Energia elevada

Ao tocar em um urso morto, Eduardo Garcia levou um choque de 2.400 volts, que quase levou sua vida e o obrigou a reorganizar seu amor pelo mundo outdoor e suas relações com as pessoas que o cercavam

Eduardo Garcia posa para foto após sessão de surf

Esta não é apenas uma história surreal de sobrevivência e redenção. É o relato da nua, crua e dolorosa experiência de Eduardo Garcia, um sujeito ativo e aparentemente “comum” que levou um choque brutal ‒ ao tocar em um urso morto no meio da floresta! ‒ e viu a morte de perto, voltando à vida e à consciência para despertar como um novo homem: mais profundo, contagiante e, com o perdão da analogia, iluminado

Por Bruno Romano

EDUARDO GARCIA ACABA de nascer de novo. Pouca gente tem a sorte de fazer isso duas vezes em uma mesma vida. Não que seja exatamente uma escolha; no caso de Eduardo, seu renascimento se deu deitado ao relento, de barriga para cima, no susto e no meio do nada. Com a visão turva e os demais sentidos desconexos, ele abre os olhos e a primeira coisa que vê é o céu. Volta a notar que seu coração bate e o ar entra nos pulmões. Em modo primitivo, arruma forças para se sentar, então ajoelhar, se levantar e caminhar, trôpego, por quilômetros em busca de ajuda. A essa altura, ainda sob um enorme risco de que essa “segunda vida” não dure muito, ele não tem a mínima ideia do que o atingira minutos antes: uma bizarra descarga elétrica ao tocar em um urso morto com sua faca de bolso durante um trekking no interior de Montana, noroeste dos Estados Unidos. Eduardo não tinha consciência, mas havia sofrido ferimentos e queimaduras gravíssimas, que o obrigariam a passar meses em um hospital para se recuperar.

Eduardo na primeira vez em que esteve ao ar livre após o acidente, ainda no hospital

A saga improvável e a reviravolta inspiradora que acabava de começar em meio a essa cena trash de filme de terror são tema do cativante documentário Charged, que foi destaque na 39a edição do Telluride Mountainfilm, que acontece no Colorado, nos EUA (e de onde vêm os filmes exibidos no Festival de Filmes Outdoor Rocky Spirit, marcado para os dias 12 e 13 de agosto em São Paulo, no Parque Villa-Lobos). A expressão em inglês (carregado, em português) que dá nome à obra não poderia simbolizar melhor a biografia de Eduardo. Ela remete ao tal choque quase mortal, mas também à incrível reconexão desse cara intenso, recarregado desde então com uma energia positiva que despertou uma nova visão de mundo e dele próprio.

Agitado desde os primórdios, Eduardo decide vir ao mundo prematuro, aos 7 meses e meio de gestação, em 1981. Nascido na Califórnia (EUA), muda aos 6 anos com a mãe, Kathie, e o irmão gêmeo, Eugenio, para Montana, em meio a um imenso e pouco habitado vale rodeado de cordilheiras que formam, pouco mais adiante, as famosas Rocky Mountains. Sem a presença do pai, Manuel, que há três anos havia ido ao México com uma promessa não cumprida de retornar, Eduardo passa a maior parte do tempo ao ar livre.

Eduardo cozinhando frutos do mar, após seu acidente e sua recuperação, já com sua prótese

Para dar conta de criar os filhos sozinha, Kathie fortaleceu laços com uma comunidade religiosa local que comprara terras na região. O trio formava uma das primeiras famílias a povoar o pedaço em uma comunidade de cerca de cem pessoas. Eduardo e seu irmão, sem TV nem eletrônicos em casa, gastavam energia caminhando, pescando, acampando e pedalando mais tarde, esportes de inverno como esqui e snowboard, além de escalada em rocha, entraram no arsenal de atividades outdoor. “As montanhas eram mágicas e mexiam com a nossa imaginação de criança. Não foi difícil começar a chamar aquilo de lar”, conta Eduardo à Go Outside.

Soa como um lindo conto de fadas. Mas não era só isso que rolava na área. Extremamente inquieto e fã de confusões, ele passou por nove escolas diferentes na infância, sendo expulso por motivos que iam desde começar um fogo no banheiro do colégio até brigas mais pesadas. Quando tinham 11 anos, seu irmão decide que quer encontrar o seu pai, e Kathie aceita, levando os pequenos para o México. Eles encontram Manuel, o casal se une novamente, volta aos EUA e tem mais uma filha. Parece que tudo vai se alinhar.

Eduardo encontrou em Manuel seu melhor amigo o que, na prática, não foi tão saudável assim. Sem ouvir nenhum “não” do pai, a dupla usava e abusava de cigarro, bebida, ácido e cocaína. A bagunça rolou por cinco anos, até o próprio Eduardo decretar basta, revelar tudo à mãe e decidir encontrar foco, trabalho e um propósito de vida, como ele mesmo relata.

Começa então um capítulo bonito dessa epopeia. “A vida ao ar livre foi minha primeira paixão. Cozinhar foi a segunda”, orgulha-se Eduardo. Na cozinha, aprendeu uma nova e versátil linguagem e, após anos de estudo e trabalhos duros, alcançou o emprego dos sonhos. Ele se tornou chef em iates de luxo que percorriam roteiros nos EUA, com eventuais esticadas pelo Atlântico.

Sua especialidade era comida fresca e ingredientes locais. Além de fazer o que mais gostava, sobrava tempo para surfar, escalar e fazer wakeboard. O passado de altos e baixo, erros e mentiras, começava finalmente a se remendar. Ao lado do irmão e de uma nova namorada, Jennifer, a trupe começava a gravar um divertido programa de TV sobre culinária outdoor. Eduardo seria a estrela do show. E, de fato, levava jeito para a coisa. Tudo ia bem. Até sua faca encostar em um urso morto.

Eduardo carregando chifres de alce que ele encontra por suas andanças pelo estado de Montana, onde mora

A CURIOSIDADE é traiçoeira. Tamanha sede de novidade, aliada a um legítimo espírito aventureiro, já havia ensinado muito do que Eduardo sabia (e o livrado também de várias enrascadas). Mas, dessa vez, o atrevimento quase lhe custou a vida. Não há nenhum registro desse momento, que rolou em 2011, nem mesmo na sua mente. O fato é que, durante um trekking pelo vale de Montana, Eduardo se deparou com um filhote de urso inerte. Intrigado, decidiu cutucar o animal com a sua faca, para se certificar de que ele estava morto. Foi só encostar no bicho e “plum”: choque de 2.400 volts. O filhote havia morrido pela descarga elétrica de um fio que continuava ativo, escondido sob sua carcaça.

Ainda no hospital, durante a recuperação após o choque acidental

Eduardo só se lembra de flashes após despertar. No seu relato em Charged, ele observa que não havia sequer como diferenciar aquilo de sonho ou realidade. Ao acordar, ele se arrastou até conseguir ficar de pé. Achou que podia estar sonhando, mas o som das suas botas raspando no chão e os pássaros cantando o fizeram sacar que aquilo era real. “Eu não tinha a mínima ideia do que tinha acontecido”, garante. “Mesmo quando percebi que precisava buscar ajuda, eu não conseguia pensar em coisas óbvias, como no meu celular dentro da minha mochila”, menciona.

Não se sabe por quanto tempo nem em quais condições vitais, mas Eduardo caminhou até achar apoio. A emergência foi ágil, e seu resgate o salvou. Assim que soube do ocorrido, comunicada por telefone, sua mãe Kathie indagou o médico: “Ele vai viver?”. “Olha, já vi alguns casos de gente que sobreviveu a coisas assim”, ouviu como resposta. “Quando existe um mínimo de sensação de ‘sobrevivência’, é o suficiente para nos agarrarmos a ela”, sustenta Eduardo. “Voltei a um lugar primitivo, e, intuitivamente, meu corpo entendia que estava morrendo e sabia o que precisava fazer para sair dali: respirar e andar ladeira abaixo, como fazem os animais feridos”, lembra.

Essa versão zumbi eletrocutado do seu corpo chegou no setor de queimaduras e terapia intensiva do hospital geral de Salt Lake City (EUA) com um quadro que mostrava nove lesões expostas gravíssimas – entre elas um pedaço considerável da sua cabeça. Eduardo ficou lá por 48 dias, em que passou por 21 cirurgias, incluindo a retirada de quatro costelas e a amputação de sua mão e antebraço esquerdos.

A parte boa da história? Além do suporte da família, sua agora ex-namorada Jennifer voou da Inglaterra para os Estados Unidos e passou todo o tempo ao seu lado. Como auxílio na recuperação, para ajudar a distrair o brincalhão Eduardo na rotina pesada de hospital, ela decidiu gravar o processo, registrando, assim, um material forte e revelador que impulsionou a execução do documentário.

Trabalhando para aprimorar a prótese que usa no braço esquerdo

“Estar vivo com alguns prejuízos é muito melhor do que estar morto, isso eu posso dizer com toda certeza”, fala Eduardo, em uma das gravações. Pode até parecer uma frase simples, mas não é. Muita gente que passa por traumas desse tamanho, ou até menores, costuma se recusar a ter uma visão otimista. Cenas reais, como as feridas abertas de Eduardo, chocam, mas ele as encara de frente. “No fundo, sentia uma responsabilidade de ser mais forte do que eu mesmo pensava que era, pois via quanta gente à minha volta estava se esforçando por mim”, desabafa.

 

PARECIA QUE O PIOR havia ficado para trás. Eduardo se preparava para mais algumas cirurgias reparadoras quando, em um exame, chega a nova bomba: Eduardo é diagnosticado com câncer no testículo. Estágio “2”, já atingindo a medula e avançando em ritmo perigoso. Seria preciso parar tudo relacionado ao tratamento do choque para começar imediatamente a quimioterapia.

Mesmo assim, os médicos o liberam para voltar para casa, pois não havia mais necessidade de internação intensiva. Eduardo cai aos prantos assim que sai do hospital, põe o rosto ao ar livre e vê a paisagem de montanhas pela primeira vez. “Eu acho que o trekking vai ser a melhor terapia do mundo para mim”, suspira, em mais uma cena marcante de Charged. Mas a verdadeira pergunta que não saía da sua cabeça era: “Como vou ser eu de novo?”.

Em casa ‒ uma cabana rústica em uma área rural de Emigrant, em Montana ‒, Eduardo percebe a mesma preocupação por parte de todos. “Não saia para caminhar sozinho.” “Leve spray de pimenta.”“De repente, todos estavam duvidando da minha capacidade de fazer as coisas que sempre fiz”, diz Eduardo. Contrariando o consenso geral, ele deu ouvidos a si mesmo. “Eu só preciso de um segundo para falhar sozinho, é pedir muito?”, retrucava na época. “O outdoor foi o jeito que escolhi para me reabilitar. E deu certo”, diz ele hoje.

Assim que começou o tratamento do câncer, em janeiro de 2012, estabeleceu como objetivo conseguir andar oito milhas (cerca de 13 km) se sentindo bem até o fim. Todo dia depois da químio, ele caminhava um pouco nos arredores da sua casa ‒ no começo, era apenas uma centena de metros. Após o quarto mês de medicação pesada, em abril, ele cumpriu o seu objetivo.

“Existia um grande risco nisso tudo”, analisa hoje Eduardo. “Eu poderia simplesmente ter travado, sem nunca mais querer ir para a natureza, pela própria tragédia que vivi”, explica. Ele já tem claro que, caso tivesse escolhido esse caminho, não conseguiria sobreviver física, mental e emocionalmente. Esta última parte, aliás, foi seu calcanhar de Aquiles depois de a sombra do acidente e do câncer vencido começarem a ficar para trás. Mais uma vez, a resposta estava fora da janela de casa.

“Todos nós temos uma relação básica e essencial com a natureza, a questão é em qual nível nós mantemos essa relação”, sugere. “Muitas vezes a gente esquece que tudo está ligado a ela, somos parte dela e dependemos dela para viver”, completa, antes de concluir: “O que descobri também é que ela é nossa melhor medicina”. Os estímulos e os insights que encontrava na companhia de ar puro o ajudaram a retomar todas as antigas paixões, incluindo aí os trabalhos na cozinha (em serviços particulares de chef e em uma empresa da família Garcia baseada em produtos naturais), além de uma boa porção de atividades ao ar livre.

Eduardo Garcia trabalhando em sua casa em Montana, nos EUA

“NUNCA MAIS VOU tocar em um urso”, brinca Eduardo, levando um ginásio lotado de crianças e adolescentes a gargalhadas ao compartilhar sua história. Com seu jeito direto e cativante de falar da vida, ele está fazendo do urso uma metáfora aos erros que todos nós cometemos. “Uma experiência como essa te faz ser incrivelmente feliz com quem você é”, reflete. “E sabe do que mais? Não fico perdendo meu tempo preocupado com que as pessoas pensam: ‘Nossa, aquele cara tem um braço mecânico e um buraco enorme na cabeça’”, solta.

Em tom de desabafo, Eduardo está seguro de que entendeu de uma vez por todas que, com atitude, comprometimento e suporte adequado, não há limitações. Muito desse seu novo estado de espírito vem do seu encontro transformador com a Challenged Athletes Foundation (CAF), uma entidade baseada nos EUA e com atuação em vários países que proporciona a reabilitação via esporte, de iniciantes ao alto rendimento. Ali, Eduardo achou a peça do quebra-cabeça que faltava: mais gente parecida para dividir a dor e compartilhar angústias e conquistas.

Eduardo em sua casa, em Montana, nos EUA

Em meio a essa nova e agitada rotina de atividades no CAF, seus projetos na cozinha (o tal programa de TV de culinária outdoor estreia nos Estados Unidos em agosto), o trabalho como embaixador do CAF e as palestras que tem dado em torno do filme Charged, Eduardo está agora em sua casa, onde acabou de escolher lentamente alimentos frescos na sua horta. Ele respira fundo e tenta fazer um panorama do que viveu.

“Estar na natureza é uma prioridade diária para mim. Eu não tento apenas espremer passeios na minha rotina”, começa. “Há algo terapêutico nesses momentos, de um valor imensurável, é como se fosse parte da conexão com algo essencial que estamos esquecendo”, agrega. Há várias outras frases marcantes que saem de uma conversa corriqueira com Eduardo. Daria para reproduzir muitas delas nas próximas linhas, mas parece que seu recado já está bem dado. Até porque, logo ele precisa se preparar para um pedal de fim de tarde pelo mato. Em rolês como esse, no meio da natureza, ele está livre de mais perguntas e julgamentos ‒ e repleto de espaço para ser vulnerável, ou melhor, para ser apenas ele mesmo. De novo. Não era isso que ele queria?

 

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