Projeto Aquaman lança desafios em águas abertas

Na luta para popularizar as travessias aquáticas no Brasil, um trio de nadadores apaixonados por águas abertas lança projeto pioneiro

Por Bruno Romano*

DESAFIOS DE VERDADE precisam de dois ingredientes básicos: um cenário hostil e um objetivo intimidador. Rodear a nado a Ilha Anchieta, no litoral norte de São Paulo, atende bem aos requisitos. Repleta de misteriosas lendas locais e de um sangrento passado ligado a um extinto presídio, a ilha de 8,3 km2 próxima à costa de Ubatuba (SP) é hoje um parque estadual e importante reduto de vida selvagem. Suas águas imprevisíveis caíram “como uma luva” para a estreia dos desafios Aquaman, um corajoso projeto que almeja impulsionar as travessias em águas abertas no Brasil.

A inédita volta à ilha – 25 km ininterruptos feitos em pouco mais de seis horas – tem a assinatura de Samir Barel e Marcos Campos. Esses dois dedicados nadadores, acostumados a duelar entre si nas principais competições da modalidade nos últimos anos, decidiram juntar esforços para um rumo comum. Desde que iniciou oficialmente essa nova fase, em setembro de 2014, a dupla completou nos últimos anos a volta na Ilha do Mel (PR), o percurso de 42 km entre Porto Belo e Florianópolis (SC), no litoral de Santa Catarina, além do trajeto entre o Leme e o Pontal (RJ), com 35 km. Os desafios (os três primeiros até hoje exclusivos) chamam a atenção, porém a ideia que une os dois nadadores corre por uma raia paralela: abrir caminho para fomentar o esporte, transformando o conceito de feitos inatingíveis em algo possível para quem estiver disposto.

“Buscamos travessias desafiantes e de metragem longa, mas que sejam acessíveis em logística e viáveis financeiramente para outros atletas também”, diz Samir, 34, primeiro brasileiro a completar a chamada Tríplice Coroa, somando a volta à ilha de Manhattan (EUA) e as travessias do Canal da Mancha, entre Inglaterra e França, e do Canal de Catalina, no Oceano Pacífico. Nascido em São José dos Campos (SP) e morador de Campinas (SP) desde a infância – cidade de onde toca atualmente uma academia e uma assessoria esportiva focadas em natação –, Samir começou a competir nas piscinas aos 6 anos, em uma longa trajetória que culminou com um bom arsenal de recordes e títulos estaduais e nacionais.

Em 2007, conheceu as águas abertas e, logo no ano seguinte, nadou sua primeira 14 Bis, tradicional maratona aquática de 24 km ligando Bertioga a Santos (SP). Logo de cara, ele subiu ao topo do pódio. Na esteira da experiência positiva, partiu em 2012 para distâncias mais longas, em um caminho que o levou ao Grand Prix, principal circuito mundial de travessias, alcançando o top 10 em 2014. Só que ainda faltava algo. “Eu sentia vontade de explorar meus limites e outras águas um pouco mais”, confessa Samir. Em um bate-papo com Marcos, dividindo um quarto de hotel durante uma competição no Rio de Janeiro, seu sentimento encontrou companhia. “Queríamos mesmo ser amigos, e não mais ‘inimigos’ na água”, resume Marcos, 33, sobre o fim da fase mais competitiva.

Foto: Rômulo Cruz

Diferentemente de Samir, Marcos experimentou a natação em piscinas dos 3 aos 14 anos, antes de se afastar das águas por uma década, na fase de adolescente heavy metal, como ele mesmo descreve. Aos 24, com um problema detectado na coluna, a natação voltou à rotina. Não tardou para retomar gosto pela atividade e começar a se dar bem em provas de resistência. Avance o filme para o desafio na ilha Anchieta para encontrar Marcos e Samir lado a lado, colhendo os frutos de anos de muita dedicação dentro e fora d’água – além de nadador, Marcos trabalha como empresário em Taubaté (SP).

Até então a história de contornar ilhas a nado empolgava o recém-formado time. Entretanto só quando um vídeo da expedição pioneira foi lançado é que eles se deram conta de quão carente estava o público brasileiro de águas abertas. “Fizemos algo não competitivo que atraiu muita atenção dos apaixonados por natação”, reflete Marcos. “A gente precisava começar a dividir essa nossa alegria e satisfação com mais gente”, completa Samir. O desafio então cresceu, deixando de ser apenas pessoal. E o novo plano já nasceu ambicioso: encorajar novos “Aquamen” por aí. Afinal, mergulhar em águas ainda mais imprevisíveis e tentar nadar contra a correnteza não seria exatamente uma novidade.

DESDE QUE SE TORNOU modalidade olímpica, em Pequim 2008, a maratona aquática vem atraindo gente da piscina. De lá para cá, o país soma bons resultados em mundiais e provas relevantes de diversas distâncias em travessias. Destaque para as performances de Ana Marcela Cunha, atual tricampeã mundial nos 25 km; Allan do Carmo, campeão do circuito mundial em 2014; e Poliana Okimoto, ouro no mundial de Barcelona 2013, prata no Pan de 2011 e bronze na Rio-2016 (única medalha entre nadadores brasileiros nos Jogos), competindo nos 10 km, a distância olímpica oficial.

Foto: Rômulo Cruz

Os feitos do trio têm servido como fonte de inspiração. Mesmo assim, promover as travessias por aqui segue um enorme desafio. Com dificuldade de retorno, muitos clubes ligados à natação só costumam focar no cenário de águas abertas na aproximação dos Jogos Olímpicos. A nova aposta do Aquaman, entretanto, procura deixar marcado outro rastro, unindo forças de profissionais com amadores. “Queremos mostrar como todo o processo é legal: o antes, o durante e o depois de uma travessia”, aponta Samir. “A ideia não é ser ‘super-herói’ de ninguém, pelo contrário, nos esforçamos justamente para que mais gente seja capaz de realizar o que estamos fazendo”, conclui Marcos.

Para ampliar o projeto dos desafios, Samir e Marcos se aliaram a Matheus Zica, 38, um publicitário de Campinas (SP) também apaixonado por águas abertas. “Nosso intuito é democratizar a maratona aquática, torná-la mais acolhedora e acessível”, acredita Matheus, que se aproximou do assunto quando percebeu que estava cansado de “contar azulejos” nas piscinas, na busca de uma rotina mais perto da natureza e das viagens. Praticante assíduo da vertente mais outdoor da natação há seis anos, ele redescobriu o encanto pelo esporte a ponto de completar travessias como 25 km em mar aberto na região da ilha do Arvoredo, em Santa Catarina.

Atual gestor do projeto Aquaman, Matheus tem colocado suas fichas em um circuito de provas aberto ao público geral, que leva o mesmo nome dos desafios paralelos de Samir e Marcos. “A ideia de se expor em um ambiente aberto ainda é um pouco exótica, e muita gente tem bloqueio, mas estamos mostrando na prática que várias pessoas são capazes”, defende.

Para Marcos, um dos segredos pode estar nesse contato direto com os praticantes. “Nós não somos competitivos em nível olímpico, mas temos respeito na cena, por isso acabamos entramos em um patamar acessível, sem aquela necessidade de ‘quebrar o gelo’”, conta, sobre o atual convívio intenso com novatos. Empolgado com os rumos da modalidade, para ele muito mais descontraída do que o ambiente das piscinas, Marcos também ressalta um atrativo: como as condições nunca são as mesmas e, aliás, podem mudar em um mesmo dia. “O ‘jogo’ está sempre aberto.”

Desde a inauguração do circuito Aquaman em 2015, o número de adeptos já se multiplicou, alcançando a faixa de 700 praticantes em uma única etapa – a ilha dos Gatos, em Camburi (SP), e as praias da Fortaleza, em Paraty (RJ) e da Cocanha, em Caraguatatuba (SP) já sediaram eventos. Assim como os desafios individuais, as competições desbravam picos com grande potencial para o esporte, mas pouco ou nada aproveitados. Nestes últimos anos, outros circuitos também surgiram no país com força, enquanto alguns cresceram, fortalecendo a cena. “Ainda estamos engatinhando no Brasil, porém o crescimento é notável, as pessoas estão dispostas a se desafiar e a quebrar tabus”, observa Marcos.

Samir percebe que a procura é estimulada por uma combinação atraente de motivação pessoal, planejamento e estratégia. “O grande barato é se adaptar ao que a natureza oferece naquele dia”, diz. “No fim, a melhor técnica acaba sendo a mais eficiente para as condições do ambiente.” Com essa intenção de desmistificar “heróis” das águas, a trupe Aquaman procura deixar claro que informação, alimentação e treinos corretos formam a via mais confiável a se seguir.

Ao se lançar no incerto destino das águas, outras ideias também têm povoado a mente do trio. Desde levantar a bandeira de um esporte “limpo”, que pode visitar áreas naturais protegidas praticamente sem deixar impacto, até a importância de mostrar realidades de populações diretamente ligadas a nossos recursos hídricos. No calendário competitivo, por exemplo, o Aquaman quer tocar agora na ferida da escassez de água e promover uma travessia de 20 km em parte do sistema Cantareira, na época chuvosa de março de 2018.

O trio batalha agora para concretizar travessias inéditas nos próximos anos – ao menos um desafio em cada Estado costeiro brasileiro. Samir e Marcos ainda vislumbram cair na água doce, com percursos envolvendo locais de relevância ambiental, como os afluentes do Amazonas e o rio São Francisco. Quanto mais ousadas as braçadas, maior tem se mostrado a exposição, assim como as descobertas. Nesta imprevisível cruzada das águas, a única certeza é que eles já não estão mais sozinhos.

*Reportagem publicada na edição nº 145 da Revista Go Outside, outubro de 2017

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