Um inverno cruel para montanhistas no K2 e Everest

O mau tempo, um resgate imprevisto e um motim acabaram por destruir as chances de duas equipes

Vista de Kala Patthar, no Everest, ao nascer do sol - Foto: Heath Holden/Getty

Por Kraig Becker*

Os meses de inverno nos Himalaias e Karakoram são sempre um desafio. Ao contrário da temporada de primavera, o clima no inverno é muito mais imprevisível. Os jet streams (correntes de ar em alta atmosfera) afetam diretamente as montanhas, trazendo tempestades e ventos fortes que tornam muito difícil chegar aos cumes. As temperaturas ficam em torno de -40 ºC, sendo a sensação térmica perto dos -59 ºC. Em resumo: as “janelas” de bom clima são raras.

Esta temporada é uma prova disso, uma vez que as condições precárias frustraram duas expedições em dois dos picos mais icônicos. A primeira foi uma tentativa de Muhammad Ali Sadpara e Alex Txikon de fazer a segunda ascensão de inverno do Monte Everest de 29.029 pés (8.848 m) sem oxigênio suplementar. O segundo foi organizado por uma equipe de alpinistas poloneses, apelidados de “Ice Warriors”, que queriam fazer a primeira subida de inverno de K2 de 28.250 pés (8.611 m). Eles estão atualmente no acampamento base, reavaliando a subida após um motim.

Vamos falar sobre Txikon primeiro. Esta foi a segunda tentativa durante o inverno de alcançar o cume do Everest sem oxigênio suplementar. Este ano, no início de janeiro, ele se juntou a Sadpara e sua equipe completa, que incluiu um grupo de Sherpas experientes. Em primeiro lugar, a equipe marcou um ritmo impressionante, construindo uma rota através da traiçoeira Cascata de Gelo do Khumbu em apenas seis dias, depois estabelecendo campos altos mais adiante nas encostas e até mesmo alcançando o cume Pumori de 23,500 pés (7.161 m), como parte da preparação e aclimatação para o Everest.

Na semana passada, as previsões meteorológicas previam que ventos fortes que tocam o topo do Everest seriam o suficiente para Sadpara, Txikon e companhia para seguir a expedição. A equipe rapidamente subiu ao acampamenro 3 em um esforço para tirar proveito de uma janela do tempo. Mas logo que chegaram ao acampamento, viram que a janela estava fechando mais rápido do que tinha aberto. O grupo fez um último esforço para ultrapassar o clima e quase chegou ao acampamento 4 a 26.000 pés (7924,8 m), mas foram forçados a retornar ao acampamento base quando uma tempestade começou.

Na terça-feira, Sadpara e um dos sherpas já partiram para Katmandu – a licença de escalada da equipe expirou no final de fevereiro. Embora tenha sido possível obter uma extensão da licença, as previsões a longo prazo eram de mau tempo até meados de março, o que teria deixado pouco tempo para completar a expedição antes da chegada oficial da primavera.

Na sua página do Facebook, Txikon marcou o fim da expedição dizendo: “Depois de pensar muito e fazer tudo o que está em nossas mãos para seguir nossos sonhos, decidimos levar a fim a expedição durante o inverno ao Everest sem oxigênio artificial em 2018. Não foi fácil, mas tenho certeza de que é a melhor decisão”.

Enquanto isso, no K2, a equipe polonesa sofreu mais desafios, incluindo o mau tempo, ferimentos graves, uma mudança de rota no meio da escalada e uma tentativa de resgate de última hora em Nanga Parbat.

Eles chegaram no dia 9 de janeiro e começaram a aclimação e preparação para a ascensão. Em 27 de janeiro, os membros do time Adam Bielecki e Denis Urubko foram de helicóptero para o K2 a fim de resgatar o montanhista polonês Tomek Mackiewicz e a alpinista francesa Elisabeth Revol, que cunhou com sucesso o pico de 26.660 pés (8.126 m), mas enfrentou problemas na descida. Mackiewicz logo desenvolveu congelamento, cegueira de neve e doença de altitude. Embora Revol tenha tentado ajudá-lo a atingir uma elevação segura, onde ambos poderiam ser resgatados por helicóptero, ela acabou por ser forçada a continuar sem ele. Urubko e Bielecki foram entregues pelo helicóptero a 16.000 pés (4,8768 m) em Nanga Parbat, e os dois colocaram um esforço sobre-humano para ajudar a trazer Revol com segurança abaixo de 20.600 pés (6.278 m). Mackiewicz, no entanto, estava preso em 23.000 pés (7.010,4 m), e o mau tempo impediu seu resgate. Seu corpo ainda não foi encontrado.

Após o resgate, o time voltou a base do K2 no dia 2 de fevereiro e começou a transportar cargas de equipamentos e suprimentos até seus acampamentos para se preparar para a expedição ao cume. Mas na semana passada, Urubko, que estava frustrado com o ritmo lento da expedição, desistiu abruptamente do time e tentou uma ascensão completamente sozinho. Por conta das condições climáticas, foi eventualmente forçado a voltar, mas não antes que ele conseguisse alcançar uma altitude de 26.262 pés (8.0047 m), cerca de 2.000 pés (609.6 m) de altura do cume.

Urubko é um dos escaladores mais experientes do mundo e já atingiu 14 picos de 8 mil metros. Nos dias que antecederam a tentativa de subida solo, Urubko realizou várias entrevistas nas quais questionou a tomada de decisão do líder Krzysztof Wielicki, que fez as primeiras subidas de inverno no Everest, Lhotse e Kangchenjunga. Urubko também gritou com seus companheiros de equipe por não trabalharem rápido o suficiente e por fazerem a expedição com muita comida e água.

Na volta, Urubko não foi recebido de forma tão agradável no acampamento base. Ele foi impedido de usar a internet da equipe e agora deixou o esquadrão completamente para voltar para casa. Seus companheiros de equipe continuam observando o clima. Eles planejam passar mais três semanas tentando se tornar os primeiros indivíduos a participar de uma temporada de inverno no K2.

Se o tempo o permitir, é claro.

*Artigo publicado originalmente em inglês na Outside Magazine, março 2018.