A sensação de sossego pode ser encontrada em todas as trilhas que listamos aqui

De passeios de um dia a caminhadas de cinco meses, as trilhas estão mais populares do que nunca. Mas à medida que as antigas reservas se tornam mais cheias a cada ano, há uma nova safra de trilhas esperando para serem exploradas. Aqui estão dez dos nossos favoritos, além de novos achados para ciclistas, remadores e para quem gosta de cavalgar.

Arizona Trail

grand canyon

PASSO MONTEZUMA-PAGE, ARIZONA (EUA)
DISTÂNCIA: 1.300 KM
DURAÇÃO: SEIS SEMANAS

NA DÉCADA DE 1980, um professor escolar chamado Dale Shewalter peregrinou pelo Estado do Arizona mapeando sem muito compromisso o que se tornaria a Arizona Trail, uma rede de caminhos multiuso que atravessa a região. Ela parte da zona alta de deserto, perto da fronteira com o México, rumo à altitude de quase 2.900 metros das Montanhas de Huachuca, seguindo em direção norte pelo Grand Canyon, antes de terminar na divisa com Utah. É possível caminhar toda sua extensão em cerca de um mês e meio. Ou então escolher uma das 43 sessões mapeadas, como a Gila River Canyons Passage (42 km), um lindo cenário a sudeste de Phoenix. Toda essa ramificação de trilhas foi finalizada em 2011, mas equipes de campo das redondezas têm trabalhado pesado em cinco projetos de melhorias, transformando estradas rústicas em singletracks incríveis. Não deixe de fazer uma parada tática no That Brewery Pub, beirando a trilha na região de Pine, para provar a Arizona Trail Ale. As vendas dessa delícia artesanal ajudam nos projetos de manutenção do trajeto.

Lechweg Trail

lecweg trail

LECH, ÁUSTRIA, A FÜSSEN, ALEMANHA
DISTÂNCIA: 125 KM
DURAÇÃO: OITO DIAS

SIGA PELO RIO LECH de sua nascente, nos arredores da vila que leva seu nome, passando por quedas d’água, até a cidade bávara de Füssen, já em território alemão. Aberta em 2012, essa travessia é a primeira Leading Quality Trail, nome de um selo de certificação criado pela associação European Ramblers – que avalia longos trekkings em quesitos como estrutura apropriada e acesso a atrativos naturais e culturais. Durante o dia, a Lechweg proporciona momentos de contemplação em campos de orquídeas, passagens por fazendas de queijos deliciosos e possíveis encontros com os ibex, mamífero de longos chifres que habitam os Alpes.

Você também vai ver de perto o castelo do rei Ludwig II e poderá descansar em chalés nos pés das montanhas – empresas locais fazem o traslado das bagagens. Se preferir caminhadas diárias menores, há 15 opções mais tranquilas no trajeto. Inclua pelo menos a passagem por Rieden, na Áustria: no entorno da trilha, encontram-se iguarias como o spätzle (massa típica) de espinafre e outros pratos da culinária da região de Tirol.

Greater Patagonian Trail (GPT)

SUL DE SANTIAGO AO EXTREMO SUL DA PATAGÔNIA,
CHILE E ARGENTINA
DISTÂNCIA: 3.000 KM (REDE COMPLETA: 15.000 KM)
DURAÇÃO: INDETERMINADA

“ISSO AQUI NÃO É exatamente o que as pessoas costumam imaginar como Patagônia; e essa é exatamente a ideia”, resume Jan Dudeck, 42, um engenheiro mecânico alemão e experiente caminhante que deu luz à Greater Patagonian Trail (GPT) em 2014 após uma década de estudos de campo. Ele se refere a essa rede de trajetos pouco visitada e longe dos pontos mais tradicionais quando se fala em Patagônia. É uma versão bruta e selvagem de um território que já costuma receber essa descrição normalmente.

A GPT engloba trechos que exigem boa navegação em estradas usadas pelos locais para diferentes fins, como transportar animais, alimentos e suprimentos da natureza. Seguindo seu trajeto principal, chega-se a somar 3.000 km do sul da capital chilena, Santiago, até a região do lago Viedma e El Chaltén, no extremo do continente – a rede completa, com opções ramificadas, alcança até 15.000 km mapeados em GPS.

Desde que dividiu com o mundo suas andanças, grande parte ao lado da sua mulher, a chilena Meylin Ubila, Jan tem ganhado contribuições de aventureiros independentes que embarcaram na GPT. Cerca de cem pessoas fizeram tentativas em trechos grandes da trilha nos últimos quatro anos. Apenas três concluíram sua extensão total. “Alguns caminhantes formam uma combinação perfeita com a GPT, já outros se mostraram uma ameaça ao caminho, assim como a trilha os ameaçou”, fala Jan, alertando sobre o estilo auto-suficiente, além da importância de se comunicar bem com os locais.

Para quem está disposto a experimentar um pouco dessa vivência, o criador da GPT recomenda o trecho 06, “uma sessão vulcânica fascinante”, como descreve. Ela conecta Volcán Descabezado a Maule, em território chileno. Todo esse trecho, entre as sessões 05 a 12 da GPT, faz parte de uma alta cadeia de montanhas andinas ao sul de Curicó (Chile). Os cumes beiram os 4.000 metros de altitude, e os passos costumam ser acima dos 2.000 metros. É uma área onde a GPT é mais facilmente “caminhável”, beirando a fronteira com a Argentina, mas sem cruzar para o país vizinho. Atenção para o fim do verão e a primavera, quando a neve derrete e aumenta demais a quantidade de água dos rios.

Depois que a GPT entrou em destaque na Go Outside de agosto de 2016, Jan já reescreveu boa parte do extenso conteúdo online (tudo gratuito; cheque o Wikiexplora). Para ele, a temporada de 2017 foi produtiva e conclusiva em vários aspectos. E a essência está mantida: não se trata de um roteiro comercial, tampouco de um produto turístico vindo de algum órgão governamental. É feita de um amante dedicado do trekking para seus semelhantes. Leia-se: uma pegada extrema. Para cruzá-la em partes ou na totalidade, é preciso saber o que está fazendo – e todo material disponível da GPT explica muito bem os detalhes e as necessidades.

Ainda que seja inspirada em trilhas enormes como a Pacific Crest Trail (PCT), que se estende por toda a costa oeste da América do Norte, a GPT mantém seu caráter informal. “Não é um playground para pessoas com ego inflado que pensam que toda montanha e todo habitante local é um fundo perfeito para tirar uma selfie”, diz Jan. “Também não é um terreno para pessoas provarem algo a alguém, nem mesmo para elas mesmas, mas, sim, uma rede de incríveis descobertas, que exige humildade e passa por histórias de pessoas simples e incríveis, imergindo de forma profunda na cultura patagônica, algo único no mundo.”

Three Capes Track

TASMÂNIA, AUSTRÁLIA
DISTÂNCIA: 46 KM
DURAÇÃO: 4 DIAS

EM 2015, O SERVIÇO de parque e vida selvagem da Tasmânia (Parks and Wildlife Service) abriu a Three Capes como uma forma de atrair visitantes ao remoto Parque Nacional Tasman. A boa notícia é que há um limite de 48 pessoas por dia, o que significa andar na beira de imensos penhascos com o Pacífico Sul praticamente sozinho. É preciso pagar uma taxa de entrada (cheque o preço atualizado no site oficial acima), que também inclui um guia detalhado e três pernoites em novíssimos abrigos com energia solar, cozinhas equipadas, tapetinhos de ioga e jogos de tabuleiro. A jornada começa em Port Arthur, onde uma balsa te leva a uma praia isolada com a marcação do início da trilha. Passe os três dias seguintes atravessando lindas falésias e áreas costeiras de floresta. Não deixe de subir ao ponto mais alto do trajeto, o Monte Fortescue (480 metros).

John Muir Way

DE HELENSBURGH A DUNBAR, ESCÓCIA
DISTÂNCIA: 215 KM
DURAÇÃO: 10 DIAS

O HIKING É UM ESPORTE nacional para os britânicos. Andar de pub em pub pela orla do rio Tâmisa ou passar semanas acampando na trilha South West Coast, por exemplo, são clássicos locais. É por isso que, em 2014, a Scottish Natural Heritage e a Central Scotland Green Network concluíram um percurso costa a costa chamado John Muir Way (não confundir com a John Muir Trail, na Califórnia). A trilha corta o país da orla oeste, na cidade de Helensburgh, ao local de nascimento de John Muir, em Dunbar. Atrativos pelo caminho? Castelos e canais centenários, o primeiro parque nacional escocês (Loch Lomond & Trossachs) e destilarias de uísque. Há campings demarcados por toda a rota e é possível se programar de acordo com a capacidade e as necessidades do viajante. Dica certeira: em Kilsyth, coma os fish and chips locais no restaurante à beira-mar Boathouse, beirando o canal Forthand Clyde.

Circuito Wild Rogue

FLORESTA NACIONAL DE SISKIYOU, OREGON (EUA)
DISTÂNCIA: 43,5 KM
DURAÇÃO: 3 DIAS

O WILD ROGUE É UM CIRCUITO em uma área de 143 km2, a Wild Rogue Wilderness, região selvagem e montanhosa marcada pela história dos indígenas norte-americanos e da mineração do século 19. Perto da cidade de Portland, nos Estados Unidos, boa parte dessa rota estava intransponível até 2015, graças à soma de erosão, incêndios espontâneos e abandono. Quando o clube de montanhismo Siskiyou, baseado na cidade de Ashland, conseguiu captar US$ 30 mil com a loja de equipamentos outdoor REI e com o fundo governamental Oregon Recreational Trails Program, o circuito Wild Rogue reabriu para o público. Diferentemente da trilha do rio Rogue, que fica na mesma região e segue em paralelo ao curso d’água cênico e selvagem por 65 km, a Wild Rogue se afasta das margens e atrai menos trilheiros. É um trajeto íngreme, estreito e que já foi usado como estrada de trabalho para reabastecer mineiros, com pontos de acampamento no meio de uma floresta antiga, nos cânions da baía de Mule e ao longo do rio. É possível fazer trilhas de um dia, mas completá- la na sua totalidade é a nossa sugestão. Ao terminar, comemore na cervejaria artesanal Climate City Brewing, em Grant Pass, a 108 km da trilha a sudeste.

The Great Trail

Crédito: Janice Strong

DE VICTORIA A SAINT JOHN, CANADÁ
DISTÂNCIA: 24.000 KM
DURAÇÃO: TRÊS ANOS 

NÃO É SURPRESA que a The Great Trail, um entrelaçado de trilhas fechadas, rotas ao longo de rios e estradas rurais que atravessa 13 províncias e territórios canadenses (saindo da Colúmbia Britânica até Newfoundland), tenha se tornado a maior trilha do mundo quando seu traçado oficial ficou completo, em 2017. Imaginado no começo dos anos 1990 para celebrar os 125 anos do Canadá, o projeto exigiu 25 anos de negociações ao redor do percurso e investimento de milhões de dólares. Hoje é possível pedalar por trilhas margeando caminhos de trem que cortam fazendas e vinícolas e dormir em pousadas à beira do trajeto pela Colúmbia Britânica, remar por uma rota de comércio de peles dos territórios do norte, cavalgar entre corujões-orelhudos em Manitoba e trilhar pelo cascalho, acampando entre exóticos vilarejos de pescadores pela Nova Escócia. Os pontos de acesso da trilha são fáceis de achar: a cada cinco canadenses, quatro moram a no máximo meia hora da trilha. Nossa parte preferida? A Trilha da Confederação, um trecho de 450 km no traçado de uma antiga linha de trem na ilha do Príncipe Eduardo, parte das províncias marítimas do Canadá.

Trilha do Sinai

GOLFO DE ÁCABA AO GOLFO DE SUEZ, EGITO
DISTÂNCIA: 547 KM
DURAÇÃO: SEIS SEMANAS 

A PRIMEIRA TRILHA de longa distância do Egito, pensada para esse propósito, foi completada em 2015 por três tribos de beduínos, com fi nanciamento via ONGs que querem incentivar o turismo na remota Península do Sinai. A princípio, seria um caminho de 250 km, mas este ano a trilha mais que dobrou de tamanho, se tornando um circuito de 547 km pelo Deserto do Sinai, que passa por petróglifos, pomares de damascos e amêndoas e um monastério de 1.500 anos. Há trechos que podem ser feitos de forma autossuficiente, como o bate e volta do Monte Sinai ou a travessia do planalto de El Gardood, mas a travessia de longa distância exige um guia beduíno, porque os pontos de reabastecimento de água e alimentos são raros. Os guias, contudo, acrescentam mais: montam os acampamentos, preparam a comida e ensinam sobre a vida nômade e ancestral. Há outras empreitadas de longa distância se consolidando no Oriente Médio. Uma delas é a trilha do Jordão, de 643 km, lançada em 2017 e que está atraindo seus primeiros caminhantes.

Fjällräven Classic Hong Kong

PENÍNSULA DE SAI KUNG, HONG KONG (CHINA)
DISTÂNCIA: 48 KM
DURAÇÃO: 3 DIAS

HONG KONG? ISSO MESMO. Cerca de 40% do território é coberto por parques nacionais, reservas naturais e quase 300 km de algumas das trilhas mais deslumbrantes do mundo. É por isso que, ano passado, a fabricante de equipamentos outdoor sueca Fjällräven escolheu o lado mais agreste da ilha para ser a mais nova clássica a entrar no menu – o trajeto é uma experiência de trekking pensada pela marca para incentivar mais pessoas a se aventurarem na natureza. O fundador da empresa, Ake Nordin, lançou a primeira clássica em 2015, na Suíça, e logo vieram eventos anuais na Dinamarca e no Colorado (EUA). Na versão chinesa, o roteiro inclui acampar em praias, passear por florestas tropicais e ter rápidos relances dos arranha-céus da cidade. A travessia pode ser feita de maneira totalmente autônoma, mas há pontos de apoio para os inscritos ao longo do percurso. A data oficial da Fjällräven é entre 24 e 27 de outubro, e para participar é preciso pagar uma inscrição de US$ 200 (cerca de R$ 750).