A dama das rochas

A escaladora Steph Davis deu duro a vida toda em busca de um sonho: vencer paredões


DE OLHO NO LANCE: Steph observa um obstáculo em sua escalada em Yosemite

Por Katie Arnold
Fotos por Jeff Lipsky

No calor de uma tarde de outubro de 2005, o El Capitan ergue-se quase 1.200 metros acima do vale do Yosemite, uma montanha cinzenta e maciça como um navio de guerra. Dá para ver minúsculos escaladores pendurados na encosta de granito em cordas invisíveis. De longe, parecem imóveis, como se todo seu esforço sumisse ao ser admirado à distância.

No ponto mais duro de uma das rotas mais casca grossa do mítico El Cap, a 825 metros de altura, Steph Davis está se puxando rocha acima, com os pés meio congelados, quando sua bota direita escorrega. De repente, ela cai dez metros. Sua corda estala ao se estender, evitando uma fatalidade e deixando-a balançando no vazio. Ela grita para Cybele Blood, uma mulher de 38 anos recrutada para fazer sua segurança lá embaixo, para dizer que não está ferida. Só irritada. “Ótimo”, ela resmunga para si, sabendo que só há uma coisa a fazer: continuar subindo.

Steph está no oitavo dia de sua tentativa de se tornar a primeira mulher a fazer a escalada livre do Salathé Wall, uma rota na face sudoeste do El Cap – e, segundo seus cálculos, ela já devia ter terminado. Mas, desde o começo, nada tinha saído de acordo com o planejado.

Para começar, o tempo. Alternando entre quente de matar e gelado com vento, era o tipo de condição climática que pode ficar feia bem depressa – como aconteceu quase um ano antes, quando uma tempestade de neve assolou o El Cap, prendendo dois escaladores japoneses que morreram congelados antes que o resgate os alcançasse. Steph não está equipada para um tempo assim. Ela está usando tênis leves e shorts de escalada, uma primeira camada de roupa longa e uma jaqueta fina. Seu único equipamento é um saco de dormir leve, uma cafeteira portátil e pouca comida.

O principal problema de Steph, no entanto, é a dúvida de que talvez não seja capaz de encarar a último e punk trecho do Salathé, conhecido como paredão Enduro. É um mau sinal, já que a principal vantagem dessa super escaladora não é tanto o talento atlético ou a técnica impecável, mas a força de vontade e o estilo de trabalho metódico e cerebral. Essa mulher de 33 anos treinou sozinha o verão todo para essa empreitada. Mas liderar uma ascensão de nível 5.13 – que é mais ou menos como subir feito uma aranha pela lateral de um arranha-céu, com espaços para segurar do tamanho de uma lentilha – é outra história, e Steph tem caído. Bastante.

Diferentemente de uma escalada tradicional, em que não há problema em se apoiar em cordas enquanto se sobe um paredão, na escalada livre é preciso usar somente as mãos e os pés para galgar as rachaduras e falhas naturais da rocha. O equipamento de proteção só está lá para segurar o atleta em caso de queda, assim como a pessoa responsável por sua segurança. Cair é, no mínimo, inconveniente. Toda vez que se cai de um paredão, é preciso voltar ao início do estágio e começar tudo de novo.

Steph tem estado empacada nessa parte o dia todo. A luz do dia está acabando e ela está fadada a passar a noite em uma saliência de granito não muito mais larga que uma prancha. Detalhe: com um precipício de 825 metros logo a seu lado. Um pensamento passa por sua cabeça: por que não desistir de uma vez dessa roubada e descer?

A verdade é que, independentemente de ela conseguir ou não superar o Salathé, muito pouca gente vai ficar sabendo ou se importará. Escalada livre é uma atividade muito específica, que a maior parte do mundo não compreende. Steph é uma profissional patrocinada – ela se vira bem com os patrocínios de empresas como Patagonia, Five Ten, Clif Bar e Black Diamond –, por isso precisa continuar com uma performance excelente. Mas ela sabe que nunca ficará rica e famosa fazendo isso. “Digamos que não é tão lucrativo quanto o golfe”, brinca.

Na verdade, as únicas pessoas que notarão sua conquista são os outros atletas, o que tem seu lado bom e ruim. A comunidade dos escaladores é pequena e às vezes um tanto metida, e todo mundo tem opinião sobre tudo. Steph recebe vários elogios (“Ela é uma celebridade”, diz o escalador Mark Synnott), mas, como tem patrocínio, muita gente diz por aí que ela é uma “vendida”.

Não parece uma recompensa justa para quem trabalhou sem descanso nos últimos 15 anos para se tornar uma das melhores mulheres do mundo em sua modalidade. Não se engane: Steph, ao lado de atletas como Beth Rodden e Lynn Hill, está entre as melhores que já existiram. Ela traz no currículo conquistas de faces infernais, do Paquistão à Patagônia, às vezes congelando por dias em cavernas de neve, quase sendo esmagada pelo deslizamento de blocos de gelo e descendo de rapel sozinha em lugares sinistros, admirada de perto pelo marido, o também escalador profissional Dean Potter, de 34 anos.

Tudo isso vindo de uma mulher que cresceu tocando piano, sem praticar esportes e que nunca tinha ouvido falar de cordas e cadeirinhas até a idade relativamente adiantada de 18 anos, mas que, de alguma forma, teve a coragem de largar a faculdade de direito para seguir seu sonho, apesar de seus pais lhe dizerem o tempo todo que ela tinha ficado maluca.


MULHER DE VERDADE: Steph em sua luta para se tornar a primeira mulher a fazer escalada livre do Salathé

EU CONHECI STEPH EM MOAB, EM UTAH, na casa que ela divide com Potter e o cachorro deles, um cão pastor australiano mestiço de dez anos chamado Fletcher. Eles têm morado em Moab por certos períodos nos últimos seis anos, mas ficam por lá muito pouco. Passam o verão e o outono fazendo escaladas livres em Yosemite, onde têm uns terrenos vazios e planejam construir uma casa. No inverno, costumam viajar em expedições alpinas nos Andes. Davis está acostumada a essa vida nômade – durante sua longa aprendizagem nesse esporte, ela praticamente morou em seu carro por sete anos –, mas Moab é para onde ela corre quando quer escapar do que chama de “penúria e sofrimento” da escalada. Lá ela encontra seu ninho de verdade.

Aquele era um dia quente típico do deserto e havíamos passado as últimas 24 horas fazendo o que uma profissional faz quando não está pendurada em alguma parede: correndo por trilhas, exercitando-se em seu muro caseiro de escalada, equilibrando-se em uma corda-bamba esticada no jardim. Tínhamos acabado de voltar de uma caminhada cheia de neve nas Montanhas La Sal e estávamos sentadas descalças nos degraus da entrada, tentando relaxar.

Na verdade, eu é que estava tentando relaxar. Steph estava ocupada furando uma mangueira para fazer um sistema de regador para seus vasos de amores-perfeitos. “Eu não posso ir até Yosemite antes de dar um jeito na minha irrigação", disse, enquanto refletia sobre como consertar um problema com a porta da frente com Ole Hougan, seu ajudante faz-tudo de 60 e tantos anos. Da rua, sua casa baixinha parece confortável e convidativa. Um olhar mais atento, entretanto, revela que o agradável chalé é, na verdade, uma casa-móvel de tamanho grande.

“Morar em um trailer mantém tudo honesto”, gargalha. “Não dá para deixar nenhuma bagunça, porque logo vira uma zona, uma lixeira!” Steph possui uma alegria sobrenatural, está sempre prestes a ter uma explosão de entusiasmo. Fala de um jeito empolgado que parece estar gritando, só que não tão alto. Com 1,65 m e 54 quilos, é esbelta e forte, com pele bronzeada, sobrancelhas arqueadas, panturrilhas musculosas e energia de mola presa, daquelas prontas para pularem a qualquer momento.

No trailer, a primeira coisa que se nota é um piano de marfim. “No começo, eu pensei: ‘Simplesmente não dá para eu ter um piano aqui’”, diz ela, que o comprou, seminovo, há dois anos. “Mas o som é ótimo e eu achei que ia combinar com o carpete e as paredes. É a cara do meu trailer!”

Para entender essa atleta, é interessante levar o tal piano em consideração. Sua mãe, Connie, matriculou-a em aulas de piano quando ela ainda tinha quatro anos, na esperança de incentivar o gosto pela música e um senso de propósito. Funcionou. Quando entrou no colegial em Columbia, em Maryland, ela praticava piano clássico seis horas por dia e só tirava nota dez. Era talentosa e disciplinada, mas não um prodígio, e ficava claro que a música era um meio para um fim – e o fim era a autodisciplina.

“Nunca forçamos Stephanie a fazer nada, mas nós realmente tínhamos uma inclinação acadêmica”, diz Connie, a mãe, que hoje vive perto de Tucson com o pai da atleta, Virgil, um executivo aeroespacial aposentado. “Eu simplesmente assumi que ela iria para a faculdade, se formaria em direito e ficaria no mesmo trabalho pelo resto da vida.”

Mas a filhinha tinha outros planos. Na primavera de 1991, ainda na Universidade de Maryland, um cara que ela mal conhecia se ofereceu para levá-la para escalar rochas. A moça foi fisgada na hora. Desistiu do piano, se transferiu por um ano para o Colorado, para ficar mais perto das montanhas, e para lá retornou mais tarde para fazer um mestrado em literatura inglesa. Em seu tempo livre, encarava rotas alpinas em Longs Peak, no Parque Nacional das Montanhas Rochosas, e paredes de rochas em Hueco Tanks, no Texas. Em setembro de 1995, matriculou-se na Universidade de Colorado, em Boulder, apesar de nem querer ir. Uma semana depois, largou o curso de vez.

Em um mês, ela tinha montado uma cama no banco traseiro do carro que tinha ganhado da avó e começou a dirigir até as regiões de escalada, trabalhando como garçonete para juntar grana. “Foi um grande choque”, diz Connie. “Éramos uma família normal e escalada não fazia parte de nosso meio. Steph precisava descobrir como as coisas realmente eram e fez isso por conta própria, sem nenhuma ajuda nossa.”

Durante todo esse tempo, Steph nunca deixou de ser bitolada. Apesar de só ganhar US$ 6 mil por ano, conseguiu abrir uma associação internacional de leitura, um tipo de organização comum nos EUA dedicada a ensinar literatura e promover a leitura. Ela, aliás, lia compulsivamente, de Gabriel García Márquez à autobiografia de Kirstie Alley, a atriz do filme Olha Quem Está Falando, que engordou e lançou um best seller sobre sua vida depois de pesar mais de 100 quilos. Mas Steph nunca se sentiu totalmente tranqüila.

“Eu estava sempre com medo”, recorda. “Meus pais não gostavam das minhas escolhas e achavam que eu estava fazendo coisas estúpidas com minha vida, e me diziam isso a todo instante. Sentia-me como se ninguém se importasse com minhas conquistas. Quando vencia um paredão legal, apenas diziam: ‘Ótimo. E quando você vai voltar para a escola?’”

Ela batalhou por anos, tentando e falhando em duras rotas rochosas como a Pink Flamingo, uma fenda tenebrosa em Indian Creek, no sul de Moab, que ela abandonou bem rápido. “Achava que se não conseguisse fazer uma escalada depois de duas ou três tentativas, eu não era boa o bastante”, afirma.

“Steph não era a mais talentosa quando começou”, concorda Potter, o marido. “Mas ela nunca desistiu.” O que nos traz a outra coisa que se deve notar no trailer do casal: uma citação anotada a mão, presa com fita crepe na geladeira, que diz: A LUTA É PARTE DA VIDA E QUANDO SE ACEITA ISSO TUDO FICA MUITO MAIS FÁCIL.


EM FAMÍLIA: Com o cão Fletcher e o marito, o escalador Dean Potter

NO OUTONO DE 1994, Steph estava escalando o Diamond, um paredão em Longs Peak, quando viu um cara de shorts preto e jaqueta rosa-choque. “Seu cabelo era desgrenhado, ele estava muito agitado e não conseguia encontrar o prego seguinte onde deveria se agarrar para continuar a subida”, conta. “Eu tentei ajudá-lo, mas só conseguia pensar: ‘Quem é esse molenga?’”

Como ela, Dean Potter era um jovem escalador que esperava melhorar com o tempo. Ele tinha largado a Universidade de New Hampshire alguns anos antes e estava viajando de rochedo em rochedo, também vivendo no seu carro. Potter seguiu Steph por algumas semanas depois que se conheceram, mas ela não estava interessada em arranjar um namorado. “Não queria me distrair do esporte, então fiquei dando o fora nele, até que um dia desisti”, ela diz. “Foram fogos de artifício e melodrama desde então.”

Steph e Potter começaram uma daquelas relações que acabam e recomeçam várias vezes, morando juntos (em seus veículos) e separados (em ambos os seus veículos). Essa confusão toda tinha tanto a ver com a imprevisibilidade da vida dos dois quanto com suas próprias e voláteis ambições. A essa altura, Steph tinha arranjado um modesto patrocínio de uma fabricante de calçados para escalada, a Five Ten, e estava ampliando seu currículo com expedições alpinas à Patagônia, Paquistão e Ilha Baffin. Potter estava ocupado com seus próprios projetos também.

Eles se separaram no outono de 2001, logo antes de uma viagem para a Patagônia. Steph esperava finalmente galgar o cume de Fitz Roy, um pico coberto de gelo com 3.650 metros de altura na Argentina, cujas pesadas tempestades haviam-na expulsado da montanha na última tentativa. Ela foi sozinha e arranjou um parceiro no acampamento base do lado leste. Assim que o tempo abriu, eles subiram até o topo. No dia seguinte, Potter escalou sozinho o Fitz Roy pelo lado oeste. Viu então marcas de crampons – um equipamento com garras acoplado nas botas de alpinistas – femininos e soube que a ex-namorada tinha conseguido a proeza. Um mês depois, em Moab, Potter pediu sua mão e, em junho de 2002, eles se casaram em um descampado no alto de La Sals.

Desde o começo, o casamento não teve nada de normal. Raramente estavam no mesmo lugar ao mesmo tempo¬ – e, quando estavam, ficavam brigando para decidir o projeto de quem deveria vir primeiro. Potter costumava ganhar, aceitando a ajuda da mulher, mas oferecendo pouco em troca. “Eu tinha essa idéia de que precisava ser a esposa virtuosa e ajudá-lo em seus desafios e não ter objetivos próprios”, explica ela, que passou dois meses auxiliando Potter a treinar para sua histórica escalada livre do El Cap e do Half Dome no mesmo dia, em setembro de 2002. “Mas, para ser justa, ele não me pediu para fazer isso. Foi uma coisa que eu tirei da minha própria cabeça.”

Após Potter completar o circuito, Steph supôs que ele retribuiria o favor ajudando-a em sua difícil escalada de Cosmic Debris, uma clássica fissura em Yosemite. Mas ele ajudou-a só duas vezes durante seu bem-sucedido esforço. “Fiquei passada com isso”, admite. “Foi quando comecei a contar quem fez o quê.”

Ao voltarem a Utah, Potter queria que ela fizesse segurança para ele na ascensão de uma torre de arenito de 165 metros chamada Tombstone, mas Steph insistiu que a escalassem juntos, trocando de líder para fazer a primeira, e até hoje única, escalada livre do lugar, em setembro de 2003. Depois disso, quando Steph quis tentar o Pink Flamingo de novo (“era como uma ferida infeccionada, estava pesando em mim”), Potter se mandou para o Yosemite, deixando-a sozinha para achar um parceiro que lhe fizesse segurança. Em março de 2003, ela se tornou a primeira mulher a fazer a escalada livre dessa rota.

“Eu não estava brava com o Dean”, diz. “Ele estava muito animado com o Yosemite, e eu consegui fazer a coisa funcionar em Moab. Eu estava escalando para valer e percebi que era assim que as coisas seriam: eu tinha que ser independente. Então voltei para o Yosemite e comecei a trabalhar em outras escaladas, incluindo a Freerider.” Seu programa de treinamento era um tanto masoquista e disciplinado: duas ou três vezes por semana, ela caminhava 16 quilômetros até o cume, fazia segurança para si mesma, descendo mais de 300 metros até as partes mais baixas, e depois subia sozinha.

Treinar sozinha é uma coisa, mas fazer escalada livre do paredão inteiro sem parceiro seria impossível. Quando Steph estava pronta para tentar a rota, em abril de 2004, ela precisava de um parceiro. No começo Potter tentou pular fora, mas acabou mudando de idéia. Com o marido fazendo sua segurança, ela se tornou a primeira mulher a completar com sucesso a escalada livre da rota, em quatro dias. Um mês depois, com a ajuda do australiano Heinz Zak, ela voltou à Freerider e se tornou a segunda mulher, depois de Lynn Hill, a fazer a escalada livre do El Cap em um dia.

A Freerider acabou sendo uma virada em sua relação com Dean: o casal finalmente aceitou que sua união, por mais estranha que fosse, no final das contas funcionava. “Nossos papéis começaram a se definir”, explica ela. “Nós concordamos que vamos fazer algumas coisas juntos e outras, separados. A realidade é que eu não iria querer alguém me seguindo por aí, carregando minhas sapatilhas em uma bandeja de prata e dizendo: ‘Viva, Steph!’. Isso ia acabar me irritando!”

EM UMA SÁBADO NUBLADO de junho, seis semanas após minha visita a Steph em Moab, nós duas estávamos presas no trânsito do vale do Yosemite, respirando fumaça de ônibus em uma estrada de mão única entre El Cap e o acampamento 4, o famoso ponto de encontro dos escaladores do parque. “Que coisa mais chata”, disse ela.

Eu tinha vindo a Yosemite para ficar com Steph no apartamento que ela e Potter alugam em Yosemite West, um pequeno pedaço de propriedade particular dentro dos limites sudoeste do parque. Ela estava começando seu treinamento para o Salathé e, nos poucos dias que estive lá, vimos muito pouco seu marido. Uma noite ele cozinhou para nós, mas no resto de tempo estava fora, encontrando-se com amigos e treinando para suas escaladas.

De qualquer modo, nós tínhamos nossa própria programação: caminhadas, treinos na rocha, acordar às cinco da manhã para escalar a Snake Dike, uma rota escorregadia na face sudoeste de Half Dome. Quando não estávamos em algum paredão, passeávamos de carro, uma atividade que não tem nada a ver com Steph e consiste em dirigir sem destino pelo vale, com o cão Fletcher no banco da frente e o equipamento amontoado no banco de trás. A qualquer momento durante as temporadas de escalada, na primavera e outono, pode haver até uma dúzia de atletas de primeira linha no parque, e para localizá-los geralmente é preciso dirigir a esmo.

Mas às vezes acontece o contrário. Um dia, enquanto checávamos o terreno que pertence a Steph e Potter, um cara em um carro alugado de duas portas estacionou ao nosso lado. Uma mulher pequenina com cabelos loiros fofos estava no banco de trás, com uma criança agitada. Era Lynn Hill, seu companheiro na época, Brad Lynch, e o filho deles de dois anos, Owen, fazendo uma visita.

Lynn ainda é a escaladora mais famosa da história: sua ascensão livre em um dia do Nose – uma clássica rota de dificílimo nível 5.14 subindo a proeminente linha central de El Cap – permaneceu insuperável por 11 anos, até que Tommy Caldwell, de 27 anos, tornou-se a segunda pessoa a fazer o mesmo, em outubro passado. Agora ela é patrocinada pela Patagonia, dirige seu próprio acampamento de escalada e vem de avião de Boulder de vez em quando para visitar velhos amigos em Yosemite.

“Owen foi devorado pelos mosquitos”, explicou Lynn, esticando o pescoço para conversar conosco. Estava começando a chuviscar, mas isso não impediu que Steph começasse um animado monólogo sobre repelente orgânico de insetos e seu segundo assunto favorito depois de escalada: o tempo. Alguns minutos mais tarde, Lynn e Lynch acenaram e foram embora sob a chuva.


O DESCANSO DA GUERREIRA: Antes de continuar sua escalada, ela para e relaxa um instante

A GRANDE CHANCE DE STEPH COMO PROFISSIONAL veio em 1998, quando a Patagonia a contratou como sua primeira “embaixadora de escalada”, para promover seus produtos em troca de equipamento grátis. “Quando o pessoal da Patagonia disse que me admirava e apoiava, foi como se estivessem desempenhando o papel que meus pais nunca conseguiram”, compara. “O apoio deles à minha paixão, mais até que o suporte financeiro, significa tudo para mim.” Hoje ela é paga para viajar pelo mundo fazendo aquilo que adora: treinar, escalar e ocasionalmente dar uma força à Patagonia no desenvolvimento e planejamento de produtos.

Só tem um probleminha. Desde que se juntou à Patagonia, ela teve que se reconciliar com sua crença de que a escalada, além de ser uma “trilha pura de alegria espiritual”, é também um negócio. “Para ser um atleta profissional, é preciso se vender e convencer todo mundo que você é demais”, explica. “Mas eu não acho que exista uma pessoa melhor que outra. Na hora que você diz que quer ser melhor que alguém, está estabelecendo limites para si mesmo, o que é uma idiotice!”

Nem todos do mundo das rochas acreditam em sua humildade. Alguns reclamam que ela só sabe se autopromover e não tem habilidade para fazer valer sua palavra. “Não dá nem para mencionar o nome dela na presença de Beth Rodden”, cutuca um escalador que não quer que seu nome seja revelado por medo de perder seu patrocínio.

Entretanto, Rodden, outra grande escaladora, diz não se importar com a comparação. “O cenário da escalada livre feminina em El Cap é bem pequeno, só Steph e eu”, diz. “Mesmo assim, tenho sempre alguém para fazer minha segurança, enquanto Steph faz tudo sozinha.”

Outros apontam essa negatividade como pura inveja. “Os profissionais podem ser alvos fáceis”, explica Jimmy Chin, um fotógrafo de aventura que escalou com Steph a torre Tahir, no Paquistão, em 2000. “Escaladores falam merda sobre os colegas o tempo todo, mas é possível contrabalancear a exposição com a escalada e preservar a alma mesmo trabalhando para uma empresa.”

Pelo menos por enquanto, Steph concorda. “Eu mesma tenho sentimentos negativos a respeito do marketing, mas esse é o meu trabalho e minha vida, e eu adoro”, justifica-se. “Não quero ser a melhor, só ser melhor do que sou agora, o que pode significar ter um estilo melhor ou uma atitude melhor, ou ser melhor com a Terra, as pessoas, as criaturas. E não há limite para isso.”

JÁ SOBRE A ASCENSÃO DO SALATHÉ, não era fácil melhorar. Na medida em que os dias iam passando, Steph ficava cada vez mais deprimida. Seus músculos estão moídos, ela está quase sem comida e a idéia toda começa a parecer ridícula. No início do nono dia, sua segurança, Cybele Blood, iça a si mesma até o topo das cordas fixas para buscar suprimentos, deixando Steph sozinha em um platô.

Levando tudo em consideração, há lugares piores para se estar: o dia está ensolarado e estável, e o vale do Yosemite inteiro se estende diante dela. Dá para ela ver as corredeiras no rio Merced e, no final da tarde, sua própria picape azul saindo do estacionamento para ir ao mercado.

Se não fosse por Cybele, uma escaladora itinerante de Los Angeles que Steph conheceu algumas semanas antes, ela nem estaria ali. Estaria, isso sim, prendendo cartazes de PROCURA-SE UMA BELAYER (como se chama, em inglês, quem faz a segurança para outro escalador) no quadro de avisos do acampamento 4 e me deixando mensagens meio pedindo, meio me estimulando a aceitar a posição, mesmo eu só tendo me aventurado no esporte dez vezes na minha vida. Seu marido concordou em ajudá-la nas primeiras etapas da escalada do Salathé, mas ela precisava de um parceiro para o resto.

Ao amanhecer do 12º dia, restam apenas 16,5 metros de granito suspenso e casca-grossa entre Steph e um final de 100 metros. Ela engole três aspirinas. “Estou me sentindo ótima”, mente para Cybele e depois começa a subir.

O sol surge sobre a face, esquentando a rocha e deixando seus dedos suados. Ela cai de novo. Pensa sobre fracasso. Então ouve o som de asas de pássaros e, de repente, todas as dúvidas de dissipam. Ela sabe exatamente o que fazer. Lançando-se sobre os pontos de apoio finais, sentindo-se finalmente ótima, Steph Davis torna-se a primeira mulher a conquistar a Salathé em escalada livre.

Nos dias que se seguem, ela alterna momentos de exultação e fadiga com sua costumeira insegurança subjacente. “Nunca tive nem uma vez aquela sensação de ‘ah, eu sou o máximo’”, confessa. “Tudo que podia ter saído errado saiu. Eu devia ter desistido.” Mas, na maior parte do tempo, ela se mostra aliviada por se ver livre do El Cap. “Vou demorar para fazer outra temporada das grandes no vale”, decide. “Só vou fazer o que tiver vontade.” O que quer dizer carregar sua picape de coisas, pegar o cachorro e o marido e ir para sua casa em Moab.

Ela precisa instalar um forno novo e visitar os pais, que acabam de voltar de um cruzeiro no Havaí. Aparentemente havia uma parede de escalada no navio e um dia Connie decidiu experimentar. “Eles tinham esses pontos de apoio coloridos e eu consegui subir dois terços do caminho”, conta. “Então olhei para baixo e pensei: ‘O que esta senhora de idade está fazendo aqui em cima?’”

Alguns meses mais tarde, eu telefono para Steph em Moab. Ela está de viagem marcada para a Patagônia e já esquematiza seu próximo projeto: escalada livre nos Alpes italianos com Dean. Logo de cara noto que há algo diferente no ar. Finalmente caiu a ficha do Salathé e ela parece quase relaxada. “Não tenho mais nada a provar para mim mesma ou para qualquer outra pessoa”, desabafa. “Pela primeira vez na vida, não há expectativas nem pressões em cima de mim. Sinto-me livre.”

Consultoria: Eliseu Frechou


(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de dezembro de 2006)