O Jalapão guarda belezas surpreendentes e ainda é praticamente intocado
Por Mario Mele

Listamos a seguir sete motivos para você conhecer um dos lugares mais bonitos do Brasil – e um dos últimos ainda praticamente intocados do país.

1. Verdadeira road trip 4×4

No Jalapão, as distâncias são grandes: de Palmas, capital do Tocantins, até Ponte Alta, a porta de entrada do Jalapão, são 190 quilômetros. A partir dali o asfalto acaba para dar lugar à natureza bruta. Entre Ponte Alta e Mateiros, a “capital do Jalapão”, são outros 151 quilômetros cruzando inúmeras sessões de pesados areais e costelas de vaca. Para completar, os atrativos são afastados das cidades, o que só faz aumentar as viagens por estradões de terra. Entre Ponte Alta e a Cachoeira da Fumaça, por exemplo, são cerca de 70 quilômetros. Mas o esforço é válido. Por ali rola um delicioso banho de rio numa das corredeiras do rio Soninho. No caminho, aproveite também para ver de perto o Morro da Cruz, um imenso monólito que se ergue do nada no meio do cerrado, e explorar a Pedra Furada, outra formação de arenito isolada e esculpida com maestria pelo vento durante milhares de anos.

Saindo de Mateiros, os rolês até lugares imperdíveis, como o cânion Sussuapara e as cachoeiras do Lajeado e da Velha, farão você rodar mais de 100 quilômetros a bordo de seu 4×4. Mas com um pouco de experiência na pilotagem off-road é possível manter uma boa média de velocidade, em torno de 60 km/h. Aproveite para curtir a paisagem do cerrado, que é desértica e selvagem, mas não enjoa. Seja cauteloso e lembre-se que, na maioria dos trechos, celular não pega: um carro quebrado por ali pode significar algumas horas ilhado no deserto.

2. Trekkings honestos

Cachoeira da Velha

Apesar de um veículo 4×4 ser fundamental em uma expedição ao Jalapão, as horas gastas fora do carro não se resumem ao turismo contemplativo – a menos que você faça questão disso. Em Mateiros, reserve um dia para acordar às quatro horas da manhã e siga para a serra do Espírito Santo, a cerca de 20 minutos de carro. Se a Lua não estiver cheia, é indispensável uma lanterna. Depois de uma dura subida de cerca de uma hora por uma trilha técnica sobre pedras, chega-se ao topo da serra. A dimensão do enorme vale com paisagem infinita, barrada apenas pelo sol nascendo, só pode ser vista depois que saem os primeiros fachos de luz. O terreno no topo do Espírito Santo é plano como uma mesa, e praticantes de ioga podem desfrutar de momentos inesquecíveis naquele horário do dia.

Respire e siga por uma trilha demarcada de três quilômetros (só de ida) até o lado oposto da serra. O visual que se tem dali é do cerrado selvagem, mais verde quanto mais próximo ao rio, e das falésias de arenito que se encontram em acelerado processo de erosão.

Entre a cachoeira da Velha e a prainha do Rio Novo há outro belo trekking. A trilha termina com um mergulho em um dos últimos rios potáveis do planeta, o Novo. Pelo caminho, aproveite para desvendar e aprender um pouco sobre a flora do Centro-Oeste e Norte do Brasil. Há árvores típicas e endêmicas dessa região, como a Tiborna, a Sucupira-preta e a Barbatimão. Plaquinhas indicativas com o nome das espécies o ajudarão na missão.

3. Praias e dunas

Uma singularidade do Jalapão são as paisagens tipicamente litorâneas, em pleno interior do Brasil. Com dunas, areia fina e água transparente, essas as fluviais da região ganham profundidade gradativamente, conforme se adentra o rio. Além da água doce, elas se diferenciam das praias do litoral pelas pegadas de ema, suçuarana e outros bichos do cerrado que costumam acordar mais cedo do que você para tomar um gole de água pura.

O ecossistema jalapense é rico, porém vulnerável. As dunas, localizadas a cerca de 30 quilômetros de Mateiros, são uma prova dessa delicadeza. Os montes de areia chegam aos 30 metros de altura e estão concentrados somente nos pés da serra do Espírito Santo. São resultado de uma rara combinação de fatores, que inclui desde a formação geológica até a direção dos ventos, que colaboraram para que as dunas se formassem somente naquela área. Com o turismo crescente, todo cuidado é pouco. Por isso, nada de buggies, picapes ou pranchas de sandboard por ali. Uma caminhada na areia enquanto o sol se põe já é recompensa suficiente.

4. Riqueza local

A tradição de um povo pode ser medida pela riqueza da cultura local. No Jalapão, tirando a fauna e a flora nativas, o centenário povoado de Mumbuca é a vida mais antiga que se tem por ali. Localizado a 35 quilômetros da cidade de Mateiros, Mumbuca se originou de uma comunidade quilombola, e na última geração encontrou no artesanato sua forma mais notável de reconhecimento. Utilizando o capim dourado (espécie natural e endêmica do Jalapão), o povoado de 200 habitantes descobriu seu principal meio de sustento através da confecção de acessórios à base do capim dourado. Hoje há regulamentações para que a tradição e o negócio sejam mantidos: o capim tem data certa para ser colhido (evitando que entre em processo de extinção) e não pode sair da região em estado bruto. “Ele é o ouro que Deus plantou”, diz Noemi Ribeiro, a “Doutora”, uma das lideranças atuais da comunidade Mumbuca. Atualmente seu povo faz dessa descoberta uma bênção, incorporando o trabalho manual a mais um apelo turístico na região: enquanto Doutora apresenta o enorme pasto natural onde o capim dourado brota todo ano, o músico local Maurício Ribeiro dedilha sua viola feita de madeira de buriti, a famosa palmeira do cerrado, e canta modas que descrevem a simplicidade e a riqueza da comunidade Mumbuca.

5. Fervedouros

O Jalapão é costurado por rios subterrâneos. Em alguns pontos, a água ressurge com pressão, mas geralmente uma pedra imensa impede que ela jorre para fora como um hidrante estourado. Com isso, forma-se uma piscina natural arredondada, cercada por vegetação nativa e por bananeiras, com fundo de areia fina. Esse cenário paradisíaco e exclusivo do Jalapão é conhecido como fervedouro. Há vários desses oásis espalhados pela região, mas os imperdíveis são os do Mumbuca (de menor área, mas de maior pressão), o do Formiga (de água cor azul turquesa) e o do Alecrim (o maior, com cerca de dez metros de diâmetro). É possível nadar e boiar nos fervedouros, mas o difícil é sair: poucos ambientes naturais do planeta são tão agradáveis e convidativos quanto este.

6. Rastros históricos

O Jalapão é uma extensa área praticamente intocada do cerrado, e que até hoje leva a fama de ser uma das regiões turísticas de menor densidade demográfica do planeta. Mas o caminho até lá reserva boas paradas históricas. A primeira que merece atenção é Porto Nacional, a 60 quilômetros da capital. Fundada no século 18, a cidade tem total ligação com o rio Tocantins, sua principal via de acesso naquela época. Os portugueses enfrentavam os índios Xerentes, revoltados com a invasão, e os animais selvagens para extrair minérios daquela região. O material era então escoado pelo rio Tocantins até Belém do Pará para, em seguida, ser encaminhado e vendido na Europa. Hoje, além das ruas estreitas e casas conservadas do centro histórico, a catedral Nossa Senhora das Mercês, construída pelos frades dominicanos franceses em 1884 às margens do rio Tocantins, é o principal ponto de visitação de Porto Nacional.

Quem não tiver aflição de animais empalhados pode conhecer de perto a fauna do cerrado no Museu de Zoologia José Hidasi, que dispõe de um considerável acervo de aves, mamíferos e répteis. Ainda rumo ao Jalapão, a história do Brasil continua a ser contada em Monte do Carmo, cidade a 90 quilômetros de Palmas. Foi ali que, na primeira metade do século 18, os portugueses se instalaram em busca das minas de ouro. Claro que a tradição católica veio junto, e até hoje a igreja Nossa Senhora do Carmo promove eventos religiosos, como Festa do Divino Espírito Santo, que atrai turistas de todo o país.

No interior do Jalapão, a visita mais excêntrica é à fazenda que pertencia ao lendário traficante colombiano Pablo Escobar, cuja sede encontra-se abandonada, mas ainda aberta ao público. Uma casa térrea, com uma considerável área de lazer com piscina, sauna e churrasqueira era o que o mafioso tinha à disposição no interior do Tocantins durante a década de 1980. Como ele chegava àquela região, que na época era inacessível mesmo aos veículos 4×4? Basta dar alguns passos para ver uma quilométrica pista de pouso e decolagem, que apesar de desativada ainda se mantém em ótimo estado de conservação.

7. O melhor plano B

Quem for ao Jalapão sem os dias contados pode dar uma geral no que de melhor o estado do Tocantins tem a oferecer. A 200 quilômetros da capital do estado, Natividade é uma cidade que cresceu ao redor de uma comunidade quilombola que ainda preserva alguns rastros da colonização. Há imponentes ruínas arquitetadas e construídas por escravos, como a da igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, além de atrativos naturais como a cachoeira do Paraíso e seu belo mirante. Em Natividade, há também personagens que já se tornaram um atrativo à parte. Por exemplo, Romana Pereira da Silva, uma senhora de 71 anos que costuma abrir as portas de sua casa para ajudar os mais necessitados. Desde 1989, ela “decora” seu quintal com esculturas de pedra e cimento de sua autoria. Segundo Romana, cada obra foi feita sobre uma linha da Terra, com o objetivo de manter o planeta equilibrado em seu raio de curvatura.

A apenas 35 quilômetros de Palmas, o distrito de Taquaruçu fica numa região serrana com mais de 80 cachoeiras catalogadas. Dessas, a da Roncadeira, com 70 metros de queda e um considerável poço para banho, é a mais bonita. Próximo dali, na serra do Lajeado, uma tirolesa de 1.300 metros de extensão e mais de meio quilômetro de altura fará você perder o preconceito dessa brincadeira.

Quem estiver com veículo próprio também deve saber que o Jalapão é um lugar estratégico para atacar outros cartões-postais do Brasil, em especial três grandes chapadas brasileiras – dos Veadeiros (GO), Diamantina (BA) e das Mesas (MA).

Vai Nessa:

40º No Cerrado (Ecoturismo) 
Palmas
Brito’s Hotel
(63) 3215 4257

Fox Aluguel de 4x4
(63) 8401 60 99 / (63) 9966 4575

Restaurante Cabana do Lago (pratos típicos como o tucunaré tocantinense)

Ponte Alta

Pousada Águas do Jalapão

Cabana Capim Dourado (artesanato): (63) 3378 1608 / (63) 8466 9703

Mateiros

Pousada Santa Helena

Camping do Vicente: (63) 3534 1195 / (63) 9975 1918

Natividade

Tia Naninha (doces típicos): (63) 3372 1470

 Ourivesaria Colonial (joias artesanais)

Taquaruçu

Voo do Pontal (tirolesa e pousada): (63) 9222 7512 / (63) 8411 9119

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de fevereiro de 2013)