Hora da transição

Triathlon não é só moda. O treinamento multiesporte desenvolve um condicionamento físico balanceado e previne lesões

Triathlon não é só moda. O treinamento multiesporte desenvolve um condicionamento físico balanceado e previne lesões. Descubra por que você deve abandonar sua rotina de treinos e mudar também

Por Erin Beresini


MAIS FORTE, MAIS RÁPIDO: O triathlon deixa seu corpo mais resistente

DEPOIS DE SE APOSENTAR de uma carreira de 11 anos nas ligas principais de beisebol, o ex-defensor Eric Byrnes inscreveu-se em seu primeiro triathlon só por curiosidade. No verão de 2010, meros três meses após pendurar a luva, Byrnes foi convencido pelos amigos que duas semanas de treinamento eram o suficiente para correr um triathlon de distância olímpica em Pacific Grove, perto de Monterey, Califórnia. Seu plano era nadar com um neoprene de surfista e pedalar numa bike de turismo.

Pelo que Eric conta, ele quase se afogou no mar, foi esmagado no trecho de bike e se saiu um pouco melhor na corrida para terminar em 21º entre os 44 participantes de sua categoria – e último dos últimos entre os seus amigos.“Olhei para eles e disse, ‘Esta foi a última vez que qualquer um de vocês ganhou de mim’”, lembra Eric. No dia seguinte ele comprou uma bike de triathlon e menos de um ano depois completou seu primeiro Ironman. “Estou totalmente apaixonado pelo esporte agora”, declara.

Eric é apenas um dos muitos recém-convertidos ao triesporte. O piloto da fórmula Indy Tony Kanaan diz que o cross-training inerente à modalidade o ajuda a manter o foco. O lutador de MMA Nick Diaz e o ex-ala defensivo de futebol americano Coleman Rudolph, todos competem em triathlons regularmente só por diversão. Juntos, fazem parte do que se estima serem 2,3 milhões de pessoas (só nos Estados Unidos) que participaram de uma competição de triathlon em 2010 – um aumento de 55% em relação a 2009. “É diferente de qualquer outro tipo de competição”, diz Rob Urbach, CEO do USA Triathlon (USAT), órgão que regulamenta o esporte nos Estados Unidos, que teve um aumento de incríveis 557% em sua lista de associados nos últimos dez anos. “Tem alguma coisa a respeito dos três esportes juntos que faz as pessoas se transformarem”.

Os números ascendentes vêm, em parte, do fato de que o triathlon manteve sua mística, mesmo tendo ficado tão mais acessível. “Foi a atração pelo desconhecido”, afirma Eric sobre seu interesse inicial – mas, desde então, ele ficou obcecado com os detalhes da modalidade: técnica de natação, táticas de transição e estratégias de corrida.


FORÇA: Competição nos Estados Unidos
(Foto: Sarah Haskins)


LINHA DE CHEGADA: Competidores durante mais uma prova da modalidade


Ainda mais poderosa é a fascinação da promessa de um preparo físico verdadeiramente equilibrado e duradouro. Joe Friel, ex-corredor que migrou para o triathlon para recuperar-se de várias lesões e autor do livro The Triathlete’s Training Bible (A Bíblia do Treinamento do Triatleta, sem tradução para o português), acredita que o treino multiesportivo resulta no tipo de corpo magro e forte que quase todos os atletas buscam. “O risco de esgotamento e lesões diminui, pois encoraja as pessoas a treinarem modalidades diferentes”, diz. De acordo com Matt Dixon, dono da assessoria esportiva Purplepatch Fitness e treinador do multicampeão do Ironman Chris Lieto, o cross-training oferece muito mais benefícios equilibrados de preparo físico do que os treinos de um único esporte. “Quem treina para triathlon tem melhoras na composição corporal e na saúde cardiorrespiratória”, adiciona.

Para muitos atletas, um primeiro triathlon logo se transforma em estilo de vida. Veja o exemplo de Matt Lieto, que em sua época de faculdade, aos 20 anos, estava 34 quilos acima de seu peso. Daí, assistiu seu irmão mais velho, Chris Lieto, competir no mundial de Ironman, em 1998. Ele ficou pasmo com a energia, entusiasmo e paixão pela vida dos competidores. Matt começou a competir e, em 18 meses, foi de um preguiçoso” (nas palavras dele) a um atleta com consistentes resultados entre os dez melhores das provas em que participa. Atualmente entre os profissionais, ele ainda se lembra da sua primeira corrida, a California’s Wildflower Triathlon, como uma guinada na vida. “Eu me senti feliz e energizado durante aquele dia inteiro”, lembra. “Eu nunca havia experimentado nada como aquilo.” Rob Urbach, daUSAT, já ouviu isso antes. “Nem todo mundo consegue se lembrar da primeira corrida de rua, mas todo mundo se lembra do seu primeiro triathlon.”

>> Curto e grosso
A razão para o boom na popularidade do triathlon se resume a um fator: distância. Mais especificamente, o grande número de eventos de curtas distâncias. As provas mais curtas – normalmente 800 metros de natação, 20 quilômetros de bike e 5 quilômetros de corrida – são tão atraentes para os novatos (“Ei, isso eu consigo!”), quanto para os competitivos (“Vou correr a prova inteira no limite!”). Quase todos conseguem cruzar a linha de chegada, mas a velocidade com que você faz isso pode transformar totalmente uma corrida.

Não que seja fácil. “Só porque tem o rótulo de short, não quer dizer que não seja um desafio”, diz Matt Dixon, técnico e ex-triatleta profissional. “A prova vai levar mais de uma hora até mesmo para o melhor dos atletas – e isso não é pouco.
Para os estreantes, conseguir resistência física balanceada, criar uma estratégia de prova e treinar transições fará com que a corrida seja mais rápida e divertida. Você irá experimentar a emoção única da competição multiesporte e – talvez até mais viciante – colher os benefícios físicos e mentais do cross-training.

Está de olho num Ironman? Os melhores treinadores, como Matt Dixon e Joe Friel, ainda recomendam que você comece devagar. “Trabalhar pouco a pouco para chegar a grandes distâncias é a maneira saudável de se tornar um Ironman”, explica Friel, que recomenda apenas corridas curtas para os iniciantes durante o primeiro ano.

E, uma vez que você comece com as provas mais longas, ele sugere a participação regular nas provas de curta distância. “Elas não são só boas para desenvolver a velocidade, mas também uma boa preparação mental para competições mais maiores”.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de abril de 2012)