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CORAGEM: James se pendura em guindaste no Reino Unido

O britânico James Kingston realiza manobras de parkour a mais de cem metros de altura e garante que não vai morrer fazendo isso: segundo ele, o propósito é se sentir mais vivo que nunca

Por Mario Mele

NO BRASIL, em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, as escaladas urbanas quase sempre são motivadas pela pichação, uma antiga concorrência pelo espaço em topos de prédios. Já na Rússia, um grupo de amigos começou recentemente a matar aulas da faculdade para fotografar o por do sol de novos ângulos – geralmente do alto de uma estátua ou de uma construção pública de centenas de metros de altura. Mas é na Inglaterra que um assíduo praticante de parkour de 22 anos está levando a polêmica às alturas. Não bastassem suas insanas escaladas em prédios e guindastes de Southampton, cidade no sul do Reino Unido, James Kingston pratica seu esporte em alturas imperdoáveis. Seus únicos equipamentos de segurança são habilidade e coragem.

James saiu do anonimato depois que suas peripécias foram parar nas maiores mídias de seu país, como o canal BBC e o jornal Telegraph. Consequentemente, seus vídeos, que até então circulavam apenas na comunidade do parkour, ganharam milhões de acessos da noite para o dia. Depois disso ele se sentiu até na obrigação de gravar um depoimento para confortar aqueles que acreditam que seus dias na Terra estão contados. “Treino muito para estar no absoluto controle da situação”, disse.

Sua justificativa, porém, não foi o certificado de garantia para a equipe de resgate de Southampton, que declarou que não seria agradável ter que recolher os restos mortais de James caso ele despencasse do alto de um guindaste de cem metros de altura. “É o trabalho que escolheram, certo?”, retrucou o extremista do parkour em tom irônico. Nem a tréplica de James Keating-Wilke, do serviço de ambulância de Southampton, dizendo que “traumas extremos deixam lembranças desagradáveis e permanentes até nos profissionais mais experientes”, intimidou James Kingston, que promete que não será o protagonista de nenhuma tragédia. “Eu não vou até o topo desses lugares para morrer, mas para viver”, disse ele, que bateu um papo com a Go Outside.


GO OUTSIDE Você via muito o desenho do Homem-Aranha na infância?

JAMES KINGSTON Não, acho que eu não gostava de super-heróis. Só me lembro de brincar de Comandos em Ação (risos).


Desde quando você escala prédios e leva o parkour ao extremo?

Comecei a levar o parkour mais a sério em 2007, depois de assistir a um documentário sobre a modalidade. Mas percebo que, antes disso, eu já subia em qualquer coisa que estivesse ao meu alcance e explorava as possibilidades como uma criança.


Sua mãe tem noção de onde você vai cada vez que dá tchau?

Ela nunca ligou muito, menos ainda agora que sabe que é a minha paixão e que vou continuar fazendo-a enquanto for capaz. Apesar de minha mãe gostar do que faço, eu não falo com ela sobre meus novos projetos, apenas mostro os que já fiz.


Você disse que está sempre em busca de uma nova aventura. O que é uma pessoa aventureira, em sua opinião?

Uma grande aventura pode ter diferentes significados, como ir a algum lugar em que você nunca esteve antes, ou então se colocar em situações com as quais não está familiarizado, algo no qual não se sente totalmente confortável. Eu vejo que, quando dou um passo rumo ao desconhecido, aprendo muito em relação à vida. Também sou apaixonado por fotografia e vídeo, e posso unir tudo.


Como começou a escalar guindastes?

Eu sempre gostei de escalar prédios, e um dia simplesmente decidi subir num guindaste, porque é um jeito fácil e garantido de se ter uma ótima vista.


Você já teve problemas com a polícia?

Nunca. Acho que é porque eles veem que eu não tenho más intenções, então não há uma razão para me dizerem para não fazer aquilo. Na verdade, também acho que não estou cometendo nenhuma infração penal. O melhor é que as pessoas que tomam conta dos guindastes costumam ser bem legais.


Você já conversou com Alex Honnold [escalador norte-americano famosos por subir paredões rochosos sem nenhum equipamento de segurança]?

Não faço ideia quem seja. Deixa eu procurar o nome dele no Google… Ah, é um escalador freesolo, é isso? Parece ser uma pessoa bacana.


Você já afirmou que pretende se tornar um dublê profissional. Em qual filme gostaria de trabalhar?

Pensando bem, eu apenas curto fazer coisas que dublês fazem, mas não tenho nenhuma pretensão de ser um. Amo tudo o que está relacionado às produções de TV, então naturalmente posso ingressar nessa área algum dia. Claro, o Homem-Aranha seria um personagem perfeito para eu caracterizar, mas um amigo já é dono desse papel e eu não pretendo tirá-lo dele.


Qual o número mais difícil que você já fez até hoje?

Estou constantemente empurrando meus limites e tentando sair da minha zona de conforto. Mas me lembro de um salto em Cambridge, há cerca de quatro anos, que naquele tempo me deixou assustado. Eu tinha que saltar cerca de quatro metros de distância entre dois prédios de dez andares. Fiquei parado no beiral cerca de uma hora, apenas olhando onde eu tinha que aterrissar, mas não conseguia me mover. Na noite seguinte, voltei e pulei sem problemas. Foi desafiador, e eu fiquei muito feliz em finalmente conseguir.


Quais esportes você pratica além do parkour?

Quando criança, tentei um pouco de tudo. Ainda gosto de skate, BMX e slackline e também pratico trampolim acrobático. Até do esquisito jogo de futebol eu gosto às vezes.


Você já pensou em sair da cidade para praticar seu esporte na natureza?

Faço isso constantemente. Eu amo a natureza, rola algo especial quando treino entre árvores, rochas e água que me enche de paz.


O que te dá muito medo?

Ter paralisia ou perda dos membros é muito assustador para mim.


Por que você tem tanta confiança tanto no que faz?

Quem acha que é capaz disso tem que se perguntar por que está fazendo. Se for para ter a atenção dos outros ou parecer mais interessante, começou errado e nem deveria continuar. Eu pratico seriamente o parkour há muitos anos. Portanto ficar pendurado num guindaste não é um desafio físico tão surpreendente para mim. Não sinto medo, porque fico no controle o tempo inteiro, mesmo quando estou pendurado com uma mão só. Naquele momento, nada é mais importante para mim, nada.


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