, quando a modalidade se profissionalizou no Brasil e passou a contar com premiações em dinheiro, André fechou o ano como o 4° colocado no ranking brasileiro de Sup, categoria 12’6”. Em 2014, ele ocupa o topo da lista como campeão brasileiro de Sup Race Unlimited (categoria com provas de 10 a 15 quilômetros de distância).

Para manter a potência nas remadas, André se apoia na paixão pelo esporte e em seu condicionamento físico. “Sou apaixonado por treinamento”, assume. Como o nível de competição e exigência do stand-up paddle só cresce a cada ano, ele segue uma forte rotina de treinos para melhorar seu desempenho. Foi assim que a corrida, o ciclismo e a natação entraram em cena. Durante os treinos para as provas, André especializou-se na transição do SUP para a corrida e e acabou batizando a atividade de Ultra Paddle Run.

Atualmente, André continua treinando pesado para defender o título brasileiro de Sup Race Unlimited. Em julho de 2015 embarca para o Havaí para uma das provas mais duras de stand-up: a Molokai 2 Oahu, travessia oceânica de 54 quilômetros entre as duas ilhas. Talvez lá ele encontre seu maior ídolo no esporte: o waterman Laird Hamilton, grande responsável pelo renascimento do SUP. Inspirado no havaiano, o gaúcho mantém o esporte vivo no sul do país com a Torelly’s Escola de Stand-Up Paddle, em Porto Alegre. “Procuro fazer o máximo para divulgar o que amo. Montei a escola de SUP em 2008. Já tivemos mais de 2 mil alunos”, diz.


André também toca um segundo projeto, o “Um Remo, Uma Busca”. Nele, André viaja pelo mundo sozinho em busca das melhores ondas a serem surfadas de pranchão e divulga fotos e vídeos em seu site. “Já viajei pela Europa, Costa Rica e Chile com o novo projeto. O deserto do Atacama é um dos lugares mais incríveis que conheci”, conta, empolgado. Marrocos e Alasca são os próximos destinos. Depois certamente virão outros. Com uma prancha, um remo e um par de tennis, André vai para onde for.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de junho de 2014)

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