Depois da queda

Graças às inovações tecnológicas no mundo dos esportes outdoor, nunca fomos tão rápido e tão alto como agora – tudo em nome do prazer da velocidade. Mas tanto perigo tem cobrado seu preço: a cada ano, cresce o número de lesões cerebrais graves, que não podem ser evitadas nem com os melhores capacetes disponíveis no mercado. Por que estamos nos arriscando tanto?

Texto Marc Peruzzi
Fotografias: Hannah McCaughey e Michael Karsh



EM 24 DE MARÇO DE 2012, Sally Francklyn cruzou o portão do resort de esqui Jackson Hole Mountain a caminho de Cody Peak, uma montanha de 3.093 metros de altitude localizada no estado de Wyoming, nos EUA. Quando chegaram ao cume, os quatro esquiadores de seu grupo – incluindo Jeff Brines, seu namorado na época – poderiam ter descido uma pista conhecida como Pucker Face (Cara Fechada, numa tradução livre), mas o lugar estava muito cheio de gelo e pedras. Em vez disso, os esquiadores decidiram descer por uma pista batizada de Once Is Enough (Uma Vez É o Suficiente).


A entrada da Once Is Enough tem seis metros de largura e quase 55 graus de inclinação. Começar uma descida ali exige coragem, porém uma vez que você decidiu enfrentá-la, não há outros trechos extremamente difíceis. Mas o percurso é traiçoeiro. Embora pareça uma linha reta, a pista é bastante inclinada e tangencia paredes rochosas. Uma queda ali tem uma alta probabilidade de catapultar o esquiador para um paredão de granito afiado, com chances mínimas de conseguir parar de rolar morro abaixo.


Sally, de 24 anos, havia se mudado para Jackson Hole fazia poucas semanas, vinda do Colorado, onde havia esquiado apenas em terrenos muito menos técnicos. Jeff, de 28 anos, um experiente esquiador freeride e morador de Jackson havia quatro anos, foi primeiro. Ele achou a neve no topo dura, mas “esquiável”. E aconselhou que o resto do grupo descesse com cuidado. Mais abaixo a condição da neve melhorava bastante. Jeff começou a ziguezaguear cuidadosamente na neve mais fofa.


Sally desceu cuidadosamente em seguida. Não se sabe ao certo o que aconteceu. Os esquiadores acima dela viam apenas o topo da sua cabeça e um pedaço dos ombros após a entrada íngreme da pista. O que provavelmente ocorreu é que, ao cruzar o trecho inicial, ela se atrapalhou, perdeu o equilíbrio e caiu de costas. Quando foi vista a seguir, um metro e meio para baixo, Sally estava deslizando sobre as costas, sem um dos esquis. Depois disso, desapareceu na via.


Cerca de 150 metros verticais abaixo, Jeff viu o esqui de Sally caindo como um foguete. “Eu tive um daqueles momentos no qual você se sente aterrorizado e otimista ao mesmo tempo”, recorda ele. “Achei que logo mais estaríamos relembrando um momento assustador. Alguns segundos depois, Sally apareceu, descendo de costas com a cabeça para baixo. Seu capacete explodiu contra uma rocha, e ela rolou o resto do caminho, inconsciente. Eu gritei para o grupo que precisaríamos de um helicóptero. Tive certeza de que ela havia sofrido uma lesão craniana grave. Não sabia quanto tempo ela aguentaria até o resgate chegar.”


Sally Francklyn na Nova Zelândia, em 2010


UM ANO E MEIO mais tarde, após 11 dias de coma induzido, duas cirurgias, dez semanas em dois hospitais e incontáveis sessões de fisioterapia, Sally mora agora com seus pais no Colorado, onde ainda está se recuperando de uma lesão cerebral traumática, conhecida pelas iniciais LCT.


LCTs são difíceis de definir. Podem ser desde concussões leves, com sintomas primários durando apenas alguns dias ou semanas, até morte. A terminologia é meio confusa – os termos concussão e lesão cerebral traumática moderada são frequentemente usados como sinônimos –, mas uma coisa é clara: bater a cabeça com muita força tem consequências físicas e psicológicas. “O traumatismo faz com que as ligações cerebrais tornem-se pouco eficientes”, diz Alan Weintraub, diretor médico do Programa de Lesão Cerebral do hospital Craig, em Denver (EUA). “O resultado são diferentes níveis de perturbações na consciência.”


Enquanto acidentes automobilísticos e quedas causam mais da metade dos 1,7 milhões de LCTs anuais, estima-se que entre 1,6 milhão e 3,8 milhões de lesões cerebrais relacionadas ao esporte ocorrem por ano somente nos EUA. Uma pesquisa financiada pela cidade de Nova York apontou que lesões cerebrais são responsáveis por 74% das mortes de ciclistas. Cerca de 600 ciclistas morrem por ano em decorrência de lesões cranianas nos Estados Unidos – só em 2009, mais de 85 mil ciclistas com concussões foram atendidos em prontos-socorros daquele país.


A Associação das Áreas de Esqui dos EUA divulgou que as LCTs são a causa principal de mortes relacionadas à pratica de snowboard e esqui, e as estatísticas só crescem. O ano de 2004 contabilizou 9.308 esquiadores e snowboarders com lesões cranianas graves o suficiente para que procurassem ajuda médica. Em 2010, esse número pulou para 14.947 pessoas.


Mesmo diante de tantos casos, nós só prestamos atenção quando pessoas famosas sofrem LCTs – como a esquiadora e promessa olímpica Sarah Burke, que perdeu a vida em 2012 depois de sofrer uma LCT numa queda em um halfpipe em Utah (EUA). Mais recentemente, o piloto alemão Michael Schumacher bateu a cabeça em uma pedra enquanto esquiava nos Alpes. Ele continuava em coma até o fechamento desta edição.


O aumento dos casos de lesões cerebrais ocorreu em um período no qual o uso de capacetes por snowboarders e esquiadores subiu 20% (não há estudos sobre o uso de capacetes por ciclistas nos últimos 15 anos). Neurologistas e fabricantes de capacetes atribuem esse aumento de LCTs à maior veiculação de informações sobre os acidentes, mas não é tão simples. “As pessoas têm prestado mais atenção às lesões cerebrais. Mas há um aumento no número de lesões cerebrais. Elas se tornaram mais comuns nos esportes”, afirma Alan Weintraub.


Isso não acontece porque os capacetes atuais são piores ou as quedas mais potentes. O fato é que nosso comportamento mudou. Nas últimas décadas, mudamos drasticamente o que fazemos durante nosso tempo livre. Seja em rolês de skate em halfpipes ou pedaladas de mountain bike em descidas nervosas, nós estamos nos divertindo com atividades mais perigosas. “Nossos esportes estão cada vez mais extremos”, diz Mike Douglas, esquiador profissional do Canadá. “Todo ano tentamos ir mais alto, mais longe, mais rápido.”


A evolução dos halfpipes é um bom exemplo disso. Quando eles apareceram, nos anos 1980, tinham pouco mais de 1,2 metros, com inclinação moderada das paredes. Durante os anos 1990, cresceram para 3,6 metros, depois para 5,4. O padrão competitivo atual, estabelecido pelo Comitê Olímpico Internacional em 2010, tem 6,7 metros e inclinação bem vertical das paredes. Os snowboarders de elite conseguem voar até seis metros acima da beirada do halfpipe. O esquiador norte-americano Peter Olenick estabeleceu o recorde de amplitude – um termo da física apropriado pela geração Red Bull para medir o quanto um atleta consegue se impulsionar acima do halfpipe –, chegando a 7,6 metros nos X Games de Aspen, em 2010. No ponto mais alto do seu pulo, Peter estava a 14,3 metros do chão.

Uma progressão semelhante tem afetado o resto dos mortais. Nosso equipamento, as opções de terreno e o incentivo a uma atitude “se joga!” fazem com que passemos mais e mais tempo em alta velocidade e à mercê da gravidade. Esse é um fenômeno que conheço muito bem. Pedalo com minha mountain bike em zonas densamente florestadas e esquio em pistas nas quais uma queda seria fatal. Nas semanas que levei para escrever esta reportagem, sofri um acidente de bicicleta que me deixou tonto, com uma rachadura no capacete e um enorme galo na cabeça, e outro no qual fraturei a clavícula. No verão passado, no dia em que meu filho começou na escolinha de mountain bike downhill, eu quase o traumatizei ao explicar os riscos dessa modalidade.

Nós andamos de bicicleta e deslizamos montanha abaixo em velocidades alucinantes pelo prazer que isso nos proporciona. O problema, como Mike aponta, é que “a evolução do corpo humano ainda acompanhou essa mudança”. Nós ultrapassamos os limites impostos pela biologia e, infelizmente, pelo nível de proteção que nos é fornecido pelo uso de capacetes. Nosso cérebro simplesmente não é feito para suportar pancadas tão absurdas.


Sally com sua família cinco meses após o acidente


QUANDO SALLY FRANCKLYN bateu a cabeça na rocha, seu capacete rachou (como foi projetado para fazer nesses casos) e o crânio sofreu uma fratura. O impacto quebrou seu pescoço e sua coluna vertebral. A equipe de resgate de Jackson Hole chegou ao local em menos de 60 minutos. Três horas e dois voos de helicóptero depois, Sally entrou em cirurgia de emergência, na qual os médicos usaram um aparelho para diminuir a pressão intracraniana que poderia matá-la. Depois disso, induziram-na ao coma.

Conheci Sally quando ela trabalhava como estagiária em uma revista de esqui da qual fui editor. Era uma moça alta, forte e sorridente. Ela foi a quinta conhecida minha que sofreu uma lesão cerebral enquanto esquiava ou andava de bicicleta que mudou sua vida completamente. Boa parte dos danos ocorreu em seu lóbulo frontal, que controla a memória operante, mas ela também danificou o tronco cerebral (porção do sistema nervoso central situada entre a medula espinhal e o cérebro). O acidente prejudicou a audição do ouvido esquerdo e avariou o nervo óptico do olho direito, causando problemas de visão. Sally ainda tem graves dificuldades de equilíbrio, mas em suas fotos de Facebook vejo o lento retorno de seu sorriso, assim como o olhar levemente distante comum a sobreviventes de LCTs.

Demorei bastante até ter coragem para ligar para Sally. No telefone, sua voz é estridente e oscilante. Ela tem trabalhado duro para melhorar. Seus pensamentos fazem sentido, porém ela tem dificuldade para manter a lucidez. Com ajuda de uma tornozeleira e muita fisioterapia, conseguiu voltar a andar, embora lentamente. Ela conta que a parte mais difícil tem sido voltar a viver com os pais. Os amigos não a visitam como antigamente. Ela espera um dia conseguir ser independente novamente. “Não preciso de assistência”, ela me diz enfaticamente.

Mesmo com tantas lições que podemos aprender com o acidente de Sally, não há uma história que, por si só, exemplifique todo espectro das LCTs. Cada lesão cerebral é diferente, levando em conta a força do impacto, o número de pancadas e a forma com que o cérebro se mexe enquanto bate nas paredes do crânio. Além disso, Alan Weintraub diz que há diferenças anatômicas e genéticas entre as pessoas. “Seu cérebro é diferente do meu. Cérebros de mulheres são diferentes de cérebros de homens. Cérebros jovens são diferentes de cérebros velhos. E o cuidado médico recebido é diferente”, explica o médico.

Dentro do crânio, o cérebro é como um molde de gelatina, conectado ao sistema vascular e ao sistema nervoso pelo tronco, flutuando no líquido cefalorraquidiano. Quando você dá um mortal de costas na piscina ou escorrega e bate a cabeça andando ou correndo, o cérebro sofre deformações ao esbarrar contra o interior do crânio, depois volta para o lugar, sem lesões. Durante pancadas mais violentas, a gelatina é chacoalhada de forma mais drástica, batendo, torcendo e rebatendo na parte da frente e de trás da caixa craniana.

Esses traumatismos e contorções têm efeitos imediatos sobre os axônios e neurônios. Axônios são fibras que servem como mensageiros para o cérebro, e os neurônios são centros de comando responsáveis por manter as funções que, quando somadas, definem quem você é. Um neurônio pode estar relacionado à memória de curto prazo, outro ao controle do equilíbrio, outro à impulsividade. Parece simples, mas existem 100 bilhões de neurônios no cérebro humano. Quando dezenas de milhões de neurônios se chocam dentro do crânio, é dificílimo prever o tipo de lesão causada.

Se tem algo que é consenso entre os neurologistas, no entanto, é que até concussões leves podem ser mais sérias do que se pensava até algum tempo atrás. Axônios só podem ser muito esticados uma vez, ou levemente esticados algumas, ou se rompem. Quando isso ocorre, pequenas bolas marrons de proteína – cicatrizes que surgem quando o cérebro tenta se curar – se formam na via neural, impedindo a comunicação entre neurônios. A encefalopatia traumática crônica (ETC) resultante é igual à vista em cérebros de pessoas que tiveram depressão, dementia pugilística (doença degenerativa comum em lutadores e boxeadores) e doenças como os males de Alzheimer e Parkinson.

Infelizmente a única forma de identificar uma ETC é durante uma autópsia. O neurocirurgião norte-americano Julian Bailes, do Instituto de Concussões Esportivas de Chicago, é uma autoridade no campo das ETCs. Ele e sua equipe estão testando novos métodos para diagnosticar lesões desse tipo em pacientes vivos. Perguntei a Julian quantas concussões ou LCTs moderadas uma pessoa podia enfrentar até desenvolver ETC. “Nós não sabemos. Em termos de impactos subconcussivos, acreditamos que seriam necessários anos e anos para desenvolver a encefalopatia. Se forem concussões graves, acreditamos que o número máximo é três”, diz ele. Isso é particularmente preocupante se for levado em consideração o fato de que alguns atletas chegam a sofrer dez ou mais concussões ao longo de suas carreiras, em muitos casos começando na pré-adolescência, quando o cérebro é mais vulnerável.

O astro norte-americano do snowboard Shaun White, que compete desde os 6 anos de idade, contabiliza nove concussões até hoje. A ciclista de estrada Sinead Miller, também dos EUA, teve que se aposentar do esporte depois da sua sétima concussão, em 2010. Ela ainda não consegue treinar ou andar em multidões sem ter enxaquecas e náuseas.


VINTE ANOS ATRÁS, várias dessas LCTs não teriam ocorrido. Sally Francklyn, por exemplo, não teria permissão para descer a pista de Jackson Hole, pois o resort não permitia naquela época a entrada dos esquiadores em áreas onde se praticava esqui freeride. Sem acesso por teleféricos, chegar até o começo da via seria uma tarefa extremamente complicada, que levaria o dia todo.

O acesso a essas áreas é apenas uma de muitas mudanças na forma como nos divertimos. Até meados da década de 1990, competições de freeski (vertente do esqui que envolve saltos, manobras e o uso de rampas) eram praticamente inexistentes. Hoje há competições júnior da modalidade com meninos e meninas de até 12 anos de idade. Os Jogos de Inverno de Sochi, que rolaram este ano na Rússia, tiveram três novas competições de esqui freestyle.

No mundo do ciclismo, os atletas costumavam descer trilhas de singletrack com mountain bikes completamente rígidas. O mountain bike downhill era um esporte meio underground até o início dos anos 2000. Atualmente você pode colocar uma roupa que parece uma armadura de tão cheia de proteção, um capacete de motocicleta e se jogar em alguma pista mundo afora – inclusive muitas no Brasil. Nas estradas, o ciclismo de pelotão é mais popular e mais rápido que nunca, e são comuns os grupos de ciclistas nos quais é esperado que você mantenha uma determinada velocidade. Com a popularização das mídias sociais e aplicativos que medem a performance, como o Strava, os ciclistas podem transformar suas pedaladas rotineiras em verdadeiras corridas alucinantes. “Com as novas tecnologias, velocidades cada vez maiores se tornaram a norma”, diz JT Holmes, atleta de freeskiing e praticante de wingsuit que viu muitos amigos sofrerem LCTs.

Todos esses avanços nos equipamentos que usamos em esportes outdoor levam a saltos mais altos e a maiores velocidades na neve e nas trilhas. Em teoria, esquis e snowboards modernos e mountain bikes full suspension, com freios a disco poderosos, tornam as descidas mais seguras. Na prática, porém, utilizamos essas inovações tecnológicas para ir mais rápido.

Depois de provar a velocidade, é difícil voltar a fazer essas atividades no ritmo anterior. De todos os meus amigos ciclistas e esquiadores, apenas um demonstra essa força de vontade. Ele é médico, e seu irmão é neurologista. O cara sabe o que acontece quando as pessoas sofrem lesões cerebrais. O resto do grupo deveria ter em mente alguns princípios básicos da física. Se um corpo está em movimento, ele tende a continuar se movimentando. Pedalando uma mountain bike numa trilha íngreme é possível passar dos 60 km/h. Se a roda da frente cai num buraco, a massa do seu corpo sem a bike (que ficou para trás) multiplicada pela velocidade totaliza quilos e quilos se espatifando no chão.

Se você bater numa árvore ou rocha, o crânio para em seis milissegundos. Sua cabeça desacelera a 2.660 metros por segundo, ou 266G – 266 vezes a força da gravidade. A força resultante é de horríveis 18 toneladas. Sem um capacete, você está agora morto ou com significativa e permanente lesão cerebral. Com um capacete você tem alguma chance de não se ferrar tanto. Se você não acredita em usar capacete ou se toda essa ciência lhe deixa bocejando, considere: de acordo com Randy Swart, fundador do grupo Helmets.org, um impacto de 22,5 km/h na cabeça pode gerar forca suficiente para matá-lo. “Um capacete pode ser a diferença entre a vida e a morte”, diz Randy. E mesmo pequenas mudanças podem ter enormes consequências. Se no cenário acima sua cabeça desacelera um mero milissegundo mais rápido, a força pula para 319G e 21,7 toneladas. Isso significa morte instantânea, mesmo com capacete.

O capacete não acompanhou a evolução do resto do nosso equipamento. Dos milhares de capacetes de bicicleta e esportes de neve disponíveis no mercado, pelo menos 95% deles é construído quase inteiramente de espuma de poliestireno expandido (EPE), semelhante à usada em pranchas de surf e isopores.

Ao se deformar, rachar ou, supondo que as forças sejam grandes o suficiente, se destruir, a espuma reduz as forças G que estão atuando sobre o cérebro. Embora capacetes de EPE não façam tanta diferença em impactos de baixa ou altíssima velocidade, eles funcionam bem em velocidades médias, prevenindo incontáveis lesões cerebrais e fraturas cranianas todos os anos.

Capacetes diferentes podem exercer essa função de proteção com mais ou menos eficiência – um modelo pode reduzir as forças até 20% mais do que outro que custa metade, por exemplo. A organização Helmets.org, que testa capacetes independentemente dos fabricantes, aponta que há capacetes grossos, baratos e feios que apresentam melhor desempenho do que modelos caros, leves e lindos encontrados apenas em lojas especializadas.

Os fabricantes têm seus próprios testes que comparam seu produto ao de outras marcas, e se fazem um capacete que se sai melhor do que a média, gostam de divulgar suas qualidades – porém isso os expõe a processos judiciais. Se o marketing da empresa diz que um capacete é seguro e alguém se machuca enquanto o usa, muito provavelmente a empresa será processada e tem grandes chances de perder. Durante muito tempo, isso levou a uma paralisia litigiosa que desestimulou as pesquisas, e muitos fabricantes se contentaram em lucrar com a venda de engenhocas de espuma moldada e teia de nylon com grandes margens de lucro, fazendo investimentos mínimos no desenvolvimento de novas tecnologias.

Felizmente, esse mercado está começando a mudar. Nos últimos anos, as marcas começaram a investir pesado em segurança. Isso significa repensar a forma que os capacetes devem reagir a forças variadas. Um capacete de EPE é projetado para suportar apenas um grande impacto, mas múltiplas pancadas de baixo impacto também podem ser perigosas. E já que todo choque sofrido pelo crânio, independentemente do ângulo, da força ou da velocidade, provoca no cérebro torções e agitações, é importantíssima a forma com que o capacete reage às forças rotacionais.

Levando em conta a necessidade de proteção de impactos tanto em altas quanto baixas velocidades, a marca norte-americana Smith Optics, especialista em óculos e capacetes, recentemente introduziu capacetes de esqui e de ciclismo com múltiplas camadas. Há a casca tradicional de plástico, seguida de múltiplas camadas de EPE nas quais a Smith inseriu um polímero mole no formato de favo de mel, conhecido como Koroyd. Uma empresa australiana chamada Conehead Technology criou um sistema que usa cones de espuma de densidades variadas projetados para amassar como a frente de um carro e que se deformam mais facilmente em baixas velocidades.

Quando se tratam de forças rotacionais, uma tecnologia inovadora de uma empresa sueca chamada Spim, sigla que em inglês significa “sistema de proteção contra impacto multidirecional”, já está sendo amplamente adotada. Trata-se basicamente de um cinto que se encaixa dentro de um capacete e é projetado para reduzir as forças de rotação da mesma forma que o couro cabeludo, mexendo um pouco quando você bate a cabeça. Em um acidente, o cinto de Spim se desloca de 10 a 15 milímetros, reduzindo significativamente a rotação externa da cabeça. Já é possível encontrar a tecnologia Spim em dezenas de modelos de capacetes de marcas como a Scott, entre outras.

Talvez o design novo mais promissor venha de uma jovem empresa chamada HIP-Tec, que tem como meta criar multicamadas de diferentes densidades para capacetes a fim de melhorar sua eficiência em um grande espectro de possíveis impactos. A camada interna se deforma lentamente e volta, como acontece com o cérebro flutuando em seu fluido, porém ainda é capaz de suportar vários choques de baixa velocidade. A camada exterior é uma espuma semelhante à EPE para amortecer os impactos em alta velocidade. Entre as duas camadas, a HIP-Tec usa uma camada móvel que permite rotação. Os primeiros capacetes equipados com a tecnologia da HIP-Tec devem estar disponíveis no mercado no meio de 2014. Mesmo com tantas novas criações, existem desafios que ainda não foram solucionados – por exemplo, produzir uma espuma suave o suficiente para absorver impactos de baixa velocidade e que não seja afetada por variações de temperatura e umidade.


O mountain biker Cameron Zink em tombo durante uma filmagem


EM SETEMBRO DE 2013, Sally Francklyn falou para uma plateia de esquiadores na première do filme de esqui Valhalla. Durante seu discurso, ela aproveitou a oportunidade para promover o trabalho da ONG High Fives, que, entre outras ações, dá suporte a atletas com lesões cerebrais e de medula, ajudando a pagar por seus tratamentos. Com a ajuda de JT Holmes, a fundação recentemente lançou um projeto batizado de Basics, no qual se produz conteúdo online com dicas de como escolher um local ideal para praticar esqui freestyle ou como evitar erros de aterrisagem em saltos de rampas. “Atletas mais novos simplesmente não tomam muito cuidado”, diz JT Holmes. Sally, que recentemente começou a escrever para a ESPN.com reportagens esportivas e entrevistar atletas que superaram lesões graves, elogiou uma campanha que a High Fives lançou no Instagram, na qual a organização criou a hashtag #helmetsarecool (capacetes são legais) e sorteia capacetes aos participantes.


Essa não é a única campanha semelhante lançada em redes sociais. Em dezembro, houve a estreia de The Crash Reel, um documentário sobre o snowboarder norte-americano Kevin Pearce, que sofreu uma terrível lesão cerebral no halfpipe em 2009. Inspirada por essa história incrível e preocupada com a falta de informação sobre LCTs, a diretora Lucy Walker decidiu começar a campanha Love Your Brain (Ame Seu Cérebro), na qual compartilha histórias sobre o tema e tenta promover o uso de capacetes. Vídeos educativos, campanhas nas redes sociais, filmes aclamados pela crítica e mais pessoas usando capacetes são todos pontos indiscutivelmente positivos, porém temos que esperar um pouco mais para ver se isso tudo levará a uma diminuição no número de lesões cerebrais. O problema é complexo. A física não é amiga dos novos esportes turbinados.

Atletas, organizadores de competições e treinadores precisam começar a tomar melhores decisões sobre os esportes. Depois da morte do piloto norte-americano de snowmobile Caleb Moore, que se acidentou fatalmente durante os X Games do ano passado, os organizadores do evento excluíram provas de freestyle envolvendo esse tipo de veículo de neve. Cancelar esportes obviamente perigosos, criados apenas como espetáculos televisivos, depois da morte de uma celebridade, provavelmente foi uma decisão fácil para os organizadores dos X Games. Haverá decisões muito mais difíceis a serem enfrentadas em breve.

Em 2007, a norte-americana Kristi Leskinen, uma das atletas de freeskiing mais famosas do mundo, percebeu, que conforme crescia o número de competições, multiplicava-se a quantidade de acidentes. Ela decidiu fazer uma pesquisa com 90 esquiadores e snowboarders e descobriu algo preocupante. Atletas femininas se machucavam 3,5 vezes mais que os homens nessas competições. Além disso, a maioria das mulheres afirmou que o esporte se tornaria mais seguro se os saltos em modalidades como esqui slopestyle (com rampas) fossem realizados em uma altura menor.

Quando ela compartilhou suas descobertas com os treinadores, eles se mostraram impassíveis: os saltos das mulheres continuam do mesmo tamanho que os dos homens. “Um dos treinadores de uma equipe norte-americana chegou a me dizer que se as mulheres queriam saltos menores teriam que se contentar com menos dinheiro e menos visibilidade”, disse Kristi. “Eu respondi que, se nós continuássemos a nos machucar com essa frequência, os pais das atletas não deixariam mais as filhas participarem de competições.” Agora que a maioria das modalidades de esqui e snowboard está nas Olimpíadas, é provável que sejam examinadas com mais cuidado. Isso porque os eventos olímpicos são supervisionados por comitês internacionais que fiscalizam a segurança dos atletas. “Temos esperanças de que não serão necessárias mais mortes para que os organizadores resolvam agir”, diz David Currier, campeão norte-americano de esqui alpino em 1973, cujo filho, Lyman, é um dos melhores esquiadores de esqui slopestyle daquele país.

Algumas mudanças já podem ser sentidas fora das competições. Em Whistler, no Canadá, halfpipes de 6,7 metros estão quase sempre vazios, assim como os de 5,4 metros. Já os de 3,6 metros estão frequentemente cheios de adultos e crianças. No mundo do mountain bike, trilhas em locais muito altos têm sido menos utilizadas em países como os Estados Unidos e o Canadá, em favor de pistas mais próximas do chão e que exigem um nível de habilidade menor.


Mesmo diretores de filmes de esportes de ação, que no passado foram acusados de glorificar a prática perigosa dessas modalidades ao buscar cenas impactantes, têm mudado o foco de suas produções. Alguns dos maiores filmes de esqui e snowboard do ano passado evitaram mostrar as piores quedas e as manobras mais perigosas, em prol de cenas mais simples, porém melhor produzidas e mais criativas. Isso indica uma mudança filosófica entre esses profissionais.

Estou fazendo minha parte comprando capacetes de esqui melhores para minha família, mas sei que preciso tomar mais cuidado, além de educar meus filhos para que façam o mesmo. Em seu primeiro dia na escolinha de mountain bike, meu filho encontrou um adulto se contorcendo de dor no chão com uma fratura exposta. Também viu um amigo que havia sofrido uma concussão e que precisou de uma ambulância. No resto do dia, ele pedalou com cuidado e acabou caindo apenas uma vez – quando seu professor insistiu para ele experimentar um percurso novo. Eu não colocarei a saúde cerebral do meu filho nas mãos de um treinador de mountain bike downhill novamente.

Claro que todo esse cuidado só ajuda até certo ponto. Enquanto eu terminava de escrever esta reportagem, um conhecido meu, Dale Stetina, foi para a UTI de um hospital com uma LCT grave sofrida em um acidente de bike algumas semanas atrás. Ele perdeu controle ao desviar de um carro, um acidente muito comum. Foi apenas mais um lembrete de que os perigos da velocidade são traiçoeiros, mascarados que estão atrás da pura alegria de se andar rápido.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de abril de 2014)

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