O ouro branco do inverno

Um guia para você aproveitar a neve que cairá na América do Sul nos próximos meses

Vista da estação de esqui de Antillanca, no Chile (Fotos: Divulgação)

Por Bruno Romano e Mario Mele

FOI-SE O VERÃO, mas não a diversão: entre junho e outubro, é celebrada a temporada dos esportes de neve na América do Sul. E, se você não se importa em perder o bronzeado adquirido nos últimos meses, vai perceber que só tem a ganhar.

Não é por motivo fútil que o inverno é considerado a melhor época do ano por praticantes dos mais variados esportes outdoor, do surf à escalada. No caso de esquiadores e snowboarders, a neve é essencial. E aproveitar o inverno para praticar uma atividade na friaca significa curtir o dia inteiro – como raramente você consegue fazer no verão, quando as temperaturas às vezes impossibilitam aventuras ao meio-dia.

Segundo Alexandre Nascimento, meteorologista da Climatempo, a neve deve cair normalmente em 2017. “Não há previsão de El Niño e La Niña e, dessa forma, teremos uma temporada dentro dos padrões no Hemisfério Sul”, garante.

Além da neve garantida, você tem mais uma boa justificativa para finalmente aprender um esporte de neve: apesar de o Brasil ser um país tropical, estamos a poucas horas de avião de algumas das melhores pistas do mundo, no Chile e na Argentina. Nesses lugares, há picos perfeitos para quem quer dar as primeiras deslizadas – seja gastando mais para ter todas as mordomias de um resort, ou menos, de um jeito mais minimalista e em conta. Para te ajudar com isso, organizamos a seguir este pequeno guia de esportes de neve na América do Sul.

> ARGENTINA PARA TODOS: Do iniciante ao “faixa preta”:
Até os melhores e mais assíduos esquiadores concordam que não existe “a melhor estação de esqui da América do Sul”. Dependendo do nível, da experiência e do que você procura, uma pode agradar mais do que a outra. A Argentina é um bom recorte dessa diversidade: Las Leñas, por exemplo, oferece pistas inclinadíssimas e técnicas como a Martes (apesar de não ficar aberta durante toda a temporada) e vida noturna com direito a um cassino de alta montanha no Hotel Piscis (laslenas.com).

Em Villa la Angostura, na região da Patagônia (província de Neuquén), você pode aprender a esquiar em Cerro Bayo, uma estação com 16 pistas bem sinalizadas entre os bosques que circundam o lago Nahuel Huapi, em uma das regiões mais lindas do planeta (villalaangostura.com.ar).

Chapelco é uma estação de esqui próxima a San Martin de Los Andes (2h30 de avião de Buenos Aires). Esse vale glaciar tem uma área verde ao redor que costuma ficar branquinha no inverno. Chapelco é também reconhecida como um bom lugar para esquiar em família: há até uma escola especializada em ensinar crianças – mas que também atende adultos e adolescentes. (interpatagonia.com)

> DESBRAVE CADA CANTO DO CHILE:
O país mais esticado do mapa-múndi é também o destino certeiro para explorar a mais extensa cadeia de montanhas continental do planeta (e segunda mais alta do mundo): a Cordilheira dos Andes. Na época mais gelada do ano, o lugar se mantém no topo da lista de desejo dos que procuram as melhores aventuras de inverno. Por onde começar?

Um snowcat (veículo especial para neve) deixa esquiadores no alto da montanha no Chile (Foto: Divulgação)

Para curtir com conforto e estilo
O maior complexo de esportes de inverno da América do Sul não ganhou fama à toa. Além dos 7.000 hectares de “terreno esquiável”, o Valle Nevado tem uma moderna e bem equipada estrutura turística em um ambiente privilegiado: chega aos 3.670 metros de altitude, com média de sete metros de neve nos meses de temporada. São condições excelentes para se jogar em descidas de todos os níveis. Para os mais avançados, há opções de esqui fora de pista e heliski (em que o esquiador é transportado de helicóptero). Por estar perto de Santiago (cerca 1h30 de carro), é uma opção mais prática e certeira para quem vai com tempo contado, mas a comodidade também tem seu preço: o crowd. O local acolhe bem os iniciantes, oferecendo aulas coletivas ou particulares, e famílias, que podem curtir outros passeios pela área e desfrutar de restaurantes com vistas panorâmicas. (A partir de US$ 3.600, sete dias de atividades guiadas, incluindo hospedagem, refeição, ingresso para as pistas, traslados e visitas a outros resorts chilenos. | powderquest.com)

Para fugir do crowd e elevar os limites
Mais ao sul do Chile, a 120 km da cidade de Temuco e aos pés do vulcão Lonquimay, Corralco tem se mostrado a alternativa perfeita para quem busca condições de gala em um pico mais selvagem. O potencial da região para o esporte já despertou o interesse dos forasteiros, porém o acesso por estradas rústicas ainda restringe o acesso. Há poucos lifts, mas boas opções de hospedagem. Por ali, as possibilidades na neve se multiplicam, e a temporada de inverno, de fato, é a mais longa, chegando a cumprir, quando a nevascas são generosas, a promessa da típica de “neve que cai até setembro”. Há boas pistas para novatos e intermediários, ainda que a cereja do bolo seja explorar a neve virgem da reserva nacional de Malalcahuello-Nalcas, onde Corralco está inserida. (A partir de US$ 380 a diária em quarto duplo no Valle Corralco Hotel & Spa, com pensão completa, ticket diário de montanha, piscina climatizada e sauna. O hotel disponibiliza também traslados do aeroporto de Temuco por US$ 100 por pessoa | corralco.com/valle_corralco)

Para viver uma aventura dos sonhos
Se você ama esportes de inverno e se sente em casa na neve, talvez seja o caso de pensar em uma opção mais atirada. Papo sério: experimente fechar um pacote de uma semana para curtir os principais picos chilenos, com escapadas off-piste e saídas de heliski e catski. Inclua repousos em resorts de luxo com o top da culinária local e um fotógrafo exclusivo para acompanhar suas manobras. (US$ 4.900, roteiro de nove dias com tudo incluso em Portillo, Valle el Arpa, La Parva e Valle Nevado | upscapetravel.com)

> NEVE COM ALGO MAIS
No interior do Parque Nacional Puyehue (a 100 km da cidade de Osorno, no sul do Chile), o centro de esqui Antillanca (antillanca.cl) tem 512 hectares de área esquiável. O lugar também é perfeito para quem pretende se aventurar no esqui fora de pista sobre os vulcões e em seguida experimentar o máximo do relaxamento no luxuoso hotel Termas Puyehue. (US$ 1.800,00 por sete noites; interpoint.com.br). Ainda no Chile, Portillo é a estação de esqui mais antiga do país, que fica a pouco mais de duas horas de carro de Santiago. Se você for pró, tem a chance de dividir as pistas com atletas olímpicos noruegueses e norte-americanos, que costumam treinar por lá. Quem está querendo começar no esqui ou snowboard ou então evoluir nas manobras, há 35 instrutores de diversos países prontos para te ajudar (skiportillo.com).

Esquiador aproveitando Portillo (Foto: Divulgação/Jonathan Selkowitz)

Em Ushuaia, na Argentina, a capital da Província da Terra do Fogo, você pode alternar entre os 29 km de pistas de neve da estação Cerro Castor com lojas bacaninhas e livres de impostos, que vendem de equipamentos eletrônicos a perfumes (diárias a partir de US$ 195; interpoint.com.br). Detalhe: o Cerro Castor, além de ter uma das temporadas de neve mais longas do Hemisfério Sul, não passa muito dos mil metros de altitude. Resumindo, você não sofrerá com o ar rarefeito, comum à maiorias das estações de esqui do mundo.

Alegria branca: esquiadores e snowboarders aproveitando a montanha de Cerro Castor, na Argentina

> IMPROVÁVEL, MAS NÃO IMPOSSÍVEL
Os esportes de neve já sentem as consequências do aquecimento global. Na Bolívia, a neve que existia no alto do Chacaltaya e que era responsável pelo funcionamento da estação de esqui mais alta do mundo, a 5.100 metros de altitude, derreteu. Hoje o lugar está abandonado, e talvez depois de uma nevasca de inverno você consiga encontrar umas linhas por lá. Se você é esquiador ou snowboarder experiente também em exploração, pode se arriscar em algumas sessões nos glaciares da montanha Huayna Potosí (6.088 m) e do vulcão Parinacota (6.348 m) por conta própria. Mas sua aclimatação tem que ser boa e, além disso, não espere achar o powder da vida nesses lugares. Ainda pelo norte dos Andes, o Peru é mais convidativo ao esqui. Alguns glaciares da Cordilheira Blanca – que é um braço dos Andes –, como os Nevados Pastoruri, Alpamayo e Copa, são totalmente esquiáveis entre maio e setembro. O melhor é entrar em contato com os esquiadores e snowboarders locais da agência Enrique Expedition (enriqueexpeditiontours.com), especializados nesses esportes em alta montanha e que organizam tours econômicos de dois a cinco dias.

 

> CELEBRE A NEVE QUE CAI
Bariloche, na Argentina, ainda é uma boa opção para passar o inverno – e não é por que lá você se sente no Brasil. O vilarejo cravado aos pés de picos nevados tem um parque de diversões chamado Cerro Catedral, a grande estação de esqui, localizada a 20 km do centro. Se você deixar para ir em agosto, além de pegar as melhores condições de neve, também pode aproveitar a tradicional Fiesta de la Nieve, um evento anual que acontece desde 1970 e é uma verdadeira celebração à diversidade, com competições esportivas, feira gastronômica e um festival internacional de música. A próxima edição acontece entre os dias 10 e 14 de agosto (bariloche.gov.ar).

Vista do bondinho em Cerro Catedral, na Argentina


> Quebre o gelo

Três modalidades fora das pistas de esqui que você pode experimentar

– Fat bike: As bicicletas de pneus extralargos têm inspirado aventuras em lugares até então considerados “não pedaláveis”. Aproveite os meses de temperaturas amenas e frias para deslizar pelas dunas do deserto do Atacama, no Chile, partindo da cidade litorânea de Iquique rumo a regiões inóspitas do pedaço. Rolês a partir de US$ 100, com traslado e equipamentos inclusos; chileresponsibleadventure.com

– Escalada em gelo: Com cenários acessíveis e convidativos a novatos, a Bolívia costuma batizar muita gente em alta montanha. Para você aprender as lições de altitude, orientação e progressão no gelo e técnicas de resgate, o curso Gelo e Alta Montanha, ministrado pelos experientes montanhistas Maximo Kausch e Pedro Hauck, explora três montanhas locais clássicas: Chacaltaya (5.400 metros), Charkini (5.330 metros) e Huayna Potosi (6.088 metros). Em 2017, o curso acontece entre 3 e 15 de julho (US$ 1.950, sem aéreo | gentedemontanha.com)

Escalada em gelo na Bolívia

– Trekking de altitude: Desbrave uma das mecas do montanhismo sul-americano em um trekking pela Cordilheira Blanca, no Peru. Com pernoites em até 4.200 metros de altitude, este roteiro é um convite para experimentar a alta montanha, incluindo passagens pelos campos-bases de picos ícones locais, como Pisco e Alpamayo. O trajeto cruza áreas do Parque Nacional do Huascarán, casa da montanha homônima que é a mais alta do país (6.768 metros) e berço do montanhismo peruano (US$ 1.850 | grade6viagens.com).

>>> É INVERNO, MAS NÃO ENTRE NUMA FRIA
A combinação de altitude elevada, umidade baixa, ventos gelados e longa exposição ao sol pode ser bem perigosa, causando inclusive danos permanentes. A dermatologista norte-americana Karen Nern, especialista em cuidados com a pele em regiões montanhosas, tem boas dicas para você evitar os problemas mais comuns:

O problema: Exposição exagerada ao sol
A solução: Protetores solares com óxido de zinco na composição evitam queimaduras, pois refletem com mais eficiência os raios ultravioletas nocivos. “Os cremes comuns te protegem, mas esses produtos mais específicos atuam realmente como um espelho contra o sol”, explica Karen. Esqueça alternativas caseiras do tipo “pasta d’água” e prefira produtos certificados como o Brazinco, de FPS 47. R$ 70 | protetorbrazinco.com.br

O problema: Tempo seco
A solução: Tenha sempre um bom hidratante para aplicá-lo depois do banho, logo após a primeira secagem, com o corpo ainda levemente úmido. “As enzimas esfoliantes da nossa pele agem melhor nesta situação”, garante Karen. Para uma recuperação mais eficaz, ela recomenda loções com ceramida, um agente hidratante que age rapidamente na camada externa da pele. Você vai acabar gastando um pouco mais, mas é por um bom motivo. Experimente o Ada Tina Nutribalm 20 (R$ 130; kutiz.com.br).

O problema: Queimadura “pelo vento”
A solução: Estudos mostram que, mesmo em locais nublados, a radiação solar é a responsável pelas queimaduras ao ar livre em climas frios (e não os ventos em si, como se propaga por aí). Ainda assim, o ar gelado sempre pode piorar o quadro, seja por aliviar a sensação de exposição, pelas próprias rajadas que ressecam a pele ou por uma combinação de ambos. O antídoto? Aplique a mesma lógica da proteção contra o sol, procurando usar boas máscaras de esqui, bandanas e outros acessórios de proteção da facial. Não se esqueça de proteger também os olhos. Em altitudes mais elevadas, o “filtro” da atmosfera que protege contra a incidência de raios ultravioleta é menos efetivo. Por isso, use óculos escuros confiáveis como o Julbo Bivouak Cameleon (R$ 684 | lojaaltamontanha.com)

COMPARTILHAR