Guarda protegida

A Guarda do Embaú ganha a primeira reserva ecológica dedicada ao surf do Brasil

LINDEZA: Vista aérea da Pedra do Urubu, na Guarda do Embaú (SC) (Foto: Willia Zimmermann)

Por Kevin Damasio para a Revista Hardcore

Quando recebeu a notícia, Marcos Aurélio Gungel teve de guardar segredo. A confirmação veio em 27 de outubro do ano passado, mas lhe pediram para preservá-la até a divulgação oficial, que ocorreu quase um mês mais tarde. A galera local aguardava, ansiosa, pela resposta. Kito, como é conhecido, limitava-se a dizer: “Temos 99% de chance”. Até que a Save the Waves Coalition divulgou em seu site: a Guarda do Embaú será, a partir de 2017, a nona reserva de surf do planeta – a primeira do tipo no Brasil.

A Guarda é um pedaço de litoral na cidade de Palhoça, situado 46 km ao sul de Floripa. Seus 400 habitantes vivem, em grande parte, do surf, da pesca e do artesanato. Porém, o desenvolvimento a qualquer custo é um fantasma que assombra o litoral brasileiro, e não seria diferente neste vilarejo catarinense, de belezas naturais, ondas tubulares e tradições locais como a lenda do tesouro perdido. “Isso acarreta prejuízos futuros que poderão ser catastróficos se não planejados para garantir a qualidade de vida e a sustentabilidade, seja econômica, social e ambiental”, observa Kito, diretor de comunicação da Associação de Surfe e Preservação da Guarda do Embaú (ASPG).

Diante desses problemas, Carlos Knoll, ex-surfista profissional de Floripa e frequentador assíduo da Guarda, mostrou, em 2011, o programa da World Surfing Reserves a membros da ASPG, que de pronto levaram a ideia à sério. “Focamos em várias zonas de perigo, como a falta de saneamento básico, pois o Rio da Madre é de classe especial”; continua Kito, “em sensibilizar as autoridades sobre a necessidade de maior fiscalização nas plantações de arroz, que ficam no município vizinho de Paulo Lopes; e, por último, na expansão imobiliária e, consequentemente, no Plano Diretor, que precisa ter um olhar especial para a vocação turística natural do lugar”.

De 2009 para 2010, a World Surfing Reserve nasceu como primeiro programa especificamente focado na preservação das ondas do planeta, feito pela Save the Waves. Além da Guarda, outros oito picos receberam o título de reserva, o que significa um incansável esforço pela conservação ambiental, cultural e social: Santa Cruz e Malibu, Califórnia; Todos Santos, México; Huanchaco, Peru; Punta de Lobos, Chile; Ericeira, Portugal; Gold Coast e Manly Beach, Austrália.

Em 2013, a ASPG candidatou-se pela primeira vez ao título de WSR, sem sucesso. Em 2014, o mesmo aconteceu. Em 2015, chamaram a atenção e ficaram entre os três picos finalistas, mas perderam para a Gold Coast. Em 2016, finalmente a Guarda de Ricardo dos Santos foi agraciada com título de Reserva Mundial do Surf. No início, por sinal, Ricardinho era diretor da ASPG e um grande fomentador e articulador do projeto no exterior – um fator que influenciou na decisão do Save the Waves.

“Nossa primeira candidatura, em 2013, tinha menos conteúdo, pois não tínhamos muita noção do que efetivamente era necessário para alavancar a certificação”, observa Kito. Mas eles buscaram mais informações. Conversaram com Nik Strong–Cvetich, diretor executivo da Save the Waves, e com o professor australiano Andrew Short, cientista marinho que trabalha na UFSC e um dos idealizadores da reserva nacional e mundial da Gold Coast. E, enfim, com Nick Mucha, diretor do programa da WSR. Criaram um Comitê Especial da ASPG para a WSR e consultaram pessoas de diversos campos do conhecimento para integrar o Comitê Gestor Local.

“Além disso”, prossegue Kito, “aprofundamos os temas da nossa aplicação nos quatro critérios de avaliação: onda, meio ambiente, cultura e história e apoio da comunidade, bem como aumentamos substancialmente as moções de apoio dos órgãos públicos das três esferas, de entidades não governamentais, dos meios de comunicação, das associações locais e de personalidades do esporte. Ao todo, foram 23 cartas de apoio”.

Nick Mucha classifica como “espetacular” a proposta da Guarda do Embaú. “Eles fizeram um grande trabalho em demonstrar a história e a cultura da Guarda”, observa Nick. “É impressionante como a Guarda está atrelada ao meio ambiente. O Rio da Madre corta a comunidade e termina em uma foz que é muito importante para a qualidade e consistência da onda. E fica no entorno de um parque estadual. Nos pareceu uma escolha natural proteger efetivamente a Guarda e seus recursos de surf, em meio a toda a dinâmica costeira.”

O título de Reserva Mundial de Surf é mais uma camada de proteção à região – no caso, principalmente em relação à onda. Parte da Guarda compreende o Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, o maior do estado catarinense. Lá, também fica a Área de Proteção Ambiental (APA) do Entorno Costeiro e, na orla, a APA da Baleia Franca.

“Nosso objetivo é que a reserva possa ser reconhecida dentro da APA da Baleia Franca, o que legitimaria o processo dentro das leis ambientais do Brasil”, explica Kito. “Além disso, é preciso organizar e construir a capacidade das comunidades locais, para continuarem a proteger as suas tradições e ondas. Isso deve servir como uma força cultural e ambiental significativa, para proteger locais de surf e o litoral ao redor do mundo.

 

* Matéria originalmente publicada na HARDCORE #325

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