Medicina natural

Nesta era de smartphones e redes sociais, estamos mais estressados e distraídos que nunca. E não há aplicativo para nos tirar dessa situação. Porém existe um antídoto absurdamente singelo para nos salvar de nós mesmos: a vida ao ar livre. A jornalista FLORENCE WILLIAMS viajou para remotas florestas do Japão, onde pesquisadores estão confirmando a surpreendente teoria de que a natureza pode baixar a pressão sanguínea, combater a depressão, vencer o estresse e até mesmo prevenir o câncer. Sim, simples assim

Fotos: Arno Rafael Minkkinen

EU ESTAVA PRESTES A ESCUTAR o som de cigarras e de um riacho quando uma van Mitsubishi passou, toda barulhenta, por cima de uma pequena ponte de aço. Provavelmente estava lá para deixar turistas em um camping próximo, onde crianças corriam com varas de pescar e travesseiros cor-de-rosa.. Eu estava no Parque Nacional Chichibu-Tama-Kai, que fica a 75 minutos de trem a noroeste de Tóquio, com meia-dúzia de outros visitantes para uma tarde de shinrin-yoku, ou “banho de floresta”. Os japoneses são loucos por isso, que é uma espécie de medicina preventiva padrão por aqui. Ela envolve, basicamente, passear pela floresta. Não se trata de um lugar selvagem, é um híbrido de natureza e civilização que os japoneses cultivam há milhares de anos. Você passeia um pouco, às vezes escreve um poema haikai, quebra um graveto de alguma especiaria e inala o odor amadeirado e forte da planta.

“As pessoas vêm da cidade e, literalmente, tomam um banho no verde. Dessa forma, conseguem relaxar”, explica Kunio, nosso guia. Para nos ajudar, Kunio, que é guarda voluntário do parque, nos fez ficar parados em um barranco, observando o córrego, com os braços ao lado do corpo. Olhei em volta para nosso grupo. Nós parecíamos terráqueos hipnotizados pela luz da nave-mãe. Ou figurantes num filme da Disney. Kunio poderia muito bem interpretar um dos sete anões. Parece um elfo, com orelhas visivelmente grandes. Ele nos diz para inspirar contando até sete, segurar a respiração por cinco segundos e depois soltar o ar. “Concentrem-se na barriga”, recomenda.

Nós precisávamos disso. A maior parte de nosso grupo é composta por gente da cidade grande, que trabalha em escritório, incluindo o empresário Ito Tatsuya, de 41 anos, residente de Tóquio. Como muitos dos japoneses que estavam ali comigo, ele carregava pendurados no cinto um celular, uma câmera, um cantil e um molho de chaves. Os japoneses dariam bons escoteiros. Eles são trabalhadores de escritório fervorosos, mais ansiosos por horas extras de trabalho do que qualquer outro povo do mundo desenvolvido. No país, já foi até criado um termo que deriva disso, karoshi, cujo significado é “morte por excesso de trabalho”. Desde que Ito começou a passear pela floresta, comendo petiscos de polvo no piquenique, seus ombros parecem relaxar a cada minuto. “Quando estou aqui no mato, não penso nas coisas”, diz.


COM A MAIOR CONCENTRAÇÃO de vegetação de folhas largas do Japão, as montanhas do Chichibu-Tama-Kai são o lugar ideal para se por em prática os mais novos princípios da ciência do bem-estar. Em um bosque de pinheiros vermelhos, retos como torres, o guia Kunio tirou uma garrafa térmica da sua imensa mochila e nos serviu chá de raiz forte cultivada nas montanhas. A ideia do shinrin-yoku, termo criado pelo governo em 1982 e inspirado em antigas práticas budistas e xintoístas, é deixar a natureza penetrar no corpo através dos cinco sentidos, e o chá que tomamos representa a parte do paladar. Eu me estiquei em cima de uma grande pedra cheia de musgos. Um pato fez um barulho. Me sentia bem mole, e alguns testes que fiz validaram essa sensação: entre o começo e o fim de nossa caminhada de duas horas, minha pressão sanguínea baixou dois pontos. A de Ito baixou ainda mais.

Sabíamos disso porque estávamos em uma das 48 trilhas oficiais de Terapia Florestal do Japão, especialmente designadas para shinrin-yoku pelo departamento de florestas do país. Num esforço para beneficiar os japoneses e encontrar formas não extrativistas de utilizar as florestas, que cobrem 67% das terras da nação, o governo investiu cerca de US$ 4 milhões, desde 2004, em pesquisas sobre o “banho de floresta”. A intenção é designar cem locais de Terapia Florestal nos próximos dez anos. Neles, os visitantes são levados até um chalé onde os guarda dos parques medem sua pressão sanguínea como parte de um esforço de se oferecer ainda mais dados para sustentar o projeto.

Os japoneses têm uma boa razão para querer relaxar: além das longas jornadas de trabalho, a pressão e a concorrência por escolas e empregos ajudou o país a conseguir a terceira maior taxa de suicídios do mundo desenvolvido (depois da Coréia do Sul e da Hungria). Cerca de 10% dos 128 milhões de residentes no país vivem na grande Tóquio, onde a hora do rush é tão lotada que funcionários com luvas brancas empurram as pessoas para dentro dos trens do metrô, o que levou à criação do termo tsukin-jigoku, ou “inferno do transporte”. Para piorar, a pequena nação insular treme e chacoalha com mais de 1.500 terremotos por ano. O tsunami que atingiu o país em 2011 matou 20 mil pessoas, a usina nuclear de Fukushima sofreu tripla fusão e uma das marcas japonesas mais premiadas de arroz agora padece por contaminação de césio radiativo. Faz sentido que os cientistas do Japão estejam na vanguarda das pesquisas que apontam que espaços verdes acalmam o corpo e o cérebro.

Enquanto alguns estudos feitos nas últimas décadas já comprovaram que passar períodos na natureza melhora a cognição, alivia a ansiedade e a depressão e até aumenta a compaixão em relação ao próximo, os cientistas japoneses estão agora medindo o que realmente acontece nas células e nos neurônios quando estamos no mato. Liderados por Yoshifumi Miyazaki, da Universidade de Chiba, e Qing Li, da Escola de Medicina do Japão, em Tóquio, os pesquisadores estão utilizando testes de campo, análises de hormônios e novas tecnologias de imagens do cérebro para descobrir como funciona essa mágica em nível molecular. “O trabalho dos japoneses é essencial para compreendermos melhor isso tudo”, diz Alan C. Logan, co-autor do livro Your Brain on Nature [Seu Cérebro na Natureza], lançado recentemente nos EUA e ainda sem tradução em português.

Apesar das claras evidências, para muita gente a visão da natureza como um (santo) remédio ainda é estranha. “Estudar o impacto do mundo natural no cérebro ainda é uma ideia escandalosamente nova”, diz Richard Louv, autor do livro Last Child in the Woods [A Última Criança da Floresta], lançado em 2008 e ainda sem edição no Brasil. A obra, de grande repercussão, deu origem à criação do termo Transtorno de Déficit de Natureza. “Esse tipo de estudo deveria ter sido realizado há 30 ou 50 anos”, afirma Richard.

Ainda que tardias, as descobertas dos cientistas japoneses estão aparecendo em uma boa hora. Livros como o de Richard, combinados com uma explosão de distrações digitais e doenças causadas pela vida moderna, estão ajudando a definir uma nova tendência – a do movimento do “slow nature”, nos modelos do que houve com o “slow food”. Estamos redescobrindo nossa conexão inerente com a natureza.

Em 2008, o mundo atingiu um marco curioso: mais gente vivia em áreas urbanas do que fora delas. Nos Estados Unidos, pela primeira vez as áreas urbanas cresceram mais rápido em 2010 e 2011 do que regiões suburbanas desde os anos 1920. No Brasil, segundo pesquisa recente realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nem a população indígena escapou da debandada das áreas rurais. Se em 1991 eram 71 mil índios que moravam nas grandes cidades, hoje eles já são quase 325 mil. De acordo com Nicholas Carr em seu livro The Shallows [Os Superficiais], publicado em 2010, o norte-americano médio passa pelo menos oito horas por dia olhando algum tipo de tela eletrônica. Daí tenta relaxar assistindo TV.

Por aqui, uma pesquisa bianual feita Ibope constatou que, em 2012, os brasileiros passaram em torno de 5h30 por dia em frente à TV. É mais tempo do que ficaram em 2008 e em 2010 – e o pior é que as crianças estão entre o maior grupo telespectador. Outro recente levantamento feito pela agência de comunicação e pesquisa de mercado InsideComm revelou que o videogame é um poderoso imã a atraí-las para as telas. Por ano, o brasileiro passa duas horas por dia na diversão – juntos, os brasileiros estariam “desperdiçando” nada menos do que 40 bilhões de horas a cada ano com o videogame ligado. Má ideia. Pesquisas demonstram que isso só nos faz ficar mais mal-humorados. O autor Alan C. Logan afirma que, desde que se iniciou a era da internet, as pessoas se tornaram mais agressivas, narcisistas, distraídas, deprimidas e com menos rapidez cognitiva. Ah, e mais gordas, claro.

E não pense que você está fora desse grupo só porque faz exercícios ao ar livre. Você costuma se exercitar conectado a um monitor cardíaco ou a um fone de ouvido para ouvir música? Admita: muitas vezes, quando sai para treinar ou passear na natureza, você não deixa de checar seu telefone, não é? Em algum momento do rolê, acaba enviando uma mensagem de texto para um amigo? Isso não é nada bom. Pesquisas apontam que, para se obter o máximo da natureza, precisamos realmente estar presentes ali, e não distraídos com nossas próprias preocupações ou aparelhos digitais (mesmo que seja o frequencímentro ou ciclocomputador).


SE O ENVOLVIMENTO DO JAPÃO com a terapia florestal pudesse ser atribuído a um só homem, ele seria, sem dúvida, Yoshifumi Miyazaki, antropólogo fisiologista e vice-diretor do Centro de Ciências Ambientais e de Saúde da Universidade de Chiba, nos arredores de Tóquio. Miyazaki acredita que, por terem os seres humanos evoluído na natureza, é ali que nos sentimos mais confortáveis, ainda que nem sempre percebamos disso. “Durante nossa evolução, passamos 99,9% do tempo em ambientes naturais”, diz. “Nossas funções fisiológicas ainda estão adaptadas à natureza. No dia a dia, podemos desfrutar de um sentimento de conforto se nosso ritmo estiver sincronizado com o do meio ambiente.”

Para comprovar a tese, Miyazaki já levou mais de 600 pessoas para a floresta desde que começou a pesquisar o assunto, em 2004. O estudioso e seu colega Juyoung Lee, também da Universidade de Chiba, descobriram que passeios na natureza, se comparados a passeios urbanos, provocam 12,4% de queda nas taxas de cortisol, o hormônio do estresse, além de 7% de diminuição da atividade nervosa simpática, 1,4% de diminuição da pressão sanguínea e 5,8% de redução da frequência cardíaca. Em estudos subjetivos, as pessoas pesquisadas também relataram melhora no humor e na ansiedade. Como concluiu Miyazaki em um artigo publicado em 2011, “isso mostra que estados estressantes podem ser aliviados por meio de terapia florestal”. E os japoneses compraram totalmente essa ideia, com quase 25% da população participando do projeto de alguma forma. Entre 2,5 milhões e 5 milhões de pessoas passeiam pelas trilhas de terapia florestal a cada ano.

Outros países estão seguindo o Japão e estudando e promovendo a natureza como uma forma de cura. Juyoung Lee acaba de ser contratado pelo governo da Coreia do Sul, que está investindo mais de US$ 140 milhões num novo Centro Nacional de Terapia Florestal, que deve ser concluído em 2014. A Finlândia também está financiando vários estudos semelhantes. “O Japão nos mostrou que pode haver cooperação entre os campos da medicina e do estudo das florestas”, diz Liisa Tyrvainen, do Instituto de Pesquisa Florestal finlandês.

Eu me encontrei com Miyazaki no mais novo centro de terapia do país, batizado de Juniko e composto por um emaranhado de trilhas e lagos perto das montanhas Shirakami, no norte do Japão. Durante nossa conversa, o cientista ficava tentando espantar mosquitos do rosto e do bem aparado cabelo grisalho. Na verdade, ele não parecia relaxado. Estava, isso sim, preocupado que a trilha estivesse muito lamacenta para seu mais novo experimento, que estrearia uma maneira diferente de medir o oxigênio cerebral, através de um espectrômetro próximo do infravermelho. Na manhã seguinte, ele e Lee trariam até ali 12 estudantes de faculdade para medir sua atividade cerebral e sinais vitais após caminhar, descansar e tomar o banho de floresta. A dupla repetiria o experimento em Hirosaki, uma cidade de 175 mil habitantes a duas horas dali. Eu serviria como uma cobaia eestresseada para Miyazaki e seu colega.

Com todos os detalhes acertados, vários de nós fomos para um restaurante em frente a um hotel de Hirosaki. Tiramos os sapatos e nos sentamos de pernas cruzadas no chão, enquanto Miyazaki distribuía uma impressionante variedade de pratos com ingredientes como ovos de gema mole, algas-marinhas e bolas gelatinosas.

“Por que os japoneses pensam tanto na natureza?”, perguntei a Miyazaki, que se preparava para comer uma fatia de peixe cru.

“As pessoas de seu país não pensam?”, perguntou de volta.

Refleti por alguns segundos. “Algumas sim, outras não.”

“Na cultura japonesa, a natureza é parte do nosso corpo, da nossa mente e da nossa filosofia. Na tradição nipônica, todas as coisas são relativas. No pensamento ocidental, tudo é absoluto.”

Talvez fosse culpa do saquê, mas perdi o fio da meada.

“A diferença está na linguagem”, continuou. “Se eu te perguntar se ‘um ser humano não é um cão, é?’, você dirá ‘não, um ser humano não é um cão’. No Japão, nós dizemos: ‘Sim, um humano não é um cachorro’.” O grande sensei dos estudos da natureza olhou para mim por sobre os pauzinhos de hashi. Lembrei-me da história do estudante zen que perguntou ao professor: “Como você vê tanto?”, ao que ele respondeu: “Eu fecho os olhos”.

Entendi que Miyazaki era como um koan, aquelas impenetráveis charadas zen-budistas. Mas não posso negar que o cara está produzindo pesquisas realmente relevantes.


NA MANHÃ DO EXPERIMENTO na floresta, os garotos de faculdade e eu nos revezamos na cadeira do laboratório móvel, montado na entrada da trilha. Os estudantes eram magrelos, tinham cara de sono e se comportavam com muita educação. Como se estivéssemos recebendo a hóstia sagrada, colocamos pequenos cilindros de algodão sob a língua durante dois minutos, depois os cuspimos em tubos de ensaio. Uma vez analisadas em laboratório, essas amostras revelariam nosso nível de cortisol salivar, hormônio do estresse produzido no córtex e enviado ao cérebro. Lee, calmo e eficiente, nos conectou a eletrodos e equipamentos que mediriam as mudanças em nossa pressão sanguínea, pulso e frequência cardíaca, checando nossa resposta fisiológica à floresta e à cidade.

Essas são medidas padrão que a equipe vem usando há anos. Mas hoje também era a estreia do novo espectrômetro a bateria, que, quando colocado em uma pessoa, dá a sensação de se ter lesmas grudadas na testa. O aparelho é projetado para medir níveis de hemoglobina (que mostra a quantidade de oxigênio no sangue) no córtex pré-frontal. É a parte do cérebro que lida com as funções cognitivas e executivas, como planejamento, resolução de problemas e tomadas de decisão. Os pesquisadores querem saber se estar na natureza é mesmo garantia do descanso necessário para esses lobos frontais. Quando estamos relaxados e à vontade no meio ambiente, o sistema parassimpático começa a funcionar, estimulando o apetite. “É por isso que a comida é mais saborosa na natureza”, explica Miyazaki. Mas o estímulo constante da vida moderna desencadeia nosso sistema nervoso simpático, que governa comportamentos como o medo. Um longo estudo que data dos anos 30 demonstra que pessoas com níveis altos e crônicos de cortisol e pressão sanguínea são mais propensas a doenças cardíacas e depressão.

Quando chegou minha vez de vagar pela floresta por 15 minutos, fiquei feliz em me ver livre dos fios. O canto forte das cigarras ecoava pela floresta. A luz entrava suave na mata, filtrada pelos galhos de árvore, e a terra cheirava a… terra. Fiquei um tempo vidrada numa borboleta amarela. Entendi por que Juniko é candidata a ser a próxima estação de Terapia Florestal do Japão. A população local e os gestores do parque estão querendo obter essa designação oficial pois onde há terapia florestal há turistas e seus ienes. É uma combinação bem conveniente para todos.

Esta não é uma ideia totalmente nova. Lá pelos anos 70, pesquisadores da Universidade de Michigan (EUA), sob o comando de Rachel e Stephen Kaplan, descobriram que a angústia era frequentemente relacionada à fadiga mental. A vida moderna nos exige o que os Kaplan chamam de atenção sustentada (quando precisamos focar em determinada tarefa) em afazeres mundanos, como verificar e-mails, escrever um texto, encontrar uma vaga para estacionar.

O que pode fazer com que nosso cérebro descanse dessa tal de atenção sustentada? “Uma fascinação suave”, explica Rachel Kaplan, em sua sala repleta de plantas na universidade. Isso é o que acontece quando você observa uma borboleta ao por do sol, ou a chuva. Nessas horas, não importa o que aconteça, você para o que está fazendo para observar o que está ao redor. É por isso que os Kaplan recomendam uma visita totalmente não-atlética à natureza de vez em quando.

“Quando você está praticando um esporte, ganha pontos cardiovasculares, mas não está, necessariamente, ganhando descanso mental”, diz Rachel. Pesquisas realizadas por seu colega Jason Duvall sugerem que, quando você está ao ar livre distraído, como quando corre ouvindo música, pode acabar mais irritável e impaciente, com menos capacidade de se concentrar numa tarefa e menos propenso a planejar direito, do que corredores verdadeiramente engajados com a natureza.

Estudos realizados pelos Kaplan demonstram que, depois das pequenas caminhadas no mato, ou mesmo após curtos períodos observando imagens de natureza num laboratório, a capacidade de atenção sustentada recupera-se parcialmente – as pessoas têm um desempenho melhor em testes cognitivos, se comportam de forma menos egoísta ao jogar no computador e relatam se sentirem mais felizes. Diminuir o ritmo alucinado do lobo frontal do cérebro também parece melhorar a criatividade. E quanto mais tempo na natureza, melhor. Um recente estudo realizado pelos psicólogos Paul e Ruth Ann Atchley, da Universidade do Kansas, e por David Strayer, da Universidade de Utah, ambas nos EUA, concluiu que, após três dias de caminhadas e acampamento na natureza, participantes de um curso da Outward Bound, uma organização educacional sem fins lucrativos e pioneira mundial em educação experiencial ao ar livre, melhoraram sua pontuação em 50% em testes de criatividade.

Semelhantemente, o projeto social Borboleta Azul, da Outward Bound Brasil (OBB) e da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), usa acampamentos e caminhadas na natureza para promover a autonomia, independência e ajudar os relacionamentos interpessoais de jovens com alguma deficiência intelectual. “As experiências ao ar livre têm mostrado a essas pessoas que elas são mais capazes do que imaginam”, diz Isabela Abreu, instrutora da OBB. Atividades na natureza, como ser içado à copa de uma árvore, mostram a esses jovens que eles têm condições de enfrentar os próprios medos e inseguranças. E eles se sentem mais destemidos depois de cada jornada ao ar livre.



Ainda assim, é difícil ver o que se passa dentro do cérebro para observar esses processos todos acontecendo – e os neurocientistas querem provas quantitativas das mudanças que a natureza causa em nós. Em laboratórios da Coreia do Sul e dos Estados Unidos, estudos demonstram que, quando os indivíduos observam quadros de natureza, os níveis de hemoglobina caem no córtex pré-frontal, o que significa que a base das funções executivas apagou algumas luzes em sua sala de controle (efeitos semelhantes foram vistos no cérebro de monges tibetanos, que parecem diminuir a intensidade da atividade cerebral através da meditação). Mas que áreas estão sendo ativadas? “Outras partes do cérebro, como a ínsula e os gânglios basais”, explica Marc Berman, ex-assistente dos Kaplan que atualmente está no Instituto de Pesquisa Rotman, da Universidade de Toronto, no Canadá. Essas são áreas às vezes associadas com a emoção, o prazer e a compaixão.

Recentemente Marc começou a usar ressonância magnética para observar o cérebro das pessoas enquanto olham imagens de natureza através de óculos de realidade virtual. “O que estamos tentando descobrir é a aparência de um cérebro restaurado do estresse, e como ele é enquanto está passando por esse processo”, diz Marc. No mundo real, com natureza de fato, é de se esperar que os efeitos sejam ainda mais evidentes. Miyazaki e Lee, com seu espectrômetro medidor de hemoglobina, têm a intenção de descobrir essas respostas.


DUAS SEMANAS DEPOIS dos nossos experimentos em Juniko e Hirosaki, Lee me enviou os resultados preliminares da espectroscopia do meu cérebro. Linhas coloridas e retorcidas num gráfico mostram que as concentrações de oxi-hemoglobina parecem mais baixas na floresta do que na cidade. Lee disse que os resultados dos garotos de faculdade e os meus requerem mais análise, mas para um estudo de campo tão novo ele estava bem otimista. “Estou muito empolgado”, afirmou.

Os resultados não me surpreenderam. Minha peregrinação urbana não havia sido nem de perto tão agradável quanto as trilhas verdes e suaves de Juniko. O centro da cidade de Hirosaki, como muitas cidades de tamanho médio, é mais funcional do que atraente. Caminhando no asfalto quente, passei por quatro estacionamentos, dois pontos de táxi, uma rodoviária e dois ônibus parados soltando fumaça. Os resultados mostraram que meu sistema nervoso respondeu a essas cenas. Minha pressão sanguínea sistólica caiu seis pontos após caminhar pela floresta; em contrapartida, subiu seis pontos após caminhar na cidade. Mas quanto tempo dura a sensação da natureza? Será simplesmente varrida pelo primeiro congestionamento ou toque de celular?

Qing Li, colaborador de Miyazaki e imunologista do departamento de higiene e saúde pública da Escola de Medicina do Japão, em Tóquio, tenta responder a essa pergunta. Li é presidente da Sociedade de Medicina Florestal, um pequeno e crescente grupo de acadêmicos, e está interessado nos efeitos da natureza no sistema imunológico. Células conhecidas como natural killers (células NK, ou matadoras naturais), encontradas no sistema imunológico, podem ser medidas de forma confiável em laboratório. Um tipo de glóbulo branco, as células NK enviam mensagens de autodestruição a tumores e células infectadas por vírus. Sabe-se há muito tempo que fatores como o estresse, o envelhecimento e os pesticidas podem reduzir nossa quantidade de NK, pelo menos temporariamente. Então, pensou Li, se a natureza reduz o estresse, será que ela poderia também aumentar a quantidade de células NK e assim te ajudar a lutar contra infecções e câncer?

Em 2005 e 2006, Li levou um grupo de empresários de meia-idade à floresta. Durante três dias, caminharam pela manhã e à tarde. Exames posteriores de sangue demonstraram que as células NK haviam aumentado em 40%. Um mês depois, a contagem de NK permanecia 15% mais altas do que no início do experimento. Em contrapartida, durante passeios urbanos os níveis de NK não mudaram.

Já que a maioria de nós não pode passar três dias da semana caminhando na floresta, Li estava curioso para saber se uma viagem de um dia a um parque nos arredores de uma cidade poderia surtir efeito semelhante. E surtiu mesmo, aumentando os níveis de células NK e proteínas anticâncer por, pelo menos, sete dias. Li suspeitou que as árvores eram um fator importante. Especificamente, ele se perguntava se as células NK eram afetadas por “substâncias aromáticas voláteis”, também conhecidas como fitocidas (em outras palavras, odores). São os pinenos, limonenos e outros aerossóis emitidos por árvores e outras plantas. Os cientistas japoneses identificaram entre 50 e 100 dessas fitocidas no interior do Japão, e praticamente nenhum no ar da cidade que não se localize diretamente acima de um parque.


ESTA NÃO É UMA IDEIA totalmente fora de propósito. Estudos atribuíram propriedades saudáveis a compostos de solo que podem ser detectados pelo olfato humano em concentrações de dez partes por trilhão. Desde meados dos anos 90, pesquisadores têm estudado os pinenos por suas propriedades antimicrobianas e o limoneno, produzido por cítricos e outras árvores, como um possível supressor de tumores em pacientes com câncer.

Para testar a teoria das fitocidas, Li confinou 12 indivíduos em quartos de hotel. Em alguns quartos, ele ligou umidificadores que vaporizavam óleo de ciprestes; em outros quartos, não colocou nada. Os indivíduos que respiraram o cipreste tiveram um aumento de 20% na quantidade de células NK ao longo das três noites em que permaneceram ali, além de terem relatado a sensação de estarem menos cansados. O grupo de controle não sentiu nada.

“É uma droga miraculosa”, diz Li.

Além de ser a área onde o ar se encontra em sua forma mais pura, a natureza rica em árvores e plantas exala um conjunto de aromas capazes de equilibrar o estado emocional de qualquer ser humano. “A medicina mais antiga já utilizava as ervas naturais como remédio”, confirma o fitoterapeuta brasileiro André Resende. “Óleos de alecrim e jasmim associados exalam um aroma que é excelente relaxante e anti-estresse.”

Parece um tanto exagerado afirmar que os odores das plantas – tipo aquelas arvorezinhas cheirosas penduradas no retrovisor dos táxis – poderiam nos ajudar a viver por mais tempo. Mas Li obteve resultados semelhantes com células NK dispostas em uma placa de petri (recipiente cilíndrico que os cientistas usam para a cultura de microorganismos): elas aumentaram na presença de moléculas aromáticas de ciprestes. O mesmo aconteceu com proteínas anticâncer e proteases chamadas granisulina, granzimas A e B e perforina, que causam a autodestruição das células tumorosas. A teoria olfativa de Li é pouco convencional, mas contém traços da sabedoria zen-budista dos cinco sentidos. Enquanto pesquisadores de outros países mostram às pessoas fotos de paisagem, os japoneses inundam cada orifício de seu corpo com natureza.

Li me convidou para ir a seu laboratório e dar uma farejada em seus experimentos. O edifício encontrava-se praticamente vazio – os estudantes de medicina aproveitavam as férias – e estava escuro, resultado da escassez de energia por causa do desastre nuclear de Fukushima.

Ele segurou uma pequena garrafa de vidro cor de canela, cheia de óleo. “Isto é muito tóxico!”, disse, rindo. “É muito bom, mas muito tóxico.” Fitocidas, palavra derivada dos termos grego e latim para “planta” e “assassino”, são compostos antimicrobianos que afastam as pestes. Em concentrações reduzidas, entretanto, dão uma sensação prazerosa, que às vezes não detectamos conscientemente. Li acredita que, ainda que estar entre grandes árvores da floresta ofereça o melhor benefício, a flora de outras paisagens, e possivelmente até plantas domésticas, também liberam essas substâncias.

Antes de respirar fundo, coloquei meu braço direito em mais uma máquina de medir a pressão sanguínea. Daí abrimos a tampa do elixir da floresta e inalei. Colocamos de volta a tampa e medimos novamente a pressão, que baixou 12 pontos. Olhei para Li, que assentia satisfeito. “Este é um efeito muito forte, maior do que aquele que as pessoas obtêm com o uso de fármacos”, disse. “Eu mesmo utilizo um umidificador com óleo de cipreste quase todas as noites no inverno.” Segundo ele, você não precisa extrair esses óleos com as próprias mãos. Qualquer loja de aromaterapia tem boas opções à disposição.

“O que mais você faz?”, perguntei ao homem de meia-idade com corte de cabelo tipo penico.

Obviamente, Li ouve muito essa pergunta. Ele recita uma pequena lista. “Se você tiver tempo para férias, não vá para uma cidade. Visite uma área natural. Tente ir para o mato um final de semana por mês. Visite um parque pelo menos uma vez por semana. Jardinagem é bom. Em caminhadas urbanas, tente andar sob as árvores. Estar próximo da água também é bom.”

O escritor brasileiro Luís Antônio Pimentel, que viveu no Japão entre as décadas de 1930 e 1940, incorporou esses e outros costumes orientas à sua rotina e desfruta hoje de uma longevidade cerebral que é para poucos. Grande parte de seu trabalho é uma referência à contemplação pura e simples da natureza, como admirar o luar enquanto balança na rede em uma cabana, ou ver a beleza de uma onda que, em questão de segundos, se ergue do oceano, ganha forma tubular e se transforma em espuma. Essa “herança” do Japão pode ser apreciada em suas obras, como Contos do Velho Nipon, de 2007. No ano passado, Luís Antônio completou 100 anos de idade com saúde perfeita e uma memória tão cintilante quanto a de um adolescente que estuda para o vestibular.


NÃO PRECISAMOS DE UM CIENTISTA para nos dizer que flores e aves cantando nos fazem sentir bem. Mas, se os benefícios de sair de casa são conhecidos tão intuitivamente, por que não há mais gente fazendo isso? A recreação na natureza caiu 35% nos Estados Unidos nas últimas quatro décadas, de acordo com a Academia Nacional de Ciências. Nós subestimamos os efeitos curativos, ou talvez sejamos muito facilmente enganados pela facilidade de entretenimento com tecnologia. Mas será que mais dados sobre como a natureza funciona no nosso corpo farão com que busquemos as matas com maior frequência? Sabemos que deveríamos comer mais folhas verdes, porém a maioria não faz isso.

Mesmo quando não gostamos de ficar em meio à natureza, como em dias de inverno rigoroso, nos beneficiamos dela. Pelo menos é o que Marc Berman, de Toronto, descobriu quando os indivíduos de sua pesquisa fizeram caminhadas num bosque durante uma tempestade. Suas cobaias humanas não se divertiram muito, mas ainda assim o desempenho delas foi muito melhor em testes de memória de longo prazo e de atenção.

Agora Marc quer descobrir exatamente que características (lagos, árvores, biodiversidade) geram maior impacto no cérebro. A ideia é que, uma vez que os pesquisadores saibam mais a respeito do que faz nosso cérebro feliz, essa informação possa ser incluída em políticas públicas, planejamento urbano e design arquitetônico. A pesquisa tem implicações profundas para escolas, hospitais, prisões e espaços públicos. Imagine janelas maiores, mais árvores nas cidades e pausas obrigatórias para deitar na grama.

Essa abordagem, claro, é classicamente ocidental. Manipular o meio ambiente, sentir a natureza sem nem mesmo experimentá-la de verdade. De minha parte, vou começar a ter uma abordagem mais inspirada no Oriente. Tentarei diminuir a frequência com que verifico minha caixa de entrada e observar os peixes saltando no lago do parque perto de casa. Certamente vou raspar e cheirar algumas pinhas. Passarei a mão em musgos. Talvez até tome um chazinho de casca de árvore de vez em quando.


Dica Go Outside: Desconecte-se

O que acontece com uma mente em constante movimento? Esta é uma questão especialmente relevante nos dias de hoje, em que estamos constantemente conectados. Em um renomado estudo conduzido pelo professor Leslie Perlow, da Harvard Business School, dos EUA, 26% dos funcionários da empresa Boston Consulting Group admitiram dormir com seus smartphones ao alcance da mão. Nada menos que 51% disseram que checam e-mails obsessivamente durante as férias. Com as crianças, é ainda pior. De acordo com uma pesquisa feita em 2010 pela Kaiser Foundation, adolescentes norte-americanos revelaram que passam aproximadamente 7h30 entre mensagens de texto, Instagram e séries de TV transmitidas online. Estar sempre conectado muda a forma como o cérebro processa informações – e, em alguns casos, muda o próprio cérebro. Um estudo alarmante com adolescentes chineses viciados em internet encontrou sinais de uma atrofia do tecido conjuntivo em áreas do cérebro relacionadas ao comportamento e ao controle emocional.

A cura pode estar mais perto do que se imagina. “Cada vez mais estudos sugerem que a exposição à natureza – seja uma caminhada pelo parque ou a observação de imagens da natureza – pode melhorar a atenção e a memória”, diz Arthur Kramer, diretor do Instituto Beckman de Ciência e Tecnologia Avançadas da Universidade de Illinois, nos EUA.

> SIM, passe um tempo longe do concreto. Em um estudo de 2008 feito pela Universidade de Michigan (EUA), estudantes da instituição que passearam por um parque durante 50 minutos saíram-se muito bem em testes de atenção e memória, quando comparados com seu desempenho após caminhar em ruas movimentadas.

> NÃO se contente com o Discovery Channel. A natureza enlatada oferece menos benefícios psicológicos. Em um estudo de 2007, 90 jovens adultos completaram um teste em um computador em três ambientes distintos: sentados ao lado de uma janela com vista, perto de uma parede branca e de uma TV de plasma mostrando imagens de natureza. O grupo próximo à janela teve uma recuperação mais rápida da frequência cardíaca após o eestressee. Os que estavam perto da TV não ficaram menos ansiosos do que os que estavam perto da parede.


Dica Go Outside: Suje-se

“Enquanto caçadores-coletores e, depois, fazendeiros, os humanos tocaram, respiraram, engoliram e evoluíram junto com uma ampla gama de micróbios”, diz Graham Rook, professor emérito de microbiologia médica da University College de Londres. Esses bichos – desde a flora intestinal e os probióticos, até as bactérias e parasitas – vieram a ter um papel importante na regulação do nosso sistema imune. De acordo com Graham, eles se tornaram nossos “velhos amigos”.

Nos ambientes estéreis urbanos de hoje, no entanto, reduzimos nossa exposição a esses micróbios – e há provas de que estamos pagando um preço alto por isso. De acordo com uma teoria defendida por muitos imunologistas, nosso distanciamento desses microorganismos pode estar contribuindo para uma explosão de alergias, asma e outras doenças sérias. Um novo estudo na Finlândia descobriu que adolescentes que viviam perto de florestas e fazendas hospedavam uma composição diferente de micróbios na pele do que adolescentes em áreas com construções. Os garotos rurais demonstraram níveis mais altos de um marcador que mede a resistência do sistema imunológico, e uma incidência significativamente menor de alergias.

SIM, “entre em contato com habitats naturais”, sugere Ilkka Hanski, professora de biologia da evolução na Universidade de Helsinki, que conduziu o estudo finlandês. Leve seus filhos para uma fazenda ou floresta. Fuce na terra, traga um pouco dela para o seu jardim.

NÃO pare de tomar banho. “Se relaxarmos com a higiene, não iremos reencontrar nosso velhos amigos”, diz Graham. “Só vamos nos expor a novos inimigos.”


Dica da Go Outside: Inclua mais azul na sua vida

Tornar nossa vida mais verde é bom, porém precisamos torná-la azul também. Novas pesquisas sugerem que a água pode ser um elemento-chave para nosso bem estar psicológico. Quando pesquisadores em Exeter, na Inglaterra, mostraram a adultos uma série de 120 fotos de cenas urbanas e naturais com água (rios, lagos e mares) e sem água, as pessoas preferiram, em sua maioria, aquelas com água, mesmo que as cenas também contivessem edifícios e ruas. Na verdade, elas gostaram de paisagens urbanas com água tanto quanto de cenas naturais mais áridas, com florestas e montanhas. “Parece que há uma atração intangível à água”, diz Mathew White, da Escola de Medicina na Universidade Exeter, que coordenou o estudo. “As pessoas relataram uma melhora maior no humor quando passearam perto da costa do que em outras áreas de natureza”, diz.

As pessoas que vivem perto do mar também tendem a ser mais saudáveis do que as que moram mais para o interior, concluiu um estudo de Mathew e seus colegas, realizado em 2012. Utilizando dados do censo britânico, eles concluíram que “a boa saúde é mais prevalente quanto mais próximas as pessoas estão da costa”. Da mesma forma, uma pesquisa de 2010 a respeito dos benefícios de se estar na natureza concluiu que qualquer exposição a espaços naturais melhora o humor, mas que a proximidade da água aumenta significativamente esse efeito benéfico. Quanto mais azul você incorporar a sua vida, menos deprimido vai ficar.

> SIM, “caminhe em trilhas perto de rios, lagos ou do mar, em vez de escolher trilhas sem vista para a água”, sugere Mathew.

> NÃO olhe apenas – escute. Num estudo de 2010 da Universidade de Estocolmo, na Suécia, voluntários que escutaram gravações de uma fonte e cantos de aves após um teste de matemática de dois minutos recuperaram-se mais rapidamente do estresse do que os que escutaram apenas os ruídos do ambiente.


Dica da Go Outside: Treine desplugado

Nos dias de hoje, é raro que um atleta não esteja conectado a algum aparelho, como frequencímetro, iPod, ciclocomputador, GPS. Assume-se que esses equipamentos melhoram seu desempenho, mas há boas razões para se questionar isso. Primeiro, somos melhores do que imaginamos em escutar nosso corpo: pesquisas recentes demonstram que o sensação das pessoas em relação ao nível de esforço físico é mais apurado do que uma tabela que elas eventualmente usem para programar um novo monitor cardíaco. “Em segundo lugar, os equipamentos eletrônicos sutilmente transformam a própria experiência de se estar na natureza”, diz Jason Duvall, pesquisador na Universidade de Michigan, nos EUA. Jason pediu que adultos urbanos sedentários fizessem passeios de 30 minutos uma vez por semana. A alguns deles, pediu-se que caminhassem para se exercitar, outros receberam instruções diretas para, ativamente, engajarem-se com a natureza. Eles “escutaram o canto dos pássaros”, sentiram o cheiro do ar, ou anotaram os tipos de árvores e flores. O último grupo relatou sensações mais fortes de bem-estar após seus passeios, e mais satisfação com o meio ambiente. “Além disso”, afirma Jason, “quando você se conecta a um monitor ou enfia fones de ouvido, os eletrônicos servem como uma tácita confirmação de que se exercitar é uma coisa enfadonha”. A sequência contínua de dados mantém a parte dianteira do cérebro funcionando, então há pouco tempo de relaxamento cognitivo, e os efeitos restauradores da quietude e do verde são, no mínimo, diminuídos.

SIM, deixe os aparelhos eletrônicos em casa na hora de treinar ao ar livre – pelo menos de vez em quando.

NÃO use a natureza só como academia; você precisa se engajar propositalmente com o mundo natural. Segundo Jason, “é incrível quanta vida você pode encontrar durante uma corrida num parque urbano se você procurar com afinco”. E mantenha os ouvidos atentos. “Você não faz ideia de quantas coisas há para se escutar no mundo outdoor, até que comece a procurá-las”, afirma.


Dica da Go Outside: Encontre seu ritmo



Os ciclos humanos de sono e vigília são estabelecidos principalmente pelo sol. Os níveis de luz filtrados pela retina enviam mensagens à glândula pineal, que bombeia ou cessa a produção de melatonina, hormônio associado à regulação do sono. Sem exposição suficiente, os níveis de melatonina ficam desajustados, e os ritmos do corpo saem do rumo. Os desajustes no ciclo circadiano (período de aproximadamente 24 horas no qual se baseia o ciclo biológico) já foram associados ao câncer, diabetes, obesidade e, em curto prazo, ao declínio da performance atlética e à tristeza.

A luz natural (em intensidade suficiente e composição espectral correta) é o fator principal na regulação do nosso ciclo circadiano, de acordo com um estudo de 2012 com trabalhadores nos polos Norte e Sul. Os pesquisadores descobriram que, durante os escuros invernos polares, uma hora de luz solar artificial pela manhã era suficiente para estabilizar o ciclo circadiano dos trabalhadores. Mas também necessitamos da escuridão. Luz demais, especialmente à noite, estraga nosso relógio interno, conforme esclarecem experimentos recentes realizados no Instituto Politécnico Rensselaerem Troy, em Nova York. No estudo, estudantes universitários utilizavam tablets com luz de fundo durante duas horas antes de dormir. Após esse período, suas concentrações de melatonina caíam 23%.

> SIM, entregue-se ao sol. Seus raios permitem que o corpo humano sintetize vitamina D, nutriente deficiente em vários de nós. Um estudo de 2009 com corredores de fundo descobriu que 40% deles tinham níveis sub-ótimos de vitamina D. Porém meros cinco a 30 minutos ao dia de radiação ultravioleta são suficiente para promover a síntese de vitamina D, de acordo com o autor do estudo, o professor D. EnetteLarson-Meyer, da Universidade de Wyoming (EUA).

NÃO leve o iPad para a cama. Mariana G. Figueiro, diretora do Centro de Pesquisa de Luz em Rensselaer, recomenda “reduzir o uso de telas iluminadas pelo menos duas horas antes do horário de dormir”.


Dica da Go Outside: Tire ao menos cinco minutos para curtir a natureza

Cinco minutos de imersão na natureza é tudo que você precisa para elevar o espírito. Assim diz Jules Pretty, professor da Universidade de Essex que sintetizou, em 2010, os resultados de cerca de uma dúzia de estudos para um resumo dos efeitos da natureza no corpo. “Toda atividade outdoor oferece benefícios físicos e mentais”, diz Jules, completando que a maioria deles já é conseguida quando se vai para o ar livre. Os primeiros cinco minutos têm o maior impacto, conforme sua pesquisa: o humor das pessoas continua a melhorar a partir do sexto minuto, mas nem tanto quanto nos primeiros cinco.

Se até mesmo pequenos descansos ao ar livre conseguem reduzir o estresse, imagine o que uma semana na natureza pode fazer pela sua cabeça. Num estudo de 2007 com 57 participantes adultos de um curso da Outward Bound, o psicólogo David Strayer, da Universidade de Utah, e os cientistas Paul e Ruth Ann Atchley, da Universidade do Kansas, descobriram que, após quatro dias na floresta, os indivíduos se saíram 50% melhores em testes de medição de criatividade.

> SIM, inclua momentos outdoor na sua agenda. “Estacione o carro em uma rua mais longe, perto de um parque”, sugere Jules. “Tome seu café no quintal. Realize reuniões ao ar livre. A chave é fazer com que o tempo de verde seja parte da sua vida diária.”

> NÃO deixe de lado incursões longas e ininterruptas na natureza. No estudo de Jules, um segundo pico significativo nos benefícios para a saúde mental ocorreram quando as pessoas passaram o dia inteiro ao ar livre. Enquanto isso, a pesquisa com a Outward Bound sugeriu que três dias no mato eram suficientes para dar um impulso na cognição. Vários finais de semana na natureza podem trazer mais benefícios do que uma viagem de duas semanas.


(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de janeiro de 2013)

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