Vai encarar?

Tow in ganha circuito mundial e grandes atletas brasileiros


MAREMOTO: O brasileiro Haroldo Ambrósio desce com classe o paredão de Jaws, em Maui

Por Thiago Kafejian

“SÃO VÁRIOS MOMENTOS INSANOS. Um deles é quando você tem que entrar com o jet na frente de uma onda de 60 pés para salvar seu parceiro”. Foi assim que começou a conversa com o paulistano Romeu Bruno, salva-vidas de enorme experiência e um dos surfistas de tow in mais preparados do mundo. Quando falamos em 60 pés de onda, estamos falando de uma massa de água com aproximadamente a altura de um prédio de seis andares – um prédio de seis andares que se desloca em sua direção, para desabar sobre você. Meu escritório fica exatamente no sexto andar. Acabo de dar uma boa olhada pela janela e decidi que não vou comprar um jet ski nem viajar para Jaws, no Havaí, ou para Maverick’s, na Califórnia.

Mas fazer tow in não é só encarar e aceitar o risco de morte, sua ou do parceiro. É também uma dose na veia de adrenalina máxima, uma espécie de suicídio com volta. “Você larga a corda a 70 km/h e começa a desabar ladeira abaixo. A velocidade faz a prancha tremer, tem que fazer muita força na perna pra controlar ela. Chega na base da onda, faz a curva, vê uma parede de água enorme e coloca pra dentro de um tubo gigantesco”. Um tubo gigantesco, só para sabermos exatamente do que estamos falando, comporta com folga o seu carro – seja ele qual for. A velocidade que se atinge dentro desse cilindro de água é uma ignorância, no bom sentido. No caso de uma queda, o surfista sai “quicando” na água até conseguir afundar e ser chacoalhado por longos segundos até voltar à superfície. A sensação que se tem durante o caldo é de total impotência. Nenhum movimento que você faça vai mudar alguma coisa.

A força da onda vai levar seu corpo pra onde quiser. A melhor (única) estratégia é deixar a onda bater à vontade. Em alguns segundos o estado de “meia na máquina de lavar” passa.

De uma forma mais didática, a sensação de surfar ondas gigantes com o auxílio do jet ski pode ser compreendida através do raciocínio abaixo. Acompanhe-o, vai fazer sentido no final.

Situação 1

Férias! Você e mais um monte de gente sobre um “banana boat” que é puxado por uma lancha em Porto Seguro.

Situação 2

Mantenha a lancha mas troque a banana e um monte de gente por um par de esquis sob seus pés em Ibiúna. Beleza!

Situação 3

Troque a lancha por um jet ski potente, de 120 ou 126 cavalos de potência, e os esquis por uma prancha de wakeboard. Ah, agora você está no oceano. Estamos quase lá.


Situação 4

Mude totalmente o cenário. Agora você está em Chamonix, divisa da França com a Suíça, descendo uma montanha de neve enorme com os pés travados numa prancha de snowboard. Pronto!

Já temos todas as sensações do tow-in. Você é puxado por um jet ski poderoso, preso a uma prancha como no snowboard. O piloto coloca você na onda e, como na neve, você desce uma montanha – neste caso, de água, que além de machucar tanto quanto a neve, ainda pode te afogar. Mas agora vem a parte mais emocionante: no tow-in, a montanha se movimenta e vem quebrando logo atrás de você, a muitos quilômetros por hora. Qualquer vacilo significa ficar sob algumas piscinas olímpicas de água salgada.


PAI E FILHO: Laird Hamilton, o idealizador do surf tow-in, desfruta de sua criação

O SURF É UM ESPORTE RELATIVAMENTE NOVO, passou a ser difundido no início do século passado. Pranchas grandes e pesadas, nenhum tipo de acessório e verdadeiros watermen (homens aquáticos) protagonizavam o cenário dessa nova modalidade. Na virada dos anos 60 para a década de 70 é que vieram as pranchinhas que vemos hoje em qualquer praia com ondas. Claro que houve alguns ajustes e evoluções, mas ainda vivemos a fase das pranchinhas, que, mais leves e mais ágeis, permitem uma abordagem mais radical na onda. Com as pranchinhas, o número de praticantes explodiu, o mercado cresceu, o surf se profissionalizou e as competições ficaram cada vez mais disputadas. E nasceu o crowd – aquela concentração infernal de surfistas demais para ondas de menos.

O crowd fez os surfistas saírem em busca de ondas mais vazias. E como a melhor “peneira” de surfistas é o tamanho das ondas, o mar sem crowd era aquele em que as ondas quebravam grandes. E assim os surfistas mais “psicos” passaram a buscar mares cada vez maiores. O crowd já não era o motivo. Eles tinham é gostado da brincadeira do big surf.

Até o meio da década de 90, todas as ondas grandes possíveis de serem surfadas na remada, usando somente a força dos próprios braços, já eram conhecidas e, de certa forma, domadas. Faltava algo. Para os surfistas de ondas grandes, estas ondas, que chegavam a 30 pés, eram pouco. Limitavam o big surf a ondas grandes apenas, não gigantes. A velocidade obtida na remada não era suficiente para colocar o surfista de maneira segura dentro de uma onda de 40, 50 ou 60 pés. Era preciso mais velocidade! Mais potência!

O havaiano Laird Hamilton e sua turma de Maui deram a largada para o tow-in. Primeiro com o auxílio de botes infláveis Zodiac colocando os surfistas nas ondas; anos depois, com os jet skis. E o tow-in desenvolvido em Maui ganhou o mundo e foi atrás de ondas gigantes em Maverick’s, Ghost Trees e Cortez Banks, na Califórnia, Todos Santos no México, Pico Alto no Peru, Teahupoo no Tahiti e outros picos espalhados na Europa e Oceania.

“O surf de tow-in pode ser considerado o mais novo esporte ‘de fronteira’ apresentado para a humanidade. Os equipamentos estão acabando de ser refinados: jet skis mais potentes e pranchas mais específicas. Agora é o momento dos verdadeiros desafios e limites serem rompidos”, acredita Reinaldo Dragão Andraus, uma das maiores autoridades em surf no mundo.

O tow-in está na tv, nos jornais, nas revistas, na internet. E quanto mais divulgação na mídia, mais adeptos. E com essa legião de novatos, vem o risco de acidentes. A começar pela convivência perigosa: jets agora dividem as ondas com surfistas na remada. Isso tem acontecido com freqüência no Brasil em praias como Maresias, no litoral norte de São Paulo. A “facilidade” que existe em ser colocado em ondas grandes (não gigantes) leva muitos maus surfistas ao tow-in. “É fácil comprar um jet ski e pedir para ser rebocado numa onda gigante”, diz o tow surfer Sylvio Mancusi. “Mas só de olhar como essa pessoa se porta na onda já sabemos se é um impostor (risos)”. Junto com os tais “impostares”, vêm os riscos vinculados à falta de preparo físico e psicológico para encarar situações extremas ou que envolvam resgate e primeiros socorros. “Tem muito profissional da área que nunca surfou uma onda em Jaws ou Maverick’s. Nem sabe o que é isso. Pra mim, surfista bom e aquele que é bom também na remada”, completa Sylvio.


BRASUCAS: Heraldo Gueiros e Carlos Burle em Mauí

ASSIM COMO ACONTECEU COM A PRANCHINA, o crescimento do número de praticantes e do nível do tow-in só poderia acabar em campeonato – no caso, um circuito mundial, o Tow-in Champiosnhip, anunciado por Erick Akiskalian, diretor da ATP (Association of Professional Towsurfer). O mundial terá três etapas: Outside Haleiwa, no Havaí, que tem período de espera pelas melhores condições entre 15 de dezembro e 31 de março (até o fechamento desta edição, em 20/12, o campeonato não havia acontecido); Puerto Escondido, no México; e Iquique, no Chile, ambos picos com período de espera de 1 de maio a 31 de julho. Durante essa “janela”, os surfistas que estão participando ficam de sobreaviso. Se a ondulação gigante se aproximar, todos são avisados e literalmente voam para o local para se enfrentar nas morras.

O primeiro ano do circuito conta apenas com duplas convidadas, vinte no total. E é claro que foram selecionados os melhores do mundo. Figuram entre as duplas cinco brasileiros: Yuri Soledad (seu parceiro é o havaiano John Gangini) e as duplas Carlos Burle/Eraldo Gueiros e Sylvio Mancusi/Everaldo “Pato” Teixeira. Na lista de alternates (espécie de reservas que são convocados caso algum dos titulares não possa comparecer) temos as duplas Danilo Couto/Rodrigo Resende e João Jabour/Edison de Paula. Além de Victor Marçal, que tem o húngaro Tony Fekete como dupla. Na opinião de Romeu Bruno, as chances brasileiras são grandes. “Dos vinte melhores do mundo, pelo menos dez são brasileiros, inquestionavelmente. Nossos atletas são muito bem treinados e excelentes profissionais dentro e fora da água”, diz. Entre esses que representam bem o Brasil, estão Sylvio Mancusi, Everaldo Pato, Eraldo Gueiros, Carlos Burle, Rodrigo Resende, Danilo Couto, Haroldo Ambrósio, Jorge Pacelli, Romeu Bruno, Yuri Soledad, Edison de Paula.

A premiação do circuito está avaliada em 75 mil dólares. Ou seja, 25 mil dólares por etapa. Considerando que as três melhores duplas de cada etapa são premiadas com dinheiro, temos uma remuneração realmente baixa se levarmos em consideração todos os custos da carreira de um tow surfer profissional, bem como o risco de vida a cada onda surfada. A dupla vencedora acaba levando para casa cerca de 10 mil dólares, valor realmente baixo.

Apenas para uma simples comparação, a Tow-in World Cup – campeonato que definia o título mundial de tow-in, com apenas uma etapa, e que foi realizado apenas duas vezes, em 2001 e 2002 – , idealizada pelo jornalista e surfista carioca Rosaldo Cavalcanti, editor do extinto jornal Now e colaborador de várias publicações especializadas, premiava a dupla campeã com 70 mil dólares. “Quanto custa para você estar no Havaí, no México e no Chile com seu parceiro, levando jet skis e equipamentos? É caro. E quanto eles podem ganhar se dando bem no campeonato? Cinco mil dólares cada um? Vale a pena?”, questiona Rosaldo.

O fotógrafo Bruno Lemos, brasileiro que mora no Havaí, vê o circuito mundial com pouco otimismo. “Acho que o circuito só terá impacto real com o passar do tempo. Talvez depois dos dois primeiros anos. Depois de termos alguns campeões mundiais e grandes performances em ondas gigantes. E, principalmente, depois que grandes nomes do surf como Kelly Slater, Andy Irons e Tom Carroll começarem a praticar e participar”, acredita.


EXPECTATIVA: Dupla de jet-skis e surfistas se movimentam no outside, à espera da próxima série

A COMPETIÇÃO NÃO PARECE SER O QUE MOVE OS SURFISTAS DE TOW-IN. Em todas as conversas com os tow surfers citados nesta matéria, ficou claro que o circuito mundial é uma novidade bem vinda, mas o que realmente importa para todos é estar nos lugares onde as maiores ondas do mundo estão quebrando. Seja onde for. “Para mim continua sendo a maneira de pegar as ondas gigantes. Não acho a competição o melhor da história, existe politicagem na escolha dos convidados e resultados confusos”, diz o baiano Danilo Couto. “A essência continuará sendo a busca pelas ‘bombas’. Sem competitividade, só a harmonia com o oceano em fúria.”

Não existe onda conhecida em que um surfista não possa ser colocado por um jet ski. Uma onda gigante não vai deixar de ser surfada por falta de potência nos motores, pranchas ou coragem. “Por enquanto o que está limitando as façanhas dos surfistas de tow-in é o que Netuno tem oferecido”, finaliza Dragão.

Que venham ondas maiores em qualquer bancada do planeta!

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de janeiro de 2007)