Martino Poccianti: veloz, destemido & sem freio

O ciclista italiano se torna expoente das provas de critério como a Rad Race e o Red Hook, em que dominam bikes fixas

Martino durante o Red Hook Crit em Barcelona, em setembro - Foto: Divulgação

Por Mario Mele*

NOS ÚLTIMOS ANOS, as bikes fixas ganharam visibilidade inédita na história dessa comunidade de adoradores de bicicletas de uma marcha só, pinhão fixo e (frequentemente) sem freio. Cidades como Nova York, Barcelona e Berlim viraram palco de alucinantes provas de “fixeiros”, e até marcas grandes como Specialized e Merida aderiram à onda como patrocinadoras de provas e equipes.

Nas competições, conhecidas como critérios, emoção não é problema: os circuitos, com pouco mais de 1 km de extensão, são montados em ruas sinuosas e estreitas para um pelotão de bikes sem freio girando em alta velocidade. Dá para entender por que atualmente o público lota o meio-fio e grita, entusiasmado, por cerca de uma hora e meia motivando os atletas – parece um sprint do Tour de France que não tem fim.

“Só quando você entra em uma curva a milhão e vê um adversário caído à sua frente é que realmente tem a noção do perigo”, diz o italiano Martino Poccianti, 29, que compete em provas de bike fixa há somente um ano, mas que já está entre os melhores do mundo. “Nessas horas, você é obrigado a manter a frieza para avaliar as rotas de fuga o mais rápido possível e, assim, evitar um acidente”, completa.

Atualmente correndo pela equipe italiana Cykeln Divisione Corse, Martino é o atual campeão do Criterium Italia (um circuito de cinco corridas anuais que aconteceram neste ano em seu país) e é top 5 do ranking geral do Red Hook Crit, a competição pioneira das fixas e a mais respeitada, que começou em 2008 em Nova York e hoje é tida como o “circuito mundial”, com etapas em Barcelona, Londres e Milão, além de Nova York. Em julho, Martino também venceu a Rad Race, em Berlim, outra disputada prova internacional de fixas.

Diferentemente das etapas do Red Hook, no entanto, a Rad Race foi realizada em um trajeto de 42 km por ruas e rodovias da capital da Alemanha, com largada e chegada em pontos distintos, mais parecida com uma prova de ciclismo de estrada. “O final foi um pega entre ‘sprinteiros natos’”, lembra Martino, que acelerou o passo no último quilômetro para deixar para trás o italiano Davide Viganò e o holandês David Van Eerd, seus principais adversários também no Red Hook Crit.

A vitória na Rad Race foi o maior feito de Martino no esporte até hoje. Ele, que diz ter uma “visceral” relação com as bikes, começou a competir aos 6 anos de idade no bicicross e, posteriormente, disputou provas de ciclismo de estrada e mountain bike. Mas nunca teve tanto reconhecimento quanto nas fixas. “Depois da vitória na Alemanha, passei a ser observado. Ganhei seguidores no Instagram e recebi propostas de patrocínios”, conta. A seguir, ele fala mais sobre o universo competitivo e divertido das fixas.

Adrenalina para todos

Acho que muito do sucesso das competições de fixa vem do fato de serem eventos abertos a todos os tipos de ciclistas. Há sempre amadores inscritos, que não têm apoio de nenhuma equipe. Qualquer um pode participar, só precisa ter uma pitada de imprudência e querer se divertir. São esses ingredientes que tornam as competições de fixas tão interessantes.

Bike no sangue

O ciclismo é literalmente a força motriz da minha família: temos uma loja de bicicletas, a Cicli Poccianti, que também é uma equipe da qual faço parte em provas de mountain bike. Sempre fui motivado pelo ciclismo. Apenas quando fiz 18 anos é que passei a me dedicar ao motocross, mas logo voltei aos pedais: primeiro ao mountain bike, depois ao ciclismo de estrada. Em busca de novos arrepios e adrenalina, recentemente entrei para o mundo das fixas. Competi minha primeira prova em Forlì, em uma etapa válida pelo “critério italiano”, e, na semana seguinte, já estava disputando o Red Hook de Londres.

Pelo mundo

Para mim, um dos aspectos mais fascinantes das fixas é poder viajar e conhecer cidades bonitas e interessantes. Estou em um momento em que viajo o mundo para competir em um alto nível e ainda consigo aproveitar o tempo livre para passear. Graças ao Red Hook, já estive em Barcelona, Londres, Nova York… A bike fixa é uma modalidade em crescimento, com imenso potencial. Há provas começando a rolar em novos países, os quais espero conhecer em breve.

Pilotagem

As provas de bicicleta fixa lembram um pouco as de Moto GP: você tem que explorar as tangentes e ocupar a pista da melhor maneira possível para não perder velocidade. É algo fundamental para você poupar energia e conseguir acelerar novamente. É preciso também saber controlar a bike sobre as imperfeições da pista. Em matéria de estratégia, o melhor é se manter constantemente entre os primeiros, porque o circuito é muito estreito e dificilmente termina com um sprint do pelotão. A Rad Race foi uma corrida peculiar: depois de um ótimo trabalho da minha equipe para tentar controlar a prova, chegamos ao último quilômetro em um grupo compacto. Foi quando eu me adiantei do pelotão e consegui ficar na dianteira. Foi um sprint que lembrou mais uma competição de estrada.

Cultura fixa

Nas competições de fixa, estilo e visibilidade são características marcantes de cada ciclista. Esse é, sem dúvida, um mundo onde a palavra “moda” desempenha papel importante em todo o contexto, incluindo festas e músicas. Por ter começado como eventos clandestinos, a correlação entre as culturas “fixa” e “hipster” é forte e consolidada. Hoje essas bicicletas expandiram seus horizontes (até mesmo territoriais). Mas uma característica ainda se mantém intacta: a diversão.

*Reportagem publicada na edição nº 147 da revista Go Outside, dezembro de 2017.