Nervos de aço

O chileno Ramón Rojas torna-se o primeiro atleta da América Latina a combinar esqui e base jump em um mesmo salto, na Suíça


Por Mariana Mesquita


AQUI VOU EU: O platô de onde Ramón Rojas fez seu salto de esqui-base na Black Rock, na Suíça
(FOTO: Ramón Rojas)


EM UM PLATÔ NA BLACK ROCK – uma formação rochosa vizinha ao famoso monte Eiger, na Suíça –, o chileno Ramón Rojas, 35 anos, usa um de seus esquis como pá para empurrar um pouco de neve para a beirada de um penhasco de 85 metros de altura e assim criar uma plataforma de salto. Minutos depois, já com os dois pés afivelados ao equipamento, ele faz um sinal de “joinha” aos companheiros para indicar que estava pronto. Vestindo uma jaqueta verde escura, calças de esquis largas amarelas e com uma câmera acoplada ao seu capacete, ele então ziguezagueia três ou quatro vezes pela neve até ganhar velocidade (60 km/h) e se jogar no precipício, despencando em queda por três segundos antes de abrir o paraquedas e pousar com segurança. Com o feito, ocorrido em 16 de março, Ramón se tornou o primeiro atleta da América Latina a completar um salto de esqui-base, esporte que combina as duas modalidades.

A ideia desse arriscado projeto surgiu logo após Ramón assistir ao filme Focused, no inverno de 2004. A produção mostra esquiadores extremos em ação e traz o lendário canadense Shane McConkey, influente atleta da modalidade, como destaque. Inspirado em uma cena de perseguição com esquis de um filme de James Bond, Shane entrou para a história dos esportes ao unir esqui e base-jump num mesmo ato em 2003 (Shane morreu sete anos depois, em um salto na Itália). “Comecei a esquiar aos 12 anos de idade e sempre fui fã do Shane. Mas quando assisti o filme e o vi descendo a montanha com o paraquedas na mão, fiquei tão impressionado que aquilo se tornou meu sonho. Decidi ter aulas de paraquedismo”, conta Ramón.

Aficionado pelas montanhas desde criança, Ramón tem um rico currículo esportivo, com experiências em esqui fora de pistas na Suíça, Áustria e Canadá, além de trabalhos como resgatista de montanha e mais de 300 saltos de base-jump já concluídos. Antes de saltar da Black Rock, Ramón bateu, em 2013, o recorde sulamericano de base-jump ao pular da Pedra da Onça, no Espírito Santo, ao lado de outros 17 atletas.

Em uma conversa com a Go Outside, Ramón fala do seu feito mais recente e sobre como é praticar duas modalidades tão perigosas.


CÉUFI: Ramón na Suíça
(FOTO: Ramón Rojas)

GO OUTSIDE: Por que você escolheu a Suíça para seu primeiro salto de esqui-base?

Ramón Rojas: No começo deste ano, meu amigo e base-jumper polonês Aleksander “Olek” Domalewski me convidou para uma temporada na Suíça. Decidi aproveitar a viagem para realizar o salto. Antes de ir, conversei com atletas da elite do esqui-base que prometeram me ajudar, como o norte-americano J.T. Holmes, ex-parceiro de Shane McConkey. Dois dias antes do salto, porém, nada estava confirmado. Durante a viagem, fizemos oito saltos de wingsuit do High Nose [585 metros de altura], em Lauterbrunnen, e descemos vários pistas de esqui. Assim, fui ganhando confiança. Quando o J.T. apareceu na casa em que eu estava hospedado, montamos o planejamento final.


Ter como inspiração um atleta que morreu fazendo aquilo que você mais queria não te incomodava?

Acidentes acontecem em todo lugar, até dentro de casa. Ainda que nos planejemos muito antes de fazer qualquer coisa, ninguém está livre de problemas. O esqui-base não é brincadeira. Muitas coisas podem dar errado. Não recomendo a ninguém, mas também não conheço forma melhor de viver a vida.


Você tem algum tipo de ritual que costuma fazer antes de saltar?

Eu sempre checo várias vezes todo o equipamento. Também costumo apertar a mão e dizer “Divirta-se” aos homens e dar um beijo no rosto das mulheres que estiverem por perto. Quando cheguei a Black Rock, na Suíça, eu estava muito nervoso, mas fui me conectando com o lugar e passei a me sentir em paz. É importante você escutar o seu corpo e mente. Já deixei de fazer saltos em dias ótimos e sem vento, só porque tive uma sensação ruim ou diferente.


Você dedicou o salto à atleta sueca Wioletta Roslan, que morreu em 2012, aos 37 anos, após um acidente de base-jump. Qual era a ligação de vocês?

Eu a considerava minha melhor amiga, uma companheira de saltos que eu tinha como irmã. Anos atrás, quando a ideia deste salto surgiu, ela me apoiou e disse que estaria comigo. Enquanto me preparava para o salto, de alguma forma senti a presença dela comigo. Pensei muito em Wioletta.


CORAGEM: Ramón e o brasileiro Yuri Cordeiro pulam da Pedra da Onça (ES); abaixo, o
chileno "brinca" de saltar com os esquis, no Chile
(FOTO: Sebastian Pavez)


(FOTO: Constanza Brucher)

Como você se prepara física e mentalmente?

Minha preparação física consiste basicamente em correr seis vezes por semana, em um total de 70 quilômetros. Na parte mental, acredito que ser voluntário do grupo de resgate de montanha Patrullas de Ski de Chile desde os 16 anos de idade me ajuda bastante. Aprendi com eles a prestar socorro em montanhas do mundo todo, muitas vezes sob condições extremas, como temperaturas de -35º Celsius ou ventos de 100 quilômetros por hora.


Qual foi a situação mais perigosa que você já enfrentou?

Em 2013, participei do World Wingsuit Race, o primeiro campeonato da modalidade, realizado no Brasil [Ramón terminou em 5º lugar na disputa que reuniu os grandes nomes deste esporte]. Dias depois, viajei ao Rio de Janeiro para fazer um salto da Pedra da Gávea. Eu já cogitava essa ideia há dois anos e estava ansioso para realizá-la. Fui com o amigo e base-jumper brasileiro Yuri Cordeiro. Deu tudo tão certo que voltei em abril para fazer o mesmo salto. Desta vez, porém, o vento me virou na posição contrária. Cheguei a pensar que eu fosse morrer e tive que manter a calma até recuperar a direção do vôo. Pousei na praia, abracei amigos, dobrei o paraquedas e subi para saltar de novo.


Durante nossa entrevista, você falou bastante sobre o Brasil, amigos brasileiros e conversou comigo em português. Qual a sua relação com o país?

Estou sempre viajando para o Brasil e me sinto muito confortável aí. Fora isso, um dos saltos mais interessantes que fiz foi no Espírito Santo, onde bati o recorde sulamericano de base-jump, em 2013. Foi um desafio perigoso, porque voamos todos juntos, mas foi muito divertido. O salto também foi uma homenagem a base-jumper argentina Stella Moix, que morreu dias antes do World Wingsuit Race.


O Chile tem tradição no esqui e estações conhecidas mundialmente, como o Valle Nevado. Como é o cenário do base-jump chileno?

Nós até encontramos lugares bons para saltar nos Andes, mas o problema é que são sempre muito longe e muito altos: em média estão 4.000 mil metros acima do nível do mar, e exigem pelo menos três dias de caminhada e até técnicas de escalada. Cada salto nos Andes é uma superexpedição que envolve, portanto, riscos ainda maiores. Hoje, no Chile, somos cinco base-jumpers. O Sebastian “Ardilla” Alvarez, que já pulou entre dois prédios na cidade de Viña Del Mar, é dos mais famosos. Sou um dos responsáveis pelo site Base Jump Chile (basejump.cl), onde buscamos contar as novidades e curiosidades da modalidade no país. É o nosso jeito de ajudar a divulgar o esporte.


Você já tem um próximo desafio agendado?

Sim. Vários planos sinistros, mas é tudo segredo por enquanto. Prefiro contar só quando já tiverem sido realizados.


Mesmo garantindo que tudo é feito em total segurança, muitas pessoas dizem que o que você faz é uma completa maluquice. O que você diria e elas?

Cada um escolhe seu caminho. Sou um cara normal. Quando não estou nas montanhas, sigo com o meu trabalho como ortodontista. Sou divorciado e vivo com quatro cachorros: Mota, Yoda, Baco e Kung-Fu. Me sinto feliz, amo a minha vida e não a trocaria de forma alguma.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de junho de 2014)

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