No alto do Eiger

Por Maximo Kausch, do Alta Montanha*

Sempre que falam de conforto em montanhas me vêm à cabeça as lembranças dos acampamentos-base no Himalaia, onde chegamos a levar até projetor e telão para assistir filmes. No entanto, existem outras montanhas onde o conforto e a acessibilidade são incomparáveis: os Alpes Berneses, na Suíça.

Lembro muito bem da minha terceira experiência nos Alpes (e primeira vez que visitava essa região suíça). Aconteceu dez anos atrás, quando decidi escalar o Jungfrau (4.158 metros), o Mönch (4.107 metros) e o Eiger (3.970 metros) — este último tido como um dos mais difíceis da Europa. Fui escalar essas curiosas montahas sozinho e, por ser cabeça-dura, não peguei nenhum tipo de informação sobre como chegar até elas. Fui no "estilo sem-noção" e acabei enfrentando uma rota um tanto técnica que supostamente me levaria a um colo com 3.400 metros de altitude entre o Mönch e Jungfrau.

Foi um dia péssimo. O glaciar que escolhi tinha muitas gretas e demorei um tempão para superar os 3.000 metros. Para piorar, o tempo fechou completamente e a visibilidade caiu muito. Sem enxergar nada, decidi apenas subir para onde quer que fosse. Fiquei um tanto assustado sem saber onde iria dormir ou chegar naquele dia.

Era fim de tarde quando uma pequena brecha abriu no meio das nuvens, revelando o sol. Foi um ótimo incentivo para alguém que pensava que tudo estava perdido. Uma nuvem abriu e revelou uma montanha enorme a minha esquerda: era o Mönch ("monje", em alemão). Logo abaixo da bela montanha também foi revelado um imenso refúgio de montanha que tinha até um observatório astronômico! Eu realmente não esperava encontrar uma estrutura tão grande feita por humanos. A gota d’água veio quando me encontrei com uma criança de uns 7 anos esquiando bem na minha frente. Senti-me um idiota!

Com um tanto de vergonha continuei subindo o vale passando por um grande grupo de esquiadores que estava descansando em cadeiras de praia na neve! Acho que o tamanho da minha mochila impressionou, pois vários começaram a tirar fotos. Nessa região dos Alpes ninguém mais usa mochilas grandes.

Não muito longe dali decidi acampar. Como eu sempre fazia nos Andes, tirei minha mochila de 35 quilos, peguei a barraca e montei-a. Só que nos Alpes a coisa é bem diferente. Pessoas raramente acampam ali! Todos dormem em refúgios de montanha como aquele, chamado Jungfraujoch e que também é uma estação de trem, a mais alta da Europa. Os esquiadores até paravam para tirar fotos daquele moleque que andava sozinho com uma mochila grandona.

O tempo abriu no dia seguinte e tive dois dias fantásticos. Consegui concluir parte do meu objetivo: o Mönch e o Jungfrau, porémainda faltava o Eiger. Decidi partir com ar de "missão cumprida" e comecei a desmontar meu acampamento. Enquanto eu guardava a barraca para partir ao Eiger, avistei duas pessoas com grandes mochilas aproximando-se da minha barraca. Foi identificação imediata! Eram dos meus!

Já de cara notei que se tratavam de escaladores um tanto estranhos. Um deles carregava um tambor do lado de fora da mochila, e o outro tinha um ursinho de pelúcia vestindo uma calcinha rosa. Esses malucos eram da Polônia e se apresentaram como Adam e Kuba (Jakob). Em um inglês muito precário, preenchido com 80% de palavras em polonês, me contaram que saíram da Polônia de carro naquele mesmo dia de madrugada. Decidimos juntar forças e subir o Eiger juntos.

Apenas uma hora após nossa saída, o tempo piorou consideravelmente. A neve já estava na altura do joelho e ficava cada vez mais funda. Decidimos acampar. Com as poucas palavras de polonês que eu sabia na época, consegui entender a palavra "dormir". No entanto estávamos no meio de um glaciar cheio de gretas e expostos ao vento. Não era uma boa ideia acampar ali. Kuba e Adam começaram a ir na direção de uma parede rochosa, a face sul do Eiger. Comecei a ficar um pouco desconfiado com a sanidade mental daqueles dois poloneses. Durante a subida, no meio de uma tempestade de neve, os dois começaram a cantar músicas da Madonna.

Quando o tempo ficou realmente ruim, Kuba parou para procurar algo dentro de sua mochila. Achei que se tratava de um GPS ou bússola devido a urgência dos seus movimentos. Finalmente ele achou o que estava procurando: cigarros. Claro, ali naquela situação insólita era o que mais precisávamos… Diminuí a velocidade algumas vezes tentando em vão entender onde estávamos. Todas as vezes em que eu parava, recebia um puxão da corda, pois os três estávamos unidos por ela. "Arguentin, lina" ("dá corda aí, ô argentino").

Eventualmente me contaminei com a insana paz com que esses dois malucos escalavam montanhas. Coberto totalmente com neve e sem saber onde eu estava, fui atrás de Adam sem ao menos enxergar Kuba, que estava 20 metros na minha frente. Finalmente algo escuro começou a tomar conta do panorama na nossa frente. Era o Eiger.


Comecei a contemplar o pouco que eu enxergava entre as nuvens. Havia uma parede rochosa realmente íngreme. Como já estávamos perto de onde eu achava que íamos acampar, soltei a corda e deixei os poloneses seguirem um pouco sozinhos. Em meio a rochas escuras cobertas com neve, algo amarelo se mexia na base da parede. Era Kuba! Ele começou simplesmente a escalar a parede rochosa.



Já preparado em ir embora e deixar eles se matarem sozinhos, enxerguei um cabo de aço brilhante perto dele. Decidi chegar perto e ver. Ao andar mais 30 metros, encontrei Adam. Sem perguntar nada, ele me ligou novamente na corda e produziu alguns sons em polonês que, pelo tom de voz, não era um elogio.

O cansaço do fim do dia e a insana autoconfiança com que eles escalavam me convenceram a prosseguir… Para onde, eu não sabia.

Notei que que o cabo conduzia a uma pequena cova. Achei a ideia ótima, afinal eles não eram tão malucos assim e encontraram um bom lugar para acampar. Já estava escuro quando entramos na cova que parecia ter sido cavada na rocha sólida. Minha primeira reação foi tirar a mochila e sentar no chão da cova. "Lina, lina!", gritou Adam, me dando um puxão pela corda desde o fundo da cova. Os dois continuaram adentrando a cova que, inexplicavelmente, tinha uma porta de metal no fundo!

Curioso, mas sem entender nada, vi Kuba abrindo a porta e ligando um interruptor de luz. Ele parecia saber onde estava, mas a barreira lingüística misturada com o cansaço fez com que eu nem perguntasse nada. A porta revelou uma sólida escadaria de cimento. Seguimos a escadaria até outra porta de metal. Ao abrir a porta fiquei impressionado: estávamos dentro de uma estação de trem!

Cinco minutos após eu estar quase congelando na neve, eu encontrava-me dentro de uma estação de trem! Pelo menos 30 turistas japoneses estavam ali e começaram a nos fotografar. Eu ainda estava de capacete, com a cara cheia de neve, senti muita vergonha. Tirei os crampons das botas para parecer mais natural. "Jedzenie", disse um deles, fazendo um sinal de comida.

Aquilo não era uma má ideia e pensei em fazer um macarrão de um pacote que eu tinha. Kuba parecia ter outra ideia e me chamou para o trem. Após alguns minutos no trem descemos em outra estação mais acima. Nela havia telefone público e um restaurante self-service! Ainda com botas plásticas e cadeirinha, nos servimos de purê de batata com bife à milanesa e salada!


Parecíamos normais ali pois mais ninguém fora os turistas japoneses sequer olhava para nós. A estação com uma porta para a montanha era a Eismeer, construída em 1905 por dentro do Eiger! Além dela, há a Nordwand e a Jungfraujoch, que conta até com observatório.
Aquilo quebrou o clima da escalada completamente! Foi um grande impacto para alguém como eu, que começou a escalar nos Andes, onde nem estradas existem!

Decidi pegar o trem de descida e sair daquela rede de túneis para poder ver as montanhas e me inspirar novamente. Fui parar num lugar chamado Kleine Scheidegg, onde o trem sai da montanha e de lá é possível ver a paisagem. Como de costume, decidi acampar atrás da estação.

Era um belo gramado com casinhas estilo chalé e tetos estilizados. O lugar se parecia com a caixa do cereal Alpen. Havia até várias daquelas vacas suíças com sinos que tem no chocolate Milka. Ali eu realmente iria poder relaxar. Enquanto eu montava minha barraca, uma daquelas grandes vacas leiteiras veio ver o que acontecia. Enquanto a vaca ficava parada do outro lado da cerca, reparei num sino muito bonito e adornado. Este começou a tocar enquanto a vaca comia grama, o que incomodou um pouco. Outra vaca curiosa veio ver o que acontecia. Mais um sino, desta vez menor. Mais algumas vacas se juntaram às primeiras e aqueles malditos sinos começaram a me querer fazer ir embora. Uma verdadeira sinfonia de sinos de diferentes tamanhos começou ali do lado da minha barraca. As vacas tinham a Suíça toda para pastar, mas decidiram ficar bem ali. Foi uma noite péssima e achei melhor descer na primeira luz de sol…

Na volta para Grindelwald, o povoado mais próximo, decidi descer a pé e conhecer um pouco daquelas paisagens que eu só conhecia por calendários, fundos de tela do computador e de capas de álbum de fotos. De fato, o lugar é espetacular! Pequenas fazendas com vacas leiteiras gigantes e sinos malditos contrastam com grandes montanhas nevadas ao fundo.

Descendo por finas estradas onde só passava um carro, deparei com um curioso tipo de portão flexível que fechava a estrada. Era parecido com uma cancela de pedágio. Ao tentar abri-lo sem ao menos esperar, recebi um forte choque elétrico e ao soltá-lo ele caiu em mim e recebi outro choque. Foi um jeito interessante de começar a manhã, meus olhos ficaram bem abertos!

Há menos de um quilômetro mais abaixo encontrei outro desses malditos portões. Desta vez tentei ser mais esperto e passar por cima do portão sem encostar nele. O suor na perna da minha calça foi o culpado e recebi outro choque, isso me deixou furioso! Outro portão! Enquanto eu pensava no que fazer, reparei que eu não estava sozinho. Duas senhoras estavam subindo a estrada provavelmente fazendo uma caminhada matinal. Fui tomado por sentimento diabólico de vingança. Decidi esperar e ficar olhando aquelas pobres senhoras serem eletrocutadas em um daqueles misteriosos portões suíços. Até sentei sobre uma pedra para contemplar a cena e aliviar a fúria.

Exatamente no instante que uma das senhoras iria encostar no portão e ser eletrocutada (havia um grande sorriso na minha cara neste momento), ela foi até a região da mola que faz o portão voltar e apertou um botão de desliga. Fiquei perplexo. "Morgen (bom dia)", disse a mesma senhora, continuando com a sua caminhada matinal. Sua amiga passou depois e ligou a eletricidade. "Morgen", respondi, enquanto eu pressionava os dentes de raiva.

Acabei voltando ao Eiger sozinho e por uma rota um tanto técnica. Aos 3.200 metros de altitude tive uma grande queda e precisei adiar o cume pela segunda vez. Mas isso é outra história.

Nas escaladas que estive fazendo ultimamente nos Andes, lembrei muito daqueles dias na Suíça. A grande diferença é que nos Andes nada é explorado. Fico até 15 dias sem ver gente, estradas, trilhas ou qualquer sinal humano. Muitas vezes a única coisa humana quesão aviões comerciais cruzando o céu. Às vezes fico imaginando quem são aquelas pessoas e se eles imaginam que existe um alpinista maluco enfrentando todas aquelas montanhas lá embaixo, sozinho. Nossos Andes permanecerão sem exploração humana por muitos e muitos anos. Ainda bem.

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