A mil por hora

Relembramos o determinado e peculiar alpinista suíço Ueli Steck, morto no Everest no último domingo

DETERMINADO: Ueli na face norte do Eiger, em 2011 (Foto: Robert Bosch)

O suíço Ueli Steck morreu no último domingo, dia 30 de abril, ao cair cerca de 1000 metros durante uma expedição de aclimatação no Nuptse, uma montanha próxima ao Everest, que ele planejava escalar em junho, sem suplementação de oxigênio. Ueli foi um dos maiores montanhistas de sua geração, recordista em ascensões em grande velocidade, pelas quais recebeu o apelido de Máquina Suíça – do qual não gostava muito. Entre suas escaladas consta uma impressionante ascensão ao Monte Eiger (3.970 metros), em seu país natal, em apenas 2h47, feita em 2008 sem usar qualquer corda de segurança.

Aqui, relembramos a genialidade e o ímpeto competitivo de Ueli em um perfil dele publicado por nós em 2012. Vale a leitura, para conhecer melhor um dos alpinistas mais dedicados que já passaram pela Terra.

Ninguém escalava mais rápido que Ueli Steck, cujas ascensões a jato em montanhas famosas da Europa lhe renderam o apelido de Máquina Suíça. Como se isso não bastasse, ele decidiu levar sua obsessão pela velocidade até os Himalaias, onde acaba de voar até o cume do Everest sem a ajuda de oxigênio

Por Tim Neville, em 09/03/2012

Ueli Steck respira fundo e olha a face norte do Eiger, o temido paredão rochoso de 1.800 metros localizado nos Alpes e composto de gelo e pedra calcária. Ali já morreram, pelo menos, 64 pessoas desde que montanhistas começaram a escalá-la, a partir de 1935. Logo Ueli estaria pendurado nas agarras geladas do Eiger, a centenas de metros do chão, sem nada que pudesse segurar uma queda. Apesar de parecer calmo e concentrado, ele exalava tensão.

O suíço, então com 31 anos, observou ao longe o outro lado do vale que se estende desde a base do Eiger, onde uma fraca luz de inverno avançava lentamente pelas pastagens. No paredão, não havia sinal de calor ou sol, o que é bom. Uma rocha soltando-se do gelo na hora errada poderia matá-lo instantaneamente, mas o frio mantinha a face norte intacta. Ueli agarrou seus equipamentos de escalada em gelo, acionou dois cronômetros e disparou montanha acima.

Seus braços e pernas martelavam a neve das encostas de 50 graus de inclinação existentes no começo da via Heckmair, um percurso clássico e sinuoso aberto em 1938 por uma equipe austro-germânica durante a conquista da face norte. Ueli nunca se sentira tão afiado quanto naquele dia de fevereiro de 2008. Seu corpo de 1,72 metro era composto de puro músculo. Ele havia treinado escalada em paredes íngremes usando apenas agarras mínimas, sem utilizar qualquer corda ou ajuda para amparar um deslize. Seu equipamento era mínimo e preciso: um parafuso de gelo, quatro mosquetões, uma costura e trinta metros de corda, que poderia usar para rapelar caso as coisas ficassem pretas.

Quando o tempo está firme, a maioria dos escaladores precisa de aproximadamente três dias para escalar pela Heckmair. Porém, um ano antes, em 2007, Ueli provara que essa via poderia ser percorrida em menos de quatro horas ao subi-la em 3h54min, batendo o recorde anterior por 47 minutos. Mesmo assim, ele não ficara feliz. Ueli seguira um caminho previamente aberto por outros escaladores, evitando o exaustivo trabalho de abrir uma nova trilha nas partes nevadas, e havia usado equipamentos para ajudar a ascensão dos trechos mais delicados – duas atitudes condenáveis, segundo os preceitos dos puristas da escalada livre (modalidade que não usa equipamentos que ajudem a subida). Seu pai, um ferreiro chamado Max, sempre lhe ensinou a não fazer nada de forma tosca, mas era exatamente isso que Ueli acreditava ter feito. “Só fui mais rápido que os outros”, disse-me recentemente, dando de ombros. “Eu queria chegar a meu limite.”

E era exatamente esse o propósito dessa segunda tentativa de chegar ao mais rápido possível ao cume do Eiger. Ueli havia esperado uma tempestade preencher os degraus e cobrir a face com gelo novo, e desta vez iria escalar a via inteira em free solo (sem nenhum equipamento de ascensão ou proteção), apenas com piquetas e crampons para se manter preso à parede. Ele contratara um treinador e fisioterapeuta do melhor centro olímpico da Suíça para criar um programa de preparação física para permitir que ele escalasse grandes paredes alpinas na maior velocidade possível. O treinamento foi muito além do que a maioria dos montanhistas costuma fazer – umas 1.200 extenuantes horas por ano. Como ele poderia não ir mais rápido desta vez?

Aos 39 minutos de escalada, aproximadamente um quarto da distância a ser percorrida, Ueli chegou ao começo do primeiro crux (pontos mais duros de uma via), um diedro vertical chamado Difficult Crack e notou que estava dez minutos atrás do seu recorde de 2007. Naquele lugar, onde as agarras eram pequenas e cobertas de neve, Ueli precisaria de mãos firmes, mas sua frequência cardíaca estava demasiadamente alta, deixando-o descoordenado e meio atrapalhado. Ele fez uma pausa, recuperou o fôlego e mandou ver. De alguma forma, ganhou velocidade, escalando 55 metros de calcário congelado em apenas quatro minutos.

A maior parte das pessoas enjoaria com tanta exposição, cansaço e risco, mas Ueli manteve-se firme, voando pela placa gelada da travessia Hinterstoisser em menos de um minuto. Atravessou o Flat Iron e a White Spider, lendários trechos da parede rochosa, como que vendo as faixas de uma rodovia correrem a seu lado. Finalmente chegou à aresta do cume, uma fina lâmina de neve, que atravessou correndo com seus crampons. Em pouco tempo não havia mais para onde subir.

Ueli olhou os relógios. Um marcava 2h47min33s, o outro 2h47min34s.

Será? Ele havia quebrado seu próprio recorde em 67 minutos! Os pulmões queimavam e o corpo doía, mas Ueli sentia que ainda não havia alcançado o limite supremo do esforço físico. Então desceu, comeu um prato de espaguete e começou a escalar a maldita montanha outra vez.

DESTEMIDO: Ueli escalando no gelo nos Alpes Berneses, parte dos Alpes suíços (Foto: Robert Bosch)

DESDE QUE ESCALOU O EIGER, Ueli ficou famoso na Europa e nos Estados Unidos, onde é conhecido como Máquina Suíça, graças a um filme lançado em 2010 com o mesmo nome. Ueli não chegou ao cume na sua segunda tentativa naquele dia – ele deu meia-volta, acabado, depois de subir 457 metros numa via mais fácil –, mas no inverno seguinte ele escalou outras duas clássicas faces norte dos Alpes em tempo recorde: a Grandes-Jorasses, perto de Chamonix (França), foi feita em 2h21min (uma melhora de 4h30min sobre o antigo recorde), e o Matterhorn foi vencido em ridículos 1h56min (quase metade do tempo do recorde anterior). Nas duas escaladas, Ueli simplesmente chegou na base da montanha e subiu, sem reconhecimentos prévios de terreno ou cordas. Quem mais, além de um homem-máquina, poderia fazer isso?

Pena que Ueli odeie seu apelido. “Ninguém no meu país me conhece como Máquina Suíça, o que é bom, porque não gosto desse termo”, diz. “Para os suíços, ele é bem antipático.”

É julho de 2011, quase um ano depois do lançamento do filme Swiss Machine, e Ueli está em pé em um trem vespertino que segue para Grindelwald, um vilarejo na base do Eiger. Seu cabelo é castanho-avermelhado e o sorriso é largo. Veste roupa de corrida, já que passou a maior parte do dia correndo por uma aresta para um comercial da Audi cujo cenário é a montanha. Estou aqui para ficar uma semana com ele, enquanto Ueli relaxa antes de voltar aos treinos para mais uma expedição ao Nepal, desta vez para escalar novas vias na face norte de três montanhas com mais de 6 mil metros: Ama Dablam, Tawoche e Cholatse.

Para muitos passageiros, é como se um astro de cinema estivesse a bordo do trem. “Ueli Steck! O homem mais rápido a escalar o Eiger!”, grita um cara, levantando os braços. “O que você faz é incrível!” Várias pessoas começam a olhar para nós. “Posso tirar uma foto sua?”, pergunta o fã. Ueli vira para fazer uma pose, mas duas garotas batem no seu ombro para pedir um autógrafo. “Isso acontece o tempo todo”, diz. “Eu não consigo mais passar despercebido.”

Ueli normalmente se mostra amigável com os fãs, e não é, de maneira alguma, um ciborgue insensível imune à dor e ao medo. Na verdade, ele é bom no que faz exatamente porque tem medo e compensa isso com muito treino físico e mental, para estar preparado para qualquer surpresa. Seja treinando, escalando ou lixando madeira em seu trabalho ocasional como carpinteiro, Ueli é tão detalhista com a qualidade e a precisão que alguém de fora pode confundi-lo com uma paródia de um ser obsessivo-compulsivo. Mas é simplesmente Ueli sendo suíço, uma cultura que conheço bem – vivi e trabalhei duas vezes no país entre 2008 e 2011. Na mais organizada das nações, há um jeito certo de se fazer tudo, até mesmo o horário permitido para dar a descarga (nunca depois das 22h).

Qualquer que seja a forma como se vê Ueli, o estranho é que seus dias de ascensões solo em velocidade podem estar se acabando, em parte por ter prometido a sua esposa, Nicole (uma ávida escaladora amadora), que não mais se aventuraria sozinho. Quando lhe pergunto se ele planeja mesmo manter sua promessa para a mulher, ele apenas responde: “Claro, também é possível escalar rápido em estilo alpino com um parceiro. Só preciso encontrar o cara certo.”

Ueli durante um dia de treino na Suíça (Foto: Patitucci photo)

Isso não será tarefa fácil. Considere o Projeto Himalaia, o grande desafio de Ueli no primeiro semestre de 2011, patrocinado pela marca Mountain Hardwear. O objetivo era completar ascensões rápidas em três montanhas de 8 mil metros na região do Himalaia – inclusive o Everest – em estilo alpino, numa só temporada. Ueli teria parceiros, mas não usaria oxigênio complementar. Só o conceito em si já é inédito. “As pessoas passam semanas e semanas tentando escalar uma só montanha”, diz o escalador norte-americano Steve House, fervoroso defensor das ascensões rápidas e leves.

Don Bowie, brilhante montanhista profissional da Califórnia, juntou-se a Ueli no Nepal em abril passado para uma tentativa na íngreme parede sudoeste do Shishapangma, montanha de 8.012 metros. Mas quando Don, então com 41 anos, achou que não estava suficientemente aclimatado para encarar o desafio, Ueli quebrou sua promessa e correu montanha acima sozinho, em apenas 10h30min. Ele disse que não tinha a intenção de seguir sem o colega, mas as condições estavam ótimas, então não deu para resistir. “Não foi uma escalada solo de verdade”, escreveu em seu blog. “Vou contar para minha esposa que cheguei ao cume com um maço de flores na mão.”

Dezoito dias depois, já com Don Bowie sentindo-se melhor, os dois fizeram os 8.200 metros do Cho Oyu em menos de 24 horas, começando a escalada em um ponto bem baixo da montanha. Ueli teve dores de estômago o caminho todo, mas manteve o ritmo graças aos goles da Coca-Cola que carregava na jaqueta. “Ueli é muito forte em baixas altitudes, e simplesmente não enfraquece quando sobe. Ele é forte, em qualquer situação”, disse-me Don, pelo telefone.

Eric Plantenberg e Scott Patch testemunharam um pouco disso em maio, quando viram Ueli em ação no Everest, a última das três escaladas. Os dois montanhistas americanos estavam descendo do cume pelo lado do Tibete quando avistaram um homem mancando muito na descida. Eles não sabiam que era Ueli – que, mais uma vez, estava escalando sozinho, depois de o frio extremo ter feito Don dar meia-volta aos 8.100 metros. A apenas 45 minutos do cume, Ueli havia desistido também, com os pés tão gelados que mais pareciam dois blocos de madeira. Eric achou que o montanhista misterioso pudesse estar com problemas, então foi com Scott até ele para ajudar.

“Daí, ele começou a abrir distância, e logo o cara mancando estava fora de vista. Ele simplesmente foi embora”, lembra-se Eric. “Scott, que estava com um fluxo bem baixo de oxigênio, parou de ir em sua direção e olhou para mim com uma cara de ‘que diabos foi isso?’.”

É DIFÍCIL IMAGINAR tanta força de vontade. Depois de tanto treino, esperança e trabalho, lá está você, a poucos minutos de realizar seu sonho, mas impossibilitado de fazê-lo. Se você tivesse dado uma respiradinha na máscara de oxigênio, seu sangue viscoso e grudento teria se afinado, trazendo seus pés de volta à vida. Nem a pau – pelo menos para a Máquina Suíça. “Isso é sacanagem”, diz Ueli, quando sugiro a possibilidade. “Eu não trapaceio.”

Passaram-se alguns dias desde o comercial da Audi. Encontrei-me com Ueli em Lauterbrunnen, um aglomerado de chalezinhos lindos incrustados em um magnífico vale. O plano de hoje: sair para correr. As plataformas de trem estão cheias de turistas quando vejo Ueli caminhando em minha direção com uma blusa azul de zíper e shorts pretos que revelam quadríceps gigantes. Suas meias brancas estão puxadas até os joelhos.

“Hoje eu pegarei leve”, diz ele, enquanto embarcamos no trem das 9h13 e deslizamos pelas florestas vale acima. “Leve” quer dizer 8 quilômetros de corrida de montanha com 800 metros verticais de desnível, da vila de Wengen até o passo de Kleine Scheidegg. Ueli prende um pedômetro no cadarço, ajusta o monitor cardíaco e, precisamente às 9h27, começa a correr. Eu sei que não consigo manter o mesmo ritmo que ele, então permaneço no trem um pouco mais, até chegar a uma trilha ampla que tem um atalho para o mesmo passo da montanha. Meu relógio marca 9h54 quando saio, com a certeza de que Ueli vai chegar antes de mim.

Caminhei por essa trilha antes, e toda vez ela me faz ficar de queixo caído. Dela podem ser vistas magníficas cachoeiras de geleiras azuis com 150 metros. Arbustos floridos de um metro de altura cercam os dois lados do caminho. É tão suíço que até parece de mentira. Treinar feito louco nem seria tão terrível aqui. Não que Ueli preste muita atenção a tudo isso. “Eu preciso me concentrar”, murmurou mais cedo. “Tenho que me focar na utilização de cada um dos meus músculos. Correr por correr não adianta nada.”

Chego ao passo antes de Ueli (ebaaa!) e comemoro em um restaurante com cerveja, salsicha e mais uma cerveja. “Isso é nojento”, diz Ueli ao chegar às 11h17, mais ou menos 45 minutos depois de mim. “Eu detesto essa comida suíça pesada.” Ele pede uma salada e uma Rivella de rótulo azul, um popular refrigerante suíço feito com soro de leite (o azul é sem açúcar), e belisca a comida como se nem tivesse transpirado.

É claro que Ueli não está sozinho no que faz. Em 2010, o escalador norte-americano Alex Honnold quebrou recordes de escalada em solo na The Nose (no El Capitan), e na face noroeste do Half Dome, ambas no parque californiano do Yosemite – subindo e descendo as duas paredes em pouco mais de 11 horas. Em maio deste ano, Alex e o amigo Tommy Caldwell escalaram, em apenas um dia, a duríssima Tríplice Coroa, que consiste em subir os principais maciços do Yosemite: o El Capitan, o Half Dome e o monte Watkins.

O austríaco Christian Stangl – mais tarde desmascarado em sua falsa declaração de haver escalado o K2 – mandou os Sete Cumes (as montanhas mais altas de cada continente) em menos de 59 horas acumuladas, terminando o feito em 2007. Mas Ueli é uma combinação mutante dos melhores montanhistas do presente e do passado. Ele tem a resistência à altitude do italiano Reinhold Messner e, assim como Alex Honnold, consegue escalar uma via de grau de dificuldade 5.13 (nono grau brasileiro) sem corda. Mas talvez o mais importante é que ele tem o cérebro e a prudência do montanhista norte-americano Ed Viesturs – conhecido por sua obsessão por segurança. Ed, aliás, diz que “Ueli é profissa naquilo que faz”.

Enquanto a genética certamente tem um papel essencial em modelar as habilidades de Ueli – seus longos braços o ajudam muito durante uma escalada –, seu preparo físico vem principalmente de treinos insanos, planejados por Simon Trachsel, seu personal trainer e fisioterapeuta do Centro Médico Olímpico da Suíça.

Em 2007, depois de realizar seu primeiro desafio no Eiger, Ueli decidiu que, se realmente queria superar os próprios limites, precisaria da ajuda de um preparador físico top. O problema: não existe muita pesquisa sobre alta performance no montanhismo, que dirá em escalada de velocidade ou em solo. “Com esquiadores cross-country ou ciclistas, sabe-se exatamente o caminho a seguir, e existem diversos programas conhecidos para preparar um atleta”, disse-me Simon quando nos conhecemos uma tarde em Berna. “Com Ueli, estamos em um terreno totalmente novo.”

A princípio, Simon simplesmente organizou melhor os treinos que Ueli já fazia, agrupando sessões de resistência com resistência e de força com força. “Foi como separar as pedras pretas das brancas”, diz. Após três meses, os resultados foram chocantes. Ueli conseguia correr as mesmas trilhas perto de casa em 33 minutos, uma melhora de 10% em relação aos 37 minutos anteriores – e isso sem nenhuma mudança brusca em seu método de preparação física. “Não é sempre que se tem a chance de trabalhar com um atleta de ponta com tanto potencial para melhorar ainda mais”, diz Simon. “Foi muito empolgante para mim.”

Simon começou a fazer sua nova cobaia sofrer, pesquisando corrida e esqui nórdico, para criar um programa personalizadíssimo. Foram feitas corridas curtas, longas, intervaladas, musculação, escalada em rocha, alongamento e até mesmo análise do sono, para apontar o tempo de recuperação muscular. Simon estuda obsessivamente os dados de frequência cardíaca, tempos e distâncias que Ueli preenche em seu banco de dados. Durante os períodos de treino intenso, Ueli volta ao laboratório a cada dois meses e é conectado a mais máquinas. Como resultado, ele sabe exatamente quanto tempo consegue segurar numa agarra minúscula de uma rocha, ou se tem reservas sobrando para forçar o ritmo. “É tudo muito lógico para o Ueli,” diz Simon. “Seu preparo físico é sua maior segurança.”

A intensidade dos treinos chamou a atenção de alguns colegas de Simon, que alertaram que Ueli estava a caminho de uma lesão. Num determinado ponto, Simon fez o pupilo dar três voltas num circuito correndo perto de sua casa, num total de mais de 5.400 metros de desnível acumulado. Hoje Ueli faz esse treino em aproximadamente cinco horas, várias vezes por semana. Pergunto a ele se, às vezes, não acha que Simon pressiona-o demais. “Não”, diz. “Simon me faz ir mais devagar do que gostaria.”

FAMOSO: Ueli se preparando para dar uma entrevista a um canal de TV suíço (Foto: Patitucci photo)

NÃO É DE SE SURPREENDER QUE UELI tenha dificuldades para relaxar. Ele aprendeu a gastar alguns minutos visualizando coisas que o ajudam a permanecer calmo e focado, como movimentos fáceis em escaladas, por exemplo. Também curte histórias em quadrinhos. Durante os períodos de descanso da escalada do Labuche (6.118 metros), no Nepal, Ueli aproveitou para ler gibis do Pato Donald. “Esse cara é muito engraçado!”

Ueli também é engraçado. Assista a uma de suas palestras e verá que ele é um orador entusiástico e divertido. Mas, como a maioria dos suíços, ele traça uma linha bem definida entre trabalho e brincadeira e, independentemente de quanto eu tente misturar os dois assuntos, ele me vê como uma espécie de intruso em potencial, louco para invadir suas “ilhas” de privacidade. Recebi a ordem de não entrar em contato com Nicole ou com a família de Ueli, o que me deixou irritado.

“Mas é só para conversar!”, insisto.

“Nem pensar”, responde. E ponto final.

Por sorte, Nicole está na França escalando, então um dia sou convidado a visitar o chalé de 200 anos em que eles vivem nos arredores do lago Brienz. A cabana é aconchegante, com teto baixo e toalhas penduradas no quartinho de trás, cheio de caixas com grampos, piquetas e cordas. Uma grande fotografia do Eiger enfeita a parede da sala, onde janelas antigas deixam-me ver um Audi Quattro estacionado na entrada da garagem. A fabricante alemã dá um carro novo todos os anos para Ueli. Sou educado demais para perguntar quanto ele ganha, mas pelo visto os Stecks pertencem à classe média alta local. “Eu nunca achei que iria ganhar a vida escalando”, conta Ueli. “Mas chegou um ponto em que ou eu procurava um emprego, ou começava a ganhar dinheiro de verdade com o esporte. Eu não queria virar um escalador pobre e largadão aos 45 anos de idade.”

Ueli é o caçula de três irmãos e cresceu em Emmental, um vale idílico ao norte de Interlaken. Aos 12 anos, um amigo do seu pai chamado Fritz Morgenthaler levou-o para sua primeira escalada, numa aresta de calcário chamada Schrattenfluh. “Fritz era da escola antiga”, diz Ueli. “Ele logo me botou para guiar. Achei que era normal escalar 20 metros só com dois pítons (equipamento para se prender à rocha) e instruções de não cair.” Nascia um solador. Desde então, Ueli sempre escalou sem corda.

Aos 18 anos, Ueli enfrentou seu primeiro teste real, a face norte do Eiger, fazendo a via Heckmair em um dia e meio. Aos 21, ele estava acelerando por vias duras na montanha Mönch. Em 2004, aos 28, ele e um companheiro conectaram as três faces nortes do Mönch, do Eiger e do Jungfrau em 25 horas seguidas. As coisas esquentaram de verdade quando ele solou uma linha extremamente exposta chamada Excalibur, em Wenden, na Suíça.

Os dias felizes quase se acabaram em 2007, quando Ueli teve seu primeiro contato com a morte no alto da face sul do Annapurna, no Nepal, a 8.090 metros. Num minuto, ele estava escalando sozinho, sem corda; no seguinte, viu-se 300 metros abaixo, com uma dor de cabeça lancinante, todo dolorido, mas sem maiores complicações. Ele não faz a menor ideia do que aconteceu – só o que consegue imaginar é que uma pedra solta acertou seu capacete. Seguiram-se meses de reflexão. “Foi importante para que eu pensasse se estava abusando dos limites ou se havia sido apenas azar”, diz Ueli. “No fim, concluí que foi apenas má sorte.”

Em 2008, Ueli voltou às escaladas com vigor renovado. Além dos seus recordes de velocidade, ele e o jovem guia de montanha suíço Simon Anthamatten abriram uma corajosa via de escalada mista em gelo e rocha na face norte do Tengkampoche, no Nepal, e ganharam o Piolet d’Or, respeitado prêmio francês desse esporte. Meses depois, Ueli e Simon ganharam admiração mundial por ajudarem dois montanhistas espanhóis que estavam morrendo na parte alta do Annapurna, ainda que isso significasse abortar sua própria expedição.

Ueli considera o resgate um fracasso – salvaram apenas um dos dois montanhistas –, mas a Suíça acabava de ganhar um novo herói nacional. “No esporte que escolheu, ele é o melhor suíço. E, nos últimos anos, se transformou em um dos melhores do mundo”, cravou o jornal Basler, conferindo o maior dos elogios a Ueli ao compará-lo ao tenista suíço Roger Federer.

Ueli nunca será tão famoso quanto Federer. Nos confins da Suíça alemã, no entanto, não restam dúvidas de que ele se tornou uma “celebridade salsicha” – gíria local para designar personalidades famosas dentro do território nacional. A Swiss Broadcasting Corporation, onde trabalhei por um tempo, fez Ueli retraçar partes da sua segunda escalada no Eiger para um especial de 50 minutos que foi ao ar em cadeia nacional. Ele foi tema de outro programa de TV, sobre famosos, chamado SF bi de Lüt. Posou para a Schweizer Illustrierte, revista suíça de celebridades, e teve tanta gente assistindo suas palestras que chegou a agendar 92 apresentações em um ano. Empresas começaram a lhe pagar milhares de francos suíços para ouvir suas mensagens, como “seja o melhor de você mesmo, não apenas melhor que outros”. A Audi fechou contrato com ele, assim como a Scarpa e a Suunto. Este ano, a Mountain Hardwear lançou uma linha de equipamentos ultraleves inspirados nas necessidades de Ueli, incluindo jaquetas sem bolsos e casacos de pluma que cabem em sacos de dormir. Ele tem até um canivete da marca Swiss Army com sua assinatura: o Ueli Steck Special Edition, uma multiferramenta peso-pena de titânio, vendida a US$ 200 e que vem com um alicate para apertar ancoragens e uma lima para afiar piquetas. “Uau!”, exclama Ed Viesturs quando eu lhe conto um pouco dessa lista. “Você disse que a Audi dá um carro para ele?”

 

POR ESSAS E OUTRAS, a Suíça é um ótimo lugar para ser um escalador profissional. O país tem apenas 7,8 milhões de pessoas – menos do que a cidade de Nova York –, mas praticamente todos conseguem, pelo menos, entender o que Ueli faz. “Há imensas áreas nos Estados Unidos onde as pessoas nem sequer sabem o que é escalada”, diz Ed Viesturs. “Você acha que alguém no meio-oeste americano vai comprar um chocolate do Ed Viesturs?”

Ueli sabe que sua fama não durará para sempre. No fim das contas, envelhecerá e diminuirá o ritmo, como todos nós. Para ele, no entanto, sair da luz dos holofotes será, em parte, um alívio, já que essa situação pode ficar meio claustrofóbica no reino alpino. Ueli tornou-se um fanático em proteger sua privacidade, o que pode parecer muito estranho para um atleta patrocinado que luta para aparecer. Sabe-se que ele já foi mal-educado com fãs que vieram pedir autógrafo quando ele estava com qualquer pessoa de sua família. É difícil ver uma foto da casa dele.

Inevitavelmente minhas tentativas de penetrar a bolha de Ueli resultaram em reações meio nervosas – algumas até de minha parte. Uma noite, na estação de trem de Interlaken, Ueli e eu estávamos em pé na plataforma discutindo o que ele faria nos meus últimos dias a seu lado. Ele tem agendada uma reunião com seu treinador e depois quer voar de parapente. Peço para ir junto.

“Não, não, não! Você vai escrever sobre isso!”, ele reage, com as palmas para cima, como se eu tivesse sacado uma arma.

“Não posso só ir ver?”

“Não, eu preciso desse momento só para mim.”

Prometo a ele que não pegarei nenhum caderninho ou tirarei fotos com meu iPhone.

“Não. Se você vier, as pessoas vão me julgar depois”, responde exasperado.

“Te julgar? Do que você está falando?”

“Você é jornalista, mas não entende. Você não faz ideia”.

Explodo. “Sabe, Ueli, estou muito perto de cancelar essa porcaria de reportagem”, grito. “Não posso falar com sua mulher. Não posso falar com seus pais. E agora não posso te ver decolar de parapente? Desculpa, mas é ridículo.”

Ueli me responde em voz baixa e controlada, e revela que, ali, sozinho, Ueli é só Ueli, um paraglider iniciante que simplesmente quer se divertir. Se as pessoas descobrirem que ele não é excelente naquilo, podem vê-lo como um tolo.

“Você faz coisas que a maioria das pessoas do mundo não consegue”, respondo, já mais calmo. “Você é inseguro?”

Ele fica lívido. Claramente, exagerei no meu comentário.

“Tem a pessoa que eu mostro para o mundo, e tem eu de verdade, e o único ser humano que me conhece mesmo é minha mulher”, diz. “Você não faz ideia do que é isso! As pessoas me vêem fazendo mountain bike e pensam logo: ‘Olha, é o Ueli Steck, ele nem é tão rápido assim’. Todos me julgam até pela maneira como uso minhas meias.”

Finalmente começo a entender: é mais uma das características tipicamente suíças. Os suíços não admiram em nada os pontos fracos das pessoas. Ou você faz direito, ou vai treinar quieto, na sua, até ser competente.

No final, a tensão se dissipa quando um transeunte pede ajuda a Ueli para ajudar a descer uma senhora de uma van para deficientes. Peço desculpas por ter criado uma situação chata. Ueli faz o papel de suíço e me oferece uma saída diplomática: em vez do parapente, posso ir escalar com ele.

No meu último dia, encontro com Ueli e uma equipe de filmagem britânica numa área de escalada esportiva chamada Lehn, onde paredes de rocha aparecem entre pinheiros. Nada aqui é fácil, e sequer consigo sair do chão. Com as câmeras gravando, Ueli escala uma via chamada Schweizerhalle, enquanto um amigo, o fotógrafo Robert Bösch, faz sua segurança durante a ascensão. Ueli desliza pela face negativa com a força e a confiança de um escalador curtindo o luxo de estar usando uma corda. Ueli faz uma pausa no crux. “Hüüü!”, balbucia Robert, a maneira suíça de dizer “Manda ver, velho!”.

Ueli mergulha as mãos no saco de magnésio, fazendo com que finos flocos brancos flutuem sob o sol. Daí puxa forte as agarras e dispara até estar tão alto que não há mais para onde subir. Como sempre, ele chegou ao topo.

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