Nervos de aço

O duríssimo Iron Biker reúne em Minas mais de mil atletas na maior prova da modalidade


DA LAMA AO CAOS: A trilha barrenta

Por Marilin Novak
Fotos por Cristiano Quintino

Que números um evento precisa contabilizar para ser considerado a maior prova de mountain bike da América Latina? Que tal 1.140, a quantidade total de bikers perfilados na Praça Tirandentes, no centro de Ouro Preto, em Minas, para a largada da 14º edição do Iron Biker, que rolou nos dias 7 e 8 de outubro? Ainda é pouco? Então imagine todos esses malucos juntos e alucinados numa trilha casca-grossíssima de 131 quilômetros. Turbine o percurso com muita lama, que não deu folga aos atletas depois de alguns dias ininterruptos de chuva. Para finalizar, acrescente os 68 mil reais de premiação, os 200 integrantes do staff e as 20 mil garrafinhas de água distribuídas durante o trajeto. Por esses números e pelo absurdo grau de dificuldade, o Iron, como costuma ser chamado pelos amantes do ciclismo, figura entre os desafios mais esperados do calendário nacional.

Nesta edição quem brilhou no pódio foi a italiana Sandra Klomp, vencedora da categoria elite feminina individual, e o brasileiro Gilberto Góes, líder entre os homens. Guerreira, Sandra foi imbatível no sábado e domingo, os dois dias em que a prova é dividida. Já Gilberto sagrou-se campeão após vencer no primeiro dia e conquistar a vice-liderança na etapa final.


SEM FOLGA: Competidores ralaram na lama

Mas não foi apenas a briga acirrada entre os profissionais que rendeu histórias emocionantes. Entre as 29 categorias do Iron, vários personagens se destacaram – teve até equipe que levou para casa o troféu de “a mais fashion”, por sua roupa incrementada.

Ninguém, no entanto, ganhou mais a admiração do público e dos competidores que a dupla Maria Ângela Marana Zogaib, 57 anos, e seu filho Luiz Fernando Marana Zogaib, 28. Os dois foram os únicos a completarem o percurso em uma bike tandem, de dois lugares.

Pedalar o Iron já é dureza, imagine em uma bicicleta em que os dois competidores vão “grudados”, sendo que o atleta que fica na parte traseira praticamente não enxerga nada além das costas do companheiro da frente. “Uma tandem é como um parque de diversões, ou melhor, uma montanha russa!”, diz Maria Ângela, empresária, mãe de cinco filhos, avó de um casal e ex-fumante. Ela começou a pedalar em agosto de 2005, por incentivo do filho. Para inaugurar a fase fitness da mãe, Luiz levou-a para uma cicloviagem em janeiro deste ano, quando percorreram, também a bordo de uma tandem, 700 quilômetros pelo litoral baiano. A segunda experiência foi no Ironbiker, na qual a dupla completou os 60% do percurso proposto pela organização para a categoria casal.


COMPETIDORES NA LAMA: eles não tiveram folga

Em uma tandem, enquanto todos os controles (marcha, freio e direção) ficam por conta do piloto dianteiro, a função do outro ciclista é proporcionar força por meio dos pedais — e, no caso de Maria Ângela, proteger a dupla. Fernando brinca que nas descidas ele aprendeu a rezar com a mãe. “Era um tal de ‘Ai, meu Deus, me proteja!’ toda vez que aparecia uma pirambeira”, relembra, rindo. As preces de dona Maria não eram em vão, já que o trio (bike e bikers) pesa 170 quilos. Isso significa uma força de impulso bem maior que em uma bicicleta normal, já que nas descidas ela produz 15% a mais de velocidade. Agora, se pra baixo todo santo ajuda, nas subidas a história se inverte. Aí são 170 quilos morro enlameado acima. Diante de tanta dureza, Maria Ângela não pensou em desistir no meio? “Jamais! Nem em colocar o pé no chão eu pensei!”, comemora a avó de aço.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de dezembro de 2006)