Arco do triunfo

O paulista Felipe Camargo se torna a segunda pessoa a conquistar a imponente via Corazon de Ensueño, na China

O escalador paulista Felipe Camargo conquista na China a exigente via Corazón de Ensueño, consagrando-se a segunda pessoa a conseguir o feito (antes mesmo de Alex Honnold)

Por Fernanda Beck

EM OUTUBRO DE 2011, o espanhol Dani Andrada, um dos maiores nomes da escalada mundial, conseguiu um feito inédito: foi o primeiro homem a encadenar a impressionante via Corazón de Ensueño, em um impressionante arco rochoso de 150 metros de altura no vale do Getu, na província de Guizhou, no sul da China. Ali nascia um sonho do paulista Felipe Camargo, de 25 anos, um dos grandes nomes da escalada brasileira. “Quando assisti ao vídeo do Dani naquela via, pirei. E fiquei com aquilo na cabeça desde então”, conta. A tarefa de conquistar a mesma rocha não seria fácil. O próprio Dani equipou a via e levou exaustivos três dias para subir. São oito cordadas com graduações entre 7c e 11a, somando 210 metros de escalada (muitos deles no teto do arco), que demoram horas para serem completados.

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PARCERIA: Felipe e Alex discutem os movimentos da escalada antes de subir a Corazon de Ensueño, na China

Em abril passado, o sonho de Felipe começou a ganhar forma. Na companhia do norte-americano Alex Honnold, 30, um dos mais famosos escaladores da atualidade, o paulista de São José do Rio Preto viajou até a China para tentar domar o monstro. Mais especificamente no dia 16, o sonho virou realidade. Felipe se tornou a segunda pessoa a conseguir encadenar a Corazón de Ensueño – e deu apoio para que Alex se tornasse a terceira, dois dias mais tarde. Em sua conta no Instagram, o californiano agradeceu a paciência do brasileiro, que escalou tudo novamente só para ajudar o amigo. “Acho que é assim que se age quando se é, talvez, o escalador mais forte da América do Sul”, disse Alex. A seguir Felipe fala um pouco mais sobre sua aventura chinesa de proporções épicas.

IMPONENTE: O imenso vão livre do grande arco de Getu
IMPONENTE: O imenso vão livre do grande arco de Getu

> IDEIA ORIGINAL
“Tudo começou quando falei com o Dani Andrada sobre a via. Ele me disse que eu iria gostar muito de escalar lá, que era bem o meu estilo. Então comecei a pesquisar sobre ela, mas não se trata de um lugar muito fácil de chegar. Quando o Alex esteve no Brasil em outubro do ano passado, comentei sobre a ideia, mostrei o vídeo do Dani, e ele também ficou pilhado. E me perguntou se eu gostaria de ir também, para tentarmos juntos. Como o Alex é muito influente na The North Face (marca que os patrocina), planejou a viagem, e eles compraram a ideia e resolveram nos levar para lá para produzir fotos e vídeos do feito.”

> TREINO NORMAL
“Não mudei meu treino quando descobri que iria para a China, pois já foco bastante em força e em escalada de tetos. Mas aumentei o volume de escalada para me preparar, porque lá escalaríamos seis ou sete horas por dia, sem parar. Precisava me acostumar com isso.”

> EXPECTATIVAS
“Eu estava confiante, porém tinha dúvidas se conseguiria mandar a via. O Dani dizia que eu iria conseguir, que se tratava de uma escalada bem a minha cara. Mas, quando você chega lá, é um negócio muito imponente, gigante, um projeto ambicioso. Nos primeiros dias de escalada percebemos como iria ser difícil fazer tudo em um único dia, sem descer.”

> CAMINHO TORTUOSO
“Pegamos um voo do Brasil até Xangai e, de lá, mais um até Guiyang. Depois foram mais três horas de carro até um vilarejo bem afastado, no meio das montanhas, onde morava bem pouca gente, só uns velhinhos donos de uma pousada onde ficamos hospedados. Dali, eram uns cinco minutos de carro até a beira de um rio, que cruzávamos em um barquinho até uma escadaria que nos levava à base do arco. Aí era só subir mil degraus e pronto.”

> MATEMÁTICA MALUCA
“São 210 metros de escalada, divididos em oito cordadas (oito “seções”, em que paramos e puxamos a corda depois de cada uma, para poder escalar a próxima), até chegar ao cume do arco. De lá de cima até o chão, se traçássemos uma linha reta, seriam 150 metros. Mas, como a escalada não é em linha reta, dá 210 metros percorridos.”

PAISAGEM LUNAR: Felipe passando por um trecho da rocha cheio de crateras, no dia em que conseguiu completar o desafio
PAISAGEM LUNAR: Felipe passando por um trecho da rocha cheio de crateras, no dia em que conseguiu completar o desafio

> ROTINA ÁRDUA
“Logo que chegamos, escalamos por três dias consecutivos, limpando as agarras, estudando os movimentos e preparando as cordas. Como ninguém tinha escalado lá desde 2011, estava tudo bem sujo. No quarto dia começamos a tentar de verdade. A partir daí, escalávamos um dia e descansávamos outro. Eu consegui mandar a via toda, de baixo até em cima, no sexto dia de escalada. E o Alex, no sétimo.”

> O CRUX
“Eu e o Alex concordamos que uma passagem da sexta cordada era o ponto mais difícil de todo o projeto, o chamado crux. Era no teto principal do arco, depois de uns 160 metros já escalados – o ponto de graduação 11a, a mais alta da via. Era uma sequência complicada e ficamos preocupados se conseguiríamos passar por ela vindos lá debaixo, cansados, já tendo escalado tudo aquilo. Foi nessa parte que o Alex caiu e continuou só me dando segurança, para que eu pudesse prosseguir. Depois disso descansamos mais um dia e, no seguinte, ele conseguiu passar e ir até o fim.”

RESPIRO: Felipe e Alex posam para foto durante uma pausa na ascensão (ESTA FOTO: Jimmy Chin)
RESPIRO: Felipe e Alex posam para foto durante uma pausa na ascensão (ESTA FOTO: Jimmy Chin)

> MARMITAS SUSPENSAS
“Escalar projetos grandes como esse exige uma imensa preparação logística. É necessário pensar em tudo o que você vai precisar para ficar tanto tempo na rocha de uma vez só, sem descer. Nos dias de preparo, antes de tentarmos para valer, montamos alguns kits com água, géis e barrinhas de cereais e os deixamos presos em pontos estratégicos da rocha, para poder matar a fome ao longo do caminho sem levar peso excessivo. Fazíamos várias pausas suspensas ao longo do dia.”

> DIFICULDADE X VOLUME
“A Corazón de Ensueño não foi a escalada mais difícil que eu encarei, pois já escalei vias esportivas de graduação mais alta, até 11c. Mas foi uma das mais exigentes fisicamente, porque em um só dia, muita escalada difícil em um só dia. O volume é a parte mais exigente.”

> ÍDOLO ORGULHOSO
“Fui conversando com o Dani Andrada durante nossas tentativas. Ele ficou muito feliz quando eu disse que iria mesmo até lá tentar a via. E mais ainda quando contei que eu tinha conseguido encadenar e o Alex também. Ele considera a Corazón sua ‘grande joia’, a via mais legal que ele já abriu.”

> PROJETO PARTICULAR
“Escalar a Corazón, além de ser um sonho que vira realidade, também é parte de um projeto pessoal meu. Quero lançar um vídeo independente só com escaladas de teto, minha especialidade, no começo do ano que vem. Eu mesmo estou escolhendo os projetos – o primeiro foi o boulder Catalan Witness the Fitness, um v15 aberto pelo [californiano] Chris Sharma na Espanha, que eu já fiz. Em maio estive em Ouro Preto (MG) e ainda tenho objetivos na Chapada Diamantina, na Espanha e um boulder na Austrália.”

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