Quando as pernas não alcançam

Não ter conseguido chegar ao cume do Lênin Peak fez a professora e assistente social Paula Kapp refletir sobre o seu esporte. "Escalar vai além dos dias em que você está montanha; é um retrato da vida", acredita

Por Paula Kapp

ACABEI DE DESCER do glaciar Lênin depois de 12 longos dias de aclimatação. Há quatro dias o tempo está ruim: frio, neve, whiteout, vento, avalanche… Enfim, coisas da alta montanha. Pessoas precisam de resgate devido ao congelamento de dedos, pés e mãos e porque sofrem com o “mal da montanha”. Está nevando forte desde ontem, mas mesmo assim começamos a nossa subida durante a madrugada – seria a nossa única chance de cume. Na largada, me senti cansada. Pensei que pudesse ter ficado desanimada ou preguiçosa por causa de um longo descanso como última etapa da aclimatação para ataque ao cume. Mas logo senti minhas pernas fraquejando. Sentia dor e cansaço.

Caminhamos durante a noite por pouco mais de duas horas no glaciar e, quando cheguei à parte mais íngreme, admiti – para mim mesmo e para a Claudia Bento, minha parceira de escalada – que não teria mais condições de continuar. Dessa forma, eu atrasaria o grupo e, muito provavelmente, prejudicaria minha parceira, tendo que imprimir um ritmo mais lento. Sem contar que também comprometeria a logística da expedição, pois um guia teria que descer comigo.

Isso pode não significar muito para quem lê, mas nunca é fácil desistir de uma montanha. Geralmente, envolve crises interiores. Você precisa reconhecer seus limites, suas fraquezas e, porque não, sua derrota.

QUANDO VI UMA foto do Lênin Peak (7.134 metros) pela primeira vez, fiquei alucinada! Uma montanha toda branquinha, uma gigante colossal que reina no céu e na terra. Ela faz parte dos “Leopardos das Neves”, um projeto dificílimo que envolve as cinco montanhas acima dos sete mil metros de altitude na antiga União Soviética. Coloquei-a imediatamente em pensamento, e meu desejo de escalá-la fez com que eu reunisse forças para dar os primeiros passos: arrumar dinheiro, me organizar no trabalho e conseguir tirar férias, analisar e avaliar cada rota, falar com os amigos que topariam essa empreitada, achar uma agência (tomamos finalmente esta decisão depois de muito tempo debatendo se iríamos sozinhas ou não), agilizar o visto e todo o equipo necessário.

Foram meses e meses de planejamento, até o avião decolar e a aventura começar a ganhar uma cara. E lá fomos nós, rumo ao desconhecido.

Quando pisamos no acampamento base, o gigante Lênin Peak se apresentou uma montanha tranquila. Que falsa primeira impressão, iríamos descobrir posteriormente. Aparência e essência são coisas distintas, e a calmaria logo foi desmascarada ao nos aproximarmos um pouco mais. No início, frio e uma rota longa com partes íngremes, até chegarmos ao acampamento 1, a 4.300 metros de altitude. Para finalizar o primeiro ciclo de aclimatação, escalamos o Yukhina Peak (5.127m). Cume!

O próximo ciclo de aclimatação consistia em chegar ao terceiro e último acampamento alto (6.088 m) – passando pelo acampamento 2 (5.400 m) –, e em seguida retornar até o acampamento base. Lá descansaríamos dois ou três dias para, finalmente, escalarmos tudo novamente e atacarmos o cume. Era a primeira vez que eu experimentava esse plano de aclimatação, e confesso que ainda não sei o que pensar sobre essa tática. Minhas experiências anteriores foram bem diferentes.

O Lênin Peak é apenas cerca de 150 metros mais alto do que o Aconcágua, e tem um acampamento avançado a menos. Na prática, isso indica que a aclimatação deve ser um pouco mais bruta. Some a isso as longas distâncias e os trechos bem íngremes. Sem contar o gelo contínuo, que te obriga a caminhar desde o Acampamento 1 (4.300 m) calçando botas duplas e crampons (um conjunto que acrescenta quase um quilo e meio em cada pé). E fora a mochila pesada, carregada com outros equipos. Equivocadamente, pensamos que seria parecido ao Aconcágua. Ácido engano: o Lênin Peak é muito mais difícil.

DURANTE O PERÍODO de aclimatação, nossos amigos desistiram: dos seis integrantes, restavam apenas eu e a Claudia. Eu me sentia bem no final desse ciclo. Cheguei a dormir no acampamento 3, que fica em um “subcume”, a 6.146 m, enquanto a Claudia permaneceu no acampamento 2 (5.500 m) porque precisava tratar uma tosse com antibióticos – o médico escutara ruídos em seu pulmão.

Durante quatro dias de descanso, optamos por ficar no acampamento 1, considerando os 14 km de distância entre ele e o campo base. Foram dias realmente desafiadores: senti dores musculares intensas por dois dias, mas parei de me preocupar depois que o desconforto passou. A Claudia também havia se livrado da tosse.

De tempos em tempos, chegavam notícias da galera que estava mais acima na montanha: tempo muito ruim e sem perspectivas de melhora. Algumas pessoas tiveram que ser resgatadas. Houve casos graves de congelamento, alguns inclusive em que foi necessário recorrer à amputação de membros. Sem contar da avalanche da semana anterior que varreu mais de 10 montanhistas. Tenso!

Mas era o tédio que sugava a nossa energia: basicamente, dormíamos, acordávamos e comíamos. Eu me entediei com o livro que levei (tome nota: este é um item fundamental, que deve ser pensado com muita atenção na hora de ir para a alta montanha). Já tinha tomado todo o chimarrão que eu levara, já tinha conversado com a Claudinha, com as marmotas (típicas naquela região)… Troquei ideia com montanhista polonês, húngaro, russo, francês, iraniano, coreano, quirguistanês, tadjiquistanês (isso porque nem o idioma inglês eu domino). Vi barraca voando, homem andando pelado na neve. Toquei tambor… Mas o tédio ainda assolava nossas almas. Estava desejando mais do que nunca chegar o dia em que finalmente subiríamos ao cume.

ERAM DUAS DA manhã quando demos os primeiros passos rumo ao acampamento 2. Tínhamos 5 km de glaciar para vencer durante o dia. Logo me vi ficando para trás. Notei que perdia o fôlego rápido e ficava cansada. Procurei me concentrar, nos passos e na respiração. A princípio, pensei que fosse em razão da preguiça e do tédio dos dias anteriores, mas as primeiras subidas – que eram leves – já mostravam que as minhas pernas não dariam conta do recado.

A dor muscular voltara e o esforço gerava muito cansaço. Não era a primeira vez que eu me via naquela situação: exigia do meu corpo algo para o qual ele não estava preparado. Mesmo me sentindo bem, minhas pernas fraquejavam e doíam. Na hora, era muito difícil reconhecer e aceitar o meu limite, que eu poderia ter estendido se tivesse trabalhado antes.

Sei que escalar uma montanha de mais de 7 mil metros exige muito treino, mas por sobrecarga de trabalho, tive pouco tempo para isso. E na montanha fui tomada por sentimento ruim, um misto de raiva e desapontamento comigo mesma. Antes de eu entrar nesta “escuridão”, sabendo das minhas condições de vida e de saúde, fui lidar com o meu ego. E ao me lembrar do privilégio que é estar num lugar desses, cercada de pessoas novas com suas histórias, aproveitei para pensar nas mudanças que seriam necessárias na minha vida.

Imediatamente refleti sobre o ensinamento que tive na última montanha que eu escalei: para conquistarmos os nossos maiores sonhos, precisamos de toda disciplina e dedicação possíveis. Mas é normal nos envolvermos com outros compromissos, deixando a falta de disciplina e a sobrecarga falarem mais alto. E é incrível como, sem perceber, acabamos deixando de fazer o que nos dá prazer e nos realiza, e imprimimos uma dinâmica que nos afasta do ‘presente’, do ‘agora’, para “na próxima segunda” ou “um dia talvez”.

Nossos sonhos não se compram nem se ganham, eles se conquistam. A presença deles em nossas vidas só é possível se, primeiramente, acreditarmos neles. É só acreditando que podemos vivê-los plenamente, pois só nós podemos realizá-los. Temos que ter muita disciplina para não abandoná-los quando a primeira dificuldade se apresenta. Dia a dia, o importante é darmos mais um passo em direção da sua realização. No caso de escalar montanhas, isso implica em descansar, treinar e dormir o suficiente; em estudar e se aprimorar; em treinar mais, alimentar-se melhor e mais saudável. Tudo para que, quando pisarmos em uma montanha, estarmos em boas condições de desfrutá-las. Novamente: a disciplina de treino, a concentração e a dedicação devem ser constantes para que possamos voar com os pés nos mais altos picos desse mundo.

Subir uma montanha vai muito além dos dias em que você está nela. É um retrato da vida, de onde você vem e para onde você vai. Por mais que alguns possam pensar o contrário, montanhismo nunca se resume em uma expedição comprada; montanhismo é, mais do que tudo, um estilo de vida que pode ser representado pela distância entre o que você quer e o que tem feito para conseguir conquistar.

Ainda bem que temos a vida inteira para andar por estas montanhas gigantes – e que elas não costumam sair do lugar!” – Paula Kapp (@paulakapp), Lênin Peak, acampamento 1, 11 de agosto de 2017

Nota:
A parceira de escalada de Paula Kapp, Claudia Bento, continuou escalando com os russos e chegou ao cume do Lênin Peak, tornando-se a primeira brasileira a conquistar uma das montanhas do projeto Leopardo das Neves (as cinco montanhas acima de 7 mil metros localizadas em território da antiga União Soviética).

COMPARTILHAR