O senhor do deserto

O sul-coreano Young-Ho Nam quer se tornar a primeira pessoa a cruzar os dez maiores desertos quentes do planeta só com a força das próprias pernas

Por Mariana Mesquita


LAWRENCE DA COREIA: O expedicionário Young-Ho Nam no deserto de Taklamakan, na China
(Foto: Expedition Team)


O SUL-COREANO YOUNG-HO NAM, de 37 anos, não se cansa fácil. Em abril, ele deu início a uma viagem de 20 dias e 1.600 quilômetros, a serem percorridos em fatbike (bicicleta com pneus gordos para aguentar terrenos arenosos e com neve), pelos desertos de Great Sandy e de Gibson, no oeste da Austrália. O ponto de partida, de onde o aventureiro saiu ao lado do norte-americano Jason Richard Smith, 35, e do australiano Rian Cope, 28, foi a cidade de Alice Springs. De lá, seguindo em direção ao oceano Índico, o plano do trio é chegar à praia de Eighty Mile. A viagem faz parte de um projeto ambicioso de Young-Ho, que teve início em 2012 e recebeu o nome de Ten Deserts (Dez Desertos). Nele, o expedicionário pretende se tornar a primeira pessoa da história a atravessar os dez maiores desertos quentes do planeta, usando apenas a força das próprias pernas.

Determinado a não desistir até completar o desafio, ele já riscou da lista oficial (veja mapa nesta reportagem) os desertos de Great Victoria, na Austrália, o Empty Quarter, na Arábia Saudita, e o Great Basin, nos Estados Unidos. Ainda assim, o caminho é longo para que o sul-coreano consiga terminar a empreitada, que poderá ser feita a pé ou de bike. No total, serão 20 mil quilômetros, que ele planeja percorrer em sete anos.

Aventureiro e fotógrafo, o histórico esportivo de Young-Ho é bem rico, com experiências em escalada, mountain bike e trekking. Antes de derreter no calor dos desertos, ele realizou, em 2006, uma pedalada de 18.000 quilômetros cruzando o Eurásia (junção do continente Europeu e Asiático), da Coréia até Portugal. Em 2010, também se arriscou de caiaque no Ganges, o principal rio da Índia, onde foi roubado duas vezes por homens armados em uma região próxima a Bangladesh. “Com esse episódio, perdi a coragem de estar em ambientes com pessoas desconhecidas, por isso fiquei longe de expedições por mais de um ano”, diz ele.

Em uma conversa com a Go Outside, Young-Ho conta um pouco do que já viveu pelos desertos mundo afora e o que espera das próximas expedições, cujos desdobramentos podem ser acompanhados em seu blog em coreano com a ajudazinha de um tradutor online (blog.naver.com/explorer05).


EM DUAS RODAS: De bike, em Great Victoria
(Foto: Expedition Team)


PERTO DO FOGO: O sul-coreano em expedição na Austrália
(Foto: Expedition Team)

GO OUTSIDE: O projeto Ten Deserts é uma libertação dos medos e das inseguranças que você viveu na Índia, quando foi roubado em uma expedição?

YOUNG-HO NAM: Foi bastante assustador o que aconteceu durante aquela viagem. Mas eu tinha sonhos e precisava vencer meus traumas se quisesse continuar a realiza-los. Em 2011, viajei para o deserto de Gobi, no trecho em que ele se localiza na Mongólia, e fui retomando aos poucos minha confiança. O Ten Deserts é mais uma confirmação do que eu realmente sou ainda capaz de fazer.

Por que escolher como desafio os dez maiores desertos quentes do mundo e deixar de lado os frios?

As viagens que eu fiz (Eurásia, Índia e deserto de Gobi) serviram como “test-drive” para esse projeto atual. Diante das dificuldades pelas quais passei, pude entender o que realmente queria: um projeto cheio de incertezas. Os desertos quentes se mostraram perfeitos, porque são áreas ainda pouco exploradas pelo homem. Não existe um motivo especial que explique por que deixei os desertos gelados de fora da lista. Um dia ainda vou viajar para esses lugares também.

Great Victoria, Empty Quarter ou Great Basin, qual foi o mais difícil?

Cada um deles apresentou suas próprias dificuldades, mas no topo da lista, até agora, está o Empty Quarter. Eu me preparei e esperei por mais de dois anos para conseguir a permissão de visita dos governos de Omã e dos Emirados Árabes para percorrê-lo. O lugar também é o maior que já visitei até agora. Andei quilômetros sem encontrar nada, uma só pessoa. Nenhum nômade, comida, água ou abrigo, nada. Precisei levar todos os suprimentos e, para isso, utilizei camelos. As dunas lá também passam fácil dos 250 metros de altura, então você pode imaginar o perrengue.

Como manter-se motivado em situações tão extremas?

Não estou motivado o tempo todo, ainda mais em se tratando de jornadas tão estressantes. Mas a satisfação pessoal vem ao lembrar a dificuldade que é estar ali e as surpresas que essas viagens me proporcionam.

Como é a preparação física e mental para as expedições?

Fisicamente não tem muito segredo: faço exercícios todos os dias e tento controlar bem meus hábitos alimentares. Já a preparação mental, no meu caso, tem um peso enorme, especialmente por causa do trauma na Índia. Criei minha própria técnica e, quando sinto medo, rezo e repito que sou capaz. Sempre busco pensar no objetivo final.

Como você se comunica por essas diferentes regiões?

Eu estudei um pouco de inglês na escola, o que é ótimo. Mas, dependendo do lugar, eu tento me expressar com mímica. Carrego sempre na mala um dicionário local, que me ajuda em traduções rápidas.



MUY AMIGO: Com um camelo no Empty Quarter
(Foto: Korean Broadcasting System)

Em um lugar tão inóspito, como se abastecer de comida e água?

Não tenho muita opção, na verdade. A dieta é à base de pratos liofilizados e alguns suplementos selecionados a dedo. Já a água depende totalmente do lugar. Por exemplo, no deserto de Great Basin, nos Estados Unidos, populações locais me ajudaram; já no australiano Great Victoria, os rios são encontrados com mais facilidade e, no Empty Quarter, na Península Arábica, não tinha isso de “sorte”, então os camelos carregaram a água para mim.


O que não pode faltar na sua mala de expedição?

Vários itens essenciais: saco de dormir, GPS, câmeras fotográficas, lanternas de cabeça, fogareiro, panelas, protetor solar, mochila de hidratação e um completo kit de primeiros socorros são alguns dos mais importantes.


Além de se tornar a primeira pessoa da história a cruzar os dez maiores desertos do mundo, qual é seu grande objetivo com essa expedição?

A partir das fotografias que eu fizer durante as dez viagens, quero ajudar a promover a conscientização para as questões climáticas, um problema mundial que não pode ser ignorado. E criar um documentário. No Empty Quarter, em 2013, uma emissora de TV sul-coreana acompanhou e produziu um vídeo da minha viagem. Na Austrália, não temos uma equipe de filmagem, mas eu e meus parceiros faremos nossas próprias gravações para divulgar às pessoas.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de maio de 2014)

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