Nem Sinal

Um “acontecimento do acaso” obrigou nosso editor Mario Mele a sair de férias sem o seu smartphone – e ele descobriu que a vida offline é bem mais interessante do que mandar e receber emojis

 

 

FALTAVAM EXATAMENTE DEZ horas para eu embarcar quando decidi que proteger meu iPhone 5s com uma capa impermeável e à prova de quedas poderia ser uma boa ideia. Como jornalista de uma revista de vida outdoor, eu já havia recebido algumas dessas capas para testar, porém, como passei um tempo resistindo bravamente à febre dos smartphones, a maioria ainda estava com a embalagem lacrada. Três delas eram compatíveis com meu aparelho. Escolhi a mais compacta, pelo tamanho prático e por me transmitir confiança para, por exemplo, sacar o celular no meio de uma tempestade e ligar o Google Maps para verificar minha localização. Nos 15 dias seguintes, eu pedalaria por estradas bem vazias do sul do Brasil, e um aplicativo desses poderia ser bem útil.

No verso da caixa da capinha, estava escrito “Leve e resistente, com lente antirreflexo e acesso livre a todos os botões; use seu iPhone sem se preocupar com a umidade ou a sujeira”. Provavelmente eu não seria atraído pelo anúncio se precisasse comprar a tal capa, que é vendida na loja oficial da Apple por cerca de um terço do valor do meu telefone novo – por volta de R$ 500. Segui os procedimentos indicados para blindar o aparelho e, em seguida, o liguei. Minha alegria durou pouco. Talvez eu tenha apertado demais as bordas, o fato é que a metade direita da foto de tela havia se tornado uma mancha indefinida. A função touchscreen também parou de responder.

Encontrar uma assistência técnica aberta para consertá-lo àquela hora seria muita função para um sábado à tarde, considerei. E tinha certeza de que esse serviço sairia mais caro do que o valor do acessório em si. Além disso, precisava embalar minha bicicleta para poder despachá-la no avião. Felizmente a angústia durou pouco. Cinco minutos depois, tomei uma decisão que repercutiria durante todo o meu tempo fora: eu não levaria o celular para a viagem, muito menos outro aparelho para substituí-lo.

EU APROVEITAVA O primeiro dia de férias para acertar os últimos detalhes da viagem. Estava prestes a fazer um pedal com meu amigo Daniel, que conheço há 17 anos. Nossa amizade começou na faculdade e, mesmo que cada um tenha seguido um rumo diferente na profissão, nossos gostos em comum em matéria de música e esporte são elos da nossa interação. Sem contar que não há tempo ruim com ele – se você não se der bem com Daniel, então tem algo errado na sua personalidade. Meu amigo está longe de ser aquele cara que posta e checa as redes sociais a todo o momento. Mesmo assim, como qualquer pessoa, jamais deixaria o celular em casa para viajar.

Nossa ideia era percorrer entre 500 e 600 km pela área rural do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, cruzando as serras e os cânions que são a geografia em comum desses dois estados. Depois desceríamos até Florianópolis, para onde Bruno, grande amigo nosso, se mudara no ano anterior. Faríamos isso em janeiro, época de chuvas, potencializadas ainda mais na temporada de 2017.

Diariamente, eram divulgadas notícias sobre cidades gaúchas atingidas por fortes temporais, que causavam alagamentos, deslizamentos de terra e colocavam em risco a vida dos moradores. Talvez blindado pela tal capa superpoderosa, meu celular passasse intacto pelo mau tempo, mesmo na exposição máxima que é viajar de bicicleta. Mas esse hoje indispensável gadget também não era nenhuma garantia de sobrevivência. Além disso, Daniel levaria seu smartphone, o que significa que eu não passaria as duas semanas seguintes completamente inacessível. Lembrei de duas reportagens que eu havia lido, “os melhores destinos sem wi-fi” e o “offline é o novo luxo”. Em uma delas, o autor chamava a atenção para a “síndrome da vibração fantasma”, que é quando você tem um telefone no bolso e jura que recebeu uma mensagem de texto. Claro que você vai checar imediatamente, só que não há nada lá. Quem nunca se pegou numa dessa? Outra revelava que quase 50% dos norte-americanos sentem-se obrigados a abrir suas caixas de email durante as férias – e realmente fazem isso. Comecei a achar que um “detox digital” poderia chegar em boa hora para mim.

Conselhos como “strave o seu rolê” ou “Mantenha o Stories do Instagram atualizado para eu saber onde vocês estão”, que ouvi bastante antes de pegar a estrada, já não tinham como ser seguidos. Além de ser um item a menos na bagagem – e poucos gramas já fazem diferença quando seu veículo é de tração humana –, eu não precisaria me preocupar com as chatas atualizações digitais, que acabam tomando mais tempo que o necessário. De certa forma, teria mais tempo para contemplar o meu redor, uma prática simples glorificada pelos sábios, mas que tem se tornado cada vez mais rara em razão de nossa dependência tecnológica. No máximo, eu tiraria algumas fotos com uma câmera portátil. Anotei em um papel o número de telefone de pessoas que na hora achei importante e fui encaixotar a bike.

JÁ ESTOU HÁ CINCO dias sem checar o Facebook, atravessando o gaúcho rio Tainhas pelo Passo do S, revezando a bicicleta nos ombros. São 280 metros entre uma margem e outra, em um trecho que, graças a uma laje natural de pedra (o “passo”), se mantém raso durante toda a extensão. A água chega, no máximo, na altura dos joelhos. Lá pelo século 18, durante a colonização do Brasil, os tropeiros nem desmontavam de seus cavalos para cruzar o Tainhas. Porém é quase impossível passar pedalando com os alforjes pendurados na bike. Os buracos camuflados entre as pedras submersas te desequilibram e são perfeitos para entalar ou quebrar uma roda. E portanto seriam necessárias três viagens ida e volta até levarmos a bicicleta e toda a bagagem até a outra margem do rio. É uma atividade trabalhosa e um pouco cansativa para quem está pedalando a quatro horas seguidas – mas longe de ser uma roubada, mesmo para quem está desacostumado a viajar de bicicleta.

Pedras no caminho sempre vão existir. Aproveitei para apoiar a minha bike sobre uma rocha sobressalente no meio do leito do rio e descansar por um minuto. “Quantos cidadãos em nossa civilização moderna se mantêm fieis ao argumento de que ‘férias servem para descansar’?”, me questionei. Hoje as soluções do dia-a-dia costumam estar a um bolso de distância. Nunca estamos sozinhos. Em qualquer cidade grande do mundo, é provável que um UberBike resolvesse nosso problema por menos de R$ 20. Mas você já parou para pensar o quanto pode sair caro se algo fugir do seu controle e, sem um aplicativo à disposição, você precisar recorrer às próprias aptidões para contornar uma adversidade do clima, por exemplo?

Uma expedição é perfeita para quebrar essa passividade nos imposta pelo mundo digital. No Brasil, ao cruzar áreas rurais em baixa velocidade, você tem a chance de sentir um pouco como a humanidade vivia há 50 anos, quando os meios eletrônicos de comunicação se resumiam ao rádio e à TV. Depois de partirmos do distrito de Lajeado Grande (RS) e vencermos 15 km de uma estrada vicinal deserta e travada, cujos cascalhos nos impediam de passar dos 20 km/h mesmo na descida, desembocamos no asfalto da rodovia estadual RS-110, na altura do pequeno povoado de Faxinal dos Pelúcios. Passavam das três da tarde, e o sol continuava forte. Na única casa de portas abertas, Dona Maria se prontificou a nos servir o almoço, adiantando que tinha “apenas” arroz, feijão e batata-frita. Uma hora depois, enquanto repetíamos o prato pela terceira vez, ela nos contava sobre os casos típicos da roça. Certa vez, foi obrigada a perseguir e matar, a vassouradas, uma cobra venenosa que havia entrado em sua casa e se alojado no guarda-roupa. Só assim poderia dormir tranquilamente à noite. “Que lição de ‘anti-predismo’!”, soltou Daniel, admirado com a coragem daquela senhora. Como moradores da maior metrópole brasileira, achamos coerente usar a palavra “prédio” – e criar neologismos a partir dela – para definir situações que remetem ao “conforto urbano”, como um camping com sinal de wifi e espaço coberto para montar a barraca.

A frase virou um jargão e o cúmulo do “predismo”, o estilo de vida fácil do qual tentávamos nos livrar diariamente. Histórias como as de dona Maria, com as quais deparávamos diariamente, serviam para lembrarmos do quanto nós, seres humanos “modernos e civilizados”, estamos dependentes de nossos celulares e aplicativos.

Pouco depois, montado a cavalo, chegou Zé Gaúcho, marido de Dona Ana. Ambos estão na casa dos 60, e a primeira coisa que ele fez foi ligar o rádio na estação local para ouvir notícias que eram quase fofocas de bairro. Se você mora em um vilarejo rural afastado, é mais provável que receba um alerta sobre a próxima consulta médica pelo rádio do que pelo WhatsApp.

Mesmo que estudos indiquem que as redes sociais têm sido boas armas contra a solidão para pessoas da terceira idade, a geração de dona Ana e Zé Gaúcho foi a última que conseguiu escapar em grande número da febre dos smartphones. Há pessoas na idade deles que ainda não entendem por que passamos tanto tempo de cabeça baixa, hipnotizados por uma tela. E é provável que, se nossos tataravós, ressuscitassem hoje, tivessem a impressão de que estamos fracos e debilitados: somos incapazes de cortar lenha, de fazer fogueira, de nos orientar pelas estrelas…

Atualmente, é normal especialistas do comportamento humano afirmarem que a terceira Revolução Industrial – na qual a tecnologia passou a articular boa parte de nossas atividades – tem sido a grande vilã de nosso distanciamento da natureza, nossa verdadeira essência. Mas ninguém parece estar dando ouvidos a isso. Se por um lado computadores de todos os tamanhos, conexões à internet em todos os lugares e redes sociais para todos os gostos tornaram nossa vida mais dinâmica, por outro estamos dando pouca importância à atualização de nossas capacidades físicas e mentais, o que vem nos transformando em seres humanos atrofiados. Segundo a Organização Mundial de Saúde, até 2020 a depressão será uma das condições de saúde mais comuns da humanidade.

“Até a semana passada, eu saía da minha sala com ar-condicionado só na hora do almoço, para ir caminhando de sapatênis pela calçada até o restaurante”, diz Daniel. Ele costumava dizer depois que passávamos dos 50 km em dias puxados de pedal. Apesar do tom de brincadeira – ele nem usa sapatênis –, a sentença servia mais para justificar sua exaustão do que como desculpa. Em alguns momentos, ficava nítido o sofrimento de alguém que trocou as facilidades urbanas pela rotina da estrada. Suas pernas estavam assadas e doloridas praticamente desde o primeiro dia de pedal.

ACABAMOS DE PEDALAR sobre os campos de altitude de São José dos Ausentes (RS) por uma estrada de terra que se alonga por 40 km. Só vimos rastro humano em um pacato vilarejo, na metade do caminho, além de um carro com dois casais universitários de Pelotas que matavam aula. A recompensa é a vista do alto do cânion Monte Negro, que revela um imenso vale verde. É sobre esse cânion que também repousa o pico do Monte Negro (1.410 metros), o ponto culminante do Rio Grande do Sul.

É um lugar tão alto que o celular pega bem, Daniel constatou. Tiramos umas fotos com o iPhone, mas não pensamos em compartilhamento nem em check-in virtual. Da estrada principal, começamos a seguir as placas “Toca da Onça – Hostel e Bar”, talhadas em madeira e pintadas em vermelho e branco. Elas nos levaram a uma descida com lama e pedra solta, onde as barras de sinal do celular de Daniel começaram a se apagar, uma a uma, até desaparecerem. Dali a 3 km, chegávamos ao nosso destino.

Bébo nos recebeu sentado na grama, abraçado a um de seus quatro vira-latas. Antes de nos mostrar os quartos do hostel, fez questão de nos levar ao rio que corta seu terreno, porque precisava alimentar as trutas. “Coloquei algumas aqui há uns meses, e elas se reproduziram e se espalharam por esses poços”, disse apontando rio acima. “Só não vão embora porque a água aqui é gelada o ano inteiro, e elas adoram”, explicou. Apesar de serem espécies introduzidas pelo homem, as trutas parecem estar completamente adaptadas ao novo ambiente. Mais ou menos como aconteceu com Bébo.

Natural de Meleiro, no sul de Santa Catarina, ele morou por um tempo em Florianópolis. Há dois anos, cansado da vida agitada da cidade, arrendou esse terreno nos pés do cânion Monte Negro e largou tudo (até a namorada) para ir atrás do sonho de morar mais perto da natureza. Queria ser mais autossuficiente, viver sem tanta pressa. Para ter uma renda, montou o hostel, um tipo de hospedagem até então inexistente por lá. Fez tudo sozinho: o restaurante, a área de camping, os quartos e a própria casa. Ainda hoje é ele que cuida de tudo, do jantar à limpeza dos banheiros. “Neste ano, vou ampliar a horta”, prometeu. A inauguração aconteceu no último inverno, alta temporada nas serras gaúcha e catarinense; e o lugar bombou. “É difícil eu ficar sozinho aqui”, garante. “Mesmo no verão, o fluxo de hóspedes não é intenso, mas se mantém constante.”

O computador da sala serve apenas para tocar música. Pergunto como são feitas as reservas e, pela janela, ele aponta o topo de um morro cuja base está cravada no limite do seu quintal. “Pega sinal de celular lá em cima.” No fim de tarde, demoramos menos de 15 minutos para chegar ao cume. Bébo e Daniel levaram seus telefones, mas ninguém se lembrou do isqueiro. Para mandar sinal de fumaça, preferi digitar os números que havia anotado no papel do que entrar no Facebook. A maior rede social do mundo, que já passa de 1 bilhão de usuários, com suas inúmeras notificações, tomaria muito tempo de alguém que não acessa a conta há quase duas semanas. O espetáculo ao vivo estava interessante: o céu ficou limpo depois da chuva que caiu durante o dia, o sol estava agradável e os pássaros mostravam sua gratidão cantando.

Lá embaixo, sem sinal de internet, Bébo se conecta consigo mesmo por meio das esculturas que faz empilhando pedras do rio. Às vezes, demora horas para achar o ponto de equilíbrio entre uma e outra. E precisou se acostumar com a água fria para evoluir nessa arte, que é sinônimo de paciência. Sem receber alertas sonoros durante boa parte do dia, ele afirma que consegue se concentrar plenamente no que faz. “Vira uma meditação”, explica. Seu próximo desafio é amontoar pedras maiores em uma das quedas do rio e criar, segundo ele, uma onda perfeita para surfar na época das cheias.

EM FLORIANÓPOLIS, ME hospedei na casa do Bruno, que deixou o celular em cima da mesa da sala e passou a senha. “Pode usar quando quiser”, autorizou. Naquela semana, entrei no Facebook duas vezes. Nem por isso deixei de ler bastante, chegando à metade de um livro sobre os efeitos da música em nosso cérebro. Segundo o autor, Daniel Levitin, que além de músico é psicólogo e neurocientista, a música se mostrou mais importante para a existência da nossa espécie do que a linguagem falada – ou digitada. Ela tem o poder de nos acalmar, de nos inspirar, além de deixar nosso cérebro ligeiro, mais alerta. (como se fosse a outra ponta do iceberg de nossa agitação mental, causada pelos aplicativos de mensagens instantâneas, por exemplo).

Também não faltou tempo para que, com Daniel, Bruno e sua mulher, Paula, eu explorasse alguns lugares afastados na capital catarinense. Fizemos a trilha da Lagoinha do Leste, escalamos o Morro do Lampião e chegamos a praias secretas da lagoa do Peri. Como disse certa vez o conservacionista John Muir, “manter-se perto do coração da natureza é necessário para lavar o espírito”. Na companhia de seus melhores amigos, parece ainda que você o eleva. Mais uma vez recorri às minhas anotações para contatar uma amiga que mora em Florianópolis há sete anos, que já mudou de endereço algumas vezes por lá, mas que eu ainda não havia visitado. Novos rolês ao ar livre, que eu, ainda offline, curti sem a pretensão de compartilhar com alguém que não estivesse ao meu lado. Simples assim. Para existir, as pessoas sentem a necessidade de serem vistas. É uma distração antiga. No fim do século 19, a histórica revista Scribner já afirmava que os norte-americanos estavam mais interessados em assuntos que rodeiam a vida do que na própria vida. É como acontece hoje no mundo inteiro, especialmente o virtual. Pode ver: não faltam questionamentos na sua timeline, a inquietar a mente e encher a alma de ruídos.

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  • Tadeu Góes

    Delícia de reportagem!