MTB puro-sangue

Por Bruno Romano

JON WILSON NÃO perde a chance de devorar uma trilha de mountain bike desafiadora. Como ciclista amador norte-americano – uma identificação natural de muitos leitores da Go Outside – Jon prefere chamar seu fascínio por bicicletas e estradas de terra de “o caminho espiritual”.

Ao vê-lo em ação, essa escolha de palavras faz todo o sentido. E, realmente, nada o impede de seguir pedalando livre por aí – nem mesmo a perda de sua perna esquerda, que foi amputada durante o tratamento de um tipo raro de câncer, do qual ele só teve a certeza de que sobreviveria recentemente.

A história é tema do documentário curta-metragem Ascend, um dos destaques do VII Festival de Filmes Outdoor Rocky Spirit, que rola nos dias 12 e 13 de agosto no Parque Villa-Lobos, em São Paulo (totalmente gratuito).

Entre uma brecha e outra nos pedais, conversamos com Jon sobre Ascend, que foi filmado pelo diretor especializado em produções outdoor Simon Perkins — aliás, amigo de infância de Jon.

De segunda a sexta, Jon leciona história para adolescentes, na mesma escola em que ele estudou quando criança ao lado de Simon. Atualmente, ele vive com sua mulher e os dois filhos, e se envolve em várias atividades de sua comunidade local.

Mas é em cima da bike, explorando percursos que ultrapassam as fronteiras do seu quintal, que Jon acende pra valer sua busca incessante pela tal “conexão espiritual”. Algo que ele só encontra, garante, no meio de uma trilha.

GO OUTSIDE: Você acredita no “poder de cura” da natureza e das atividades outdoor?
Jon Wilson:
O “outside” sempre me ajuda a curar o meu corpo e a minha mente. Combato o estresse com os elementos da natureza, é algo básico e essencial em minha vida. Há um termo que alguns monges budistas usam e  que gosto bastante que é “natural mind” (mente natural). Sou uma pessoa que acredita profundamente nisso. Acredito que é possível desnublar tudo por meio da natureza. Andar de mountain bike acaba sendo a minha forma de expressar tudo isso.

Como sua relação com Simon deu origem ao filme Ascend?
Simon e eu crescemos juntos. Íamos à mesma escola desde o jardim de infância. Por causa de sua profissão, hoje é um cara bastante ocupado, mas há muito tempo ele já tinha essa ideia de fazer um filme sobre o porquê de eu amar tanto o MTB. Ele também é um amigo que sempre me estendeu a mão e esteve ao meu lado nos momentos difíceis. Por isso, sempre que conversávamos no meio de uma trilha para captar uma cena do filme, eu me sentia totalmente confortável e confiante para falar sobre a minha vida.

Você realmente sente uma conexão espiritual quando pedala?
Claro, a bike é o meu caminho espiritual. Eu vou frequentemente à igreja, mas o ciclismo é provavelmente minha verdadeira religião. Uma forma diferente e poderosa de meditação, em que consigo me conectar naturalmente comigo mesmo e com todo o meu entorno.

Fora das trilhas, como é o seu dia-a-dia?
Sou professor do colegial, leciono história e economia. Também trabalho arduamente com a comunidade onde cresci e ainda vivo. Tenho esposa e dois filhos, sou bastante envolvido nas atividades de casa, nos serviços comunitários e nas organizações locais, em Manchester, Vermont (EUA).

Na última edição do Mountainfilm Festival em Telluride, (o festival parceiro do Rocky Spirit) você deve ter visto o filme Charged, que conta a história de Eduardo Garcia, tema da capa da Go Outside de julho
Não apenas vi o filme, como tive a chance de conviver um pouco com Eduardo recentemente. E foi muito especial. Nós dois somos vítimas de circunstâncias, só que eu tive tempo para digerir e processar a minha amputação. Tudo o que aconteceu com ele foi repentino. Isso é uma diferença fundamental e interfere bastante no “depois”. Tiro o meu chapéu para o que ele fez e ainda tem feito.

Qual retorno você tem recebido após as exibições de Ascend?
Já fui convidado para estar em alguns lugares, além de um feedback muito positivo. Simon é bastante talentoso e foi muito feliz no filme. Eu me sinto honrado por ele ter gastado seu tempo e sua energia nesta história. O mais incrível nisto tudo é que, logo após o filme ser exibido, algumas pessoas chegam para mim e falam: “Obrigado”. Ou então: “Eu tenho passado por coisas difíceis e precisava ver isso”. É claro que andar de MTB por aí é o que me motiva a seguir adiante, mas se eu puder servir de ajuda para pessoas que estão enfrentando grandes desafios, isso é muito mais significativo para mim.

Consegue colocar em palavras a sua paixão por MTB? Como isso te ajuda a manter uma atitude saudável e positiva perante a vida?
Inicialmente, eu era mais da cena de “estrada”. Para falar a verdade, eu ainda gosto de ciclismo de estrada, mas há alguns anos fui atingido por um carro e aquilo me assustou bastante. Pedalar em estradas invoca um estado meditativo bastante particular. Só que os veículos acabam atrapalhando um pouco isso. No MTB, em compensação, sinto uma conexão profunda com a trilha… Estar no mato sozinho (ou com meu cachorro e meus amigos) nos permite desacelerar o ritmo frenético da vida. E isso é essencial.

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