Lynn Hill: a escaladora mais casca-grossa que já surgiu

A norte-americana é considerada o símbolo máximo da eficiência feminina na arte de subir rochas

Por Fernanda Beck*

Para comemorar o 40º aniversário da Outside norte-americana, apresentaremos ao longo do ano personalidades que mudaram o mundo outdoor. Neste mês, uma das escaladoras mais casca-grossa que já surgiram – entre homens e mulheres

Se você perguntar a qualquer escalador qual é a atleta mais emblemática de seu esporte, a resposta certamente será: “Lynn Hill, claro”. Esta norte-americana de 56 anos vive há décadas como símbolo máximo da eficiência feminina na arte de subir rochas e traz no currículo uma variedade de conquistas que marcaram a história da escalada. Seu maior feito até hoje continua alimentando a aura mítica de Lynn: em 1993, ela se tornou a primeira pessoa – entre homens e mulheres – a escalar em livre (sem o auxílio de cordas ou equipamentos em nenhum momento, exceto para proteção em caso de queda) o paredão The Nose, no El Capitan, no Parque Nacional do Yosemite, na Califórnia. No ano seguinte, concluiu a via novamente, em menos de um dia – fato até hoje repetido apenas por Tommy Caldwell. Antes disso, ela já era uma pioneira consagrada e desbravava territórios antes explorados apenas por homens: em 1979, foi a primeira mulher a escalar uma via 5.12d (9a brasileiro); e em 1991, a primeira a escalar 5.14 (10c brasileiro).

Mas não foi só através de grandes façanhas e títulos importantes que Lynn se tornou uma figura simbólica para escaladores do mundo todo e ídolo máximo para as meninas que, aos poucos, entraram no esporte. Desde a primeira vez em que escalou, no começo da adolescência, Lynn se identificou com o “espírito livre” que domina a comunidade escaladora. Ainda jovem, passou a frequentar o Camp 4, reduto dos escaladores da contracultura do Yosemite, tanto quanto podia – a loira passava verões inteiros acampada no lugar com o único intuito de escalar. Em sua autobiografia, Climbing Free: My Life in the Vertical World (Escalando em livre: Minha vida no mundo vertical), Lynn lembra de ter feito US$ 75 (que ganhara trabalhando em uma lanchonete) durarem uma temporada inteira e de como seus amigos sobreviviam se alimentando de restos de comidas abandonados por turistas que visitavam o parque. Fiel à natureza hippie, Lynn foi amplamente influenciada pela técnica Leave no Trace, que prima pela conservação da natureza, e se especializou em escalada tradicional, que usa apenas proteções móveis e não “machuca” a pedra.

Seu crescimento na escalada “roots” do vale do Yosemite levou-a a desenvolver técnicas avançadas e a aperfeiçoar sua escalada em livre, o que a ajudou quando começou a escalar competitivamente. Sua formação sólida e os anos de dedicação ao esporte deram resultado: por quase uma década, Lynn foi figura garantida em pódios pelos EUA e pelo mundo – é dona de cinco títulos no Rock Masters, uma das mais famosas competições de escalada do planeta, sediada em Arco, na Itália.

Em 1992, Lynn se cansou do mundo competitivo e voltou à paixão original, a escalada tradicional na rocha. “Eu não gostava de estar focada apenas em treinos e paredes indoor”, conta em sua autobiografia. “Não comecei escalando em vias artificiais, e isso não era algo que eu quisesse fazer o tempo todo.” No ano seguinte, Lynn realizou o feito pelo qual é mais conhecida até hoje: a primeira ascensão em livre do The Nose. Alcançar um objetivo tão cobiçado antes do que qualquer homem fosse capaz de fazê-lo deu a ela mais potência para continuar confirmando o lugar das mulheres em um esporte tradicionalmente dominado por homens.

Atualmente, Lynn divide seu tempo entre escalar, correr, esquiar, viajar o mundo e criar o filho, Owen. Em relação a ser uma mulher no esporte, Lynn há muito tempo sacou o óbvio: “Não é o tamanho ou a força de uma pessoa que importa, mas sim sua habilidade de ser criativa na rocha”.

*Reportagem publicada na edição nº 145, de outubro de 2017.