Skate or die

Brasileiro cria nova modalidade, na qual as manobras acontecem em prédios abandonados, pedras e na beira de precipícios

Em todas as fotos da matéria, Aleandre testa manobras na praia da Joatinga, no Rio de Janeiro

Por Mario Mele
Fotos Andre Magarao

SE SKATE É SINÔNIMO de liberdade e se a natureza é o melhor lugar para nos conectarmos com o universo, então Alexandre Feliz é o cara mais sortudo do mundo. Aos 28 anos, esse carioca que carrega o “adjetivo mais desejado” no próprio nome – na verdade, “Feliz” é o apelido que ele ganhou na época da escola – diz ser o inventor do “extreme freestyle”, uma modalidade que está levando as manobras do skate freestyle a lugares improváveis, como prédios abandonados, trilhos de trem e, principalmente, às montanhas.

“Eu tive essa ideia em 2012, durante uma viagem ao Chile com minha família”, recorda. “Caminhando sobre as pedras da praia de Reñaca, em Viña del Mar, tive um estalo: ‘Por que não andar de skate aqui?’.”

Alexandre acertou o primeiro ollie aos 8 anos, depois de se empolgar com um vídeo do lendário Rodney Mullen, norte-americano que é o maior inventor de manobras desse esporte. Seu negócio sempre foi o street. Mas, em 2005, depois de fraturar a rótula e ouvir do médico que não poderia mais praticar nenhum esporte que exigisse demais do joelho – entre eles o skate –, passou a se dedicar ao freestyle. “Eu não aceitava ter que abandonar o skate, mas pelo menos sabia que o freestyle é um estilo sem muito impacto”, explica.

A brincadeira ficou séria: em 2008, ele correu o mundial no Brasil. Em 2012, na Alemanha, ficou entre os dez melhores do mundo na categoria profissional.

Depois de criar o extreme freestyle, no entanto, seu foco mudou, e ele passou até a incorporar a escalada, subindo vias na rocha, árvores, muros e grades sem desgrudar do skate. “A primeira vez que levei o skate para a beira de um penhasco foi no Cerro San Cristóbal, em Santiago, Chile. E a primeira vez que errei uma manobra próximo a um precipício foi no Morro Dois Irmãos, no Rio de Janeiro.” Mesmo assim ele garante que se trata de um esporte seguro e que nunca sofreu um só acidente no extreme freestyle.

“Nas três vezes em que deixei o skate escapar para a ribanceira, consegui recuperá-lo me embrenhando no mato e evitando que ele virasse lixo ambiental”, conta. A seguir, Alexandre revela outras informações salvadoras de seu esporte:

> “Existem 21 praticantes de extreme freestyle no mundo inteiro, sendo 20 homens e uma mulher. São atletas da Alemanha, Suécia, África do Sul, Canadá, Estados Unidos, México, Hungria, Espanha, Itália, China, Japão, Chile e Brasil. A maioria já era skatista antes, principalmente do freestyle. Mas sei de alguns que vieram do parkour, da escalada e do highline.”

> “Já fui atingido por uma onda quando estava em cima de uma pedra cheia de limo e, mesmo assim, consegui completar a manobra. Também já andei em um prédio abandonado à noite, sem enxergar nada. Porém o lugar mais desafiador foi o Cerro Manquehue, em Santiago. A combinação de altitude, solo arenoso e ar seco gerava a cada manobra um desgaste similar a uma hora de treino.”

> “No momento, estou criando e trabalhando em manobras complexas, que usam mais de um skate, além de dois novos estilos. Um deles tem a ver com o pogo climb, que é realizar a pogo (manobra em que o skatista se equilibra na posição vertical dando saltos, como se o skate fosse um pula-pula) enquanto escalo.”

> “Quando você já domina uma manobra, sabe para qual lado vai cair se errar. Portanto procuro direcionar meu corpo para um lugar seguro. Por exemplo, em quase todas as minhas manobras, sei que é impossível cair para a frente, e por isso o melhor é ficar de cara para o abismo.”

> “O pico perfeito é aquele que tem a maior variedade de obstáculos, com uma linda e ampla vista para o horizonte, longe do barulho e da poluição da cidade. Até animais selvagens costumam aparecer para me observar. E eles parecem se sentir seguros com a minha presença.”

 

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