O admirável homem das neves

Andrew McLean tem a melhor cobaia para levar seus equipamentos a novas alturas: ele mesmo


UTAH: Andrew McLean perto de casa, em Park City

Por Bruce Barcott

Foto por Andy Anderson

O futuro não acontece sozinho – alguém tem que criá-lo. Isso se aplica à aventura tanto quanto à tecnologia ou à medicina. No futuro, exploradores polares terão mobilidade inédita usando a força do vento, que os carregará mais longe do que eles jamais chegaram usando cachorros ou máquinas. No futuro, alpinistas verão o Monte McKinley, no Alaska, como um downhill casca-grossa. No futuro, corridas de esqui e snowboard nas montanhas serão tão populares quanto as competições em halfpipe. Mas isso tudo não acontecerá por acaso. Acontecerá porque Andrew McLean, 44 anos, ajudou a criar essa nova realidade.

Hoje, no Wasatch Plateau – um alto e largo trecho de montanhas e campos alpinos a duas horas de Salt Lake City, no estado de Utah, no oeste americano – McLean só pensa em kites [pipas, em inglês], grandes o suficiente para lançar um rottweiler em órbita. Estamos aqui para que ele me apresente sua mais nova obsessão, um ski-kite que pode me puxar a velocidades de até 100 km/h. McLean pega algo que parece um amontoado de tecido com um monte de fios enroscados e anda até uma elevação na neve. Prende sua cadeirinha de escalada aos fios e reboques do kite. Veste botas ultraleves e um par de esquis alpinos. A inspiração para essa mistura de esqui com vela veio há alguns anos, na Antártica, quando McLean viu um explorador dinamarquês brincar com uma versão crua de um ski-kite. Voltou para casa, em Utah, encomendou alguns metros de poliéster, desenhou moldes e sentou-se em sua máquina de costura industrial para criar sua própria versão do brinquedo. “Este aqui foi feito a partir de um antigo projeto de pára-quedas da NASA para a nave espacial Gemini”, diz. O tecido levanta-se lentamente e então pega uma rajada de vento, subindo feito um foguete. As linhas se tensionam e arrastam McLean pela neve. Ele faz curvas para a direita e a esquerda e, depois de minutos, volta sorrindo.

Agora é a minha vez. McLean prende os fios em minha cadeirinha e solta o kite, que imediatamente me dá um puxão. “Forte, não?”, ele grita. Depois de dez segundos de euforia em alta velocidade, eu caio. O kite se torna uma mula desembestada e minha cara se transforma num arado. Lá longe, McLean grita “Solta! Solta!”. Largo os fios que direcionam a pipa e ela murcha. Meio tonto, levanto a cabeça e assuo a neve que entrou no meu nariz. É, o futuro pode doer um pouquinho.

LENDA

McLean recusa-se a aparecer em vídeos de esqui extremo e a endossar marcas de equipamentos, e com isso permanece um desconhecido para o grande público. Mas, para os conhecedores, ele é o melhor esquiador de rampas e montanhas extremas dos Estados Unidos. Na última década, nenhum atleta forçou tanto os limites do que é possível fazer na neve quanto ele. Suas descidas dos montes McKinley e Hunter, também no Alasca, as curvas que ele rasgou descendo Mowich (a face “proibida” do Monte Rainier, em Washington) e as rampas de mais de mil metros que ele descobriu e desceu na isolada ilha de Baffin, no Canadá, já são lendas no esporte. Além de levar o esqui a lugares nunca dantes dropados, McLean criou instrumentos que permitiram a ele chegar lá.

Nos anos 90, enquanto trabalhava no desenvolvimento de produtos da marca Black Diamond, McLean inventou equipamentos que possibilitaram a união de alpinismo e esqui. Um deles, o Whippet, um misto de bastão de esqui com piqueta de gelo criado por McLean em 1995, é hoje equipamento obrigatório dos esquiadores de montanha. Seu novo projeto, o ski-kite, ainda não está em produção comercial e pode nunca chegar a isso, mas seus protótipos já são objeto de desejo de escaladores e montanhistas com viagem marcada para as regiões polares.

Em 2003, McLean deixou seu trabalho na Black Diamond para ter mais tempo para esquiar, brincar com equipamentos e sair em expedições ambiciosas. Ultimamente, sua paixão tem sido desenvolver e promover competições de esqui-montanhismo – um esporte principiante nos Estados Unidos, mas extremamente popular na Europa, em que os competidores escalam e depois esquiam terrenos íngremes e quase sempre virgens. McLean era um dos melhores competidores nessas provas, mas deixou de competir para ajudar a impulsionar a modalidade nacionalmente. A corrida que organiza, a Black Diamond PowderKeg, criada em 2003 e realizada sempre em março nos cânions de Cottonwood, é o primeiro evento da Ski Mountaineering World Cup a ser disputado nos Estados Unidos. O crescimento dessas corridas mostra a explosão do backcountry skiing, o esqui feito fora das pistas. Em breve, o esporte pode se tornar tão popular quanto o mountain bike.

HERANÇA

O amor de McLean pela neve veio da mãe, que buscava um jeito de gastar a energia de seus filhos espoletas. “Não tínhamos dinheiro e eu não sabia o que fazer com um garoto de cinco e outro de sete anos”, me contou Duse Mclean de sua casa em Bellevue, no estado de Washington. “Aí descobri que se eu desse aulas de esqui a família toda poderia esquiar de graça.” Quando a família mudou-se para Seattle, Andrew, agora com 11 anos, aprimorou sua técnica imitando os movimentos de Butch White, um competidor de esqui, nas encostas de Alpental, a pista mais casca das redondezas.

Depois do colegial, McLean foi atrás do sonho de ser um esquiador profissional, mas, após um ano de treinos e competições, percebeu que não tinha resultados bons o suficiente para entrar no circuito mundial e matriculou-se na prestigiada Rhode Island School Of Design. Lá, McLean aproveitou para desenvolver seu lado escalador. Ele e um amigo costumavam escalar igrejas e pontes, na calada da noite, já que não havia boas montanhas por perto. “As igrejas góticas eram as melhores – aqueles detalhes em pedra são ótimas agarras”, lembra.

Em 1985, já formado, McLean pegou alguns trabalhos quebra-galho enquanto aperfeiçoava na garagem da casa de seus pais um aparelho chamado Talon – um gancho de três pontas parecido com uma estrela do mar de metal, feito para se prender a pequenas beiradas em escaladas de grandes paredes de pedra. McLean mandou a engenhoca para John Bercaw, da Black Diamond, e três semanas depois recebeu uma proposta de emprego. A ordem da empresa era simples: seus “funcionários” – alguns dos melhores atletas de aventura do mundo – deveriam escalar ou esquiar em situações tão complicadas que pensassem “Droga! Queria ter uma ferramenta para isto!”. E então eles deveriam inventá-la.

Na Black Diamond, McLean encontrou um grande amigo e mentor: Alex Lowe, que o encorajou a abandonar as pistas convencionais de esqui e a encarar a neve virgem das montanhas inexploradas. No primeiro inverno em que foram para Wasatch, em 1992, McLean seguiu Lowe num trekking de cinco horas até um cume no cânion de Little Cottonwood. Sofrendo para acompanhar Lowe, McLean ficou imaginando por que uma pessoa iria trocar os teleféricos por aquilo. Uma vez no cume, porém, o esplendor da cena mexeu profundamente com ele. Sob um céu perfeitamente azul, ele olhava para 1.500 metros verticais de neve intocada. “Siga-me”, disse Lowe, e McLean viu o amigo flutuar por uma neve tão fofa e leve que uma neblina pairava por onde os esquis passavam. “Foi aí que percebi a magia do esqui backcountry”, lembra McLean.

AVALANCHE

Depois de testar-se nas vias mais íngremes dos Estados Unidos, em 1999 McLean se lançou em seu maior projeto até então: a expedição Shishapangma. O objetivo era alcançar o cume dessa montanha tibetana, botar os esquis e ser o primeiro americano a descer um pico de oito mil metros. A equipe reunia pessoas da Black Diamond — McLean, Alex Lowe, Conrad Anker e Mark Holbrook —, mais o esquiador Hans Saari e o escalador e fotógrafo Kristoffer Erickson. A expedição, bem patrocinada, receberia grande cobertura online e depois viraria um filme.

Tudo correu bem na aproximação ao pico, a cerca de 160 quilômetros do Everest. Num reconhecimento de rotina, num dia quente e sem nuvens, a equipe subiu acima do acampamento base avançado para dar uma olhada na rota que fariam. Eles se dividiram em dois grupos, com Lowe, Anker e um cinegrafista, Bridges, indo à frente do resto num trecho plano de glaciar. A área ficava tão fora de qualquer ameaça de avalanche que ninguém levou localizadores ou bastões. Então, lá em cima na montanha, uma pequena avalanche caiu, a pelo menos 1.500 metros de distância. Ninguém entrou em pânico – parecia impossível que a avalanche chegasse até eles. Mas conforme a massa ia descendo, ia causando mais e mais deslizamentos. McLean, que estava numa pequena montanha a algumas centenas de metros do glaciar, não achou que corriam perigo. Momentos depois, ele percebeu que os amigos dificilmente se salvariam. Ele viu Anker jogar-se para o lado do glaciar. Lowe e Bridges correram para baixo, talvez procurando uma rachadura onde pudessem se proteger.

Quando a avalanche atingiu Lowe e Bridges, ela já era uma parede maciça de gelo e neve, rugindo montanha abaixo a mais de 160 km/h. McLean agachou-se para se proteger de pedras e pedaços de gelo que vinham em sua direção e, ao levantar-se, viu que todas as rachaduras haviam sumido, preenchidas pela neve. Uma única figura cambaleava no branco. Era Anker, tonto, com pedaços de couro cabeludo pendurados de sua cabeça, que havia sido fustigada pelo gelo. Os corpos de Bridges e Lowe nunca foram achados.

ILHA DA FANTASIA

Nos anos que seguiram a Shishapangma, McLean abandonou a ambição de esquiar um pico de oito mil metros e concentrou-se em expedições menores – especialmente as que lhe possibilitavam explorar os potenciais do ski-kite. Até que em 2001, McLean assistiu a uma apresentação de fotos de escalada em Baffin, uma enorme e pouco habitada ilha ao norte do Canadá, perto do Pólo Norte. Amantes dos penhascos escalavam seus granitos há anos, mas nunca alguém havia olhado para Baffin em busca de rotas de esqui. Conforme as imagens piscavam, os batimentos cardíacos de McLean se aceleravam. Baffin oferecia dezenas de rampas intactas, distantes alguns quilômetros umas das outras, separadas por fiordes planos e congelados, perfeitos para o ski-kite.

Em abril de 2002, numa expedição de três semanas, ele e o amigo Brad Barlage exploraram toda a ilha, cobrindo mais de 400 quilômetros e descendo 19 rampas virgens. “No primeiro dia, ficamos malucos de achar uma rampa com 800 metros. No fim da viagem, não descíamos nada menor que mil metros”, conta.

Algumas semanas depois da entrevista, ligo para McLean para saber como estão as coisas e ele me diz que está querendo testar um novo design de pipa. Os primeiros testes devem acontecer na Patagônia ainda este ano. “Quero ver quão longe eu consigo chegar nos lugares mais remotos do mundo. De esqui”, completa. É assim que o futuro acontece.

A operadora de turismo NorthWinds (www.northwinds-arctic.com) já oferece pacotes guiados de ski-kite para Fronisher Bay, em Baffin.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de julho de 2005)