Nada nos deterá!

Paulo Roberto Parofes, nosso colunista do Alta Montanha, escreve sobre os atletas com deficiência física que se superam diariamente


ÍCONE: Por tantos feitos. Chris Waddell entrou pro Hall da Fama das Paralimpíadas

Por Paulo Roberto Parofes, do Alta Montanha

Quando chegamos a um acampamento base carregando todas as nossas tralhas, que sempre pesam dúzias de quilos, pensamos, e estamos certos, que nossa vida é difícil. Escolher o montanhismo de altitude como esporte não é para qualquer um. Agora imagine todas essas dificuldades para um montanhista amputado — tudo é ainda pior, não?

Muitas vezes refleto sobre esses seres humanos que, sem muitas opções, decidiram não esmorecer diante da terrível vicissitude imposta pelo entrelaçar de suas vidas. Um momento tão horrendo que quase pôs um fim definitivo a seu corpo de modo que a única saída foi a amputação — cortar fora o pedaço inoperante para continuar vivendo, só que a partir daí como um deficiente físico. Imagine isso na vida de um montanhista, alguém que não consegue ficar em casa, que é superativo pela própria natureza de seu perfil psicológico, pelo esporte que pratica, que mais é um estilo de vida do que esporte. Deve ser de fato arrasador.


Selecionei alguns casos interessantes. Alpinistas, montanhistas que perderam quase tudo, que perderam pedaços de si, e um caso em que o alpinista perdeu as duas pernas, ainda com 5 anos de idade, por defeito genético. Há outro caso que realmente desafia o significado da palavra “possível”: um rapaz que nasceu sem os braços abaixo do cotovelo e sem as pernas abaixo do joelho. Inacreditável? Prepare-se para mudar de opinião…


>> Aron Ralston


Vamos começar com o mais famoso de todos eles, e o caso mais “ameno”. Aron é norte-americano e hoje tem 37 anos de idade, mas quando tinha 28 anos passou por uma provação assustadora. Caminhando sozinho na região do Grand Canyon, nos EUA, caiu em uma fenda. Quando caiu, causou uma pequena avalanche de rochas, e uma delas, bem grande, caiu sobre seu braço, que ficou preso.


Ele resistiu por cinco dias até que decidiu cortar o braço usando um canivete cego que carregava consigo. Toda sua estória acabou por lhe tornar muito famoso, transformando-o em um ícone de perseverança outdoor. Ele lançou um livro e, em 2010, um filme foi produzido contando sua infeliz aventura, o 127 Horas.


Aron continua escalando, possui próteses diferentes para cada ambiente (rocha, gelo, trilha) e cobra uma grana alta por suas palestras. Caso uma empresa em território norte-americano queira que Aron fale para seus funcionários, terá que desembolsar US$ 20 mil doletas. Para palestras internacionais, ele cobra quase o dobro disso, US$ 37 mil.


Sua vida de montanhista não parou: em 2008 ele escalou o Ojos Del Salado, o vulcão mais alto do mundo, e o monte Pissis, uma das montanhas mais altas da Argentina. Em 2009, chegou ao topo do Kilimanjaro, na África.


>> Ranimiro Lotufo Neto


Um brasileiro? Sim, Ranimiro é brasileiro, hoje tem pouco mais de 40 anos de idade. Passou boa parte de sua vida trabalhando como modelo internacional e há 20 anos salta de parapente e prativa vôo livre. Tudo mudou em sua vida em 1995.


Naquele terrível ano, enquanto participava de uma competição de parapente em Andradas, sul de Minas Gerais, durante sua descida não viu um fio de alta tensão e ficou agarrado nele. Recebeu duas descargas de aproximadamente 60.000 volts cada, queimando sua perna direita no cabo. O resultado foi triste: amputação da perna acima do joelho.


Somente três anos após o acidente Ranimiro conseguiu efetivamente retornar às passarelas como modelo profissional, e fez diversos de trabalhos.


Depois disso, sua vida não parou mais. Voltou a voar, participou de desafios e estabeleceu o recorde de vôo entre Vila Valério (ES) e Conceição do Capim (MG) — 122 kms de vôo. Participou de uma competição de rafting que até então nunca tinha sido sua praia, no Nepal!


Bom, o legal mesmo é que ele voltou às montanhas por causa do seu amor pelo parapente. Ano passado ele escalou o Dedo de Deus, no Rio de Janeiro, para poder saltar do cume. Para quem pensa que ele jumareou até o cume, negativo: ele escalou mesmo. A decolagem não foi perfeita, e ele quase se chocou contra a parede do Dedo, mas no final deu tudo certo!


>> Stephen Ball


Stephen é britânico e não teve muita sorte na sua tentativa de escalar o Denali, a montanha mais alta da América do Norte, com 6.194 metros de altitude, em 1999.


Stephen caiu nada mais nada menos que de 600 metros quando estava na montanha. Foi encontrado depois de diversas horas com congelamento de terceiro graus em ambas as mãos. Infelicidade para Ball.


Foi resgatado, hospitalizado, mas era tarde para salvar completamente suas mãos. A mão esquerda foi amputada quase que completamente, e a mão direita perdeu todos os dedos. Pouco? Ele também perdeu parte do nariz e a perna esquerda, que sofreu 12 fraturas em diversos pontos e, por causa de tantas lesões, congelou.


Azarado, mas não derrotado! Ball passou por muito tempo de fisioterapia e provou diversas próteses, adaptando-as com piquetas para escalada em gelo.


Parar que nada! Ball escala até hoje e já passou dos 50 anos de idade!


>> Chris Waddell


Chris Waddell não é muito diferente. É um caso bem comum no mundo dos deficientes físicos. Sofreu um acidente de ski em Vermont nos Estados Unidos em 1988. Ficou paralisado da cintura para baixo, mas um ano após o acidente já estava de volta às pistas usando um mono-ski.


Seguiu-se uma carreira de atleta para-olímpico de sucesso, em que Chris se tornou o atleta masculino mais condecorado, tendo conquistado 13 medalhas de ouro. Por tantos feitos ele entrou pro Hall da fama das para-olimpíadas.


Chris continua esquiando, e em 2010 chegou ao topo do Kilimanjaro com um velocípede adaptado para suas necessidades, teve uma equipe de apoio e tudo em uma Fundação chamada “One Revolution”.


No final de 2011 um filme/ documentário filmado sobre a escalada do Kilimanjaro foi lançado e premiado em diferentes festivais pelo mundo.


>> Mark Inglis


Talvez você já tenha escutado falar deste cara, pois ele foi o primeiro amputado de duas pernas a escalar o Everest. Ele perdeu as pernas em 1982, por congelamento, quando escalava no monte Cook, o ponto mais alto da Nova Zelândia, e ficou preso no meio da escalada por causa de fortes tempestades. Inglis ficou nada mais nada menos que duas semanas numa caverna no gelo, lutando pela sua vida, juntamente com seu companheiro de escalada, Phil Doole.


Por mais que tenha sido devastador e sofrível, a experiência não afastou o neozelandês das montanhas. Em 2004, Mark escalou o Cho Oyu, montanha de 8.201 metros de altitude. Vinte e quatro anos depois de perder as pernas, Inglis encarou um dos maiores desafios de qualquer alpinista e partiu para a expedição no Everest com o auxílio de próteses de fibra de carbono.


O ano de sua conquista pessoal foi 2006, uma das temporadas mais vorazes no Everest e em todo o Himaiala. Mesmo assim Inglis superou as adversidades e fez o cume do Everest, marcando um novo capítulo na história do "Oitomilismo". Só um detalhe: depois de fazer o cume, ele conseguiu descer até o acampamento quatro, mas de lá não conseguia mais ir embora de tanta dor. Teve que ser carregado e arrastado montanha abaixo. Chegando em casa, foi hospitalizado e passou mais algumas semanas internado se recuperando depois de perder mais 5 centímetros de cada perna por congelamento, de novo!


A Discovery produziu um documentário, chamado “Everest, o preço da escalada”, que registra as dificuldades de 11 pessoas na tentativa de escalar a montanha. O filme inclusive mostra a escalada de Inglis. O documentário é dividido em três temporadas, com diversos episódios cada (Inglis está na primeira temporada).


>> Hugh Herr


A vida de Herr mudou ainda bem cedo, quando tinha somente 17 anos de idade. Com um amigo, foi para New Hampshire escalar, e os dois acabaram isolados e presos por causa de tempestades. O resultado foi infeliz: suas duas pernas tiveram de ser amputadas.


Hoje Herr tem 47 anos de idade, é cientista renomado e trabalha no Massachusetts Institute of Technology (o famoso MIT), onde ele mesmo participou no desenvolvimento de diferentes próteses que utiliza no seu dia a dia — não só em casa, escalando também!


Herr nunca parou de escalar, continua sua paixão até hoje e recomenda a quem quiser o esporte que lhe deu forças para continuar a vida.


Para Herr, a escalada é mais do que um esporte, é prazer, é meio de vida e uma forma de ele mesmo aprimorar as suas próteses em prol de outras pessoas. Ele sonha com próteses que permitam a vítimas de acidentes, amputações e guerras reconquistar sua liberdade de movimento.


“Em frente” são as palavras que se escuta de Herr depois de concluir seus cálculos de como escalar a rocha, tirar uma chave Allen do bolso da calça e completar: “Só preciso parafusar as minhas pernas”.


>> Kyle Maynard


Kyle nasceu sem metade dos braços e sem as pernas abaixo do joelho. Tronco, quatro “cotocos” e cabeça. Mesmo assim, isso não foi motivo de limitação para o atleta. Desde moleque, se jogou no mundo, tornou-se lutador de artes marciais, lançou um livro, é modelo fotográfico e vive palestrando sobre temas motivacionais.


Além de ter uma vida exemplar, ganhou o prêmio Espy ESPN como melhor atleta com deficiência de 2004, com apenas 18 anos de idade! Apesar de não ser montanhista, engajou-se em uma aventura e tanto: chegar ao tipo do Kilimanjaro para provar que seria capaz (além de angariar fundos para a Associação de Militares Veteranos Americanos Feridos).


Isso lhe custou muito treino pesado, mas o sonho foi alcançado sem muita dificuldade. Em janeiro deste ano, em apenas 10 dias (o previsto era 16 dias), Kyle fez cume no Kilimanjaro. Rastejou-se o tempo todo, usando pneus cortados como proteção contra ferimentos nas suas extremidades. Impressionante, não?


Hoje Kyle só está com 26 anos de idade, tem muito pela frente!


>> Spencer West


Não muito diferente de outros, o objetivo de West também foi o Kilimanjaro. Em um problema genético similar ao de Kyle, West perdeu as pernas quando tinha cinco anos de idade, completamente, não sobrou nem uma pontinha sequer. Ao olhar para suas fotos, a impressão é que seu corpo é literalmente cortado na cintura. Parece até que ele está dentro de um buraco no chão fazendo uma piada com quem olha, mas ele é assim mesmo.


West se tornou uma figura muito carismática e atrai olhares e entrevistas por onde passa. Não muito diferente dos outros casos apresentados, tornou-se uma celebridade, e uma frase acabou se estabelecendo como o lema do guerreiro: “Redefinindo o Impossível”. A frase também virou o lema de sua campanha de caridade.


Aliás, com a escalada Spencer arrecadou fundos para a instituição sem fins lucrativos Free The Children, que cuida de crianças carentes em todo o continente africano. Toda a missão foi financiada através de crowdfunding, totalizando quase US$ 500 mil em doações, que coisa! Meio milhão de dólares!


Bem, os casos são realmente impressionantes. Aproveitei a época da pouquíssimo comentada Para-Olimpíada pra abordar o tema. Fico triste em ver que a parte mais legal da competitividade esportiva mundial, a Para-Olimpíada, sequer chama atenção das grandes emissoras de TV. De repente não dá tanta grana quanto a olimpíada normal não é mesmo?


A perseverança do ser humano impressiona. Baixo minha cabeça para estes exemplos e me sentiria extremamente honrado se um dia esbarrasse com uma dessas figuras pelas montanhas do mundo…


No começo do texto eu disse pra refletirmos um pouco sobre estas feras. Pode começar a refletir!


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