Beleza underground

Muitas cavernas guardam preciosidades de outro mundo, e o melhor é que contam com ótima infraestrutura para visitação

Cavernas exercem fascínio no homem há milênios: escuridão e mistério envolvendo cada passo rumo ao desconhecido. A boa notícia é que muitas delas contam com ótima infraestrutura para visitação e guardam preciosidades como tetos cobertos por larvas luminosas ou formações de gelo de outro mundo. A seguir, onze destinos cavernosos, que mostram a variedade surpreendente de cenários abaixo dos nossos pés (Mario Mele)


Eisriesenwelt, na Áustria, a maior gruta de gelo do mundo

MARAVILHA DA HUMANIDADE
Škocjan, Eslovênia

O subsolo esloveno é uma maravilha da humanidade

As grutas de Škocjan, na Eslovênia, foram declaradas patrimônio mundial e cultural pela Unesco em 1986. Isso as colocou na lista das maiores belezas naturais do planeta, ao lado do monte Everest, do Grand Canyon e das ilhas Galápagos. As galerias têm aproximadamente 3,5 quilômetros de extensão, largura entre 10 e 60 metros e 140 metros de altura, sendo que alguns caminhos desembocam em salões enormes. A Eslovênia é um país reconhecido por sua riqueza arqueológica: estudos indicam que as cavernas de Škocjan já eram habitadas há mais de 10 mil anos. Até hoje a região é uma importante passagem de peregrinos do mundo todo, que podem dar uma espiada nas cavernas em qualquer dia do ano. O tour guiado dura 1h30, e os visitantes chegam a descer a 144 metros. € 15; park-skocjanske-jame.si

ERA DO GELO
Eisriesenwelt, Áustria

Vista interna da Eisriesenwelt, um freezer gigante na Áustria

A Eisriesenwelt (“gruta de gelo”, em alemão) é a maior caverna de gelo do mundo. Localizada 40 quilômetros ao sul de Salzburgo, na acidentada cadeia de montanhas de Tennengebirge, ela foi descoberta por um cientista austríaco em 1879. Na época, ele conseguiu percorrer apenas 200 metros de suas galerias. Hoje, sabe-se que a gruta tem 42 quilômetros de extensão – mas os visitantes (cerca de 200 mil por ano) podem circular por somente 1.000 metros dela. Mesmo assim a visita vale muito. Em alguns pontos, você vai se sentir como se estivesse em outro planeta. Aproveite as valiosas informações científicas dadas pelos guias locais sobre a formação de gelo. A caverna é aberta a visitação entre maio e outubro. € 19; eisriesenwelt.at

POÇO DE LUZ

Cavernas da Riviera Maya, México

Mergulhadores exploram as profundezas de Riviera Maya

A Riviera Maya é um dos destinos turísticos mais procurados do México, especialmente por causa de suas cavernas. Imagine um mergulho no mar do Caribe, onde a água é transparente e a visibilidade pode chegar a 50 metros. Acrescente um incrível cenário formado por estalactites e estalagmites, de todas as formas e tamanhos. Um enorme poço natural, que recebe incidência solar, é a porta de entrada para os túneis submersos, que atingem até dez metros de profundidade. Quem já foi garante que é um dos melhores mergulhos em caverna do mundo. Não exige muita habilidade, mas é preciso contratar um instrutor e estar com seu certificado de mergulho autônomo em dia, caso você não queira ficar só na superfície, de máscara e snorkel. US$ 120 (mergulho autônomo) ou US$ 25 (visita de uma hora e meia, com direito à máscara e snorkel); divingplayadelcarmen.com

CÉU DE VAGA-LUMES
Waitomo, Nova Zelândia

O “céu” mais estrelado da Nova Zelândia fica, quem diria, embaixo da terra. Milhares de larvas luminosas, da espécie arachnocampa luminosa, encontraram na caverna Waitomo, úmida e escura, as condições ideais para se desenvolverem. Elas têm a forma de um palito de fósforo e, por meio de um processo químico, emitem luzes fundamentais para a própria sobrevivência – além de atrair e capturar insetos, a claridade serve como defesa contra predadores. Quem visita a caverna, no norte do país, sai boquiaberto com o espetáculo natural. O acesso não é complicado, e o tour guiado dura 45 minutos. US$ 70 (tíquete de entrada, com direito ao tour); waitomo.com >>


ARTE PRESERVADA
Lascaux, França

Galeria francesa do Paleolítico, em Lascaux

A caverna de Lascaux fica no entorno da vila de Montignac, no sudoeste da França. Ela foi descoberta por quatro jovens amigos que, em 1940, passeavam pela região. Mal sabiam eles que estavam revelando ao mundo uma das maiores galerias de arte do paleolítico. Há 16 mil anos, as paredes de Lascaux foram “decoradas” com desenhos abstratos e gigantescas pinturas de animais e humanos – todas com ricos detalhes que ajudam a contar como viviam nossos antepassados. Com o crescente fluxo de turistas, os desenhos sofreram degradação por conta do aumento do nível de gás carbônico emitido pelos visitantes. Assim, as galerias subterrâneas de arte tiveram que passar por algumas restaurações para receber, atualmente, cerca de 250 mil visitantes por ano. É aconselhável garantir o ingresso com antecedência. Em janeiro, é fechada a visitação. € 8,50; francethisway.com

CATEDRAL DE PEDRA
Gruta de Jeita, Líbano

Os salões de outro planeta da gruta de Jeita

Dois salões subterrâneos interligados formam a gruta de Jeita, a caverna mais conhecida do Líbano e uma das mais fascinantes do mundo. O acesso à parte baixa é feito por barco. Ali, a água calma reflete com perfeição as formações de calcário, e o silêncio quase absoluto só é interrompido por gotas que vez por outra pingam no lago. Uma caminhada leva à segunda sessão, um pouco mais alta. Pela serenidade que o ambiente transmite, essa parte costuma ser comparada a uma catedral. A textura das paredes e as enormes colunas de calcário também passam a impressão de que se está em um lugar sagrado. Jeita é a maior caverna do Oriente Médio, e fica a apenas 18 quilômetros da capital, Beirute. No inverno, sua parte baixa é fechada, devido ao elevado nível da água, que dificulta a navegação. O tour completo leva cerca de 2 horas. US$ 15; jeitagrotto.com

BOM PARA CACHORRO
Gough, Reino Unido

Caverna de Gough, em homenagem a Richard Gough

As cavernas de Gough são frequentemente associadas à imensa cadeia de montanhas de Cheddar, em Somerset, onde estão localizadas. O nome original é uma homenagem a seu descobridor e primeiro pesquisador, Richard Gough. Estão a 90 metros de profundidade e possuem mais de dois quilômetros de extensão, por onde passa um dos maiores rios subterrâneos do mundo. Apenas os primeiros 820 metros estão abertos ao público, mas não pense que é pouco. Nesse trecho, estão as formações rochosas mais esculturais. Em 1903, foi encontrado nas cavernas de Gough o esqueleto completo mais antigo da Grã-Bretanha, com mais de 9 mil anos. Hoje há uma réplica no local. Outro fato curioso é poder ir ao passeio acompanhado de seu cachorro. £17.80; visitcheddar.co.uk

SHOW LISÉRGICO
Reed Flute, China

Apelidada de “palácio natural das artes”, a chinesa Lúdi Yán (mais conhecida pelo nome internacional de Reed Flute) já serviu como esconderijo em épocas de guerra. Atualmente, a caverna de 240 metros de extensão é considerada uma das grandes belezas naturais do país. Próxima à cidade de Guilin, no sudoeste da China, ela conta com um sistema de iluminação colorida que pode causar repugnância em espeleólogos mais tradicionais. Mas os administradores garantem que as luzes engrandecem a experiência. Seja qual for sua opinião, o fato é que o lugar é lindíssimo. Estalactites e pilares de rocha, formados por depósito de carbonato, ganham tons de rosa, azul, verde e amarelo, criando um cenário alucinógeno. Algumas inscrições na parede, que podem ser vistas até hoje, comprovam que a Reed Flute já servia de inspiração aos poetas da dinastia Tang, há 1.300 anos. A melhor época para visitá-la é entre abril e outubro, quando a temperatura é mais amena. RMB$ 60 (cerca de R$ 15); travelguilinguide.com

MINA MITOLÓGICA
Cavernas de Hércules, Marrocos

Localizadas a 14 quilômetros de Tânger, no norte do Marrocos, as cavernas de Hércules são cercadas de mistérios, a começar pelo nome. Alguns acreditam que o herói-símbolo da mitologia grega teria descansado ali depois de realizar seus doze árduos trabalhos. Ainda hoje, a verdadeira origem dessas cavernas é desconhecida. Teorias científicas sugerem que elas são, em parte, formações naturais mescladas com túneis construídos por civilizações remotas. As cavernas têm grande importância arqueológica, e há quem acredite que nelas existam galerias mais profundas,
inteiramente revestidas em ouro.
Até hoje nada desse tipo foi descoberto.
Mesmo sem metais preciosos, o lugar é

sensacional. 5 dirham (cerca de R$ 3); morocco.com

TESOURO NACIONAL
Terra Ronca, Goiás

Terra Ronca é um paraíso espeleológico brasileiro (foto: Welison Tavares)

Só em Goiás existem mais de 500 cavernas cadastradas pela Sociedade Brasileira de Espeleologia, órgão não-governamental que reúne pesquisadores. No norte do estado, a 300 quilômetros da cidade de Alto Paraíso, está o complexo espeleológico de Terra Ronca, um coletivo de grutas admirado por exploradores do mundo inteiro. A caverna Angélica é um excelente ponto de partida. Ela tem dez salões espalhados em 14 quilômetros de extensão, sendo que logo na entrada os visitantes são recebidos por uma bela praia do rio Angélica. Seu interior é forrado por uma variedade de espeleotemas, como são chamadas as formações rochosas típicas de cavernas. Os mais experientes podem emendar a visita à Bezerra, ainda bem pouco explorada, que começa onde termina a Angélica. Após a visita subterrânea, nada melhor que se refrescar na cachoeira das Palmeiras, cheia de quedas e piscinas naturais. R$ 3 (visita guiada, por pessoa); travessia.tur.br

IMENSIDÃO AZUL
Gruta do Lago Azul, Mato Grosso do Sul

A gruta Azul é um monumento natural brasileiro

Estalagmites, estalactites e pilares de calcário são algumas das atrações dessa gruta localizada a 20 quilômetros de Bonito. Mas quem rouba mesmo a cena é seu lago. Acredita-se que as águas da gruta do Lago Azul tenham origem em um lençol freático a 90 metros de profundidade, e que sejam clareadas devido a rochas calcárias. A tonalidade azul fica ainda mais forte entre novembro e janeiro, quando o sol bate diretamente na boca da gruta. O local foi descoberto por um índio em 1924. Em 1978, visando preservá-lo, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) classificou-a como Monumento Natural. Desde então, seu acesso passou a ser rigorosamente controlado, com 305 visitas permitidas diariamente. R$ 36 (passeio monitorado); agenciaarbonito.com.br

(Matéria publicada na Go Outside de abril/2011 ed. 71)