Pelas beiradas

Com estilo despretensioso, o espanhol Luis Alberto Hernando conquistou dois campeonatos mundiais de corrida de montanha em apenas três anos e transformou-seem pouco tempo nomaior rival do astro catalão Kilian Jornet nas ultramaratonas off-road


Por Maria Clara Vergueiro


LUIS ALBERTO HERNANDO é um guarda civil espanhol de 36 anos, nascido no pequeno município espanhol de Burgos e praticante de esportes de inverno – ferramenta importante para os resgates que realiza nas montanhas dos Pirineus próximas à cidade de Jaca, onde vive há mais de uma década. Apesar de participar de competições esportivas desde a infância, nunca precisou lidar com expectativas elevadas e a pressão sofrida por grandes atletas profissionais.Porém, desde que Luis resolveu “brincar” de correr maratonas de montanha, há menos de três anos, as coisas começaram a mudar: o guarda de Burgos passou a ter seu nome mencionado em entrevistas e jornais especializados, impressionando a todos com performances dignas de um veterano. Os títulos incluem um vice-campeonato mundial (em 2010, em sua estreia na modalidade) e dois ouros seguidos, no Campeonato Mundial e na Copa do Mundo de maratonas de montanha, em 2011 e 2012.Neste ano ele fez sua estreia em ultramaratonas e tem chegado na bota – muita vez bem perto – do maior ídolo do trailrunning da atualidade: o catalão KilianJornet, tricampeão da mítica Ultra-TrailduMont-Blanc, de XX quilômetros.

O primeiro duelo dos espanhóis em competições de ultradistância aconteceu em maio deste ano, na Transvulcania, de 83 quilômetros, realizadanas espanholas ilhas Canárias. Luis, que até então nunca havia corrido por mais de seis horas seguidas, soube manter-se calmo nos momentos que precederam a prova. Dez anos mais jovem e atleta visadíssimo, Kilian levou o primeiro lugar, mas o espanhol chegou logo depois, com apenas 3min30s de diferença. “Fui para a Transvulcania sem ter ideia do que me esperava, com certo medo, muito respeito e uma imensa vontade de terminar bem. Largamos em um ritmo altíssimo, quase como o das maratonas a que estou acostumado, e depois concentrei-meapenas na hidratação e alimentação até o fim”, conta o vice-campeão, que, assim como Kilian,integra a seleção espanhola de corrida de montanha, líder do campeonato europeu até o fechamento desta edição, à frente das outras 20 equipes inscritas.

Embora sejam conterrâneos e parceiros no time espanhol, os dois seguem protagonizando o maior “pega-pega” individual dos últimos anos na modalidade. Na maratona deZegamaAizkorri(que também aconteceu em maio, no País Basco), apenas 12 segundos separaram os dois no final, com Kiliansprintando para garantir uma vitória suada. Cada vez mais perto, Luis comprovou sua eficiência nas longas distâncias no último dia 27 de julho, quando passou os 80 quilômetros do percursoda Trans D’Havet, nas Dolomitas italianas, correndo no cangote do ídolo, ora à frentedele, ora pouco atrás, até a linha de chegada. Os dois resolveram compartilhar a vitória, finalizando a prova juntos em exatas 8h59min47s e estabelecendo o novo recorde do evento. “Infelizmente não posso treinar com o Kilian porque temos ritmos de vida muito diferentes, e eu acredito que não conseguiria acompanhar sua carga de treinos. Ele é muito forte e motivado, e eu corro nas minhas horas livres, como um aficionado, não um profissional”, diz Luis. “Mas nossa relação é muito boa. Tive a sorte de dividir essa prova com ele e até trocar algumas rápidas ideias com o Kilianao longodo percurso”, conta.


RIVAL DO BEM: Luís (à esq.) e Killian Jornet na Trans D’Havet, na Itália

(Foto: Transdhavet Press Office)

APESAR DE SE APRESENTAR, sempre em tom modesto, como apenas um atleta amador, Não é à toa que Luis consegue se sair tão bemno campeonato mundial e seus mais de 5.500 metros de desnível positivo: o VO2 máximo do moço (ou seja, sua capacidade de transportar e fazer uso eficiente do oxigênio durante o exercício físico) equivalente ao de Kilian. A marca esportiva Adidas, atual patrocinadora do espanhol,foi a primeira a perceber seu potencial. Isso proporcionou a Luis uma temporada mais consistente em 2013. “A novidade não está tanto nos meus resultados: fui campeão do mundo em 2011 e 2012. O que mudou foi minha entrada nas ultramaratonas e o apoio de uma marca forte, o que me deu mais condições e destaque na imprensa”, explica o atleta, inscrito na CavallsdelVent deste ano, prova de 100 quilômetros que acontece em setembro e que colocará novamente ele e Kilianalinhados na largada.

O fato de ter se tornado o grande opositor do astro catalãonão tira a paz de Luis, que prefere manter-setranquilo, na condição de atleta não-profissional de corrida de montanha, conciliando a paixão pelas trilhas com todas as outras. Éintegrante da equipe da guarda civilde biathlon olímpico de inverno (que combina esqui cross-country ou “de fundo” com tiro ao alvo) e tem boa parte do seu dia tomada pelo trabalho de supervisão e resgate em montanhas. Acostumado aos treinos – começou no atletismo aos 10 anos e competiu em distâncias curtas até os 20 –, desde 2010 ele segue o plano de treinamento preparado pelo irmão, Andres, aproveitando o inverno para investir no trabalho muscular e aumentar o volume, e o verão para baixar a quilometragem e incluir treinos detécnica e velocidade. A estratégia parece estar funcionandobem contra Kilian, conhecido por não gostar de treinar velocidade.Luis, no entanto, mantém a classe. “Kilian é inquestionavelmente o melhor. Éo mais técnico, o mais focado e o experiente entre todos os corredores de montanha atuais”, diz. “A mim, contenta-me estar o mais próximo possível dele.”Enquanto isso, o catalão que se cuide – e trate de incluir pelo menos alguns treinos de tiroem sua planilha.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de setembro de 2013)

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