Tirando onda

Lembra do bom e velho “sonrisal” para pegar marolas na beira da praia? A modalidade evoluiu, ganhou nova prancha e nome pomposo – skimboard – e tem conquistado uma legião de adeptos no Brasil e no mundo

Por Bruno Romano
Fotos Andre Magarao


IRADO: O skim exige técnica, improvisação e criatividade do praticante


PENSE EM UM ESPORTE que mistura manobras de skate com rasgadas de surf em cima de uma pranchinha afiada e sem quilha que corta a água em alta velocidade. É esse o ousado, divertido e de certa ainda forma “underground” mundo do skimboard ou “prancha que plana – uma evolução do bom e velho “sonrisal” do seu tempo de criança. O esporte tem conquistado uma legião fiel de adeptos no Brasil e em várias partes do planeta, não apenas por render ótimas risadas, mas exigir bastante técnica e improviso do praticante.


O skimboard não é novidade. Pedaços de madeira flutuantes já eram usados para isso em Laguna Beach, na Califórnia (EUA), na década de 1920, época reconhecida como os primórdios da modalidade. Mas os atuais amantes do skimboard são incisivos: para eles, o esporte começa de fato com as pranchas contemporâneas, feitas de espumas de alta densidade, leves e resistentes, laminadas com resina epóxi e fibra de carbono. A evolução das pranchinhas de madeira começou em 1976 nos Estados Unidos, por iniciativa da marca Victoria Skimboard.

Os novos skimboards são leves, ágeis e dinâmicos e contam com a mesma tecnologia de materiais usada em lanchas esportivas e até sondas espaciais. Graças a eles, o esporte passou por uma revolução movida a rasgadas, batidas, aéreos e “wraps”, uma manobra clássica do skim em que o praticante vai ao encontro da onda e faz um rápido contorno, surfando novamente em direção à areia. E, claro, sem falar nos tubos. Sim, dá para entubar no raso – e, com sorte, ainda sair bem na foto.


“Comecei brincando com uma prancha de madeira. Hoje uso um material de carbono de alta performance, desenhado por um engenheiro espacial”, conta Austin Keen, 23 anos, atual campeão do United Skim Tour (UST), o circuito profissional de skimboard. O UST foi realizado pela primeira vez em 2000 para unir todos os torneios profissionais da modalidade. Já passou por diferentes gestões e, desde 2012, é organizado pelos próprios skimboarders mais experientes, com etapas no Brasil, México e EUA. Curiosamente Austin nasceu na Georgia, um estado da costa leste norte-americana sem nenhuma tradição no esporte. “Eu queria continuar dentro da água mesmo quando o mar não estava bom para surfar. Percebi que eu podia deslizar e pegar as ondas com meu skimboard. Só então passei a ir atrás das melhores praias para isso.” Quando se apaixonou de vez pelo skim, Austin decidiu se mudar para Laguna Beach, considerada um dos principais picos da modalidade. “Vivo de skimboard e posso dizer que é o melhor trabalho do mundo”, completa o atual dono do título mundial, que se dedica exclusivamente ao esporte, graças ao patrocínio e ao apoio de nove marcas, dentre equipamentos de skim, roupas, acessórios e até um estúdio de yoga.


(Foto: Joe Baeley)


ESTRELAS: De cima para baixo, o ídolo Paulo Prietto em Newport Beach (EUA); nesta foto,
o atual campeão mundial Austin Keen, em Laguna Beach, na Califórnia


ATLETAS TOP COMO AUSTIN têm se deslumbrado com um pico de skim bem brasileiro: a praia de Sununga, a 15 quilômetros do centro de Ubatuba, no litoral norte de São Paulo. Sununga estreou no circuito mundial em 2013 e, neste ano, abriu a temporada internacional com uma etapa realizada no fim de março, reunindo os melhores skimboarders do planeta. “Para mim é o melhor lugar de todos: uma praia pequena com Mata Atlântica ao fundo e um mar perfeito. Lá a onda vem baixa, se conecta logo à outra e acaba formando um lugar incrível para o skim”, conta Renato Lima, de 20 anos, local de Sununga que conheceu o esporte em 2004 e hoje compete de igual para igual com os atletas de ponta.


Campeão da primeira etapa mundial realizada em Sununga em 2013, o californiano Sam Stinnett confirma os elogios à praia brasileira. “A etapa de Sununga é, de longe, a melhor prova do esporte. Acabei vencendo no ano passado e fiz a viagem na minha vida”, diz ele. Natural de Laguna Beach, Sam começou bem cedo, aos 11 anos, e é conhecido por ser extremamente dedicado e competitivo. “Me apaixonei pelo Brasil no momento que cheguei a Ubatuba. Todo mundo aqui é feliz e todos foram muito respeitosos comigo. É sensacional competir em um lugar onde você pode fazer skim com uma grande floresta ao lado. Vou voltar para Sununga sempre”, conta o garoto de 23 anos que, além de se dedicar ao skim, trabalha em uma loja de skate e está estudando para ser bombeiro – segundo ele, para “ajudar sua comunidade”. Austin Keen também não pensou duas vezes para voltar a Sununga neste ano: “O Brasil tem muita energia para o skimboard. Os atletas são incríveis e os torneios estão entre os melhores do mundo”.

Austin, Sam e Renato têm inspirado uma nova geração nacional de atletas como Lucas Fink, carioca de apenas 15 anos. “O que me atrai no skimboard é a mistura de vários esportes radicais, como surf e skate, e até mesmo snowboard e wakeboard. Poder unir elementos de todas essas modalidades é simplesmente maravilhoso”, celebra Lucas, atual campeão mundial amador (15-18 anos). Ele conversou com a Go Outside após uma “sessão épica” de skim em Itacoatiara, em Niterói (RJ), como o próprio garoto descreveu seu dia. A cena do skim no Rio de Janeiro também marca presença em locais clássicos de surf, como Ipanema, Leblon, Barra da Tijuca e a praia do Vidigal.


Seguindo rumo ao norte pela costa brasileira, o Espírito Santo é outro polo da modalidade. O capixaba Marcos Casteluber foi o melhor brasileiro no circuito mundial de 2013, ranqueado na 20ª colocação geral. “Minha história começou em Setiba, em Guarapari, quando minha mãe decidiu comprar uma prancha de skimboard porque ela não gostava de me ver surfando muito longe da areia. Com o skim, ela ficaria de olho em mim, já que as ondas eram pequenas na beira da praia”, conta Marcos.


QUEBRA TUDO: Sam Stinnett se diverte nas ondas californianas de 10th Street,
um dos picos mais concorridos do planeta


A REALIDADE DOS ATLETAS NACIONAIS é bem diferente da de seus colegas norte-americanos, já que aqui patrocínios e marcas ligadas à modalidade ainda não estão tão estabelecidos como lá fora. “Mas o esporte está crescendo. Não temos tantas grandes empresas de skim como no surf e skate, mas hoje consigo viver só do skimboard, correndo atrás de apoios e patrocínios”, conta Marcos. Os objetivos dos atletas nacionais são comuns: ganhar maior visibilidade na imprensa, participar de mais produções de vídeos de qualidade para mídias sociais, conseguir organizar torneios e viagens, além de descolar patrocínios para correr o circuito mundial todo.


No exterior, muita gente já consegue viver de skimboard, ainda que o esporte guarde uma sina meio underground, justamente por disputar espaço nas praias com modalidades consagradas como o surf. Nos EUA, no entanto, a capacidade de união entre os skimboarders está sendo colocada à prova com uma medida que acabou fechando as portas de um dos principais picos do mundo para o esporte.


The Wedge é o cantão de Newport Beach, na Califórnia, e é o sonho de todo skimboarder. Tudo isso por uma onda “cascuda” que se forma quando a água bate em uma grande parede de pedra, usada para a construção de uma marina local. Recentemente uma norma chamada de Black Ball limitou a prática de skim a poucas horas do dia e dificultou muito a realização de torneios em The Wedge. Já o bodysurf (surf de peito, que conta apenas com o auxílio de pés de patos) e o bodyboard (em que o atleta surfa deitado de bruços em pranchas menores) praticados pelos donos das milionárias casas da orla de Newport Beach continuam “legalizados”. Agora os skimboarders californianos estão tentando ganhar força política para derrubar a medida.


PRATAS DA CASA: O capixaba Marcos Casteluber manda um aéreo no Rio de Janeiro;
abaixo, o local Leandro Azevedo mostra os atalhos de Sununga



A questão é que o skimboarder entra com tudo na água, na direção oposta de quem pega a onda vindo de dentro do mar. Ao deslizar, a velocidade da prancha de skim é muito maior do que a de bodyboard. Além disso, a zona de entrada do skim é a mesma onde os bodysurfers se posicionam. Para ninguém se machucar, alguém tem de desviar. O barraco não se repete no Brasil, já que os picos usados no skim por aqui não costumam competir com surfistas de peito ou amantes de bodyboard. “No Brasil, a briga é por ondas em dia de mar grande, com surfistas mesmo. Mas nada parecido com essa rixa”, diz Renato Lima.


Problemas com a prática do skim também são comuns em Cabo de San Lucas, no México, outro pico cobiçado pela maioria envolvida no esporte. O lugar é considerado top para a prática, mas já gerou represálias contra os amantes das pequenas e afiadas pranchinhas sem quilhas, devido a um resort de luxo construído à beira-mar que costuma monopolizar a faixa de areia para os hóspedes.


Para fugir das confusões, alguns skimboarders têm usado a imaginação e a ousadia, duas bases do esporte, para reinventar a modalidade. O jovem norte-americano Brad Domke, quinto do ranking mundial 2013, lançou recentemente um vídeo surfando ondas grandes de skim com o auxílio de um jet ski, no México. A destreza de Brad com uma prancha sem quilha em um cenário desafiador trouxe respeito e comentários positivos de outras modalidades. Já o campeão mundial Austin Keen está desenvolvendo o que chama de step off: ele rema com uma soft top (prancha mais leve e menos rígida) embaixo do seu skimboard. Assim que dropa na onda, passa a surfar com a pranchinha sem quilha.


PARA O TRICAMPEÃO MUNDIAL Paulo Prietto, o skim hoje é apenas diversão. O norte-americano de 34 anos – criado em Laguna Beach e sobrinho de um dos fundadores da Victoria Skimboards – tem o status de “lenda viva” por ser um dos pioneiros da modalidade. “Ele é um cara que ‘vai para cima’ de verdade. Nunca teve medo dos caldos ou das ondas fecharem em sua cabeça. Se fosse render uma boa foto ou filmagem, ele arriscava mesmo, com sangue frio. Por isso, o cara elevou o nível do esporte e é referência até hoje”, conta o fotógrafo André Magarão, um dos grandes responsáveis por estreitar laços entre praticantes da Califórnia e do Brasil, ao apresentar gringos como Paulo aos skimboarders brasileiros e à praia de Sununga.

Paulo deixou de lado as competições, mas segue quebrando quando o mar chama. Competiu por 14 anos, ensinou muita gente a usar um skimboard, editou uma revista online e protagonizou muitos vídeos de ação. “Hoje trabalho como corretor de imóveis nos EUA. Cuido dos meus dois filhos e me mantenho envolvido como posso com o skim, pois mora no meu coração. É um esporte muito divertido e pretendo continuar praticando-o o máximo que eu puder”, conta.


Enquanto isso, os atletas da nova geração se dividem entre campeonatos e sessões de vídeos e fotos no estilo livre, como acontece no surf e skate. “Essa galera mais jovem está vindo forte. Começam cada vez mais cedo e, quando crescerem, levarão o skim para outro nível”, acredita Renato Lima, que, ao lado do primo Leandro Azevedo, tem puxado a fila da garotada local de Sununga. Mantendo-se bem longe da rixa com outras modalidades, o capixaba Marcos Casteluber acredita que o skim pode ajudar na evolução de outros esportes de prancha. “É difícil saber de quem vem a influência, pois há muita mistura, mas certamente deixamos os surfistas com uma pulga atrás da orelha quando eles vêem o que pode ser feito com uma pranchinha sem quilha.”


Ídolo dos novos talentos da modalidade, Paulo Prietto completa: “Em comparação com o surf, acredito que o skim se manterá como uma modalidade pequena. Isso é bom, pois é exatamente o que o torna tão especial”.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de abril de 2014)

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