Guerra submersa

Como a invasão de um coral está colocando em risco toda a costa brasileira, em um dos momentos mais delicados para a nossa biodiversidade

Por Bruno Romano

UMA BATALHA SILENCIOSA tem tomado conta do litoral brasileiro. Disfarçado na forma de belos tentáculos amarelos e laranjas, o vilão dessa guerra dos mares recebe o nome de coral-sol, um perigoso invasor que já se espalha por 3.000 km de costões rochosos do Nordeste ao Sul do país. Seu efeito devastador sobre ambientes marinhos delicados – combinado com a agilidade para dominar territórios e a sua impressionante capacidade de reprodução – já o tornou o inimigo número 1 em algumas das mais importantes áreas de preservação do Brasil.

Quando o termo “bioinvasão” surge em uma conversa sobre corais aparentemente inofensivos, não resta nenhuma dúvida de que a coisa ficou bem séria. É exatamente esse o caso dos corais-sol, um nome popular dado para duas espécies, a Tubastraea tagusensis e a Tubastraea coccínea. A primeira vem de zonas equatoriais ao redor de Galápagos, e a segunda, do Indo-Pacífico. Ambas já se alastram também pelos mares do Caribe, do Golfo do México e da Flórida (EUA).

Análises apontam que sua chegada por aqui, na década de 1980, está ligada a plataformas de petróleo e gás, que se aproximaram do nosso litoral. O fato é que nesses mais de 30 anos de visita indesejada os corais invasores têm feito estragos enormes, a ponto de colocar em risco os recifes de Abrolhos (BA), maior ponto de diversidade de corais do Atlântico Sul, e de já dominarem a paisagem submersa na Ilha Grande (RJ) e seus arredores, onde a situação é classificada como grave.

Não à toa, o maior esforço na luta contra os corais nasceu no litoral fluminense, com a criação do Projeto Coral-Sol (PCS) em 2006, uma iniciativa do Instituto Brasileiro de Biodiversidade (BrBio). Desde as primeiras ações desse coletivo, que segue na ativa e hoje serve de referência para outras “trincheiras” pelo país, fica nítido como os bioinvasores interferem em espécies nativas, competem e necrosam outros semelhantes e desestruturam ecossistemas como um todo. “O forte impacto ambiental logo se multiplica para problemas sociais e econômicos”, diz Simone Oigman-Pszczol, bióloga marinha e diretora-executiva do BrBio, que tem liderado os trabalhos do PCS, buscando antídotos via pesquisa, monitoramento, educação e, claro, retiradas dos intrusos.

Nestes últimos anos, o PCS já soma cerca de 230 mil colônias removidas. Algo em torno de 8,5 toneladas, fruto de quase duas centenas de expedições ao mar. O empenho vem de uma rede de aproximadamente 40 pesquisadores envolvidos com o tema e de uma equipe interdisciplinar com o dobro desse contingente ligada à causa e de uma equipe interdisciplinar com o dobro desse contingente buscando soluções inovadoras. Os números dão uma ideia do verdadeiro tamanho da encrenca. Mesmo assim, em muitos locais o coral segue ganhando terreno. A explicação é simples: na ausência de predadores e de uma atividade contínua e eficaz de retirada (algo tão trabalhoso quanto custoso), o espaço fica escancarado para a sua proliferação. Se olharmos para a Ilha Grande, por exemplo, estamos falando quase de um polo exportador de larvas, forma ágil e flutuante que os corais têm de se disseminar. A média de avanço chega a ultrapassar 2 km por ano.

É por essas e outras que o coral-sol tem acendido o alerta vermelho em instituições ligadas à vida marinha e feito pesquisadores brasileiros saltarem da cadeira. Invasões biológicas assim são consideradas atualmente uma das principais ameaças para a biodiversidade global. “Apesar de termos outras espécies invasoras, que já estabeleceram populações com densidades significativas no ambiente marinho brasileiro, o caso dos corais-sol é ímpar”, atesta Marcelo Kitahara, professor e pesquisador da Universidade Federal de São Paulo. Com olhos atentos para a situação da Ilha de Búzios e do Arquipélago de Alcatrazes, ambos no litoral norte paulista, a Unifesp, em colaboração com o Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo (CEBIMar-USP) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) tem direcionado esforços para entender melhor os efeitos da bioinvasão e aprimorar técnicas de manejo.

   “É enorme o potencial do coral-sol para se tornar uma espécie predominante em costões rochosos, marinas e outras estruturas submersas, mudando de forma substancial a dinâmica desses sistemas biológicos”, acrescenta Augusto Flores, professor e pesquisador do CEBIMar. Cálculos atuais dão conta de que uma única colônia é capaz de produzir cerca de 215 mil larvas T. coccinea e mais de 73 mil T. tagusensis em um período de 15 anos. E mais: os estudiosos já comprovaram que essa capacidade só aumenta proporcionalmente ao tamanho da colônia. O que significa que o problema, caso não haja uma intervenção correta, só tende a se agravar.

Isso ajuda a dimensionar o tamanho do desafio em Alcatrazes. Os corais-sol foram identificados na região em 2011, durante um levantamento de dados para a elaboração do plano de manejo da Estação Ecológica Tupinambás, a unidade de conservação federal do ICMBio na área. Dois anos depois, saiu do papel um projeto efetivo de localização de todas as colônias pelo arquipélago. Já são 22 pontos mapeados, sendo quatro deles em grau avançado. Em cada um, são feitas retiradas manuais, um esforço exaustivo que já ultrapassa a marca de 50 mil colônias.

Já está em funcionamento um sistema de monitoramento da infestação, instalado no fim de 2015 e que gera material fotográfico. “Todo o aparato dá conta apenas de controlar a invasão e ainda está longe de eliminar o inimigo”, conta Kelen Leite, analista ambiental do ICMBio e chefe do núcleo de gestão integrada (NGI) de Alcatrazes. “Precisamos de novos estudos e de um acompanhamento científico sistemático para aprimorar as técnicas de controle e minimizar os impactos”, ressalta Kelen, que acredita que a situação ainda está em fase reversível. “Não podemos correr o risco de deixar essa biodiversidade ser afetada”, conclui.

DESCENDO PELO LITORAL, rumo ao sul, duas embarcações recheadas de equipamentos de mergulho partem da costa catarinense em direção à Reserva Biológica Marinha do Arvoredo (SC). Duplas de mergulhadores ajustam seus cilindros que darão conta de dois mergulhos de 45 minutos cada. Com uma marreta e uma ponteira em mãos, um membro da dupla é responsável por destacar o coral-sol dos rochedos submersos. O outro recolhe o material. Depois, as funções se alternam. Na volta à base, todos trabalham juntos na contagem e análise dos corais. Cerca de 5.000 colônias já foram retiradas desde o início do manejo.

“Essa rotina puxada não fazia parte de várias áreas de preservação nacionais. Mas, agora, são vistas como prioridade”, revela Adriana Carvalhal, analista do ICMBio e responsável pelas áreas de pequisa, monitoramento e manejo na reserva do Arvoredo. “Não queremos pagar para ver o que pode acontecer se esses corais se alastrarem”, diz ela, que participa ativamente dos mergulhos e das saídas ao mar. Colônias de coral-sol já foram avistadas nas proximidades das ilhas Galé e Arvoredo, esta última com a face sul fora da área de proteção, de onde surgiu, aliás, em 2012, o primeiro registro de invasão.

Na época, um biólogo e proprietário de uma operadora de mergulho alertou para a presença dos temidos tentáculos amarelos e laranjas. Foi o suficiente para instigar a criação de um novo projeto local, o Bioinvasores Marinhos, que começou em 2013 e durante dois anos atuou intensivamente no monitoramento e manejo do coral invasor, em colaboração d=com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e da chamada Rede Arvoredo (unindo outros atores do pedaço, com o auxílio direto do PCS na capacitação dos envolvidos). Segundo Adriana, o foco na Galé está erradicado, e a presença atual é restrita ao Arvoredo, em uma situação que ela considera controlada.

Enquanto a agilidade parece ser mesmo uma grande arma, a retirada manual ainda é a principal forma de combate disponível. em uma tentativa de melhorar a eficiênciada remoção, pesquisadores do CEBIMar e da Unifesp vêm investindo em um sistema de sucção. “Essa ideia vem da necessidade de não deixarmos fragmentos das colônias manejadas no ambiente, uma vez que a capacidade de regeneração dessas espécies é elevada”, analisa Marcelo. A tecnologia também agregaria eficiência na retirada dos chamados recrutas, as versões juvenis dos corais, com menos de 1 cm de diâmetro, que exigem ainda mais tempo e paciência dos mergulhadores.

“Temos ainda que aprimorar nossa técnica, pois estamos muito embasados em pesquisa”, afirma Simone, que publicou em março deste ano, com especialistas da UERJ e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um detalhado estudo de título bem explicativo: “O controle da invasão do coral-sol no Brasil não é uma causa perdida”. Com um time de peso envolvido há anos no assunto, o artigo mergulha desde a introdução dos corais no nosso litoral até formas eficazes de atuação, passando por erros e acertos durante o caminho.

A pesquisa destaca que existem “numerosas evidências” de que os corais-sol chegaram por aqui em “plataformas de petróleo e/ou navios de perfuração”. O estrago inicial está associado ao fundeio de plataformas infestadas na baía de Ilha Grande. Na sequência, vieram Arraial do Cabo (RJ) e na plataforma P-14, próxima a Itajaí (SC), seguidas de casos mais atuais na Bahia e no Sergipe. Todas as ocorrências têm ligação direta com estruturas da Petrobrás. Ainda que a estatal tenha se mexido para colaborar com a remoção de colônias – e até patrocinado o período mais “fértil” do combate liderado pela PCS, entre 2011 e 2012 –, a prevenção de novas infestações é tida, em consenso geral dos órgãos de monitoramento e pesquisa, como base para a vitória onde o coral-sol ainda não chegou. Nos locais contaminados, o manejo é urgente.

“Sem vontade política, isso tudo corre o risco de acabar em nada, e vamos continuar com ações isoladas”, adverte Adriana, sobre a importância de um plano de controle efetivo, de esfera nacional – algo que já circula pelo Ministério do Meio Ambiente (mas, adivinhe, está estagnado). “Agora temos de caminhar no sentido de assumir responsabilidades e achar soluções conjuntas”, propõe a analista. Pelos bastidores, o tal compromisso federal engatinha via “Estratégia Nacional sobre Espécies Exóticas Invasoras”, um documento com status de resolução da Comissão Nacional da Biodiversidade (Conabio), de 2009, além da criação de um recente Grupo de Trabalho (GT) específico sobre o assunto no âmbito do Ministério.

“Precisamos de protocolos bem desenhados para todos trabalharem juntos na prevenção e no controle”, cobra Simone, que aposta em parcerias do poder público com o setor privado. Como as plataformas de petróleo, os navios de perfuração e demais equipamentos relacionados ao setor são de fato os principais vetores do coral-sol, a situação pode piorar ainda mais a partir do momento que diversas estruturas antigas tiverem seu uso esgotado. Resultado? Mais plataformas velhas removidas para a zona costeira sem o devido tratamento. Tudo o que o coral precisa para virar protagonista. “São cruciais medidas mais eficientes para reduzir drasticamente o risco de novas introduções acidentais”, diz Augusto.

Há outra questão polêmica envolvendo o vilão dos mares. Entidades como o próprio PCS têm incentivado o caminho da extração do coral para usos alternativos, em áreas bastante afetas, como o litoral fluminense. Segundo o projeto, além de artesanatos que podem gerar recursos para comunidades, vale investir no estudo de funções farmacológicas e até no uso de propriedades da espécie que, acredita-se, pode ser útil em compostos para a agricultura. Essa abordagem, no entanto, não agrada uma outra vertente de especialistas, que enxerga aí um terreno perigoso. Há receio em incentivar extrativismo ilegal junto de outros recursos naturais. Algo, aliás, que a própria equipe do PCS concorda e garante atuar com mecanismos impedidores e transparentes no assunto. Quem se opõe também levanta outra questão: a partir do momento que aquela espécie gera renda, por que acabar com ela?

Pontos de conflito como esse, entretanto, são raros em um discurso comum que ecoa por todos os cantos do Brasil invocando ação imediata e prevenção. “É urgente a necessidade de uma legislação aprimorada para o controle de espécies invasoras, acompanhando o avanço científico, e que sejam criados também mecanismos mais eficientes de fiscalização”, sugere Augusto. “Se não houver controle, áreas atingidas serão contaminadoras permanentes de locais protegidos, pois produzem larvas que são dispersas no mar e infestam novamente as unidades de conservação”, conta Adriana.

Para quem já vive essa luta há mais de uma década, como Simone, o cenário é melhor do que há quatro ou cinco anos, momento de maior alarde entre os cientistas (mesmo que um tema dessa gravidade tenha aparecido ainda de forma bastante tímida). “Novos mecanismos legais e protocolos para limpeza só farão crescer o combate, o conhecimento e a intervenção, até porque, quanto mais se demora para agir, mais caro fica”, lembra Simone. Enquanto defensores da nossa biodiversidade costeira tentam fortalecer esse urgente exército contra os corais, uma coisa é certa: não há mais tempo a perder.

 

 

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