Estrada sinuosa

O norte-americano Charlie Engle era viciado em crack, mas se salvou por meio das ultramaratonas, tornando-se um astro da aventura. Então foi condenado por fraude hipotecária, amargando um bom tempo na prisão. De volta à liberdade, ele se impôs uma audaciosa meta: reconstruir sua vida e percorrer 8 mil quilômetros entre o Mar Morto e o topo do Everest

Por Rachel Levin
Fotografias: Jeremy Lange


NO LIMITE: A vida de Charlie tem sido regada a drogas,
prisão, ultramaratonas e muita paciência

PELA PRIMEIRA VEZ em dois anos,Charlie Engle tem um quarto só para si, com seu próprio banheiro. Há muito tempo privado de frutas frescas, ele dispara em direção a uma cesta de bambu – presente de boas-vindas – cheia de maçãs orgânicas e peras recém-colhidas de um pomar vizinho. Olhando pela janela iluminada pelo sol (uma janela!), ele dá uma limpadinha em cada uma das frutas. “Eu nem sabia o que estava comendo lá! Pegava umas coisas marrons estranhas e mandava ver. Na cadeia, nunca comi nada que pudesse identificar direito”, diz, rindo.

Eu acabo de conhecer Charlie em uma manhã gelada de setembro de 2012, em uma fazenda em Mendocino County, na Califórnia, poucas semanas depois de ele ser libertado de uma prisão na Virgínia Ocidental. O cara foi trazido de avião para o norte da Califórnia para um evento chamado Do Lectures, onde vai liderar corridas matutinas em meio a oliveiras e fará uma palestra motivacional para um galpão cheio de gente usando jaquetas acolchoadas de inverno. É uma oportunidade de ele contar sua história – e ver se o público o receberá bem. Além disso, é seu aniversário de 50 anos, e a região dos vinhos não é um lugar ruim para se comemorar uma data como essa.

Às sete da manhã, Charlie comanda uma dúzia de pessoas em uma corrida de dez quilômetros, mas é só mais tarde, quando sobe no pequeno palco da Do Lectures, que descobrimos toda a extensão de seu passado digno de filmes de Hollywood. Até então, ele havia mantido certa discrição sobre os detalhes de sua vida. “Achei que dessa maneira minha palestra seria mais impactante”, explica.

Ele tinha razão. Como conta à plateia de cem pessoas durante uma apresentação de 25 minutos, foi a corrida que o ajudou a superar seu vício de uma década regada a álcool e drogas, na época de seus 20 e poucos anos. Ele abandonou a rotina de consumir crack e correr maratonas – frequentemente com poucos dias, às vezes meros minutos, de intervalo entre uma atividade e outra – para abraçar uma nova vida de sobriedade e vitórias em provas de elite em todo o mundo, incluindo uma ultramaratona de 250 quilômetros no Deserto de Gobi, na China, em 2003, e um evento de 220 quilômetros na selva amazônica brasileira, em 2004.

Em 2007, ele e dois outros ultramaratonistas percorreram 72 quilômetros diários, por 111 dias seguidos, para atravessar o Saara. Charlie, que anos antes já havia feito trabalhos como cameraman para programas de TV, teve a ideia de organizar uma expedição com o ultramaratonista canadense Ray Zahab. Daí contatou James Moll, um diretor premiado com o Oscar, para perguntar se ele estaria a fim de fazer o documentário, batizado de Running the Sahara [Correndo o Saara].

James topou e convidou o ator Matt Damon para ser narrador e produtor executivo – a produtora de Matt conseguiu patrocinadores de peso para o filme, como a Toyota e a Gatorade. O projeto arrecadou US$ 6 milhões para a ONG que Matt cofundou com Charlie, a H2O Africa, que leva água limpa a comunidades da África.

O filme, ao mesmo tempo pesado e comovente, rendeu a Charlie bastante reconhecimento, e então choveram patrocinadores. Ele contratou como agente William Morris, que incluiu entre os trabalhos de Charlie palestras cujo cachê chegavam a US$ 15 mil. De repente, o ex-drogado havia transformado suas duas pernas em uma carreira bem-sucedida de tempo integral.

O segundo filme no qual ele apareceu, Running America [Correndo a América], sobre sua tentativa de estabelecer um novo recorde de velocidade para a travessia a pé dos Estados Unidos, ao lado do ultramaratonista Marshall Ulrich, estreou em maio de 2010 no país. No dia do lançamento em sua cidade natal,

Greensboro, na Carolina do Norte, o cinema estava lotado. “Foi o melhor dia da minha vida, disparado”, conta Charlie. Menos de 24 horas depois, ele foi preso por fraude envolvendo hipotecas de imóveis.

NA PRIMAVERA de 2009, Robert Nordlander, agente da receita de Greensboro, ficou sabendo das aventuras esportivas de Charlie depois de ler sobre o filme Running the Sahara nos jornais. Logo ele se perguntou como sobrava tempo para o corredor se sustentar treinando daquela maneira. O agente abriu uma investigação depois de descobrir que Charlie não havia declarado seus impostos nos últimos dois anos. Quando Robert não encontrou mais nenhuma irregularidade nas declarações do atleta, ele persistiu, chegando a designar uma agente feminina disfarçada para investigar o caso. Usando uma escuta durante um almoço, ela gravou Charlie dizendo: “Eu menti para conseguir alguns empréstimos. O corretor da minha hipoteca não se incomodou em registrar que eu tinha uma renda de US$ 400 mil por ano quando, na verdade, ele sabia que eu não recebia essa grana toda”.

O caso foi a julgamento em setembro de 2010 em uma corte federal em Virgínia, onde Charlie possuía algumas propriedades. O júri acabou condenando-o por fraude hipotecária (definida como “atos visando falsificar ou omitir propositalmente informações em um pedido de hipoteca para se conseguir um empréstimo”). A procuradoria solicitou uma pena de quatro anos de prisão, mas o juiz Jerome Friedman levou em consideração a ficha limpa de Charlie, seu trabalho com a ONG e as 120 cartas de apoio que recebeu. Em vez disso, condenou-o a 21 meses.

Os procuradores afirmam que o desenrolar do caso foi claro e direto. “O senhor Engle foi condenado por obter de modo fraudulento mais de US$ 1 milhão em empréstimos de hipoteca de duas propriedades, ganhando quase US$ 150 mil em capital, deixando depois as propriedades serem tomadas por seu banco”, explica Neil MacBride, procurador de Virgínia. Ainda assim, durante a bolha do mercado imobiliário nos Estados Unidos, centenas de milhares de mutuários e corretores conseguiram empréstimos visando falsas declarações de renda – os chamados “liar loans” (“empréstimos mentirosos”). Charlie continua surpreso com o fato de ele ter sido o único cara a pagar o pato. “Vinte e um meses por supostamente declarar renda a mais em um pedido de empréstimo? É ridículo! Que tipo de tatuagem de prisão eu deveria fazer? Uma caneta-tinteiro?”

Vários jornalistas importantes acompanharam o caso, denunciando a falta de processos contra os grandes banqueiros responsáveis pela bolha do mercado de imóveis e sua subsequente quebra. “O fato de o senhor Engle ser o menor dos menores peixes nesse aquário não é a única coisa que incomoda nisso tudo. É também a forma como o governo construiu o caso contra ele”, escreveu Joe Nocera, colunista do New York Times, em um de seus artigos dedicados a Charlie. “Quanto mais investiguei, mais passei a acreditar que o caso contra ele era absurdamente fraco. E sua ‘confissão’ nem mesmo foi uma confissão de verdade. Engle está confessando os pecados do corretor de sua hipoteca, não seus próprios.”

Charlie sempre disse que não preenchera o documento de empréstimo, e continua defendendo sua inocência. Embora pedidos de um novo julgamento tenham sido negados no final de janeiro de 2013, o atleta afirma que irá perseverar e continuar apelando até essa mancha ser expurgada de sua ficha criminal. Enquanto isso, independentemente dos méritos do caso, Charlie cumpriu sua pena e agora já está em liberdade. Voltou a sonhar alto, planejando outra aventura épica: ir a pé, de bike e de caiaque do ponto mais baixo da Terra, o Mar Morto, no Oriente Médio, até o mais elevado, nos Himalaias, onde escalará o Everest.

Fora isso, ele encontra-se desempregado, com cinco anos de liberdade condicional pela frente e uma dívida com o banco, determinada pela justiça, de US$ 262 mil. “Isso tudo praticamente me condena à pobreza”, conta ele. “Eu só quero minha vida de volta. Aquela que tiraram de mim. Meu maior medo – meu único medo – é não conseguir levar a vida do jeito que quero.”


PERIPATÉTICO: De cima para baixo, presos treinados por Charlie e ele correndo nos EUA

DE VOLTA AO GALPÃO da Do Lectures, a plateia da palestra está pregada nas cadeiras. O final de semana foi a chacoalhada de que Charlie precisava. Nem todo ex-presidiário recém-libertado recebe aplausos de pé. Mas dois meses depois, quando Charlie retornou a São Francisco, na Califórnia, a realidade da vida pós-prisão se abateu sobre ele. O corredor parece mais velho, mais pálido, mais humano. Ele está trabalhando como freelancer para uma empresa que organiza corridas urbanas e terá pela frente 72 horas de trabalho pesado e noites sem dormir. Apesar disso, ele se sente agradecido pelo trampo temporário. Receberá cerca de US$ 2 mil, além de um quarto compartilhado no Hotel Radisson e pizza grátis.

Com 1,83 metro e 80 quilos, Charlie é maior que a maioria dos corredores de longa distância. Tem olhos azuis, um riso meio bobo, as têmporas cheias de veias e os cabelos cada vez mais grisalhos e ralos. “Do pescoço para baixo, ele poderia ter 18 anos”, diz seu amigo Greg Clark, que o conhece desde que Charlie tinha mesmo essa idade.

Bebericando um mochaccino triplo, Charlie começa a contar a história de sua vida. Ele se casou em 1987, um dia antes de seu 25º aniversário, com Pam Smith, uma mulher com quem tinha passado um total de dez dias juntos. Eles moraram em vários lugares nos Estados Unidos, da Califórnia à Georgia, onde seu primeiro filho, Brett, nasceu em 1992. Depois se mudaram de vez para Greensboro, onde seu segundo filho, Kevin, nasceu em 1994. Pam e Charlie se divorciaram em 2002, mas continuam amigos. Vivem a cinco minutos de distância um do outro em Greensboro, e os filhos ficam com a mãe.

Em 14 de fevereiro de 2011, quando Charlie foi para uma prisão de segurança mínima, os guardas arrancaram os filhos de seus braços, tiraram as roupas de seu corpo e lhe deram um uniforme verde e botas de couro. Ele logo recebeu um bom conselho de um presidiário chamado Block. “Espere sua sentença acabar mas não deixe sua sentença acabar com você.” A frase tocou seu coração.

O que Charlie conseguiu com um par de tênis Nike usados e uma pista de cascalho de 400 metros dentro da prisão foi bem impressionante. Para começar: correu lá 217 quilômetros. Se não dava para ele ir à Badwater naquele ano, ele decidiu trazer até si a famosa ultramaratona realizada no Vale da Morte, na Califórnia. Então, às seis da manhã de 11 de julho de 2011, sozinho, Charlie começou a correr. Sem parar, ao redor das quadras de basquete, na pista de 400 metros. Não havia torcida ou equipe de apoio, exceto por um cara a quem pediu que lhe jogasse uma barra de chocolate. Ele marcava cada milha corrida com uma pedra: 81 milhas (139 quilômetros) no primeiro dia, 54 (87 quilômetros) no seguinte. Ele estava de volta a sua cela às quatro da tarde. Ainda prisioneiro – mas, 540 voltas depois, com toda a extensão da prova feita.

QUANDO NÃO ESTAVA correndo ou limpando a sala da sinuca (seu emprego oficial na cadeia), Charlie devorava edições antigas da revista Vanity Fair, respondia às centenas de cartas que recebia – de viciados em drogas em tratamento de recuperação, corredores empolgados, admiradores que nunca tinha conhecido pessoalmente – ou estava na biblioteca, debruçado sobre um atlas, traçando sua rota do Mar Morto ao Everest.

No começo, ninguém sabia direito o que pensar sobre aquele cara correndo no pátio todos os dias, fazendo alongamentos, trocando a carne do refeitório por frutas, organizando abaixo-assinados para acrescentar amêndoas à lista de produtos enviados à prisão. “O pessoal está me chamando de maluco, e talvez eu seja mesmo”, escreveu em seu diário. “É o rótulo com o qual posso viver aqui.

Meu rótulo de maluco atraiu muita gente para perto de mim.”

Um por um, os presidiários começaram a se aproximar de Charlie, tentando correr com ele, pedindo conselhos para ficarem em forma (“Se eu balançar minha banha de propósito enquanto corro, isso vai me ajudar a queimá-la mais rápido?”) e fazendo perguntas de nutrição (“Quantas voltas ao redor da pista valem um milk-shake?”). Não demorou muito para se formar um grupo de treino um tanto atípico, com caras como Dave, o traficante de maconha, Casey, o fabricante de metanfetamina, e Howell, preso por crime de colarinho branco.

Eles se reuniam todas as tardes para correr, fazer sprints e levantar pedras. Charlie tinha um estilo de motivar os colegas mais na linha do “inspire-se em mim” do que “você consegue, você pode”. Essa turma improvável passou a ver resultados. “Era uma coisa louca”, lembra Casey, por telefone, depois de ser solto, descrevendo como perdeu dez quilos e passou a correr oito quilômetros por dia. “Charlie contava histórias inteiras enquanto a gente corria. Ele te carregava pela pista, sabe como é?”

Howell, de 59 anos, chegou a fazer uma milha (1,6 quilômetro) em 7min30s e começou a correr meias maratonas. Mas foi Adam, um detento de 195 quilos, que conseguiu os resultados mais impressionantes: perdeu quase 82 quilos, e sua cintura foi de 116 para 91 centímetros. Em uma carta de seis páginas que ele escreveu para mim da prisão, Adam compartilhou suas impressões de Charlie. “Eu comecei a correr e reclamei de bolhas nos pés”, contou, explicando que achou que nunca conseguiria

achar um tênis do seu tamanho na prisão. “Uma tarde, Charlie apareceu na minha cela. Ele teve o trabalho de encontrar um par de tênis para um cara com obesidade mórbida que ele nem conhecia direito.”

Em 8 de agosto de 2012, Adam correu 16 quilômetros pela primeira vez. “Isso é pelo Charlie”, disse ele sobre seu amigo, que havia conseguido liberdade condicional e estava passando as noites em um centro de reabilitação.


SALVAÇÃO: Charlie (à esq.) corre com o ultramaratonista Ray Zahab no Saara

CHARLIE ERA UM CARA certinho na época da escola, na Carolina do Norte. Ele estava entre os melhores de sua classe, era presidente do grupo de estudantes e um astro em qualquer esporte que experimentasse, incluindo atletismo – como seu avô, que foi técnico na Universidade da Carolina do Norte por 40 anos. Mas, quando Charlie entrou na mesma universidade, percebeu que não era excepcional em nada, exceto beber. A década de 1980 se iniciava, e a cocaína era tão comum quanto os barris de chope. Quando chegou ao segundo ano, o jovem já tinha perdido o controle do vício. Seu pai, que se divorciara de sua mãe em 1965, tirou-o da faculdade e arranjou-lhe emprego para fritar hambúrgueres em uma lanchonete em Seattle, onde vivia na época.

Charlie passou a década seguinte morando em vários lugares, passando da cocaína ao crack e alternando períodos de excessos e conquistas. Um dia ele era o melhor funcionário de uma academia de ginástica em Atlanta; em outro, pegava dinheiro emprestado para drogas do caixa de uma sorveteria na qual trabalhava na Califórnia. Tornou-se o melhor vendedor da Toyota até ser despedido por faltar muito. Achou um novo nicho na indústria automobilística, reparando carros amassados, e abriu uma empresa especializada em levar as pessoas para ver tempestades de granizo e outros fenômenos da natureza. De repente, ele estava ganhando mais dinheiro do que nunca – e gastando tudo em mais crack do que jamais tinha consumido antes. Suas maratonas de drogas duravam de dois dias a dois meses e normalmente envolviam quartos de motel, mulheres e milhares de dólares em crack, que ele fumava em três horas. E depois repetia tudo de novo. Seus piores momentos vinham quando ele acordava deitado na rua – e via pernas de corredores passando.

Então Charlie fez algo que nenhum viciado supostamente poderia: calçou um par de tênis e começou a correr maratonas. Sua primeira foi aos 26 anos, em Big Sur, na Califórnia, em 1989. No ano seguinte, correu em Napa (10 de março), depois Boston (15 de abril) e, então, Big Sur de novo (21 de abril). Ele se entupia de álcool e drogas, depois corria, depois se entupia de álcool e drogas, depois corria. Acabou encontrando a sobriedade em 1992, dois meses depois do nascimento do seu primeiro filho, Brett, quando uma jornada de crack de uma semana acabou com três buracos de bala no carro e um flerte com a morte. Foi a três reuniões dos Alcoólicos Anônimos naquele dia e no outro, e depois participou de pelo menos uma reunião do AA todos os dias do ano seguinte inteiro. Após dez anos de vício, o que o fez mudar tanto? “Tive um filho e finalmente decidi viver em vez de morrer”, explica Charlie.

Quatro anos depois, ele havia corrido 30 maratonas e vencido sua primeira ultramaratona, de 160 quilômetros, na Austrália. Na virada do século, estava no topo do mundo e competindo em todos os cantos dele.

EM DEZEMBRO DE 2012, visitei Charlie em Greensboro. Ele estava morando de graça com um amigo que lhe emprestara um quarto. Cercado de livros sobre budismo e sobre o AA e vestindo tênis surrados e velhos shorts de poliéster, parecia que ele acabara de sair da prisão. A camiseta cinza que estava usando ostentava as palavras “ACREDITE+CONQUISTE” escritas em branco. “Quase liguei para te falar para não vir”, disse. “Não estou numa boa, estou deprimido demais. Odeio ficar assim. Esse cara não sou eu.”

Seguimos para umas trilhas que cortam as florestas de Greensboro, e ele desabafa: “Ninguém liga a mínima para mim. A menos que eu esteja fazendo algo interessante”. Seu celular toca no meio da corrida. É Kevin, seu filho de 18 anos. Não importa quem telefone – os filhos, trabalhos em potencial, o oficial da condicional, antigas namoradas –, Charlie sempre atende. Eles combinam de jantarem juntos. “Tchau, te amo”, diz.

“Eu adoraria correr a ultramaratona Badwater com meus meninos algum dia”, conta. Embora o desafio do Mar Morto ao Everest seja sua prioridade agora, Charlie tem um zilhão de ideias matutando na cachola. “A Islândia também seria bem legal.” Ele quer tentar mais uma vez correr de uma ponta a outra dos EUA. Não conseguiu completar na primeira tentativa devido a uma infecção com estafilococos. “Eu poderia achar alguém para correr comigo e tentar quebrar esse recorde.” E, claro, filmar tudo. Quase 13 quilômetros depois, seu humor tinha melhorado um pouco.

Mas ainda resta um longo caminho antes de Charlie se recuperar financeiramente. Ele não tem nenhum dinheiro guardado e está se virando com um trabalho temporário em uma empresa de funilaria de carros de um amigo, além de uns frilas eventuais. Todos os seus patrocinadores o abandonaram depois de sua condenação, assim como a H2O Africa (agora conhecida como Water.org), da qual fazia parte da diretoria. Embora tenha dado palestras motivacionais em seu antigo grupo estudantil da Universidade da Carolina do Norte, ele está esperando para entrar novamente no circuito de palestras quando tiver algo de realmente positivo a dizer. “As pessoas querem uma história de superação, de recuperação”, explica. “E eu ainda não me recuperei.”

Ainda assim, ele trabalha com afinco em seu “escritório oficial”, o sofá. Com o iPad sobre os joelhos e o iPhone de prontidão, ele dispara ligações, e-mails, mensagens de texto. Pimba! Consegue falar com um produtor interessado em sua ideia de reality show para a TV chamado Time Served [Tempo na Prisão], sobre ajudar ex-detentos a retomar suas vidas. Uia! O diretor de uma prisão feminina quer que ele dê uma palestra. Triiiim! Um repórter pede para filmá-lo durante uma competição bizarra em que ele tem de correr quatro quilômetros, comer uma dúzia de rosquinhas e depois correr de volta. “Claro”, concorda sempre Charlie. Ele está topando qualquer coisa. Como seu filho Kevin desabafa durante o jantar em um restaurante mexicano: “A gente queria que ele fosse um pai normal, mas ele não é”.

PARA MANTER A FORMA, Charlie corre “o máximo humanamente possível” e faz musculação em uma academia. De vez em quando pratica ioga e visita seu massagista (que nunca o deixa pagar). Ele admite que não está bem treinado para a Brazil 135, ultra de 217 quilômetros que aconteceria dali a quatro semanas. “A prisão, o estresse, tudo isso me marcou muito”, diz. Mas sua condição física parece ser a última coisa com a qual ele está preocupado no momento. Pronto ou não, ele sempre corre.

“Naaaaaate Smith… Que bom ouvir seu nome!”, diz Charlie ao telefone enquanto toma uma sopa de feijão em um restaurante local. Os antigos amigos, que se conheceram nos anos 1990 quando Nate era instrutor de uma academia especializada em corrida de aventura em São Francisco, contam as novidades um para o outro. Parece que Nate agora é gerente na Oakley. Eu escuto o final da ligação de Charlie: “Estou com uma nova expedição planejada. Ela vai do Mar Morto ao topo do Everest… Sei… Eu tive que mudar minha rota depois que percebi que não daria para cruzar a Síria agora. Por isso vou pela Jordânia até a Arábia Saudita e depois Omã. Vou atravessar o Mar Arábico a remo e, depois, seguir de bike pela Índia até o Everest. É, será outro filme”. Ele toma uma colherada da sopa. Charlie só tem um plano vago e um PDF com seu projeto. Ainda assim, seu tom é de decisão tomada (subtexto: e que tal um patrocínio?).

Expedições independentes que passam por vários países já foram realizadas antes. Recentemente o australiano Pat Farmer, de 49 anos, conseguiu correr do Polo Norte ao Polo Sul em nove meses. E o aventureiro turco-americano Erden Eruc passou cinco anos pedalando, remando e escalando ao redor do mundo, tendo concluído sua jornada em 2012. Mas poucas dessas viagens foram do ponto mais baixo ao mais alto da Terra. O que, claro, é exatamente o objetivo de Charlie.

Ele vai iniciar a expedição em um bote no Mar Morto, na Jordânia, depois correr 3.200 quilômetros para o leste – passando pela Arábia Saudita e Omã – até o Mar Arábico. Lá ele terá de remar 1.200 quilômetros de caiaque até a costa da Índia. E depois cruzar mais 3.780 quilômetros de bike, totalizando 8 mil quilômetros em seis meses. Tudo para chegar ao Everest em maio, durante a temporada de escaladas. Ele já escalou montanhas de menor estatura antes, como o monte McKinley (Alasca, 6.194 metros) e o vulcão Cotopaxi (Equador, 5.897 metros). Sua escassa equipe terá um fisioterapeuta, um especialista em logística e um nativo de cada país que conheça a região e os costumes locais. Matt Battiston, um guarda florestal aposentado do Exército e ex-parceiro de equipe de Charlie na prova de aventura Eco-Challenge, concordou em ser o coordenador-chefe da expedição. Diferentemente do que fez no Saara e nos EUA, Charlie vai correr sozinho desta vez.

Ser bom na autopromoção é uma necessidade para qualquer pessoa que busque viver dos esportes de aventura, e Charlie é um dos melhores nisso – apesar de muita gente se cansar de seu jeitão. O ultramaratonista Marshall Ulrich, com quem fez Running America, não fala mais com ele (nem quis ser entrevistado para esta reportagem). Mas em Running on Empty, um livro sobre uma aventura de 4.925 quilômetros, Ulrich escreve: “O cara é bom para animar uma plateia, com certeza. Mas sua mania de contar vantagem e seu amor pelos holofotes começaram a me irritar”. O índice remissivo do livro lista seis casos separados de “Engle, Charlie, conflitos com”, mas Ulrich também dá crédito ao ex-amigo por ter tornado seu projeto possível. “Tudo se materializou graças aos esforços de Charlie”, escreve ele.

“Ele não é egocêntrico”, opina Jill Leibowitz, uma produtora que conheceu Charlie quando pesquisava uma possível reportagem com ele para o programa Real Sports, da HBO, sobre sua corrida pelos EUA. “Mas ele tem mesmo um alto nível de confiança”, diz Jill, que agora trabalha na Intersport, uma produtora de Chicago, nos EUA, que está tentando obter patrocinadores para o projeto do Mar Morto ao Everest em troca de uma porcentagem da renda obtida. Pelo menos um antigo patrocinador demonstrou interesse na expedição: a Newton, marca de tênis de corrida que fornecerá os calçados para ele. Antes de a Intersport fechar acordo para participar do projeto, seus donos perguntaram a Jill se Charlie era de confiança. A resposta dela: “Completamente”.

DO MAR MORTO ao topo do Everest? Só pode ser papo de maluco. “Foi a mesma coisa com o Saara. Nunca imaginei que realmente correria pelo deserto. Até que um dia dei um pulo da cama às três da madrugada pensando: ‘Meu Deus, eu tenho que atravessar correndo o Deserto do Saara!’.” Ele explica que gosta “de experimentar o mundo pela sola dos pés”. “Eu quero sofrer. Preciso de uma nova aventura para poder saber como é essa sensação de novo.”

No final de janeiro de 2013, ele sentiu um gostinho parecido, depois de terminar a Brazil 135, de 217 quilômetros, em 45 horas, conquistando o 24º lugar. Para se testar ainda mais, encarou outros 214 quilômetros antes da corrida – “para saber como eu estava”, diz –, correndo um total de 431 quilômetros em quatro dias. Nós conversamos assim que Charlie voltou para casa. Seu corpo ficou arrebentado, mas ele estava se sentindo ótimo. “Eu apertei o meu botão de reset”, conta. “Preciso da dor. Por alguma razão, o caminho fácil não dá certo comigo.”

De volta a Greensboro após a corrida no Brasil, as coisas começam a melhorar para ele. Os frilas aumentaram; ele apresentou uma proposta de autobiografia para seu agente literário, que está tentando vendê-la a alguma editora; um professor da DePaul University, em Chicago, decidiu fazer um documentário sobre sua vida; seu trabalho de martelinho de ouro está rendendo dinheiro de novo; e os filmes Running the Sahara e Running America serão em breve relançados pela DigiNext Films em 18 cinemas. Ele também aceitou um trabalho como diretor da TransOmania, uma corrida nonstop de 273 quilômetros por Omã disputada em janeiro de 2014. Coordenar a competição vai permitir que ele junte algum dinheiro no meio do caminho, e ainda sobrará uma semana para ele se recuperar de sua jornada de 3.200 quilômetros pela Jordânia antes da travessia a remo de 1.200 quilômetros no Mar Arábico. Enquanto isso, ele já está ansioso pela Badwater em julho. “Desta vez meu objetivo não será apenas cruzar a linha de chegada”, avisa.

Charlie planeja começar em dezembro de 2014 seu projeto Do Mar Morto ao Everest. Será que Charlie aguentará 8 mil quilômetros de corrida e os 8.850 metros de subida? “Ah, com certeza”, diz Ian Adamson, um amigo e diretor de pesquisa na Newton, além de detentor do recorde mundial de caiaque de longa distância, que concordou em acompanhar Charlie na fase da travessia do Mar Arábico. Mas a questão mais urgente é se Charlie conseguirá reconstruir sua vida e ao mesmo tempo organizar uma expedição desse calibre. “Ir do ponto mais baixo ao mais alto da Terra está perfeitamente alinhado com minha existência neste momento”, explica ele. “Sim, eu preciso desses desafios.”

Charlie é realista. “Eu não garanto que terei sucesso. As coisas nunca saem como o esperado”, diz e sorri. “Na verdade, a parte mais interessante é justamente quando algo sai errado. Merdas acontecem. O importante é o que você faz quando elas aparecem.”

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de fevereiro de 2014)

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