Linhas celestiais

Para Rafael Bridi, a inédita travessia de highline no Dedo de Deus foi também uma conexão espiritual

Para Rafael Bridi, a inédita travessia de highline no Dedo de Deus foi também uma conexão espiritual

Dedo de Deus em destaque nas últimas travessias
Dedo de Deus em destaque nas últimas travessias

Texto e fotos Rafael Bridi, especial para a Go Outside Online

TUDO COMEÇOU COM uma foto. Assim que bati o olho no perfil da Serra dos Órgãos (RJ) um abismo perfeito veio à minha mente. A geografia do Dedo de Deus e a sua conexão com o “vizinho” Cabeça de Peixe invocaram o sonho mais audaz até hoje na minha vida de highliner. Naquele exato momento, minha cabeça pensou em conectar aquelas duas montanhas, e comecei a pressentir as dificuldades e os desafios que eu teria de enfrentar para chegar lá.

Quatro anos se passaram desde então, com aquela imagem teimando em habitar o meu imaginário. Concretizar um highline naquelas montanhas significava não apenas elevar o meu nível, mas também o do esporte. Some a isso o Dedo de Deus, uma montanha de  1.692 metros de altitude em um cenário surreal, com toda a sua história que se mistura a do montanhismo nacional – a primeira ascensão foi 1912. Além disso, sua forma (semelhante a uma mão apontando para o céu), ilustra a bandeira do estado do Rio de Janeiro.

Para realizar uma empreitada como esta, tento desmembrar em partes. Foi assim, voltando a atenção aos pequenos detalhes, que percebi que a minha bagagem ainda não era suficiente. Os riscos ainda eram mais altos.

Foram dois anos e meio de total dedicação. Horas de estudos, vivências no montanhismo e mais treinos de escalada em suas diferentes vertentes. Fiz viagens para dentro e fora do Brasil, tentando simular ambientes inóspitos que exigem uma logística complexa. Os acertos em alguns projetos e os diversos erros em outros fizeram desta construção de habilidades um trajeto transformador e cheio de significados para mim.

Evoluí tanto na prática de slackline quanto em minha alegria em viver. Fui enfrentando meus medos, saindo sempre que possível da zona de conforto. Tudo isso me deu confiança para, em 2016, eu tirar o highline do Dedo de Deus do papel. Só não imaginava que esta seria apenas a primeira tentativa, cheia de surpresas.

Paisagem da região da Serra dos Órgãos

O PLANO ERA ousado, mas não medimos esforços. Juntamos guias locais, cinegrafistas, amigos e atletas de diferentes países e formamos um grupo grande e distinto. No entanto, ninguém tinha muita interação entre si. Não havíamos estado em projetos semelhantes anteriormente, ainda que tínhamos claro o objetivo de conquistar o highline do Dedo de Deus. E essa era a nossa força coletiva.

No começo, a chuva não deu trégua na serra. Foi mais um desafio e tanto para testar nosso espírito de enfrentar situações adversas. Decidimos iniciar a montagem mesmo assim. A equipe progrediu na montanha, instalando cordas fixas para puxar o material para cima. Íamos avançando, calculando os riscos e buscando motivação para continuar.

O cenário hostil, no entanto, parecia estar determinado a minar o lado psicológico de nossos integrantes. Atritos entre nós foram  inevitáveis e, numa certa hora, a descrença tomou conta. O ânimo diminuía a cada gota de chuva que caía.

Ao lidar com a natureza em sua forma mais selvagem e remota, devemos escutar e aprender com seus sinais. Ao fim, todo o nosso esforço não foi suficiente: acabamos derrotados pela montanha. Uma queda dura de aceitar. Sentimentos diversos tomaram conta assim que nos despedimos da Serra dos Órgãos sem montar o tão sonhado highline.

Não é porque eu sei o final desta história, mas, naquela época, algo já me dizia que voltaríamos ainda mais fortes. Os erros indicaram (da forma mais difícil de aceitar, é claro) onde ainda tínhamos que melhorar. Aí estava a chave do nosso sucesso.

Em agosto, menos de um ano depois, voltávamos na época certa, perto do período de seca. Optamos por formar um grupo menor, até por que carregaríamos os equipamentos para cima da montanha Cabeça de Peixe, e não do Dedo de Deus, como havíamos tentado, em vão, um ano antes.

Uma mudança na logística e eliminamos todo o trabalho de hauling (o reboque dos equipamentos através de técnicas de escalada) para acessar o cume do Dedo de Deus. Não que a missão seria fácil na Cabeça de Peixe, mas o plano acabou fazendo a diferença.

NA NOVA MISSÃO, estavam dois brasileiros – eu e o local Ighor Pereira, que também deu duro em 2016 –, dois franceses – Pablo Signoret e Antony Newton – e dois norte-americanos – Jerry Miszewski e Ryan Robinson. Um time pequeno, mas extremamente competente, formado por ex e atuais recordistas mundiais de highline (em distância e altitude) e de outras modalidades do slackline. Atletas que vêm elevando o nível das expedições e tornando possíveis travessias que, até então, só eram reais em nossos mais corajosos devaneios.

Rafael Bridi encara a dura montagem da linha

Com base montada no abrigo de Teresópolis (RJ), bem próximo ao Parque Nacional da Serra dos Órgãos, encaramos o primeiro dia cheio de nuvens e expectativas. Uma chuva fina nos recebeu, e a semelhança do clima do ano anterior começava a nos preocupar. Buscando manter a confiança, separamos os equipamentos e decidimos subir ao cume da Cabeça na manhã do dia seguinte.

Zarpamos cedo, dividindo o peso da fita e dos equipos conectando-os como uma centopeia. Três atletas carregavam mochilas pesadas, enquanto outro integrante ficava de prontidão para revezar. Força e sincronia seriam essenciais para vencermos a caminhada íngreme e os trechos de escalada sem proteção. A tal ideia da “fitopeia”, como apelidamos nosso sistema de transporte, deu certo. Montamos a ancoragem e descemos felizes com o progresso.

É CHEGADO O grande dia! O céu começou a abrir, a rocha estava secando. Dependíamos de mais uma subida à montanha, e então voltar ao abrigo com a linha montada. Resumindo, teríamos que escalar o Dedo de Deus e conectar os dois cumes, uma parte extremamente delicada e fundamental para o nosso sucesso.

Parti mais cedo com o Antony para o Dedo, enquanto os outros quatro integrantes seguiram para a Cabeça. Começamos em ritmo forte, mas ao chegarmos nas “chaminés”, já não era fácil transportar uma mochila pesada, carregada com todo o material da ancoragem e mais os equipamentos da conquista. A pressão – psicológica e física – era enorme.

Controlar e canalizar os pensamentos e todas as responsabilidades de forma positiva ajudou a mantermos o ritmo e a concluirmos a escalada com todo o equipamento. Cinco horas e meia depois, alcançamos o cume. Não enxergávamos um palmo à nossa frente.

Por um breve instante, entre as nuvens, avistamos a outra equipe na outra ancoragem. Um momento de alegria e saudação, mais um importante passo dado. O sentimento de conquista é bom, porém, era hora de muito foco e atenção para a próxima etapa. Acionamos a comunicação por rádios e logo iniciamos o voo do nosso drone, que levaria uma linha de pesca com 400 metros de comprimento. Sem nenhuma visibilidade, o desafio era grande, mas a manobra funcionou. Pouco tempo depois, a fita, enfim, estava montada.

Vista aérea do highline “Na Linha de Deus”

Que sensação incrível ver aqueles dois dias de trabalho intenso, sincronia e muitos esforços traduzidos naquilo. A vontade de celebrar era grande, mas a prudência ainda tinha que comandar nossas decisões. Não custa lembrar que o cansaço era enorme a esta altura. Com cautela, utilizando nossas lanternas, descendemos do Dedo de Deus e encontramos a outra equipe, antes de seguirmos juntos ao refúgio.

O dia seguinte foi de descanso. O céu azul nos ajudava a renovar as energias. Decidimos dar uma espiada no highline da estrada. E dava mesmo para vê-lo lá de baixo. Que imagem incrível. Olhar os picos conectados foi um momento de êxtase. A empolgação nos inspirou a juntarmos as tralhas e partirmos ao cume, onde passaríamos a noite.

DURANTE A CAMINHADA, veio à minha mente tudo o que havíamos passado no ano anterior e nesta nova tentativa. Talvez por isso, quando finalmente chegamos, todos nós ficamos em completo silêncio. Foi um momento totalmente espontâneo de apenas contemplação. Que composição incrível – aquela fita e as montanhas. Uma linha era agora parte do cenário da Serra dos Órgãos.

Pablo decidiu fazer a primeira tentativa. E de cara já mandou a travessia (de 323 metros de distância por 500 metros de altura) sem quedas. A primeira entre a Cabeça e o Dedo, batizada de “Na Linha de Deus”. A história estava sendo escrita. As cores do final de tarde começam a se revelar e os ventos se intensificaram, acabando com a chance de outras “caminhadas” mais tranquilas. Decidimos comer e descansar.

O francês Pablo Signoret abre os trabalhos

Dormindo na rede, fui acordado pela luz da lua cheia que acendeu no céu. Pouco tempo depois, não imaginava que iria despertar com o Ryan me chamando para ver o nascer do sol mais bonito da história. Sem pensar muito, pulei para fora do conforto do saco de dormir e fui em direção ao cume, saudar as primeiras luzes do dia.

Uma manhã mística e introspectiva: cores iam se transformando por trás da formação clássica do Parque Estadual dos Três Picos Três Picos, um momento em que a linha, as nossas energias e os raios solares vibravam em uníssono. A calma e a sensação agradável de estar no cume só motivaram mais travessias: primeiro o Ryan, seguido do Jerry e, depois, eu.

Não via a hora de poder experimentar aquele vazio. Queria fazer parte do silêncio, flutuar no ritmo do vento e das ideias. Chegar ao topo do Dedo de Deus de um jeito que, até então, parecia “lunático”.

As condições estavam ótimas. Caminhei curtindo cada passo, cada pequeno desequilíbrio. Tive uma queda em minha travessia de ida. Mas os sentimentos ao pisar na outra ancoragem foram extremamente intensos. Algumas lágrimas e uma calma absurda tomaram conta de mim.

Decidi me soltar da linha e aproveitar aquela experiência sozinho. Naquela vista privilegia do mundo, conectei-me com meus sonhos e com os meus anseios. Não podia existir uma sensação melhor do que aquela, com o vento batendo em meu rosto. Concentrei novamente, me preparando para a caminhada de volta. A sensação de sair do Dedo para enfrentar a altura foi transformadora. A chegada ao ponto de partida marcava a realização de um passo marcante em minha trajetória.

A “vista de gala” no dia intenso de travessias

A previsão de mau tempo nos fez antecipar em um dia a desmontagem. A descida demandava muita atenção, pois o enorme peso combinado com o cansaço extremo acaba se tornando um grande fator de risco.

Mesmo perto do fim das travessias, o cenário era de fantasia. Nuvens se formavam entre o Dedo de Deus e a Cabeça de Peixe. O sol nascia por trás das nuvens, em um grande momento de esplendor. Focamos em nossa última caminhada. Estávamos cercados de uma beleza inexplicável, que se tornaram momentos de uma inesquecível transformação.

Curtindo o pôr do sol na Cabeça de Peixe
“Cabeça feita” ao fim de um dia de “caminhadas flutuantes”

Deixamos as escarpas das montanhas do Parque Nacional da Serra dos Órgãos em total harmonia e com algumas memórias eternizadas. Nossas almas também estavam lavadas: finalmente nos livrávamos do fracasso de 2016. Nosso período de conexão espiritual com aquela terra se encerrava da melhor maneira possível.

Além disso, acredito que escrevemos mais um capítulo na história do montanhismo – local, brasileiro, mundial. Tenho ainda que processar muita coisa em mim, mas não tiro da cabeça que gostaria de ver a repetição desta linha – e de outras naquela região.

Os aprendizados foram intensos, as conexões foram profundas. Foi mais uma saga cheia sentimentos poderosos, nervos à flor da pele e decisões difíceis. Enfim, o sonho virou realidade. Saímos de lá fortalecidos e com uma certeza: a de que o equilíbrio faz cada vez mais sentido, e a busca por seus detalhes ele é infinita.

Rafael Bridi só tem a agradecer pelo sucesso desta expedição

 

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