Perigo: lesão à vista

Moda em academias do mundo todo, o CrossFit vira alvo de críticas, principalmente por causa da longa lista de participantes que se machucaram feio fazendo esses exercícios


Por Grant Davis



(Foto: Tim Banfield)


EM JULHO, quase 300 mil pessoas nos Estados Unidos ligaram suas TVs para assistir ao vivo, no canal ESPN 2, a Rich Froning, de 26 anos, e Samantha Briggs, de 30, ganharem o Reebok CrossFit Games. Os dois superaram 138 mil participantes de todo o mundo em três rounds de competição. Por seus esforços, que incluíram os principais exercícios do CrossFit, como uma duríssima série de levantamento de peso, Rich e Samantha embolsaram US$ 250 mil cada e ainda ganharam o título de “os mais bem condicionados da Terra”.

Impulsionados por competições desse tipo nas academias, os exercícios de alta intensidade do CrossFit – que misturam levantamentos olímpicos, séries em barras e outros desafios com cara de treinamento militar – tiveram uma explosão em popularidade, até mesmo no Brasil. Atualmente existem cerca de 10 mil academias afiliadas à marca CrossFit em todo o mundo. Mas, por trás dessa atividade competitiva capaz de fazer muita gente vomitar de tanto esforço, há uma lista cada vez maior de praticantes lesionados. Muitos tiveram deslocamentos de disco da coluna vertebral, rompimentos dos músculos do manguito rotador, tendinopatia de joelho, entre outras lesões. Nenhuma organização de saúde ou de treinamento está acompanhando oficialmente as taxas de lesões, porém Robert Hayden, quiroprata norte-americano e porta-voz da Associação de Quiropraxia dos EUA, afirma que é possível notar um aumento significativo no número de pacientes vindos do CrossFit nos últimos dois anos. “Entre meus colegas, costumamos brincar dizendo que o CrossFit tem sido ótimo para nossa profissão, já que recebemos cada vez mais pacientes”, diz Robert.

A culpa desse festival de lesões vem da natureza do treinamento proposto pelo CrossFit. A maioria das séries do CrossFit inclui levantamentos de peso, muitos com agachamentos, que exigem uma postura quase perfeita para evitar machucados sérios. Os novatos raramente têm a força muscular ou a orientação necessárias para realizarem todos os movimentos corretamente. Junte a isso o alto número de repetições e o clima de competição incentivado pelo CrossFit, e tem-se uma receita perfeita para o desenvolvimento de lesões. “Se você tiver uma condição pré-existente – um antigo problema no ombro, danos em tendões ou deslocamentos de disco –, esse tipo de exercício vai te colocar em uma situação de risco”, diz Robert.

Essa não é a primeira vez que o CrossFit está sob os holofotes devido a lesões em seus adeptos. Logo quando surgiu, ele ganhou a reputação de ser tão intenso que poderia induzir a rabdomiólise, uma condição potencialmente fatal na qual o tecido muscular se decompõe e é lançado na corrente sanguínea. Mas, agora, o foco está em problemas músculo-esqueléticos. Recentemente, a publicação científica Journal of Strength and Conditioning Research, especializado em pesquisas sobre condicionamento e força, publicou um estudo mostrando impressionantes ganhos de condicionamento entre praticantes de CrossFit, com participantes de um programa de dez semanas aumentando seu VO2 máximo em cerca de quatro pontos. Mas a pesquisa também revelou uma estatística preocupante: 16% dos 54 participantes estudados precisaram desistir do treinamento devido a “esforço excessivo ou lesões”. Em 2011, o exército dos EUA aconselhou seus soldados a evitarem o CrossFit, citando “risco desproporcional de lesões músculo-esqueléticas”.

Diante de tantas críticas, os criadores do CrossFit lançaram uma contra-ofensiva. Como defesa, seus representantes alertaram as pessoas de que, caso não tenham condições de realizar os exercícios corretamente, elas devem deixar o treinamento. Mas desistir é uma ideia difícil de se vender a muitos participantes, que veem seu ganho de condicionamento como uma competição, principalmente agora que os CrossFit Games estão tão populares – o número de participantes aumentou mais de 400% desde 2011. “Em 2013, parecia que todo mundo na minha academia estava se preparando para uma competição de CrossFit”, conta a norte-americana Emily Carothers, que terminou na 23ª colocação nos jogos de verão. “Muitos estavam forçando mais do que deveriam.”

Talvez essa seja a raiz do problema. Desenvolver uma boa técnica e trabalhar para superar as fraquezas sem sair dos seus limites nem sempre é possível quando você está suando para vencer o colega da academia em uma competição. Se, entretanto, você enxergar o CrossFit como um esporte, composto por ciclos de maior intensidade e períodos de descanso e recuperação – incluindo dias off sem fazer nada –, dá para encará-lo de forma muito mais saudável. Emily, por exemplo, faz isso há tempos. “Eu tenho praticado CrossFit há três anos e meio, e só tive uma lesão, no meu quadril”, conta ela, que já foi ginasta na época da faculdade. “Quando estava na universidade, passei por nove cirurgias em quatro anos. No que diz respeito aos esportes, o CrossFit é, sim, uma boa opção.”

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de março de 2014)

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