Viagem ao centro da terra

É sempre verão na vizinha América Central, onde ainda se pode surfar em praias intocadas, escalar vulcões ativos e mergulhar. Boa viagem!

É sempre verão na vizinha América Central, onde ainda se pode surfar em praias intocadas, escalar vulcões ativos e mergulhar em corais maravilhosos, da Guatemala ao sul do Panamá. Vá agora e nos agradeça depois

Fotos: João Canzini


SOY LOCO POR TI: A catedral de Léon

>> Nicarágua
A guerra contra os sandinistas acabou há mais de 30 anos. Está mais do que hora de você ver o belo futuro desse país com seus próprios olhos

Por Stephanie Pearson


VIDA BOA: Las Peñitas Ruco (dir.) e região de Léon

O VENTO UIVA, os morcegos flutuam no ar, e eu estou no lado errado da placa de ZONA DE PELIGRO – NO PASE, olhando para o que padres espanhóis do século 16 consideravam a bocarra incandescente do inferno. Já é tarde no Parque Nacional do Vulcão Masaya, o primeiro a ser criado na Nicarágua, onde uma caldeira vulcânica de 93 quilômetros quadrados ergue-se graciosamente 640 metros acima da floresta tropical a meio caminho entre a capital, Manágua, e a cidade colonial de Granada. A cratera que estou observando, conhecida como Santiago, é uma das mais ativas da América Central – lança até 1.200 toneladas de dióxido de enxofre por dia. O bater pulsante do magma luminoso 380 metros abaixo soa como ondas quebrando na praia. É tão hipnotizante que dou mais um passo em sua direção.

Se o parque fosse nos Estados Unidos, haveria uma cerca de 1,80 metro de altura com arame farpado rodeando a cratera. Mas os nicaraguenses têm um grande apetite pelo perigo, além de um orçamento quase inexistente para cuidar dos seus parques. Essa conexão livre de barreiras com o que existe debaixo da terra, junto com passeios noturnos em enormes cavernas de morcegos, são o que fazem deste um parque tão sensacional. Meu guia, Juan Carlos Mendoza, estava no Masaya em 2001 com 150 turistas norte-americanos quando ele entrou em erupção. “Ouvi um barulho de explosão e achei que fosse dinamite”, lembra Juan. Foi quando uma rocha vulcânica atingiu seu ônibus como uma bomba, dificultando sua fuga. Como todo mundo escapou com vida, Juan, um ex-sandinista de 50 anos, manteve a calma. Ele já tinha visto coisa pior.

“Su turno es su turno”, diz ele ao fotógrafo João Canziani e a mim na hora exata em que um profundo “bum!” emana da cratera, fazendo-me dar um pulo na direção do lado “seguro” da placa. Em outras palavras, quando chegar sua hora, não tem jeito. Além do respeito que eu tinha pela sabedoria quase excepcional de Juan sobre a Nicarágua – de espécies de aves a políticos malucos –, depois de uma semana viajando com ele também estava começando a entender seu senso de humor peculiar: negro, apimentado e nem um pouco politicamente correto. E combina perfeitamente com o temperamento do Masaya, que apelidei de “parque sombrio” devido à metáfora quase perfeita que ele representa da história surreal e violenta da Nicarágua. Centenas de anos atrás, o Masaya era usado como altar de sacrifícios pelos nativos chorotega, que jogavam virgens e crianças pequenas na cratera para apaziguar a deusa do fogo. Nos anos 1970, os capangas do ditador Anastasio Somoza Debayle lançavam nela corpos de prisioneiros torturados para eliminar as provas. “A beleza, na Nicarágua, muitas vezes ajudou a conter a fera”, escreveu Salman Rushdie em seu livro O Sorriso do Jaguar, de 1987.

A maioria das pessoas de outros países conhece melhor a fera que a bela Nicarágua. O conhecimento que o mundo em geral tem do maior país da América Central, que possui uma população de cerca de 6 milhões de pessoas e figura como uma das nações mais pobres do Hemisfério Ocidental, se resume basicamente a dois acontecimentos trágicos. O primeiro foi a guerra civil que matou 50 mil nicaraguenses e terminou com a tomada de poder pelos sandinistas em 1979. O segundo foi a guerra contra os sandinistas, um mal disfarçado conflito indireto entre os EUA e a União Soviética pelo controle dos recursos naturais dessa república das bananas. Ela se arrastou por quase toda a década de 1980 e matou 30 mil pessoas. Para muita gente, porém, o que mais chamou a atenção no conflito foi o escândalo dos Irã-Contras, ocorrido em 1986, no qual o governo de Ronald Reagan vendeu ilegalmente armas para o Irã para financiar os “contras”, como eram chamados os soldados nicaraguenses treinados pelos EUA para derrubar os sandinistas.

Acrescente a essa novela uma série de políticos corruptos e o ressurgimento, em 2006, do presidente Daniel Ortega, um sandinista populista cujo governo é fortemente financiado por subsídios do petróleo oferecidos pelo presidente Hugo Chávez, da Venezuela. Com tudo isso, embora a Nicarágua não seja mais uma ditadura, não é exatamente uma democracia.

Mas nem mesmo a liderança com ética questionável de Ortega pode impedir que a Nicarágua finalmente desfrute de seus recursos: o país agora aparece, ao lado do Panamá, como o segundo mais seguro da América Central, atrás da Costa Rica, segundo estatísticas da ONU. A Nicarágua também conta uma das maiores biodiversidades da região. Mais de 18% do país é protegido em 77 parques e reservas, incluindo os mais de 5 milhões de acres da Reserva Ecológica de Bosawás, a segunda maior floresta tropical intacta do Hemisfério Ocidental. Ela tem 25 vulcões (sete deles ativos), mais de 750 espécies de aves, praias desertas maravilhosas banhadas pelo oceano Pacífico, selvas caribenhas inexploradas e uma população que está começando a melhorar de vida graças ao turismo. Com um número crescente de hotéis coloniais e ecológicos, a Nicarágua não é mais segredo. Mais de 1 milhão de estrangeiros visitaram-na em 2010. Como aconteceu com a Costa Rica há 20 anos, a Nicarágua está prestes a entrar para a lista dos grandes roteiros de ecoturismo mundial.

É impossível ver o país inteiro em dez dias, então começamos em Manágua e estamos fazendo um percurso em forma de oito na direção noroeste até a cidade de León e as praias do Pacífico. Daí rumamos para Granada e, depois, para San Juan del Sur, a meca do surf. Em seguida, visitaremos a recém-inaugurada Reserva Mundial da Biosfera da Ilha de Ometepe, no lago Nicarágua – o maior lago de água doce da América Central –, terminando de volta em Manágua.

Esta noite nos desviamos completamente do caminho manjado dos gringos. O parque está deserto, e temos o brilho do vulcão Masaya só para nós, além da vista distante do lago Nicarágua iluminada pelo luar. Daqui de cima, dá para sentir na pele todo o potencial que guarda a Nicarágua.

“EU ME CONSIDERO muito nacionalista. Amo meu país”, diz Juan em nosso carro, um SUV branco que ruma para Manágua. Estivemos fuçando as ruínas de León Viejo, a segunda cidade mais antiga da Nicarágua, fundada em 1524 e destruída por um forte terremoto em 1610. Esse antigo entreposto comercial de ouro é o primeiro Patrimônio Cultural da Humanidade do país. “Nossa história é heróica”, continua ele. “Este país tem muito para conquistar ainda, mas não acho que vou viver para ver esse futuro brilhante.”

Juan Mendoza pode não ter consciência disso, porém ele já é o futuro da Nicarágua. Com 1,80 metro de altura e tórax largo, ele fala um inglês impecável, usa corte de cabelo militar, tem um enorme dente de jaguar preso a um colar amarrado no pescoço e nunca tira o crachá com seu nome. Ele é uma eficiente ligação do país com o resto do mundo. Quando o Papa João Paulo II marcou uma visita para cá em 1996, Juan foi o homem escalado para lhe mostrar a região. Infelizmente, os planos foram mudados no último minuto, e a visita nunca aconteceu. “Eu poderia ter andado no Papamóvel”, lamenta o guia, com ar triste.

Juan também esteve, nas palavras dele, “en la lucha”. Depois de se formar, em 1980, no colégio John F. Kennedy, na Califórnia (sua família o mandou aos EUA depois que um terremoto demoliu Manágua), ele foi escolhido pelo ministério do turismo nicaraguense para passar por um programa intensivo de treinamento com um ano de duração, em que estudou a história, a geografia, a vida selvagem, a fauna, a flora e a vulcanologia de seu país. Em novembro de 1983, Juan foi contratado como um dos primeiros guias oficiais da Nicarágua. Cinco meses depois, foi convocado para o exército sandinista. E foi para a selva sem reclamar. “Achei que defender meu país era a coisa certa a se fazer”, explica.

Depois de dois anos, deixaram que Juan voltasse a seu trabalho com turismo. Foi encarregado de ciceronear visitantes ilustres como príncipes do Kuwait e um presidente centro-americano. E é isso que ele tem feito desde então, trabalhando como guia para a Careli Tours, uma empresa pertencente aos Melchiors, a família pioneira do ecoturismo na Costa Rica.

Não há como compreender completamente um país tão conflituoso e complicado como a Nicarágua. Embora estudar seu passado ajude, não é bom ficar atrelado a ele. Mesmo nos arredores de León, há muitas maneiras de despistar a fera e entrar em contato apenas com a beleza local. Fizemos uma caminhada no vulcão Cerro Negro, de 895 metros de altura, cuja lava negra é tão ativo que derreteu as botas de trekking do fotógrafo João Canziani. Na ilha de Juan Venado, um estuário cercado de mangues paralelo ao Pacífico, vimos caimãs (jacarés) e um pica-pau de bico pálido tão raro que Juan teve que conferir seu nome no livro Aves da Costa Rica (não existe um Aves da Nicarágua). Alguns quilômetros ao norte pela costa, na aldeia de Las Peñitas, comemos ruco, um peixe frito inteiro e sauteado com tomates e molho vermelho, sob barracas de folhas de palmeira com vista para uma praia selvagem que se estendia por quilômetros.

Um dia depois, estávamos a 130 quilômetros a sudeste, em uma ilha do canto noroeste do lago Nicarágua. É um dos únicos lagos de água doce no mundo povoado por tubarões (o ditador Somoza adorava alimentá-los com vacas). Estamos dividindo o eco-hotel Jicaro Island Ecolodge com um fotógrafo colombiano, o assistente dele e uma modelo brasileira, que estão aqui para tirar fotos para a capa de uma revista de viagem dos EUA. Este belo hotel com apenas nove chalés, inaugurado em 2010, é fruto da visão empreendedora de uma mulher de negócios britânica chamada Karen Emanuel, que se juntou ao arquiteto britânico Matthew Falkiner para criar um oásis feito de rocha vulcânica local e madeira reciclada.

Este é um desses lugares onde, depois de você ter feito sua yoga, meditado e dado um mergulho no lago, os chefs te preparam um drinque com frutas tropicais e mel.

Às vezes, no entanto, a fera mostra suas garras mesmo no paraíso. Um funcionário do Jicaro, que prefere permanecer anônimo, começou a lutar pelos sandinistas aos 17 anos. “Eu tento esquecer o que vivi. Não foi uma boa época”, diz ele. “Se eu quisesse fumar um cigarro, precisava escondê-lo com folhas de banana para o inimigo não ver a luz e me matar.” O único benefício da guerra, acrescenta ele com um sorriso, é que quando ela terminou havia sete mulheres para cada homem. “Sou feliz porque minha mulher é jovem e hoje eu aproveito a vida”, conta. “A guerra acabou há mais de 20 anos. Agora nós temos um belo futuro pela frente.”


Cerro Negro

PARA CURTIR A VIDA BOA, ricos de Manágua e surfistas estrangeiros se reúnem na costa do Pacífico, mais precisamente em San Juan del Sur. Localizada 40 quilômetros a noroeste da fronteira da Costa Rica, essa cidade praieira com uma população de 18.500 pessoas fica em uma baía em forma de meia-lua. Estamos na cidade só pelo tempo necessário para apanhar Rex Calderon, o campeão centro-americano de surf que cresceu a um quarteirão da praia. O jovem de 19 anos e 1,68 metro, de aparência discreta e cheio de músculos vai nos mostrar como pegar onda no estilo nicaraguense.

De San Juan del Sur, Juan dirige mais 30 minutos para o norte em uma estrada de terra até um portão de madeira com dois seguranças armados. Um deles enfia a cabeça pela janela do SUV e cobra US$ 3 por pessoa para entrarmos na propriedade privada que dá acesso à Playa Hermosa, uma praia tão intocada que as duas últimas temporadas do reality show Survivor (no Brasil conhecido como No Limite) foram filmadas lá. Alguns quilômetros depois do portão, a estrada termina em um estacionamento onde um monte de surfistas locais está arrumando as coisas para ir embora.

A praia se estende por mais de 1,5 quilômetro. A sudoeste, as montanhas da Costa Risca se erguem ao longe. Na água, Rex está cortando as ondas com graça, dando saltos impressionantes e fazendo 360s sem esforço. À sua direita está Johnny Goldenberg, um canadense de 43 anos que se mudou para San Juan del Sur há cinco anos e vive como empreendedor imobiliário. Com um sorriso que mostra o espaço entre seus dentes da frente e um corpo cheio de tatuagens budistas, Johnny é uma espécie de padrinho benfeitor de Rex, para quem doa pranchas Eberly. “Rex é um bom rapaz. Não bebe, não fuma e não toma drogas”, conta Johnny, enquanto fecha o zíper da sua roupa de neoprene. “E é um assassino de coração gelado nas competições. O único problema é tentar fazer ele sair da Nicarágua para competir. Ele adora este lugar.” O canadense não economiza elogios a seu novo lar: “A Nicarágua tem beleza natural, mas ainda conserva um certo ar nostálgico de socialismo. E aquela era de nervosismo, onde ninguém investia aqui, já se foi”.

Um amigo de Rex começa a me contar como é seguro aqui quando de repente um segurança com uma camiseta com os dizeres “Beer is an appetizer” se aproxima em um Land Rover enferrujado e me avisa para eu esconder minha câmera. A única pessoa a 1 quilômetro de distância é uma mulher tomando sol de biquíni. Pergunto-me em voz alta quem poderia quer me roubar. O segurança aponta para o denso matagal atrás da praia e tenta começar a explicar a situação quando um surfista surge das águas. Ele se apresenta como Juan Manuel Caldera, um construtor local. “É muito simples: temos crianças que ficam vendo os surfistas com óculos e bermudas chiques, e aí começam a furtar coisas”, explica Juan Manuel. “Resolvemos isso colocando seguranças aqui.”

Juan Manuel é também jornalista e cobriu a guerra para o canal de TV norte-americano NBC. Agora é dono de uma indústria de empreendimentos de energia solar chamada Las Fincas, localizada a alguns quilômetros dali. Ele, assim como Juan Mendoza, tinha recursos para deixar a Nicarágua nos piores anos, mas para ambos a atração do lar se revelou forte demais para resistir. “A Nicarágua é o país mais seguro e belo da América Central”, afirma Juan Manuel enquanto caminhamos lentamente pela praia deserta. “Mas é tudo uma questão de percepção. Ainda precisamos mudar a percepção dos outros sobre nós.”

PLANEJE-SE: Personalize sua viagem com a Careli Tours (carelitours.com).
COMO CHEGAR: De Miami, pegue um voo da Taca International Airliness até Manágua.
QUANDO IR: Do final de novembro até maio para a costa do Pacífico; evite o lado do Caribe de outubro a novembro, durante a estação dos furacões.
ONDE FICAR: Hospede-se no Jicaro Island Ecolodge, com quartos de casal a partir de US$ 480 (jicarolodge.com). Na costa do Pacífico, os bangalôs com teto de palha do hotel Punta Teonoste ficam em uma praia deserta com ótimas ondas e custam US$ 100 por noite por pessoa, incluindo café-da-manhã (puntateonoste.com). Ao sul pela costa, o Morgan’s Rock Hacienda & Ecolodge se localiza no meio de florestas virgens e oferece acomodações a partir de US$ 184 (morgansrock.com). Na ilha Ometepe, no lago Nicarágua, fique no hotel Villa Paraiso, em que um quarto de casal sai por US$ 59. Lá, escale vulcões e ande de caiaque ao redor da ilha, onde cerca de 42 mil residentes ainda usam bois como meio de transporte (villaparaiso.com.ni).


Vista da Ilha Pargo

>> Panamá
Reaprenda o conceito de paraíso natural em Islas Secas

Por Elizabeth Hightower Allen


BOA, PANAMÁ: Galera pescando

ELES NOS LARGARAM LÁ, naquela ilha deserta. Meu marido e eu ficamos ali parados enquanto o barco se afastava e nos deixava em um pedaço de selva cercado pelo golfo de Chiriquí. Tínhamos apenas nossas roupas de banho, dois guarda-sóis, um caiaque duplo, um par de snorkels, máscaras, nadadeiras, um isopor com cerveja e duas saladas de macarrão frescas. Essas provisões precisavam durar 3 horas. Era nosso segundo aniversário de casamento. Acenamos e partimos em nosso caiaque para explorar a Isla Pargo, uma das 16 ilhas no remoto arquipélago particular de Islas Secas.

Eu tinha ouvido sobre o resort Islas Secas pelo meu amigo de infância Carter Andrews. Carter e eu crescemos com uma rotina bem normal em Nashville, no Tennessee (EUA), mas depois ele virou um dos melhores guias de pescaria do mundo, aparecendo até na ESPN. Ano passado, ele foi contratado como diretor de pescaria do Islas Secas e de várias outras propriedades pertencentes a um bilionário protetor do meio ambiente. “Você precisa vir pra cá”, ele me disse. “Este lugar é o máximo.”

Ele não estava brincando. Só a chegada já faz você se sentir como se estivesse no Jurassic Park. Saindo da vilazinha de pescadores de Boca Chica, no continente, subimos em uma lancha de 34 pés e rumamos para o horizonte do Pacífico. Quando avistamos Islas Secas, a uns 40 quilômetros da costa, o continente já tinha desaparecido. Passamos lentamente por penhascos verdejantes cheios de aves e chegamos a uma longa doca onde Enrique, o barman, nos esperava com dois drinques de papaia.
Islas Secas é o tipo de lugar meio rústico. Os hóspedes ficam em sete cabanas movidas a energia solar, cada um com seu próprio banheiro e uma cama com mosquiteiro. Todas as manhãs, às 6h30, Enrique trazia uma garrafa de café. No jantar seguíamos para uma outra cabana em uma praia em forma de lua crescente, onde o chef Alexander Rojas preparava peixe ao curry e cheesecake de manga fresca em uma baía que, em todo mês de agosto, se enche de baleias corcundas.

Esse é o grande atrativo de Islas Secas: a fauna marinha – baiacus, arraias, tubarões, tartarugas, golfinhos. O golfo de Chiriquí serve como berçário do Corredor Marinho do Pacífico Leste Tropical, uma rota de correntes repletas de nutrientes que vão da Costa Rica até Galápagos. Para colocar em termos menos científicos, a pescaria e o mergulho aqui são inacreditáveis. Grande parte dessas maravilhas pode ser encontrada no Parque Nacional de Coiba, um santuário ao redor da ilha vulcânica de Coiba, cuspida de Galápagos 70 milhões de anos atrase que até 2004 era a mais notória colônia penal do Panamá. Agora Patrimônio da Humanidade da Unesco, o parque tem as águas mais biodiversas da região. Islas Secas é o ponto de partida mais próximo de lá.
Circulamos Coiba com Carter e sua família, mergulhando de snorkel em 10 metros de águas claras. Na maioria dos dias pescamos, atravessando 50 quilômetros até o morro marinho de Montuosa para lançar iscas para atuns de nadadeira amarela de mais de 20 quilos. Carter tem o físico e uma cabeleira de urso; seu imediato, o panamenho Juan Spragge, de 21 anos, é um prodígio da pescaria. Os outros capitães os chamam de Zé Colmeia e Catatau, o que os incomodaria se não estivessem pescando – e soltando de volta ao mar –, marlins de 300 quilos. Em certo momento, deparamos com quatro aves de pés azuis em um pedaço de madeira flutuante, tomando sol e procurando peixes. Carter para o barco. Uma lançada de linha, e ele apanha um dourado e depois me passa a vara. “Sabe o que temos aqui?”, pergunta ele, avisando pelo rádio o chef Alex sobre o que pescamos para o jantar. “Ceviche com molho de maracujá.”

PLANEJE-SE: Fique no Islas Secas a partir de US$ 600 por noite, com tudo incluso (exceto pescaria); pacote de uma semana de pescaria a partir de US$ 6 mil (islassecas.com).
COMO CHEGAR: As companhias Taca, Avianca, Pluna e Delta Airlines tem voos para a cidade do Panamá saindo de São Paulo; dali, pegue um voo doméstico até Davir, e o resort manda um motorista e um barco te buscarem.
QUANDO IR: De dezembro a maio.
DICA DAS BOAS: Dá para visitar o golfo de Chiriquí com economia também. Viagens de um dia até Coiba partem do centro de mergulho de Santa Catalina (coibanationalpark.com).


>> Costa Rica

Aprenda a surfar como um rei na península de Nicoya

Por Mary Turner


QUE RICO: A surfista Gemma Yates em Playa Guiones, na Costa Rica

AS ONDAS FICARAM MAIORES, e Ru Hill, o dono do Surf Simply Coaching Resort em Nosara, na Costa Rica, pode ver que estou prestando mais atenção em não ser esmagada por elas do que em pegá-las. “Em vez de pensar em como evitar que a onda arrebente na sua cabeça, comece a focar onde você quer se posicionar para pegá-la”, ele explica. “Há os caçadores e há os caçados. Transforme-se em uma caçadora.”

Estou aprendendo a encontrar o “ponto X” – o melhor lugar para pegar uma onda. Ao longo dos anos, fui para dois outros centros de surf e tive muitas lições particulares, nas quais paguei US$ 75 para ouvir coisas como: “Fique de pé como uma boa garota!”. Graças a Deus, Ru Hill, um inglês de 33 anos, usa uma abordagem mais funcional, quase científica, para as aulas de surf, decompondo a técnica em passos lógicos e possíveis. Ele vem desenvolvendo seu método há mais de dez anos enquanto ensinou o esporte no Reino Unido e na Costa Rica, para onde se mudou em 2007. “Existem as aulas para iniciante e aquelas para profissionais, sem nada no meio entre esses dois níveis”, explica Ru. A sacada da Surf Simply, que ele inaugurou em março de 2010 com sua esposa, Gemma Yates, é fazer a ligação entre esses dois pontos de aprendizagem.

Ru e Gemma vasculharam o globo – de Portugal a Bali – em busca do local perfeito. Escolheram Nosara, na península de Nicoya, por causa das ondas consistentes no ano inteiro que quebram em um trecho intacto de 7 quilômetros de areias brancas em Playa Guiones, a uns 700 metros do resort. A selva ao redor e a reserva natural também tiveram a ver com a escolha do casal.
O programa de uma semana inclui duas sessões diárias de surf de 90 minutos cada (de manhã e à tarde), refeições caseiras, uma aula teórica (sobre temas que vão de interpretar uma tempestade até como julgar uma competição de surf), além de yoga ao entardecer. Com um máximo de 14 hóspedes – de executivos do Facebook a atletas e famílias –, oferece um treinador para cada três alunos, divididos em grupos de nível 1 (iniciantes) a 4 (avançados).

No começo da semana, os treinadores filmaram meu grupo de nível 2. Foi aí que descobri que surfo em posição de sentar na privada, com meu traseiro apontando para fora. O instrutor analisou o que precisávamos trabalhar, incluindo a postura adequada, como fazer curvas e onde colocar a prancha na onda. Todos os dias aprendemos uma habilidade nova estudando o vídeo de surfistas talentosos, decompondo a mecânica de como e por que um movimento funciona, e praticando as técnicas na frente do espelho, na praia e na água, com os treinadores do nosso lado, oferecendo dicas constantes e específicas. “Você vê um monte de gente falando: ‘Sinta o ritmo do oceano’ ou ‘Vá com a onda’. Isso é péssimo”, diz Ru Hill. “Não há nenhuma conexão mágica com o mar. Você tem de praticar suas habilidades e pronto.”

Todos os cinco treinadores da Surf Simply são salva-vidas altamente treinados com prêmios de instrutores da Associação Internacional de Surf. E também são divertidos e entusiasmados “geeks” do surf. A aula teórica do treinador Harry Knight sobre design de pranchas é perfeita – ele mesmo já criou vários tipos de pranchas. No estúdio de yoga, Ru revela um pôster da Árvore de Conhecimentos do Surf que passou anos criando. É um mapa de todos os passos do surf, do nível iniciante ao avançado. Isso confirma minha suspeita: Ru é um mestre da metodologia.

Estas não são férias para preguiçosos. Agradeço aos deuses do surf pelo fato de que todos os detalhes, das refeições deliciosas ao traslado e transporte de equipamentos, são resolvidos pelo pessoal da Surf Simply para que eu possa focar minhas energias na água. Às 21h30, a maioria dos hóspedes já está na cama em um dos quatro chalés de luxo do resort. Entre sessões de surf, relaxamos na piscina de fundo azul-celeste (com macacos uivadores nas árvores acima) ou assistimos a filmes de surf num espaço a céu aberto, atacando o estoque no freezer. No dia de descanso no meio da semana, os hóspedes podem escolher aventuras como um passeio pelas copas das árvores ou um rolê de stand-up paddle nas águas calmas do rio Nosara. E isso, claro, seguido de uma bela massagem.

Embora não tenha dominado todas as técnicas em meus cinco dias de viagem, vou embora com uma carga de conhecimento que teria levado anos para juntar. Minha empolgação com o esporte sai também renovada. No final da semana, eu estava encarando paredões de 4 metros de águas verdes, os maiores que já tinha visto. O treinador britânico Martin Reynolds vê uma onda se aproximando e pergunta com alegria: “Vamos pegar essa aí?”. Decido fazer uma tentativa. “Rema forte!”, grita ele, me ajudando a cada braçada. Pego a onda, dropo e me divirto como nunca. E então começo a planejar minha próxima visita.

PLANEJE-SE: Hospede-se no Surf Simply Coaching Resort a partir de US$ 2.570 por semana, tudo incluso (surfsimply.com).
COMO CHEGAR: A TAM e a Avianca tem voos saindo do Rio de Janeiro até San José; dali um representante da Surf Simply te leva em uma viagem de 2 horas até o resort.
QUANDO IR: Na estação da seca, de dezembro a abril, e na estação verde, que acontece em junho, julho, agosto e novembro; o resort fecha em maio, setembro e outubro.
DICA DAS BOAS: Spencer Klein, antigo assistente do cantor Jack Johnson, passou anos viajando pela América Central. Sua operadora de aventura, a Experience Nosara, oferece viagens de uma semana de stand-up paddle ou surf a remo na região, além de rolês de caiaque, observação de aves e viagens de surf em barcos fretados com guia na Costa Rica, Panamá e na Nicarágua (experience-nosara.com).


>> Honduras
Conheça de perto as profundezas das águas virgens de Roatán

Por Bonnie Tsui


DÁ-LHE HONDURAS: Vida marinha local

COM MAIS DE 700 espécies de aves e um crescente número de parques nacionais, Honduras não perde tempo quando o assunto é turismo. Seu grande atrativo está debaixo d’água, mais precisamente na região de Roatán: cortes profundos no recife ao redor a ilha descem centenas de metros, oferecendo mergulho ao lado de paredões vertiginosos, exploração de naufrágios, belos corais e grande visibilidade. Siga para a ilha de West End para admirar praias de areais brancas, curtir noitadas em bares a céu aberto e desfrutar do hotel Cocolobo, que oferece uma linda piscina e dez quartos com varanda. Lá perto, você encontrará operadoras de mergulhos certificadas de renome, como a Coconut Tree e a West End Divers. Se tiver coragem, explore o bizarro universo submarino repleto de enguias e tubarões com Karl Stanley, um norte-americano de 37 anos que leva aspirantes a Capitão Nemo centenas de metros de profundidade mar adentro em seu submarino caseiro, o Idabel.

PLANEJE-SE: No hotel Cocolobo, há quartos de casal a partir de US$ 115 (cocolobo.com). Mergulhos a partir de US$ 35 por tanque com equipamento alugado (coconuttreedivers.com e westenddivers.info). Passeios no submarino de Karl Stanley: US$ 800 por pessoa para uma expedição de 3,5 horas (stanleysubmarines.com).
COMO CHEGAR: A Taca tem voos até Roatán com escala no Peru. A Copa Airlines faz o mesmo trecho parando em San José.

QUANDO IR: De fevereiro a março, para águas calmas e com alta visibilidade.

>> Guatemala
Aprenda espanhol na melhor escola do país e se comunique com os locais em Antígua


NADANDO: Menino na lagoa Atitlán, na Guatemala

NA CIDADE COLONIAL de Antígua, você encontra o Centro Linguístico Maya, uma das melhores escolas de espanhol do país. À sombra de três vulcões, o centro oferece instrução individualizada de até 7 horas por dia com um professor particular. Depois pratique o que aprendeu nos passeios pelos mercados e ruínas locais. Para uma imersão completa, hospede-se com uma das famílias selecionadas pela escola ou fique no El Convento, em frente às ruínas parcialmente intactas de um convento de monges capuchinos do século 18. Antígua é um perfeito ponto de partida para o espantoso lago Atitlán, com mais de 300 metros de profundidade, localizado a 50 quilômetros de distância em direção às terras altas a oeste, repletas de trilhas e vibrantes aldeias maias. Mas não vá sozinho: as taxas de pequenos furtos e crimes violentos estão aumentando em todo o país. E, antes de partir, pesquise em sites como o do Departamento de Estado dos EUA (travel.state.gov) para saber mais sobre segurança e perigos. —B.T.

PLANEJE-SE: Uma semana de aulas no Centro Linguístico Maya custa a partir de US$ 140 (clmaya.com). Quartos de casal a partir de US$ 190 no El Convento (elconventoantígua.com).
COMO CHEGAR: A Copa Airlines tem voos para a Guatemala saindo de São Paulo com escala no Panamá.
QUANDO IR: De novembro a agosto.

>> Belize
Admire um dos mais belos santuários de vida selvagem e se hospede em um hotel ecológico inesquecível do Caribe

EXPREMIDA ENTRE o México e a Guatemala, Belize tem mais de 2 milhões de acres de floresta, 290 quilômetros de um maravilhoso litoral caribenho e dezenas de hotéis ecológicos inovadores. Dois dos melhores? O Hamanasi Resort tem bangalôs em árvores com um trecho de 20 quilômetros de praia a poucos minutos de cachoeiras de 30 metros. A trilha sonora é composta por aves chachalacas piando desordenadamente, e as atividades diárias incluem rastrear pegadas de onças no Santuário de Vida Selvagem da Bacia de Cockscomb, cercado pelas montanhas Maya. Para mergulhos, vá para o chique Turtle Inn, que pertence a Francis Ford Coppola, onde a Barreira de Corais Meso-Americana – a maior do Hemisfério Ociental – fica logo em frente ao litoral. De abril a junho, você pode mergulhar com tubarões em migração, que se alimentam nos corais nas noites de lua cheia. —B.T.

PLANEJE-SE: No Hamanasi Resort, os quartos de casal custam a partir de US$ 195 (hamanasi.com). Já no Turtle Inn, a diária para casal custa a partir de US$ 285 (coppolaresorts.com).
COMO CHEGAR: A Continental Airlines tem voos com uma escala só, saindo de São Paulo. A Avianca também leva, mas com duas escalas.
QUANDO IR: De abril a junho, entre as estações seca e de chuva.
DICA DAS BOAS: Em Belize, não deixe de visitar a Actun Tunichil Muknal, uma rara caverna arqueológica cheia de relíquias maias e com uma tumba de uma jovem donzela. Vá com a Pacz Tours, cujos guias são certificados em espeleologia e resgate em terrenos selvagens (pacztours.net).

>> El Salvador
Explore sem medo ondas inacreditáveis e conheça de perto animais bizarros na costa do Pacífico


SALVE EL SALVADOR: Ônibus no vilarejo de Anamorós

A GUERRA CIVIL já acabou faz tempo, mas a violência das gangues persiste – e, embora raramente afete os turistas, significa que podem acontecer assaltos. Por essa razão, recomendamos que você visite El Salvador sempre na companhia de um guia. Mas não se assuste ou desanime com o país por causa da insegurança, porque El Salvador está cheio de points desertos de surf, vulcões ativos de mais de 2 mil metros de altura e deliciosas pupusas, as tradicionais tortilhas de milho fresco com feijões e queijo. Planeje uma viagem repleta de esportes com a agência Cadejo Adventures. Comece na costa La Libertad, a 30 minutos ao sul de San Salvador, onde ondas incríveis e de variados níveis te esperam. Hospede-se no luxuoso Casa de Mar, que oferece uma série de chalés na encosta de morros sobre El Sunzal. Após alguns dias de caça a ondas, siga continente adentro até o Parque Nacional El Imposible para dois dias de caminhadas e exploração de cânions em desfiladeiros épicos, com raros tucanos esmeralda e aardvarks, aqueles animais bizarros que parecem um porco esquisito com pinta de tatu. —B.T.

PLANEJE-SE: A Cadejo Adventures organiza viagens de uma semana a partir de US$ 2.640 para duas pessoas, incluindo hospedagem (cadejoadventures.com).
COMO CHEGAR: A Avianca oferece voos até San Salvador saindo de São Paulo.
QUANDO IR: De novembro a maio.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de novembro de 2011)