Contra-relógio

Sete atletas revelam seus segredos para dar trabalho aos adversários


EM ATIVIDADE: Carlos Burle

Por Mario Mele

Adriana Nascimento, 31 anos

Esporte: mountain bike, nas modalidades cross-country olímpico e maratona.

Currículo: Adriana é atleta profissional desde os 19. Graduada em Educação Física, ela também trabalha como treinadora de mountain bike. Já foi 9 vezes campeã brasileira de Cross-Country (1995 a 2002/2007) e campeã Pan-americana. Sua última conquista foi o Big Biker de Itanhandu (MG), em maio deste ano.

Lição que aprendeu: empenho. “Só dependo do meu próprio esforço”, diz ela, que já viveu grandes momentos de superação na carreira. O mais recente foi a vitória no Campeonato Brasileiro de MTB Cross-Country, que representou sua volta às competições depois de três anos de ‘aposentadoria’. “Tive que superar minhas dúvidas e conciliar trabalho com treinamento”, diz.

Arma secreta: sentimentos puros. Para ela, a longevidade do atleta depende do quanto ele se cuida e norteia a própria vida com bons sentimentos. “Hoje tenho a experiência como uma vantagem importante nas competições. Mas isso está aí para ser compartilhado com os outros atletas”, conta a ciclista.

Eraldo Gueiros, 40 anos

Esporte: surf tow-in.

Currículo: Eraldo Gueiros entrou para o Guiness Book depois de surfar, pela primeira vez, a pororoca do Rio Araguari (Amapá), em 1998. Foi quatro vezes finalista do XXL Billabong Surfing Awards, concurso que elege a maior onda surfada no inverno havaiano. Já se entocou, em 2004, num dos maiores tubos registrados em Jaws (Havaí). Além disso, é campeão brasileiro de ondas grandes (2001) e campeão mundial, junto com Carlos Burle, com a maior onda de 2002.

Lição que aprendeu: ter fé. “Você não pode desistir dos seus sonhos. Com perseverança e humildade de nunca parar de aprender, eles acabam acontecendo”, diz o surfista.

Arma secreta: presença de espírito. Eraldo não deixa que nenhum tipo de pressão – interna ou externa – interfira na sua capacidade de enfrentar desafios. “Agradeço as oportunidades e tento tirar o máximo proveito delas. Quando tenho uma, acredito ser aquele o dia mais importante da minha vida”.


Alexandre Ribeiro, 41 anos

Esporte: triathlon

Currículo: Alexandre Ribeiro é a maior referência em corridas de longa distância do Brasil. Na bagagem, 24 anos de carreira como atleta e 23 como técnico. Alexandre está presente no triathlon desde as primeiras provas no país. Já venceu, por duas vezes, o Ultraman (2003/2005), um dos mais difíceis desafios do planeta, com de 515 km de percurso (10 km de natação, 421 km de ciclismo e 84 km de corrida).

Lição que aprendeu: tentar. “O principal é que tudo deve ser feito por amor, e não pela obrigação. O triathlon é algo que me move com paixão.”

Arma secreta: manter o foco. Concentrar-se na prova, sem desviar a atenção para nada. Esta foi uma estratégia que o triatleta usou para vencer duas vezes o dificílimo Ultraman. “Por mais complicada que esteja a competição, procuro pensar positivo. É assim que o atleta aprende, de fato, a administrar seus altos e baixos”.

Fernanda Keller, 43 anos

Esporte: triathlon Ironman (3,8 km de natação, 180 km de bike e 42 km de corrida).

Currículo: Fernanda Keller é a triatleta brasileira mais conhecida da história. Foi a única mulher que participou durante 20 anos seguidos do Ironman do Havaí, competição em que obteve seis medalhas de bronze. Na edição nacional, coleciona quatro ouros.

Lição que aprendeu: manter os pés no chão. “Não existe mágica nem segredo. Algumas pessoas simplesmente têm o dom. Outras têm mais vontade. Geralmente são esses dois tipos que se sobressaem. Com os passar dos anos, aprendi a ser cada vez mais forte e resistente”, conclui.

Arma secreta: acordar cedo todos os dias. “Um atleta de verdade tem que ter muito amor pelo esporte que pratica”. Para Fernanda, a garra de alcançar a linha de chegada deve ser levada tão a sério quanto a disposição para levantar rápido da cama e sair para treinar.


José Roberto de Carvalho Pupo, 40 anos

Esportes:corrida de aventura e canoagem

Currículo: Zé Pupo é o fundador da equipe de aventura Motorola SOS Mata Atlântica, atual campeã do circuito Try On Meeting e frequentadora do pódio de 70% das corridas que participou. Na canoagem, foi por duas vezes vice-campeão sul-americano (1988 e 1989), além de técnico da seleção olímpica em Barcelona (1992). É o pioneiro do rafting no País, esporte em que se consagrou tri-campeão brasileiro (1996/97/99).

Lição que aprendeu: concentração e boa alimentação. “Fico atento ao meu desempenho, já que nossos maiores adversários são nossos próprios limites”, diz. Segundo ele, boa alimentação, boa hidratação e ter tempo para descansar são peças fundamentais de um bom desempenho.

Arma secreta: saber controlar a mente. “A mente é a principal força do homem, temos que saber usá-la. Por conta disso, já tive desempenhos incríveis em fases que estava fisicamente mal preparado”, revela.

Carlos Burle, 39 anos

Esporte: surf em ondas grandes

Currículo: As atenções do surf mundial se voltaram para Burle em 2001, quando ele desceu uma onda de 22 metros em Mavericks, Califórnia – a maior já registrada até então. Para isso, contou com a experiência de outro casca-grossa do tow-in, o parceiro Eraldo Gueiros, que o rebocou naquele momento. Em 1998, na remada, o surfista conquistou o Campeonato Mundial de Ondas Grandes, no México, onde desbancou lendas do big surf como Ross Clark-Jones e Brock Little. Junto a Eraldo, Burle leva a vida perseguindo as maiores ondulações do planeta.

Lição que aprendeu: somar qualidades. Burle acredita que nada é em vão se for feito com boas intenções. “O bom desempenho está relacionado à vontade de evoluir”, orienta. Saber interagir com o meio, não ter medo de ter medo e ser profissional são outros quesitos indispensáveis ao atleta, segundo ele.

Arma secreta: autoconhecimento. “Além dos treinamentos físicos, a parte mental e espiritual fazem parte do meu dia a dia-a-dia. Acho que o lado psicológico conta muito”, diz Burle.

Cris Carvalho, 38 anos

Esportes: corridas de aventura; triathlon cross-country, corridas de rua e MTB.

Currículo: Cris é diretora esportiva do Projeto Mulher, que une programas de treinamento físico e nutrição exclusivamente ao público feminino, e tem um histórico vitorioso em corridas de aventura e de rua. No ano passado, junto com a equipe Atenah, faturou a quarta colocação geral no Ecomotion/Pro. Nos anos 1990, foi campeã brasileira de triathlon (93) e campeã mundial do IronMan (96).

Lição que aprendeu: superação individual. “O esporte renova minhas energias, me traz vida. A grande lição que tive foi a de que ganhar e perder fazem parte do conceito de vitória. Porque, para mim, vitória é uma superação individual, e não resultados parciais”.

Arma secreta: raça. “Raça é você ter fé que pode agüentar um pouco mais, mesmo naquelas horas em que parece que o corpo vai rachar. É pedalar forte contra o vento, é correr quando a trilha estiver cheia de buracos, é remar contra a corrente e competir num dia ruim e vencer, independente do lugar que você ocupar no pódio. Raça, por exemplo, foi eu ter largado cinco minutos atrasada num campeonato de Short Duathlon e terminar na segunda colocação, depois de uma luta contra mim mesma”.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de junho de 2007)