A montanha das montanhas

Como decifrar os segredos do K2, o pico mais sombrio e perigoso do planeta


IMPONÊNCIA: O cume do K2, segunda montanha mais alta do mundo, visto do acampamento-base no glaciar Godwin-Austen

Por Kevin Fedarko

NA TARDE EM QUE ENCONTREI um osso de perna humano aos pés do K2, fazia um desses dias perfeitos que quase nunca se vê na cordilheira do Karakoram. A luz estava radiante, o vento calmo e o ar a 4.880 metros de altura — límpido como vidro polido — parecia elevar e intensificar a enorme massa negra que é a segunda montanha mais alta do mundo, erguendo-se direto em um paredão contínuo até seu cume encoberto por uma armadura de gelo, a 8.610 metros do nível do mar.

Tinha levado quase duas semanas para chegar aqui, no coração da região de altos picos do Paquistão chamada Baltistão, a 1.300 km a noroeste do Everest. Quando cheguei, no final do verão, bem no fim da temporada de escalada, só restava uma única equipe na montanha: Hector Ponce de Leon, um alpinista mexicano de 36 anos que já tinha escalado o Everest pelo lado norte e sul; sua noiva, Araceli Segarra, uma espanhola de 33 anos que, além de escalar, trabalha como modelo para a Vogue e a Elle; e Jeff Rhoads, um cineasta norte-americano que já trabalhou como guia de montanha no Utah. O grupo eventualmente seria forçado a desistir por causa do cansaço e do mau tempo, a 1.300 metros do cume.

O acampamento base do K2 — uma paisagem que lembra superfície da lua, com pedras quebradas sobre um rio de gelo — estava completamente deserto, exceto por uns poucos carregadores paquistaneses e uma mulher norte-americana chamada Jennifer Jordan. Cineasta e jornalista de 45 anos, Jordan está no acampamento desde junho, monitorando o progresso de Rhoads, seu namorado, e trabalhando em um documentário sobre as cinco mulheres que galgaram o pico do K2 — nenhuma das quais, comenta ela, está viva hoje. Conversamos um pouco sobre a hitória do K2, um assunto que Jordan estudou profundamente, e depois ela perguntou se eu gostaria de fazer o “passeio dos mortos” dela.

Começamos no glaciar Godwin-Austen, que atravessa o sopé da imensa face sul da montanha. No caminho, Jordan me contava sobre as trajetórias pós-morte dos alpinistas que pereceram no K2. As encostas e escarpas desse pico são tão íngremes que raramente os mortos são enterrados na montanha; a maioria é levada por avalanches e deslizamentos de rochas, e quando seus corpos atingem o chão, são encrustados no campo de gelo, onde são lentamente reduzidos a pedaços. “É meio como uma batedeira”, Jordan observou enquanto negociávamos nossa passagem por fissuras e poças de água azul gelada. “A pior violência vem das avalanches, mas há também anos em que os rasgos e esmagamentos acontecem nos glaciares. O movimento empurra os corpos para cima no verão e de volta para baixo no inverno. Membros são arrancados no processo. Quando chegam à superfície, quase sempre estão sem cabeça, já que o pescoço é o elo mais fraco do corpo. Na maior parte das vezes dá para achar pernas — uns poucos braços”.


VERTIGEM: Rob Schaller, médico e montanhista, escala a face íngreme do K2, a 6.100 metros de altitude

O VERÃO DE 2002 HAVIA SIDO ANORMALMENTE QUENTE, por isso os mortos tinham se reerguido em grandes números. Seis semanas antes, Jordan encontrara restos de Dudley Wolfe, um rico playboy/montanhista norte-americano que em julho de 1939 ficou preso a 7.900 metros de altitude na encosta sudeste e desapareceu junto com três sherpas que foram tentar resgatá-lo. Foram os primeiros alpinistas a morrer no K2. Jordan encontrou parte do equipamento de Wolfe — incluindo uma luva com seu nome — além de 30 de suas costelas e vértebras. No curso de 64 anos, seus ossos e equipamento viajaram 2,5 quilômetros glaciar abaixo, uma média de 10 cm por dia, antes de ressurgirem.

No momento, nossa atenção está voltada para um pequeno pedaço de um delicado tecido roxo que emergiu recentemente do gelo. “Nossa!” exclamou. “Quem usaria algo assim aqui em cima? Uma mulher”. Jordan concluiu que deve ser um pedaço das roupas de Alison Hargreaves.

Em maio de 1995, Hargreaves, uma talentosa alpinista britânica de 33 anos, completou a primeira indiscutível subida solo feminina do Everest sem tanque de oxigênio. Ela pretendia escalar o K2 em seguida, e depois o Kanchenjunga, a terceira montanha mais alta do mundo, no mesmo ano. Mas, em 13 de agosto, após chegar ao topo do K2 com tempo aberto, Hargreaves e outros cinco alpinistas foram arrancados da montanha por um vendaval. “Ela foi jogada da encosta do cume em algum lugar perto daquela torre de gelo enorme”, disse Jordan, apontando para um enorme bloco de gelo próximo do topo, traçando a provável trajetória de Hargreaves. “Podemos estar bem em cima dela”.

Voltamos a andar, passando por várias peças de equipamento — um pacote de pitons (espécie de “pregos” que o montanhista fica nas fendas das rochas para obter um ponto de apoio ou segurança), um cilindro de oxigênio, uma bota — até que achamos a manga de uma blusa de lã jogada no gelo. “Isso deve ser um dos espanhóis”, ela disse, referindo-se a um dos alpinistas que morreram com Hargreaves. Mais no começo do verão, Jordan tinha achado seu corpo, sem a cabeça, e o re-enterrou na fissura. “A pele parecia couro queimado”, contou. “Marrom-escura, mas não preta. Ele não tinha ficado no gelo muito tempo, já que ainda tinha mãos e pés. Bem… um pé”.

Não dá para encarar restos mortais humanos com mais indiferença e frieza, e no início isso me pareceu mórbido e inapropriado. Mas Jordan não pretendia ser desrespeitosa. Na verdade, ela estava reiterando aquilo que faz do K2 tão diferente de outros picos no Himalaia. Todas essas montanhas têm dentes. E todas cultivam a sedutora possibilidade de, ao aventurar-se nos elevados, duros e deconhecidos terrenos, um alpinista poder tocar um parte de si que normalmente não se releva ao nível do mar, mas que pode causar profundas transformações mais perto do firmamento. Na maioria das montanhas, essa epifania costuma vir junto com a conquista do cume. No K2, não.

O segredo do K2 aparentemente se esconde em algum lugar do ossuário de gelo a seus pés. Aos passarem por cima dos restos dos muitos que os precederam, os novos alpinistas são lembrados do que significa lutar e falhar —horrivelmente — em um pico de 8.000 metros, e precisam se perguntar se esse fracasso diante da indiferença dos elementos pode ter algum significado ou valor inerente.

Estamos quase no fim do passeio quando tropeço em algo que parece ser um pefaço de madeira oco enfiado no gelo — uma coisa estranha de se achar em um lugar onde não há árvores. Eu me ajoelho para examiná-lo mais de perto. “Oh”, exclama Jordan. “Seu primeiro fêmur. Nojento, não é?” As extremidades do osso foram cortadas de modo tão afiado que parecia ter sido obra de uma serra eletética. Há pedaços de cartilagem marrom pendurados. “Bem-vindo ao K2”, acrescentou ela com um sorriso frio. “Nenhum lugar é igual a este”.


SANTUÁRIO: Memorial para os alpinistras que perderam a vida no K2

SE SEU CRITÉRIO para medir a majestade de uma montanha é matemática pura e simples, então o maior pico do mundo é o Everest; com 8.850 metros, 240 metros acima do K2. Se o que conta é a popularidade, a resposta parece igualmente óbvia: até 2003, mais de 1.600 pessoas estiverem no topo do Everest, com todo tipo de “primeiros”, incluindo, mas não limitado a, o primeiro alpinista sem uma perna a chegar no topo, o primeiro alpinista sem um braço a chegar no topo, o primeiro cego, a primeira pessoa a dormir no cume, a primeira transmissão ao vivo de TV do topo, a primeira pessoa a galgar o cume cinco vezes em cinco anos consecutivos, e a primeira equipe de marido e mulher a saltar do topo em um paraglider conjugado. Em 2008, os chineses pretendem levar a tocha olímpica ao topo em sua rota até Pequim.

Em comparação, nos últimos 50 anos, somente 196 alpinistas chegaram ao cume do K2. No verão de 2003, mais 55 fizeram sua tentativa, quando seis expedições — do Casaquistão, Romênia, Espanha, Suíça e República Checa, além de um grupo internacional — convergiram ao lado sul da montanha. Entre eles encontravam-se alguns dos montanhistas mais fortes do mundo, incluindo os checos Radek Jaros e Martin Minarik, assim como Segarra e Ponce de Leon, que voltavam para uma revanche. Nenhum deles chegou ao cume.

Foi o segundo ano seguido sem conquistas do cume, uma estatística que, ao menos de acordo com os padrões de sucesso do Everest, parecia confirmar a posição do K2 como um gigante de segunda categoria. Mas entre os montanhistas profissionais que encaram os picos mais formidáveis do planeta, a coisa tem outra cara. “A galera é atraída pelo Everest porque todo mundo entende a idéia da ‘maior montanha da Terra’”, diz Greg Child, um alpinista e escritor australiano que subiu até o cume tanto do Everest como do K2. “Deus, minha avó consegue entender isso. Se você não vive no mundo do alpinismo, é quase impossível conceber uma obsessão com o segundo maior. Mas o K2 tem uma aura especial. Em parte por causa de sua forma, beleza e simetria. E em parte por causa de sua fama de mau e das histórias sobre o que aconteceu com quem tentou encará-lo: como eles ficaram todos fodidos e como tantos morreram. K2 não é montanha para amadores”.

A SUBIDA DO K2 JÁ COMEÇA DIFÍCIL por causa de sua localização remota, que se reflete no fato que o povo Balti nem mesmo tem um nome para a montanha. Foi designada K2 — K de Karakoram e 2 por ter sido o segundo pico na cordilheira a ser identificado — pelo cartógrafo britânico T.G. Montgomerie, em 1856. “Até seu nome não passa de ossos”, escreveu o alpinista italiano Fosco Maraini em seu livro de 1959, Karakoram: The Ascent of Gasherbrum IV. “Só pedra e gelo e tormenta e abismo. Nem mesmo tenta parecer humano”.

Só há duas maneiras de se chegar ao K2. Pelo lado norte, que fica na fronteira entre a China e o Paquistão, é preciso pegar um avião até Islamabad, depois pegar um carro e viajar 800 km para o nordeste, até Kashgar, na província chinesa de Xinjiang, então continuar de jipe pelo limite sul do deserto de Taklimakan, e passar para camelos e caravanas para atravessas as terros desoladas do vale de Shaksgam. A aproximação mais “acessível” pelo sul inclui uma dura jornada por 65 km sem estradas subindo o glaciar Baltoro, no norte do Paquistão.

O isolamento do K2 tem outras conseqüências. Ele fica oito graus de latitute ao norte do Everest, por isso o clima é muito mais feroz. “É bem mais frio, e enormes tempestades descem gritando pela montanha”, descreve o alpinista britânico Jim Curran, autor de K2: The Story of the Savage Mountain, a história definitiva do pico. “Diferente do Everest, quase nunca acontece uma semana de tempo bom para fazer o ataque ao cume”.

O Everest também tem uma infraestrutura de apoio bem estabelecida, com guias e sherpas que armam tendas, fixam cordas e içam tanques de oxigênio até os acampamentos mais altos. No K2, há poucos carregadores de grande altitude ou firmas comerciais — em parte devido ao isolamento e em parte porque a prática demonstrou que dar uma de guia em uma montanha como o K2 é pedir para acontecer um desastre. E esse fato foi confirmado mais uma vez em julho deste ano, quando um alpinista alemão chamado Klaus-Dieter Grohs escorregou e caiu para a morte em uma tentativa de pôr os pés no cume. Um dos dez clientes sendo guiados montanha acima por Kari Kobler, um guia suíço veterano do Himalaia que escalou o Everest duas vezes, Grohs tornou-se a 53ª pessoa a morrer no K2.

De acordo com uma pesquisa feita em 2000 sobre mortes em alpinismo de grande altitude publicada no The American Alpine Journal, um em cada 29 escaladores que galgaram o cume do Everest entre 1978 e 1999 morreram na descida; no K2, perdeu a vida um em cada sete. “São probabilidades muito duras”, opina Raymond Huey, professor de biologia na Universidade de Washington, um dos co-autores da pesquisa. “Está perigosamente perto de uma roleta-russa”. A situação fica ainda pior se forem comparadas as mortalidades entre alpinistas que não usaram tanque de oxigênio: no Everest, é de uma em 12; no K2 é quase uma em cinco.

Esse último número é assustador: mesmo entre montanhistas experientes, K2 é mais que duas vezes mais mortal que o Everest. “Pense desta forma”, sugere Curran. “Do acampamento base do Everest, com quatro horas de caminhada você encontra grama verde para descansar e cerveja para beber com os trekkers. O K2 está absolutamente sozinho. A chegada é difícil. O acampamento base parece a lua. A própria montanha parace inexpugnável, e não existem rotas fáceis para escalá-la. Tudo isso te acerta na cara quando você vê tudo pela primeira vez. É com o aquela pintura famosa do Munch, O Grito. Exceto que, é claro, é você que está gritando”.

PARA OS ALPINISTAS, essa angústia existencial bate no momento em que fazem a curva e entram em Concórdia, o mais majestoso anfiteatro de picos elevados do mundo. Uma enorme bacia de gelo situada a 10 km do acampamento base, onde os glaciares de Baltoro Superior e Godwin-Austen colidem, Concórdia é cercada pela coroa do Karakoram — o Broad Peak e Gasherbrum I, II, e III —quatro das 15 maiores montanhas da Terra, com altura média de 8.000 metros. Ao leste, as encostas de Ladakh erguem-se sobre as geleiras Siachen, a linha de frente de um infindável conflito de fronteira entre a Índia e o Paquistão. E, se o tempo estiver bom, o alpinista poderá ter sua primeira visão do K2, diretamente ao norte, enchendo o céu, lustroso e gigantesco. “Você está a 4.570 metros de altitude, olhando para 8.530 metros”, calcula Jim Wickwire, um alpinista de 63 anos de Seattle e membro da primeira equipe norte-americana a chegar no topo do K2, em 1978. “Nenhuma foto pode fazer justiça a mais de 3.900 metros de desnível vertical”.

Fotos também não transmitem a imensidão dessa pilha de rocha e gelo. “Quando cheguei em Concórdia e vi o K2, eu literalmente não consegui continuar andando” lembra Rick Ridgeway, de 54 anos, que chegou ao cume com Wickwire em 78. “Ninguém conseguiu — aquela montanha afeta todo mundo. Nada no planeta é igual”. Até mesmo Reinhold Messner, considerado o maior alpinista do século XX, nutre uma certa admiração e um certo medo pelo K2, que ele chamou de “a montanha das montanhas” em 1979, após completar sua quarta conquista do cume. “É o mais belos dos altos picos”, Messner me disse. “Um artista esculpiu essa montanha”.


VISÃO: Acampamento montado nas enconstas do K2, ao fundo

HÁ ALGUNS PICOS DEMONIACAMENTE DUROS NO HIMALAIA que representam um desafio técnico ainda maior que o K2, o mais famosos dos quais é o Gasherbrum IV (7.924 metros) e o Ogro (7.280 metros), ambos localizados no centro do Karakoram. Nenhum deles, entretanto, incluem as dificuldades que vêm com a extrema altitute do K2, onde até mesmo o caminho mais popular para cima — a encosta Abruzzi — não deixa espaço para erros. Um contraforte íngreme no lado sudeste, explorado pela primeira vez pelo Príncipe da Itália Luigi Amedeo de Savoy, Duque de Abruzzi, a encosta involve mais de 3.350 metros de escalada vertical e é cerca de 20 graus mais íngreme que o Colo Sul, a rota mais movimentada do Everest.

Abruzzi conseguiu chegar até 6.250 metros — acima de onde fica o acampamento 1 hoje em dia — antes de desistir. Se alguém um dia chegar ao cume, ele declarou mais tarde, “será um piloto, não um alpinista”. Mas, em 31 de julho de 1954, dois escaladores italianos, Lino Lacedelli e Achille Compagnoni, chegaram ao topo usando a rota de Abruzzi. Compagnoni alegou depois ter ouvido a voz de um anjo chamando-o até o cume; ao chegar lá, caiu de joelhos e sentiu algo em seu rosto. “Havia gelo sob meus olhos”, ele disse em uma entrevista. “Percebi que estava chorando. Lágrimas congeladas”. Ele tinha boas razões para isso. Dos 196 alpinistas que chegaram ao cume do K2 de 1954 a 2002, 144 o fizeram pela encosta Abruzzi. E das 53 pessoas que se perderam desde 1938, 39 pereceram em algum lugar desse espigão.

A encosta começa com uma fila de torres que se estendem pela parte de baixo do contraforte, terminando em uma fissura vertical de 30 metros conhecida como chaminé de House, em homenagem a Bill House, um montanhista norte-americano que a escalou primeiro, em 1938. A rota envolve uma escalada em rocha de grau 5.6 a 6.700 metros de altitute — o maior desafio técnico dela.

Acima da chaminé fica a Pirâmide Negra (Black Pyramid), o triângulo de lajes de gelo e rochas notoriamente instáveis a cerca de 7.470 metros. No ápice da pirâmide, a rota emerge no Ombro (Shoulder), uma saliência ampla a uns 7.920 metros e o local do quarto e último acampamento antes do topo. Foi aqui que, em 1986, Al Rouse, o primeiro britânico a escalar o K2 até o cume, foi tomado pela exaustão e abandonado por seus companheiros no meio de uma tempestade de seis dias. Minutos após deixar Rouse, dois alpinistas australianos, Alfred Imitzer e Hannes Wieser, desmaiaram na neve e morreram também.

Do Ombro até o cume são 685 metros verticais. Mas, para chegar lá, é preciso negociar seu caminho por uma grande ravina que costuma encher-se de neve até a altura do joelho; fazer uma delicada travessia do Bottleneck (ou Gargalo), outra ravina com uma cobertura de 30 metros de gelo liso como esmalte com mais de 50 graus de inclinação; e então escalar uma traverse exposta com uma queda de mais de 2.940 metros até o Godwin-Austen. Pelo menos dez pessoas morreram no Gargalo — incluindo o alpinista polonês Tadeusz Piotrowski, talvez o melhor montanhista de inverno de sua época, que em 1986 perdeu ambos os crampons no meio de uma descida muito dura do cume, atingiu seu parceiro, Jerzy Kukuczka (que conseguiu se segurar) e despencou da face, caindo no vazio.

Finalmente, restam as ladeiras cobertas de neve do cume propriamente dito, que são amplas e íngremes e, como qualquer pessoa que tenha ouvido falar da queda de Alison Hargreaves e seus companheiros em 1995 pode atestar, mais do que capaz de te matar.

MORTE E INVULNERABILIDADE sempre foram grandes motivadores, é claro. Não muito depois da conquista do K2 pelos italianos em 1954, a Índia e o Paquistão entraram em um longo período de lutas sobre suas fronteiras ao norte e o Karakoram central foi fechado; somente em 1975 expedições estrangeiras puderam retornar. Dois anos depois, uma expedição japonesa com 52 homens e 1.500 carregadores sitiou o K2, escalou a Abruzzi e se tornou o segundo grupo a chegar no cume. Um ano depois disso, em 1978, uma equipe norte-americana liderada por Jim Whittaker (o primeiro norte-americano a conquistar o Everest, em 1963) finalmente teve sucesso. Quatro homens — Wickwire, Ridgeway, John Roskelley e Lou Reichardt — chegaram ao topo por uma nova rota na encosta nordeste. A expedição de 78 deu início a uma era de quebra de marcos na montanha, incluindo novas rotas pela encosta oeste (por japoneses e paquistaneses, em 1981), pela face sul (poloneses, 1986) e pela encosta sul-sudoeste, que foi usada nesse ano para chegar ao topo por Peter Bozik, um tcheco, e dois poloneses, Wojciech Wröz e Przemyslaw Piasecki.

A reputação do K2 como o mais díficil e perigosos dos picos acima dos 8.000 metros no mundo só é superada pela atração irracional que ele parece exercer sobre os alpinistas. Ninguém entende isso melhor que Wickwire, cuja obsessão quase lhe custou a vida. Quando completou seu ataque ao topo no final da tarde de 6 de setembro de 1978, ele ficou preso na face do cume sem uma tenda ou saco de dormir quando a noite caiu, forçando-o a suportar ventos de 80 km/h e temperaturas que caíram a 32 graus negativos — o bivaque solo mais alto até então. “Foi a única vez em minha carreira de alpinista que eu relamente deixei tudo nas mãos de Deus, já que sentia que não ia a lugar nenhum mesmo”, lembra Wickwire, que desceu de lá com pleurisia e teve um pedaço de seu pulmão removido em uma cirurgia quando chegou em casa. “Mas eu sonhava com o K2 há vinte anos, e esses sonhos simplesmente não seriam negados. Esse é o poder, a majestade do K2”.

Essa majestade pode tomar estranhas formas. Semanas antes de chegar ao cume, Wickwire estaca descendo com Roskelley até o Acampamento 3, na afiada beira da encosta nordeste, quando testemunhou o espectro de Borcken, um raro fenômeno luminoso em que a silhueta do alpinista é ampliada e projetada no centro de uma nuvem, às vezes cercada por um arco-íris duplo — dois círculos perfeitos, um dentro do outro. “Foi a única vez que vi aquilo em mais de 40 anos de escaladas”, conta. Foi nessa mesma encosta que Roskelley e Ridgeway se viram certa tarde cercados por uma nuvem de borboletas laranjas e negras que haviam sido arrastadas para cima por correntes de ar. “Elas estavam em toda parte”, lembra Roskelley. “De repente, o mundo se transformou em um lindo mosaico laranja móvel”.

Momentos assim podem acontecer em qualquer montanha grande. Mas, na medida em que a comercialização ameaça tomar de assalto os picos mais altos, experiências como essas vão se tornando mais raras. A tendência do K2 de produzir tais encontros efêmeros explica em parte porque ele atrai um tipo diferente de alpinista que o Everest — um alpinista que não apenas possui habilidades superiores, mas também nutre uma razão mais profunda para querer estar na montanha. Greg Mortenson, que tentou vencer o K2 em 1993 depois que sua irmã, Christa, morreu aos 23 anos de epilepsia, chegou na marca dos 7.620 metros, mas teve que desistir de sua conquista do cume para ajudar um companheiro exausto a descer até a segurança do acampamento base. Ainda assim, ele não se arrepende de nada. “Eu podia ter ido ao Everest”, conta Mortenson, que depois fundou o Central Asia Institute e passou a década seguinte construindo escolas para meninas por toda a região norte do Paquistão. “Mas o K2 parecia exemplificar melhor a liberdade do espírito de Christa e minha raiva — minha angústia — com sua morte tão jovem. No K2, não dá para pagar US$ 65.000 por um serviço de guia para te levar ao topo. O Everest é uma montanha para quem só quer subir no lugar mais alto da Terra. Mas o K2 é mais para filósofos da altitute. É sobre pureza, clareza e humildade”.

Talvez ninguém mescle esses elementos com mais eloqüência que o Dr. Charles Houston, que guiou duas entre as primeiras tentativas norte-americanas no K2. Certa manhã, a quase 7.300 metros de altitutde na encosta Abruzzi, durante sua segunda tentativa, em 1953, Houston olhou para fora de sua tenda. “Era quase nascer-do-sol”, ele me contou, “e o ar estava cheio de cristais de gelo. Não era neve; eram pequenos cristais de gelo, e eles eram vermelhos, amarelos, verdes e roxos — todas as cores do arco-íris. Havia trilhões deles, reluzindo contra o céu azul e negro. Foi uma coisa gentil e bonita. E inesquecível”. Isso vindo do homen que agüentou alguns dos piores momentos no K2, e cujas tribulações em 1954 vieram a significar, mais do que qualquer outra coisa, o que quer dizer fracassar com dignidade.

CHARLIE HOUSTON é uma lenda do montanhismo. Um médico que estudou tanto em Harvard como em Columbia, ele participou da primeira escalada do Monte Foraker, no Alasca, em 1934; liderou a primeira expedição de reconhecimento da encosta Abruzzi, em 1938; e foi o primeiro ocidental a entrar no vale de Khumbu, no Nepal, em 1950, abrindo a rota pelo lado sul do Everest. Como medico-cirurgião de bordo da marinha dos EUA, Houston passou a II Guerra Mundial conduzindo pesquisas pioneiras sobre o efeito da grande altitude sobre o corpo humano.

No verão de 1953, aos 40 anos, ele e seu amigo mais antigo, Bob Bates —um professor inglês de 42 anos que acompanhou Houston em 1938 e depois desenvolveu grande parte do equipamento usado pela 10ª Divisão de Montanha na II Guerra Mundial — reuniram uma equipe de amadores para o terceiro ataque norte-americano ao K2. “Escolhemos a expedição por puro instinto”, explicou Houston. “Evitamos celebridades, gente que achamos que iria colocar a si mesmo na frente dos outros. Éramos um grupo com ideais comuns, disposição para dividir tudo e, se me permite dizer, uma peculiar falta de auto-importância”.

O grupo era composto por oito homens. Além de Houston e Bates, havia George Bell, 27, um físico teórico que desbravou vários picos no Peru; Bob Craig, 28, um filósofo que trabalhava como professor de esqui em Aspen e havia feito a primeira subida do Polegar do Diabo (Devil’ Thumb) na Colúmbia Britânica; o amigo de Craig, Dee Molenaar, 34, pintor de paisagens e geologista de Seattle que havia escalado o Monte St. Elias; Pete Schoening, 26, engenheiro químico que liderou uma bem-sucedida expedição ao Yukon; Tony Streather, um capitão de 27 anos do Exército Britânico que escalou o cume de Tirich Mir, no Paquistão, em 1951, com uma expedição norueguesa; e, finalmente, um experiente escalador de rochas de 27 anos de Iowa chamado Art Gilkey, que havia feito pesquisas sobre geleiras no Alasca. Chegaram ao Paquistão no final de maio, em tempo de receber a notícia que Tenzing Norgay e Edmund Hillary tinham acabado de conquistar o Everest. Eles levaram dois meses para transportar seu equipamento para o acampamento base do K2. Quando chegou agosto, Houston e seus homens tinham conseguido forçar seu caminho encosta Abruzzi acima até mais ou menos 7.600 metros de altitude, quando foram cercados por uma enorme tempestade. Depois de nove dias, os membros da equipe finalmente conseguiram sair de suas tendas. Quand Art Gilkey saiu, caiu de cara no chão, inconsciente.

Examinando Gilkey, Houston percebeu que ele estava com tromboflebite, uma enfermidade em que coágulos de sangue surgem nas veias das pernas; se os coágulos se soltassem e chegassem nos pulmões, poderiam causar embolia pulmonar. No nível do mar, isso é muito sério; a 7.600 metros é praticamente uma sentença de morte. “Não havia esperança”, lembra Houston, “mas nós não íamos deixar ele ali sozinho — nem pensamos nisso”.

Os planos de galgar o topo foram abandonados na hora. Após uma tentativa inicial de descer com Gilkey pela mesma rota pela qual subiram — que chegou ao fim quando perceberam que o lugar estava a ponto de ser varrido por uma avalanche — Craig e Schoening propuseram descê-lo por uma encosta rochosa ao leste. Houston sugeriu que o resto do grupo descesse enquanto ele ficaria com Gilkey; poderiam voltar quando o tempo estivesse melhor. Ninguém aceitou. Naquela noite, Houston descobriu que dois coágulos tinham mesmo se alojado nos pulmões de Gilkey. Na manhã seguinte, com a tempestade ainda forte, enrolaram-no como uma múmia com uma das tendas e deram início à tentativa de resgate mais alta já realizada até então.

No meio da tarde, tinham conseguido trazer seu companheiro até menos de 135 metros de uma saliência de gelo. Para alcançá-la, teriam que içá-lo por cima de uma fenda íngreme, sob a qual o gelo caía até quase a geleira lá embaixo. Schoening se posicionou acima de Gilkey na encosta e o desceu numa cadeirinha, segurando-se com sua piqueta na neve acima de uma grande pedra. A corda que segurava Gilkey estava presa ao cabo da piqueta de Schoening, passando por sua cintura e pela sua mão direita.

A idéia era transformar Gilkey em um pêndulo para fazê-lo cruzar a fenda. Antes de colocarem o plano em marcha, Craig, que quase tinha sido engolido por uma pequena avalanche há poucos minutos, soltou-se da corda que o ligava a Molenaar e foi até a saliência de gelo para recuperar o fôlego. Quando Craig tirou o gancho, Molenaar tomou a precaução de se amarrar à corda solta conectada a Gilkey. Momentos depois de Molenaar terminar de se prender, George Bell, que também estava acima de Giley, perdeu o equilíbrio e caiu pela encosta. Ao fazer isso, arrastou com ele Streather. A queda de Streather o levou direto até uma outra corda que ligava Houston e Bates, arrancando-os de suas posições.

Não havia nada que pudesse deter a queda dos quatro homens emaranhados — exceto a corda que ligava Molenaar a Gilkey, que Streather agarrou enquanto escorregava. Molenaar caiu, e agora cinco homens estavam despencando, até que a tensão recaiu em Gilkey — que estava preso por uma única corda a Schoening. Este, por sua vez, agarrou-se com toda força à sua piqueta e se preparou para o impacto. A corda se esticou ao máximo, depois ficou tesa como um cabo de aço. Nos cinco minutos seguintes, ele sozinho segurou os seis. Isso seria incrível em qualquer lugar, mas em uma altitude em que a maioria não consegue nem sequer pesnsar direito, era praticamente um milagre. “Se Pete não tivesse se segurado àquela âncora, Bob Craig teria sido o único sobrevivente”, diz Molenaar. Quando finalmente pararam, Bell estava perto demais da beirada, Molenaar estava sangrando por um ferimento em sua coxa e Houston estava debruçado sobre o abismo, inconsciente. Enquanto o resto da equipe se esforçava para se recompor, Bates desceu sozinho até Houston, que abriu os olhos. “Onde estamos?”, perguntou. “O que estamos fazendo aqui?”

Estava claro que a equipe alquebrada não poderia içar seu líder pela rocha íngreme. Em um último esforço para fazer Houston, com sua concussão, entender o que precisava fazer por conta própria, Bates segurou seu velho amigo pelos ombros. “Charlie”, disse. “Se que ver Dorcas e Penny [sua esposa e filha] de novo, trate de subir para lá neste instante!” Houston obedeceu.

Era então essencial lever os feridos até algum abrigo. Gilkey estava ancorado com seguraça em sua posição na fenda por duas piquetas, enquanto os outros foram para o outro lado de uma faixa de pedra para montar uma tenda. Houston, Bell, Schoening e Molenaar foram colocados nela, e os três restantes voltaram para buscar Gilkey. Quando chegaram na fenda, as piquetas não estavam mais lá e Gilkey tinha sumido. Uma avalanche aparentemente passou por ali e o levou com ela. “Foi como se a mão de Deus o tivesse levado embora”, escreveu depois Bates.

Na manhã seguinte, após uma noite horrível, a equipe voltou a descer a montanha usando pedaços de corda e sacos de dormir amarrados uns nos outros. Houston ia na frente. “Era óbvio que estávamos descendo pela mesma rota que Art havia usado. Estávamos escalando por cima de seu sangue”, ele se lembra. “Sangue e sangue e sangue… Não conversamos sobre isso por muito, muito tempo”.

Quatro dias depois, os sete sobreviventes chegaram cambaleando ao acampamento base, tão estupefatos com o improvável fato de ainda estarem vivos quanto pela perda de seu amigo. Os carregadores ergueram uma pilha de pedras em memória de Gilkey em uma proeminente ponta de pedra, 60 metros acima da geleira. Continua lá até hoje.


GLACÊ: Torres de gelo no glaciar Godwin-Austen

NA TARDE após meu passeio dos mortos, subi até o memorial de Gilkey, uma pilha de pedra ocre, agora adornada com dezenas de pratos e tampas de panela com homenagens escritas para todos os homens e mulheres que morreram aqui. Abaixo dele, dava para ver uma procissão de guias paquistaneses carregando os corpos de seis alpinistas japoneses que foram mortos por uma avalanche em 1997. Como Dudley Wolfe, ele emergiram recentemente da geleira. Os guias empilharam os corpos, enbrulharam-nos em plástico e depois colocaram gelo em cima para mantê-los frios até que a pira funerária pudesse ser preparada com a madeira que trouxeram até o acampamento base. O vento se intensificou, e os pratos e tampas começaram a chacoalhar e bater contra a pedra em uma cadência fúnebre de outro mundo. Neste momento, o K2 parece ser pouco mais que um abatedour— um local intrinsicamente ligado à morte. Foi só meses depois que voltei para a casa e conheci Charlie Houston, que me ocorreu que o K2 pode ter outra característica — uma dimensão de graça redentora que vai além do esporte do montanhismo.

O verão de 2003 marcou o 50º aniversário da morte de Art Gilkey. George Bell morreu em 2000, mas os seis membros restantes da equipe ainda se reúnem regularmente, unidos por um senso de solidariedade pelo que passaram e fizeram no K2. “Não houve nada de heróico a respeito”, insiste Houston, que fez 90 anos em agosto. “Era um serviço que precisava ser feito. Não estávamos pensando em quantas pessoas sofreriam se morrêssemos, pois não estávamos nem pensando em morrer. Por isso não aceito que nos chamem de heróis. O que mais poderíamos ter feito?”

A atitude pouco sentimental de Houston é admirável, mas não faz justiça ao fato que ele e seus homens tinham uma escolha, na verdade: poderiam ter abandonado Gilkey nas mãos de uma sina que era quase certamente inevitável. A abnegação em se recusar até mesmo a considerar essa hipótese pode não se qualificar como heroísmo aos olhos deles próprios, mas para alguns os define em termos que só podem ser descritos dessa forma.

“No ano seguinte à volta de Charlie e sua equipe para casa”, diz Jim Curran, o historiador do K2, “os italianos finalmente conseguiram conquistar a montanha — mas é a expedição de Houston que continua sendo a referência para o que há de melhor no alpinismo. Infelizmente, o mundo há muito deixou esse ideal para trás. Eventos de escalada hoje em dia são completamente idiotas, principalmente no Everest. Mas o que esses homens fizeram no K2 em 1953 foi incrível. Atualmente, é uma das maiores lendas das montanhas. Nos anais do alpinismo no Himalaia, não há nada melhor que isso.”

O que essa lenda sugere é que o K2 pode muito bem ser ainda mais grandioso que o Everest. Não porque é tecnicamente mais difícil ou porque confere visões mais líricas aos que o escalam, mas porque, através das ações de Houston e seus homens, as histórias do K2 alcançarem um nível de expressão mais elevado que o mero triunfo. “Tenho um profundo respeito pelos italianos que conquistaram o K2 em 1952”, admite Reinhold Messner, “mas tenho um respeito ainda maior pelos norte-americanos e a forma como fracassaram em 1953. Eles foram decentes. Eles foram fortes. E eles falharam da maneira mais bonita que se pode imaginar. É inspiração por uma vida inteira.”

Se o Everest é a montanha que supostamente personifica o nível mais alto das realizações humanas — realizações que a cada ano são vulgarizadas por disntinções cada vez menos significativas — então o K2 é a montanha que representa o nível supremo do fracasso humano. Fracasso na sua mais pura forma. Fracasso que vai até o talo. E fracasso, também, que através de alguma alquimia paradoxal transcende a morte ao transformar aqueles que possuem a resistência e a honra para encarar a provação. Este é o segredo do K2.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de janeiro de 2007)