Vende-se o último selvagem

Quer pagar quanto?

Por Michael Behar
Fotos por Stephen Dupont

ESTOU EM ALGUM LUGAR de uma floresta tropical esquecida por Deus na costa norte de Papua Ocidental, na Indonésia. Encontro-me no quinto dia de uma trilha de três semanas no meio do nada, tendo como companhia Kelly Woolford, 43, um organizador de expedições que mora em Bali. Aos poucos, as coisas foram ficando estranhas e perigosas. Estou assustado, confuso e, para piorar, perdi a fé no meu guia.

“Vamos encontrar com eles, dividir um pouco de tabaco, relaxar um tempinho e depois seguir adiante, como se fôssemos nômades de passagem”, Woolford tinha-me dito. Mas, cinco minutos atrás, havíamos topado com nativos de arco e flecha tão furiosos que atacaram nosso acampamento, disparando setas pontiagudas em nossas cabeças. Para evitar ser perfurado por elas, corri para um rio próximo e atravessei-o a nado antes de lembrar que ali havia crocodilos que poderiam ter me reduzido a pedacinhos.

Apesar de todo o caos, Woolford parece não se incomodar. Continua calmo, fumando seu cigarro, enquanto os carregadores apanham facões e arcos. Peço que ele me garanta que não vou virar comida de índio, mas a resposta não é muito tranqüilizadora: “Se eles quiserem encher nosso rabo de flechas, não há muito que possamos fazer”. É verdade. Mas, como Woolford já dissera, se eles quisessem nos matar, já teriam feito isso a essa altura do campeonato.

Quando ouvi falar pela primeira vez da First Contact (Primeiro Contato), uma viagem organizada pela empresa de trekking de Woolford, a Papua Adventures, não pude acreditar na história surreal: um americano de Springfield, no Missouri, que descreve a si mesmo como um caipira, marcha floresta adentro em busca de tribos nativas desconhecidas que nunca viram um homem branco antes. Achei difícil de engolir o fato de que, em pleno século 21, ainda existiam por aí caçadores nômades usando utensílios de pedra e esfregando gravetos para fazer fogo. Mas havia, Woolford garantiu-me.

“Sobrou um punhado de lugares intocados em Papua Ocidental, com tribos da Idade da Pedra, com canibais”, disse. “Só que muita gente tem medo de procurar por eles.” Apesar de minha desconfiança inicial quando Woolford convidou-me para participar de sua próxima viagem à província mais oriental da Indonésia, que divide a ilha de Nova Guiné com a nação de Papua Nova Guiné, decidi que o filósofo francês Jean-Jacques Rousseau podia ter razão quando escreveu suas teorias no século 18: ver de perto um “bom selvagem” elevaria meu espírito e revelaria a essência primordial do meu ser.

É claro que essa visão antiquada e racista ignora o fato que primeiros contatos historicamente acabam resultando em um tsunami mortal de doenças, guerra, fome e escravidão, como o que engoliu quase todas as sociedades tribais do mundo após a chegada dos exploradores europeus. De qualquer jeito, inscrevi-me na tal excursão – afinal, alguém precisava conferir de perto a First Contact de Woolford, cujo preço por cabeça, segundo ele anunciava na Internet, era de US$ 8 mil.

Neste momento, entretanto, estou arrependido de minha curiosidade, perguntando-me se acabaria como Alejandro Labaca, o missionário católico espanhol que fez o primeiro contato com uma remota tribo peruana na década de 1970. Como descreve Joe Kane em Savages, seu livro de 1995, Labaca foi encontrado mais tarde “pregado no chão, com os braços e pernas esticados, por dezessete lanças feitas de madeira que pareciam pêlos de porco-espinho saindo de sua garganta, tórax, braços e coxas. Seu corpo apresentava 89 perfurações”. Se esses nativos são realmente “selvagens” ou o encontro é algum tipo de encenação bizarra, não sei. Garanto apenas uma coisa: estou me borrando de medo.

QUASE UM ANO ANTES, deparei-me por acaso com o site de Woolford (www.papua-adventures.com) enquanto procurava por guias na Indonésia. O site mostrava uma meia-dúzia de viagens instigantes, mas a que capturou minha atenção foi a expedição First Contact, descrita como um trekking para encontrar tribos indígenas que não apenas nunca viram estrangeiros de perto como não fazem a mínima idéia de que existem.

“De acordo com os antropólogos, o melhor lugar para o Primeiro Contato é, sem dúvida, Papua”, escreve Woolford no site (como muita gente, Woolford usa tanto o nome oficial Papua como Papua Ocidental, o termo mais preferido pelos estudiosos). “Existem áreas inexploradas que abrigam tribos da Idade da Pedra”. Isso parecia incrível. Comecei a perguntar a opinião de outras pessoas sobre a plausibilidade das alegações de Woolford.

“Não acredito que ainda existam povos isolados e nem que alguém deva se preocupar em fazer um primeiro contato”, disse-me Marshall Sahlins, professor emérito de antropologia da Universidade de Chicago. Miriam Ross, pesquisadora da Survival International (SI), uma ONG de Londres que age em nome de povos nativos, estimou que pelo menos 70 tribos – a maior parte espalhada pela Amazônia – ainda não foram contatadas e permanecem completamente isoladas do mundo exterior. Após checar com outros antropólogos, aprendi que, com base em rumores e testemunhos de gente local, acredita-se que ainda possa haver umas poucas tribos “virgens” nos morros, pântanos e florestas ao longo da costa norte de Papua Ocidental.

“Mas como você sabe onde eles estão?”, perguntei a Woolford. “Estudo literatura dos missionários”, explicou. “Estudo mapas. E tenho bons contatos em todas as regiões.” Woolford, que fez sua primeira viagem a Papua Ocidental em 1989, estreou a First Contact em novembro de 2003 com dois clientes pagantes: Herbert Schrouff, um cirurgião ortopedista holandês aposentado de 66 anos, e Robert Ferdiny, um veterinário austríaco de 49 anos. Eles estavam há uma semana na selva quando oito nativos surgiram apontando flechas para suas cabeças antes de se acalmarem e permitirem que tirassem fotos. Dez minutos depois, o encontro chegou ao fim quando a câmera de Woolford assustou-os. “Eles viram o flash e começaram a disparar flechas”, conta Woolford. Ele e seu grupo deram no pé.

A viagem seguinte de Woolford estava marcada para setembro de 2004, e eu me inscrevi. Ferdiny já tinha reservado uma vaga – sua segunda viagem – então é evidente que ele tinha fé que Woolford não acabaria nos levando para a morte. Segundo sua própria descrição, a atração exercida por essas viagens era enorme para ele. “Gosto de ver coisas que outras pessoas não viram – acho que é um defeito meu”, Ferdiny me contou depois. “Minha mulher me diz para deixar os nativos em paz. Às vezes me pergunto por que faço isso”.

Pedi para Woolford arranjar para mim com a polícia de Papua Ocidental o surat jalan, uma autorização especial de US$ 12 obrigatória para qualquer estrangeiro que pretenda viajar fora das principais cidades da província. Ele também reuniu uma equipe de nove carregadores e providenciou um barco para nos pegar próximo a Nabire, uma cidade portuária de 26 mil habitantes na baía Cendrawasih, onde começaríamos a jornada. Para “proteger os nativos” e “manter os idiotas afastados”, Woolford proíbe que os clientes levem dispositivos GPS e insiste que mantenham a localização exata e os marcadores geográficos das trilhas em segredo. “Não queremos corromper os nativos”, justificou.

Então como ele justifica fazer a viagem, para início de conversa?

“As pessoas estão sempre atrás da última novidade. Eu queria ver essas tribos, mas não tinha como arcar com as despesas. Pensei: ‘Por que não ter a experiência, levar algumas pessoas e ainda juntar uma grana?’.” Dito isso, acrescentou: “Além do mais, não estou distribuindo lanternas, e eles não vão sair e comprar uma TV de plasma depois de conversarmos. Cinco minutos é o tempo máximo. Meus clientes entendem isso”.

Os antropólogos com que falei questionam a tática. Meter-se com nativos isolados, alertam, é uma receita de desastre. Apesar da experiência prática de Woolford – já fez 26 viagens por Papua Ocidental –, ele não tem credenciais científicas, só um diploma em criminologia, de 1985, com especialização em sociologia, da Universidade Drury, em Springfield.

“Tribos que passam por um primeiro contato em Papua Ocidental geralmente foram expulsas para áreas marginais por vizinhos agressivos”, conta William Foley, chefe do departamento de lingüística da Universidade de Sydney, na Austrália, que já fez pesquisas de campo na região. “Eles não têm uma visão positiva de pessoas aparecendo atrás deles, pois no passado esse contato não rendeu nada de positivo. Então atiram primeiro e fazem perguntas depois. Você não pode simplesmente ir chegando ou corre o risco de levar uma flechada. Não é algo que possa ser feito numa boa por ocidentais em busca de emoções fortes.”


COMO FAZER AMIGOS E INFLUENCIAR PESSOAS: Woolford e dois índios baliem, seus velhos conhecidos

O PRIMEIRO CONTATO RARAMENTE MOSTROU-SE PRAZEROSO. Quando os antigos exploradores europeus partiam atrás de novas terras, iam acompanhados por soldados. Por mais de 300 anos, do final do século 15 até o início do século 19, esses encontros eram sinônimo de espadas, armas e conquista pela violência. De Colombo ao Capitão Cook, o choque entre o moderno e o primitivo quase sempre resultou em desastre para os povos nativos.

Recentemente, até mesmo renomados antropólogos foram criticados por causar caos em tribos primitivas. No livro Trevas no Eldorado: Como Cientistas e Jornalistas Devastaram a Amazônia e Violentaram a Cultura Ianomâmi, publicado no Brasil pela Ediouro em 2002, o escritor Patrick Tierney alega que o antropólogo Napoleon Chagnon, na época professor da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, e o geneticista James Neel, da Universidade de Michigan, conduziram pesquisas antiéticas nas décadas de 1960 e 1970 na fronteira amazônica entre o Brasil e a Venezuela. Tierney diz que Chagnon incitava intencionalmente batalhas entre tribos vizinhas dos ianomâmis para estudar a relação entre agressão e sucesso reprodutivo. Muitos antropólogos e organizações científicas temem que as críticas de Tierney sejam imprecisas e exageradas, mas independentemente das acusações serem verdadeiras ou não, elas abordam um importante dilema: fazer contato com tribos nativas causa mais mal que bem?

“Essas pessoas nem mesmo têm resistência contra resfriados”, conta Foley. “É um grande risco para a população – estamos falando de grupos pequenos, de não mais que 100 pessoas. Um único surto de gripe pode eliminar todos.” Segundo Fiona Watson, da Survival International, nos anos que se seguem ao primeiro contato, populações tribais podem ser reduzidas à metade devido a doenças. A ONG calcula que centenas foram extintas na América do Sul desde que a colonização começou, no século 16.

Essa é uma das razões por que os antropólogos cada vez mais defendem uma abordagem mais sutil. Hoje um único antropólogo costuma viver com uma tribo por vários meses registrando seus costumes. Em Papua Ocidental, pesquisas solitárias também são exigidas por regulamentos do governo, mas autoridades indonésias, desconfiadas de jornalistas e cientistas estrangeiros que possam divulgar as idéias separatistas do Organisasi Papua Merdeka (Movimento de Papua Livre), limitaram as autorizações na província.

Então como Woolford consegue trabalhar? Como um guia turístico independente, ele pode se movimentar mais livremente com clientes com vistos de turista, que sofrem menos controle. Além disso, ao longo dos anos, fez amizade com oficiais do governo por onde viaja. E também porque Papua Ocidental ainda é um lugar selvagem.

CONHECI WOOLFORD no aeroporto de Ngurah Rai, em Bali, em setembro de 2004. Estava vestindo uma camisa laranja, bermuda e tênis. Ele se parece muito o ator Willem Dafoe; seu cabelo louro avermelhado está na altura dos ombros, a face é enrugada e retangular, com sobrancelhas grossas e profundos olhos castanhos.

Woolford vive em Bali desde 1997. Mora em um pequeno chalé alugado a US$ 70 por mês em Ubud, uma pitoresca vila no meio de campos de arroz e templos hindus em péssimo estado. Para juntar um dinheiro extra, Woolford dá aulas de tênis no Maya Ubud Resort, um hotel cinco estrelas. Não bebe e é estritamente vegetariano, mas não consegue largar os kreteks (cigarros de cravo).

Enquanto a minivan recorta o tráfego, Woolford explica nosso plano. Nas últimas duas semanas os carregadores haviam feito duas viagens até os limites da região que pretendíamos visitar. Levaram arroz, gasolina e dinheiro para pagar um nativo chamado Hiri Didat – kepala desa, ou chefe regional –, cuja permissão era necessária para que viajássemos pelo interior e que nos acompanharia no trekking.

Woolford interrompe o que está falando várias vezes para narrar casos de calamidade na selva. Certa vez, em Papua-Nova Guiné, conta, viu várias lutas tribais. “Até passei andando no meio de uma. Eles me viram chegando e ambos os lados pararam de atirar flechas para eu passar. Quando cruzei o último homem, eles voltaram a atirar.” Recentemente, alega, visitou tribos que praticam o canibalismo, um ritual que muitos especialistas dizem ter sido abandonado há décadas.

Mais tarde, durante o jantar em Ubud, pressiono Woolford por garantias para o trekking que faremos. Quais exatamente são seus planos se encontrarmos uma tribo que se revelar hostil? “A estratégia é a gente ir atrás do mesmo pessoal do ano passado”, explica. “Mas não foi esse pessoal que botou vocês para correr da selva?”, disparo. “É, mas a esperança é amaciá-los com tabaco e depois convencê-los a nos levar um pouco mais rio acima até a tribo seguinte.”

Três dias depois, seguimos de avião até Nabire, depois viajamos de carro por 45 minutos até nosso barco em um pequeno e pouco usado cais ao norte da cidade. William Rumbarar, de 35 anos, o solucionador de problemas papuano, e seis carregadores já estão a bordo da canoa de dez metros chamada de prahu; e outros três se juntarão a nós no acampamento base. Woolford, Ferdiny, Stephen Dupont, um fotógrafo australiano de 37 anos, e eu subimos a bordo por cima de uma pilha de suprimentos enfiados no bote. Noto que as únicas armas em potencial que Woolford está levando são uns poucos facões, que usaremos para abrir uma picada na floresta. Ele conta que os carregadores rio acima têm arcos e flechas e uma espingarda de chumbinho, mas isso é para caçar crocodilos e aves.

Seguimos pela costa norte. Uma cobertura verde imutável se estende 35 quilômetros costa adentro, desaparecendo sob um manto

rasteiro de neblina. No meio da cerração, podemos ver os picos distantes das montanhas Kobowre, parte da espinha dorsal que segue de leste a oeste de Nova Guiné, erguendo-se 5.300 metros.

As montanhas dão espaço para selvas de terras baixas e pântanos com árvores de mangue. A diversidade topográfica da ilha abriga mais de 20 mil espécies de plantas e uma imensa variedade de aves, insetos, répteis, mamíferos e marsupiais.

Há ainda os rumores sobre canibais. Em 18 de novembro de 1961, Michel Rockefeller, o filho de 23 anos do governador de Nova York, Nelson Rockefeller, estava na província em uma expedição patrocinada pela Universidade de Harvard. A equipe descobriu uma tribo até então desconhecida, parte do povo kurelu, no vale Baliem de Papua Ocidental. Rockefeller ficou em Papua para coletar arte nativa, mas um dia seu barco virou quando estava viajando ao longo da costa — ele foi visto pela última vez nadando para a praia por um colega antropólogo, René Wassing. Anos depois, surgiram rumores que teria sido capturado, morto e talvez devorado por canibais.


AVENTURA: Membros da First Contact cruzam um rio

PAPUA SEMPRE FOI UM LUGAR MISTERIOSO. Lendas sobre praias de areias negras repletas de pepitas de ouro atraíram muitos exploradores. Navegadores portugueses, ansiosos em expandir seu império até o Oriente, avistaram a costa de Nova Guiné em 1511. Em 1526, Jorge de Meneses, o governador português das Ilhas das Especiarias, aportou na ponta noroeste do que hoje é conhecido como Papua Ocidental e batizou-a de Ilhas dos Papuas, ou “Ilha do Povo de Cabelos Crespos” (até 2002, a província era chamada de Irian Jaya. Irian quer dizer “terra quente que se ergue do mar”, e Jaya, “gloriosa”. O nome foi mudado pelo ex-presidente indonésio Abdurrahman Wahid para apaziguar os separatistas papuanos).

Por dois séculos, Portugal e Espanha disputaram a supremacia sobre Nova Guiné. Nenhum dos dois venceu. Com o Tratado de Utrecht, em 1714, a Holanda e a Grã-Bretanha obtiveram o controle da ilha. Em 1895, Nova Guiné foi dividida no paralelo 141: os holandeses reivindicaram a metade ocidental, chamando-a de Nova Guiné Holandesa, e os britânicos tomaram posse do território oriental. Foi só no início do século 20 que, como descreve um historiador, “os holandeses finalmente decidiram conferir o que ganharam com o acordo”. Na primeira metade do século passado, mais de 140 expedições foram mobilizadas para explorar o território.

É difícil de acreditar que, após um escrutínio tão intenso, ainda restariam tribos isoladas em Papua Ocidental. Durante a Segunda Guerra Mundial, bombardeios aliados fizeram chover bombas sobre os japoneses posicionados na vizinha ilha de Biak, entre maio e agosto de 1944. Nativos que viviam ao longo da costa de Papua Ocidental teriam visto e ouvido os aviões e percebido que existe um mundo além da selva.

“Essas tribos não são absolutamente não-contatadas”, argumenta Paul Michael Taylor, um antropólogo e curador do Museu Nacional de História Natural Smithsonian, em Washington. “Eles já negociam crocodilos e penas de aves e têm acesso a metais e tabaco há muito tempo. Sempre estiveram em contato, é só uma questão do quanto.”

Antes de deixar Nabire, Woolford concorda que sua definição de primeiro contato precisa de uns ajustes. Se encontrarmos mesmo uma tribo na selva, admite, pode ser impossível determinar se eles já puseram os olhos em um homem branco. Mas há certas pistas às quais se deve permanecer atento. “Uma delas é ver que tipo de ornamentos usam no corpo. Procure por plástico, metal e materiais sintéticos”, diz. “Outra coisa a se prestar atenção são suas ferramentas, se têm facas de metal ou facão.” Por fim, completa, devemos ficar de olho em sua expressão facial para ver se estão assustados ou nervosos. “Papuanos têm medo do desconhecido.”

NO FINAL DA TARDE de 12 de setembro, nós já percorremos cerca de 110 quilômetros de costa desabitada. Isso não é surpresa, considerando que Papua Ocidental tem uma população de cerca de 2,2 milhões de pessoas em uma área um pouco maior que a Califórnia. Quando enfim chegamos a nosso acampamento base, uma ampla clareira na selva, ao lado de um rio, os carregadores restantes estão nos aguardando. Passaram os últimos dias pescando e caçando crocodilos em um pequeno prahu ancorado nos juncos. Na clareira há um abrigo contra a chuva, chamado de pondok, com chão de bambu e teto de folhas de palmeira, aberto em todos os lados. A seu lado, uma pequena cabana-cozinha, onde um dos carregadores está assando um pombo que matou com sua arma de chumbinho.

A chuva desaba sobre nós a noite toda. Está insuportavelmente úmido. Acordo ensopado e pê-da-vida e tenho que enxugar a água debaixo do meu saco de dormir. Na manhã seguinte, meu humor piora com a capacidade de Woolford de sobreviver com pouco mais do que cigarro e café. Comemos apenas duas vezes por dia. O desjejum é sempre o mesmo: aveia instantânea, café e biscoitos envelhecidos. Um jantar típico consiste de macarrão instantâneo ou arroz frito com ketchup e molho de chili, às vezes com repolho. Mastigando os biscoitos duros e engolindo o café aguado, escuto Woolford falar. “Se fizermos amizade com os caras do ano passado, eles poderão nos levar aos outros. O jeito de conseguir as coisas em Papua é avançar devagar. Você não pode aparecer de repente. Eles ficariam nervosos e perderíamos tudo.”

Após horas de caminhada, decidimos montar acampamento próximo a um riacho. Então algo estranho acontece: aparentemente de lugar nenhum, um homem desconhecido começa a chamar das trevas. Sua voz é estridente e agitada. Não é ninguém do nosso grupo. De acordo com meu mapa, estamos a mais de 150 quilômetros da vila mais próxima. Um dos carregadores chamado Yakobus apanha uma bolsa com tabaco e corre para o mato. “Tsabat! Tsabat! Tsabat!”, grita ele, segurando o tabaco em sua mão estendida. Pergunto a Woolford: “O que o Yakobus está dizendo?”. “Acho que quer dizer tabaco”, responde. “Em que língua?” “Burate, a língua da região. Cerca de 100 pessoas falam essa língua hoje.”

A figura passa entre duas árvores e conseguimos ver seu enorme arco, que parece ter uns dois metros de altura. Quando Yakobus se aproxima, o homem começa a gritar mais alto – agora em bufadas curtas e nervosas. Quem quer que seja esse sujeito, não está nada feliz com nossa presença. Após mais algumas tentativas de Yakobus para lhe dar o tabaco, o estranho desaparece na selva e seus gritos vão ficando distantes.

Yakobus retorna assustado, de olhos arregalados. Ele acha que o homem deve ser algum tipo de chefe. Conta a Woolford que, mais cedo, quando os carregadores estavam preparando o jantar, ele foi checar nossa rota para o dia seguinte e topou com sete nativos amontoados perto do acampamento. No começo, Yakobus pensou ter reconhecido os homens como membros da tribo keu, que costumam caçar na região, mas não tinha certeza. Ele havia tentado lhes oferecer pacotes de tabaco. “Mas eles pegaram seus arcos”, conta a Woolford, que traduz a notícia para nós. “Tentei dar tabaco para eles de novo, mas correram para a selva.”

A princípio Woolford parece perplexo, o que me deixa preocupado. Mas então ele diz que esse tipo de comportamento agressivo é normal e às vezes leva dias para que uma tribo permita que forasteiros se sentem com eles. Tento relaxar. “Pelo menos eles sabem que estamos aqui”, comenta Woolford enquanto acende um kretek. “Amanhã a gente tenta de novo.”


ROUBADA: A expressão sombria da galera após o encontro com os índios

LOGO CEDO, NO DIA SEGUINTE, Woolford, Dupont, Ferdiny, Yakobus e eu deixamos o acampamento com três carregadores. O resto fica para trás. Eu desejo poder fazer o mesmo. Algo não parece certo. A selva é claustrofóbica e, às vezes, enlouquecedora – a chuva incessante, o calor, a lama, o grito das cigarras, a perturbadora sensação de estar sendo observado.

Depois de menos de 15 minutos de caminhada, sinto cheiro de fumaça. É a fogueira do grupo de nativos. Yakobus grita: “Whooo-ahhh, whooo-ahhh”, alertando-os de nossa aproximação. Estamos todos juntos a cerca de 20 metros do que parece ser a entrada de um abrigo. Todo mundo está em silêncio.

Aí começa o caos. Berros e gritos histéricos. Ouço passos, mais gritos e palavras incompreensíveis em tons frenéticos. Em segundos os nativos nos cercam, quase camuflados pela selva. À minha direita vejo um deles sair de trás de uma árvore, puxar a corda de seu arco e disparar. Eu me retraio e depois relaxo. O arco está vazio, nada de flechas. É uma demonstração de força – eles poderiam ter nos matado se quisessem.

Yakobus tenta atrair os nativos repetindo “Tsabat! Tsabat!” com as mãos para o alto, para mostrar que está desarmado. Por duas vezes, ele consegue atrair os homens, mas entram em pânico quando nos vêem e desaparecem na selva, gritando. Após vários minutos, Yakobus consegue. Pego a câmera de vídeo que trouxemos e começo a filmar. Há oito deles: sete jovens e um homem mais velho, provavelmente a pessoa que se aproximou de nosso acampamento na noite anterior.

Os homens estão usando ornamentos pretos na cabeça que parecem tranças rastafáris na altura dos ombros. Feitos de penas, os “chapéus” cobrem a maior parte de seus rostos. Alguns amarraram as penas em um tipo de rabo-de-cavalo, e um deles pintou duas linhas brancas paralelas no centro da testa. Tiras de folhas estão presas em seus bíceps. Cada um usa uma espécie de camisa feita das mesmas folhas, com uma longa faixa de casca de árvore marrom prendendo o conjunto. Ficam lá, parados e em silêncio pelo tempo necessário para Dupont tirar algumas fotos.

É nesse momento que noto que estão tremendo. Parecem aterrorizados. Uma onda de culpa cai sobre mim. Um dos homens berra um comando e mais uma vez eles somem na floresta. “Isto está errado”, digo a Woolford, perdendo a calma. “Precisamos ir embora agora. Não devíamos estar fazendo isso. Eles estão assustados de verdade.” Yakobus faz algumas tentativas sem entusiasmo de atrair os homens de volta e depois sugere que voltemos ao acampamento e tentemos novamente pela manhã.

“Tentar de novo”, murmuro, ainda agitado e assustado. Enquanto recuamos, ouço um dos nativos cantar algo como “Wu-hu-hu, wu-hu-hu” ao longe. Outros se juntam a ele, repetindo a frase em tons fantasmagóricos e ritmo sincopado. É hipnótico e belo – uma demonstração de solidariedade, talvez, para celebrar o fato que eles nos expulsaram.

De manhã partimos em direção ao território dos nativos mais uma vez. Mas o abrigo está vazio e o fogo, apagado. No caminho de volta ao acampamento, os carregadores fumam kreteks e murmuram baixinho entre si. Quando nos juntamos aos outros, o kepala desa, Hiri Didat, ouve nossa história e começa a andar de um lado para o outro. “Temo que eles possam estar por aqui ainda, cercando o lugar”, ele alerta a Woolford.

Woolford menciona que o homem mais velho pode ser o chefe que encontraram no ano anterior. Mas ele não tem certeza sobre os demais e não tem idéia do que fazer a seguir. “Há três possibilidades”, resume. “Eles se afastaram, estão circulando por aí ou foram buscar reforços e podem voltar para nos atacar”. “Atacar-nos?”, choramingo.

“Isso quer dizer que não estamos seguros”, conclui Ferdiny. “Não brinca”, respondo, notando que os carregadores já começaram a juntar tudo, levantando acampamento com o dobro da velocidade de antes. “Os nativos podem seguir nossas pegadas e nos atacar no acampamento base mais tarde”, alerta Rumbarar, um guia local que mal disse uma palavra na viagem inteira. “Mas, se voltarem, serão mais que oito pessoas.” Rumbarar diz a Woolford que os nativos são responsáveis por causar a tempestade de noite anterior, para que pudessem se ocultar nas trevas sem serem seguidos. “A chuva cobre suas pegadas na lama”, explica Rumbarar. “É, eles fizeram chover”, concorda Woolford. “Eles podem fazer isso. Já vi acontecer em outras partes de Papua.” “Eles não podem fazer chover”, interrompo. “Não acredita em mim?”, insiste Woolford. “É verdade, eu vi com meus próprios olhos.” “Acho que, com esse comentário, é uma boa hora para ir embora”, diz Ferdiny.

Durante a caminhada de volta ao acampamento base, Dupont, Ferdiny e eu ficamos juntos. Woolford está a nossa frente, onde não pode nos ouvir. Pela primeira vez, discutimos a possibilidade de ele ter avisado de antemão de que estaria trazendo ocidentais para a selva na expectativa de ver tribos selvagens desconhecidas, preparando um encontro simulado com nosso grupo. “Acho que pode ser um truque”, Ferdiny sussurra. “Estou achando difícil acreditar que, apenas quatro horas de caminhada do rio, esses nativos estejam tão perto”, digo. “Também estou desconfiado”, admite Dupont. “Por outro lado, não tenho certeza que seja uma armação.”

Andamos em silêncio rapidamente. Cada som, chiado ou sussurro me faz girar o pescoço, certo de que estamos sendo seguidos.


FOME NUMA HORA DESSAS?: Da esq. para a dir., Ferdiny, Woolford e o autor Behar comem e refletem sobre o primeiro encontro com os estranhos homens da selva

À NOITE, NO ACAMPAMENTO, é quase pôr-do-sol e o céu está mergulhado em tons mutantes de laranja, escarlate e violeta. Estamos na selva há quatro dias, e estou acabado. Decido tirar uma soneca antes do jantar. Minutos após fechar os olhos, ouço berros e alguém gritando: “Eles estão vindo! Eles nos seguiram até o rio!”. Visto minhas botas de trekking e saio da barraca engatinhando de costas. Vejo oito nativos fortes correndo direto para cima de mim, arcos e flechas prontos para disparar.

A adrenalina bate e, sem pensar, saio correndo a toda e pulo de cabeça por cima de um barranco quase vertical em um rio agitado, sete metros abaixo. Só mais tarde descubro que estavam disparando as flechas por cima de nossas cabeças. Por enquanto estou seguro. Eu me arrasto morro acima, com espinhos rasgando meus braços. Agachado em um emaranhado de samambaias, olho para o alto e vejo de relance dois nativos olhando pela beirada, alguns metros acima. Eles provavelmente estão se perguntando quem seria idiota o bastante para pular no rio. Prendo a respiração e me mantenho em silêncio.

Os nativos perdem interesse. Subo mais um pouquinho pela encosta e observo os homens atacando o acampamento, correndo na direção de nossos carregadores, que estão gritando ordens e tentando alcançar seus facões. De cócoras no mato, assustado e machucado, antevejo uma morte por flechada. Avisto um carregador procurando por mim. Levanto-me e saio da encosta do rio, revelando-me aos nativos que, para minha surpresa, estão parados diante de Dupont em uma pose improvisada para fotografia. Nessa hora, de uma maneira que não posso realmente explicar, tudo começa a parecer absurdo.

“Ah, por favor”, ouço-me dizendo. “Dá um tempo… larguem os arcos e as roupas fajutas. Isto é uma armação, certo?” Nenhuma reação. Talvez não seja mesmo uma armação. A cerca de três metros, o kepala desa apanha seu arco. Dois outros carregadores estão apertando os facões em seus punhos, e o resto dos homens estão encolhidos, assustados, próximo ao pondok.

Os nativos estão um do lado do outro, encarando-nos. De repente desviam o olhar, como se estivessem envergonhados. Um dos carregadores havia trazido seu cachorro, que começa a latir alto, assustando os homens tribais, que disparam para dentro da selva. O kepala desa e Yakobus saem correndo atrás deles, gritando “Tsabat! Tsabat!”

Cinco minutos depois, os nativos retornam, parecendo mais calmos, e marcham em fila até nosso acampamento. Dupont consegue chegar a poucos metros do chefe e continua a tirar fotos. Um dos nativos grita uma ordem que os faz sair correndo para selva. Yakobus os atrai de volta. Mas agora está escuro. Os homens tribais nos observam da beira da floresta, mas, quando um dos carregadores acende um lampião a querosene, o flash de luz branca os espanta definitivamente.

Rumbarar sugere que juntemos nossas coisas, no caso de precisarmos sair correndo dali durante a noite. Concordamos que está tarde demais para navegar os barcos rio abaixo no escuro. Mas todo mundo está com medo –Rumbarar, os carregadores, até mesmo o kepala desa, que Woolford alega ter matado inimigos em disputas tribais. Nós especulamos qual a melhor maneira de nos protegermos, e nossas palavras parecem ter saído de um filme ruim de zumbis. Ferdiny: “Devemos dormir aqui no pondok ou nas tendas?”. Dupont: “Talvez eles só matem de noite?”. Ferdiny: “Talvez eles só matem quem estiver com lanternas?”. Dupont: “Estou falando sério, Robert. Eles atiraram três flechas”. Ferdiny: “Se vierem de noite, podemos usar os flashes nos olhos deles”. Woolford: “É, vamos fazer eles recuarem na base do flash”.

Está começando a chover. Passo a noite completamente vestido, com minhas botas, o coração batendo rápido, transfixado pela selva. A tempestade é torrencial e não dá tréguas. Ao amanhecer, todo mundo acorda correndo para guardar tudo e cair fora. Às 7h30 nosso prahu está descendo o rio em direção ao mar aberto, seguindo para Naribe, onde é seguro.


(FALTA DE) COMUNICAÇÃO: Frustrada tentativa de dialogar com a tribo

SEIS DIAS APÓS NOSSA FUGA PELO RIO, eu me separo do grupo na cidade de Wamena, onde paramos para fazer trekking e relaxar no tranqüilo vale Baliem. Estou com viagem marcada de volta aos Estados Unidos, mas Dupont e eu, ainda desconfiados e incomodados com as coisas surreais que vimos, decidimos que Dupont deve gravar uma entrevista com Woolford quando os dois voltarem a Bali, longe das distrações de Papua Ocidental.

Durante a entrevista, Dupont menciona que alguns de nós tínhamos dúvidas a respeito da autenticidade de nosso encontro. Woolford, é claro, insiste que a coisa toda foi genuína. “Nada foi combinado de antemão?”, pergunta Dupont. “De jeito nenhum. Eu não poderia fazer isso, não faz parte do meu jeito”, responde Woolford. “Papua é tão estranha que você não precisar armar nenhum esquema. É a terra do inesperado.”

Duas semanas mais tarde, já em casa, envio três horas de imagens de vídeo a diversos antropólogos familiarizados com as tribos de Papua Ocidental. Nenhum deles se convence com elas. “Tenho 95% de certeza que é uma farsa”, declara William Foley, da Universidade de Sydney, após assistir ao vídeo. Ele nota o fato de que nenhum dos nativos parece ter qualquer doença de pele, que são endêmicas entre povos primitivos. “Nunca se ouviu falar disso em um povo que vive na floresta”, explica. “Os rapazes estão limpos demais. Em segundo lugar, sua roupa é elaborada demais. É o tipo de coisa que vestem quando estão realizando alguma cerimônia. Não é assim que andam quando saem para caçar e coletar comida.”

Outros antropólogos tiveram reações similares. Paul Taylor, no Smithsonian, acrescenta que não seria muito difícil contratar aldeões locais para esconder suas roupas ocidentais e colocar vestuário tradicional para depois fingirem ser “descobertos” pelos clientes de Woolford. “A grande questão para mim”, diz Taylor, “é se isso é algo que ele pagou para essa gente fazer repetidas vezes”. Seja o que for que está se passando, Taylor não gosta. “Se não é uma situação de primeiro contato, então é uma fraude.”

Enquanto mostro o vídeo para Eben Kirksey, um doutorando da Universidade da Califórnia em Santa Cruz e um dos poucos cientistas a receberem permissão para conduzir pesquisa em Papua Ocidental, ele nota muitos dos detalhes suspeitos que Foley apontou – roupas elaboradas, falta de doenças de pele –, mas ele também vê coisas que o fazem pensar que parte do que vivemos foi autêntico. “O kepala desa parece assustado de verdade”, diz.

As imagens parecem confirmar isso. Decidi providenciar a tradução dos diálogos do kepala desa e dos outros carregadores. Parte do que diziam foi registrado no vídeo quando eles não sabiam que estavam sendo filmados. Em uma cena, após os homens tribais atacarem nosso acampamento no rio, o kepala desa diz para Woolford: “Eu estava tão assustado que quis atacar eles quando atiraram as flechas”.

Também entrevistei vários amigos de Woolford, curioso em saber se eles acham que ele enganaria seus clientes de propósito. Foram unânimes em dizer que ele nunca faria uma coisa dessas. Citam seu “óbvio amor pelo povo papuano” e o chamam de “homem de palavra”. Laurence Livingston, um fabricante de cerveja que vive no Alasca, dividiu um quarto com Woolford na faculdade. “Ele não está nessa de mentir e inventar esquemas”, diz. Livingston sugere uma possibilidade que eu também vinha contemplando: se a viagem foi uma farsa, então foi armada por um dos locais sem que Woolford e os outros carregadores soubessem. É, pelo menos, uma teoria plausível. Se um trekking First Contact não desse em nada, Woolford não voltaria àquela região de Papua Ocidental, e os carregadores perderiam o emprego.

Woolford, de sua parte, retorna o fogo quando lhe conto sobre os comentários dos antropólogos, declarando que qualquer um que duvide de sua palavra deveria ir com ele no trekking. “Algumas dessas pessoas não passam de palestrantes em belas universidades com um gordo salário e trabalhos confortáveis”, devolve. “Se eles acham que eu simulei isso tudo, que venham comigo. Deixo um convite em aberto para que vejam por si mesmos. Eles podem sentir a energia desses caras, vê-los correndo ao seu redor, aproximando-se com ferocidade e apontando flechas para eles.”

Quanto à aparência saudável dos nativos, Woolford diz que a abundância de córregos de água doce na região significa que eles podem se banhar regularmente. Ele credita as elaboradas roupas cerimoniais à vaidade adolescente. “Em qualquer lugar do mundo, em Nova York ou onde for, garotos sempre se vestem na última moda. No território de Lani, em Papua, os rapazes usam kotekas [cabaças protetoras de pênis] tão grandes que chega a ser obsceno. Acho que é esse o caso com o pessoal que vimos.”

PRIMEIRO CONTATO OU FARSA? Talvez eu nunca saiba. A última vez que falei com Woolford, em dezembro de 2004, ele tinha certeza quase absoluta que o homem mais velho com quem nos deparamos era o mesmo chefe tribal que tinha visto no ano anterior, mas ainda não estava certo sobre os outros. Ele já agendou outras expedições First Contact. “As pessoas pagam um bom dinheiro por essa viagem, e eu quero que eles encontrem alguma coisa”, justifica. “Mas localizar novas tribos está ficando cada vez mais difícil.”.

Ouvindo Woolford, ele parece dedicado e sincero, como alguém que realmente quer dar aos seus clientes aquilo pelo que pagaram. Seu amor pela província é evidente, e ele trata seus carregadores excepcionalmente bem. Ainda assim, não consigo evitar sentir que fiz algo de errado ao participar da First Contact, mesmo que Woolford esteja certo em sua crença de que esses trekkings estão ajudando a redefinir a exploração de modo positivo. Na opinião de Woolford, a elite acadêmica, que no passado foi guardiã da descoberta científica, agora precisa abrir espaço para os aventureiros que possam arcar com os custos da experiência.

Confesso que, uma semana após voltar para casa, minha reação contra o que via como um estilo arriscado e abusado começa a se diluir. Minha intuição me diz que o que vivi em nosso trekking não pode realmente existir. Mas e se existir mesmo? E se Papua Ocidental for o último lugar do mundo onde os fantasmas do passado ainda vivem no presente, onde o surreal se torna real? Agora, tudo que quero é voltar para lá. Mas não sei se devo.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de dezembro de 2006)