Flying Frenchies: uma trupe que desafia o mundo outdoor

Arte e aventura se complementam nos feitos (e na rápida fama) dos Flying Frenchies

Por Bruno Romano*

IMAGINE UM SUJEITO vestido de palhaço aos pés de uma imensa via de escalada. De repente, o tal cara decide subir o paredão em estilo free solo (sem proteção). Além do rosto pintado e dos suspensórios, ele leva apenas o equipamento de base jump nas costas. Lá do alto, abre um enorme sorriso e se atira do penhasco, pouco antes de ativar o paraquedas. Enquanto isso, seus amigos se divertem em um highline armado por ali perto. Um deles está preso a uma fita perpendicular à linha principal, balançando no vazio, como em um pêndulo gigante. Nos extremos da fita, cada um toca seu instrumento favorito, incluindo uma bateria completa. Sobrevoando a cena, pilotos de parapente entram para a festa, engrossando o concerto outdoor com mais música.

O que soa como um divertido sonho ou até mesmo a descrição de uma obra surrealista não é fantasia. Cada uma dessas situações, muitas delas em conjunto, já foi realizada recentemente pelo coletivo Flying Frenchies, uma trupe de aventureiros franceses que tem buscado desconstruir a forma como as pessoas enxergam os esportes ao ar livre. Formado por uma mistura casual de engenheiros, guias de montanha, artistas de circo, músicos e empresários da cena do slackline, eles estão acostumados a se expor a desafios de altíssimo nível técnico – de voos de wingsuit a esqui extremo. Mas é graças à veia artística, com boas pitadas de criatividade e uma combinação improvável de modalidades, que os “Franceses Voadores” têm levado seu picadeiro itinerante para as montanhas.

O coletivo Flying Frenchies se diverte no projeto Surfing The Line, realizado no “berço” do grupo, as montanhas francesas de Vercors – Redbull Content Pool

A história de Julien Millot, um dos fundadores do grupo, ajuda a entender melhor a trajetória (e a fama atual) do coletivo, que vem atraindo a atenção do público por meio de filmes independentes. Em 2009, um ano embrionário para a equipe – antes chamada Skyliners, até se assumir como Flying Frenchies, em 2014 –, Julien abandonou o trabalho como engenheiro para viver em uma van, viajando atrás de vias de escalada. Como ele mesmo descreve, optou por deixar o fluxo natural da vida guiar seus dias por um tempo. “Eu estava criticando a sociedade em geral com aquela escolha? Sim, um pouco. Era simplesmente uma resistência contra uma rotina regrada e linear? Acredito que fosse mais que isso”, reflete Julien.

Foi nessa caminhada que ele conheceu, em um mesmo dia, o slackline e seu novo grande parceiro de aventuras, Tancrède Melet, outro engenheiro francês desiludido com a profissão. Era o início de tudo. Em I Believe I Can Fly (Eu Acredito Que Posso Voar, em tradução livre), primeiro filme de sucesso da trupe, lançado em 2011, Tancrède contracena com Julien durante acrobacias no topo de um penhasco, em um local que logo se torna plataforma de saltos de base jump em meio a uma fita exposta de highline. No vídeo, Tancrède fala sobre seu estilo de vida. “Um homem livre é verdadeiro consigo mesmo. É alguém que segue seus sonhos e os transforma em realidade”, conclui, em um dos poucos momentos em que a dupla não está tirando sarro ou provocando um ao outro.

Nativo de Hérault, uma província no sul da França, Tancrède também havia abandonado a carreira na engenharia e se tornado um expert em escalada, highline e voo livre. Ao lado de Julien, guiou os primeiros e audaciosos passos do bando, contagiando mais gente pelo caminho e somando meia dúzia de integrantes assíduos nas apresentações atuais. Em janeiro de 2016, no entanto, aos 32 anos, Tancrède não resistiu a uma queda acidental durante uma performance coletiva usando um balão de ar quente. A morte súbita foi um choque para todos. Mesmo assim, não derrubou o ímpeto para novas aventuras.

Ainda que essa combinação atual de esportes radicais com mídias sociais possa desandar para um rumo perigoso, a busca insana por likes não parece ser o que alimenta o espírito outdoor dos franceses – nem antes, nem depois da perda de Tancrède. Antoine Moineville, por exemplo, é um dos artistas-aventureiros que se juntou aos Frenchies há sete anos. Com um currículo extenso como guia de montanha na Europa, seu principal ofício atual, ele chegou a faturar o Piolet d’Or, em 2016, reconhecido prêmio no universo da escalada, pela ascensão ao Riso Patron, na Patagônia. “Gostamos de viver (e de sobreviver) um pouco mais perto de nossos sonhos”, resume Antoine.

Ao conversar com os Frenchies, nos poucos momentos em que eles estão em terra firme, fica claro que objetivos populares em esportes outdoor como “mais alto”, “mais longe” ou “mais difícil” não são exatamente o que guiam os planos. “Tente alcançar seu sonho, mas não o leve tão a sério”, diz Julien, definindo a “vibe” dos projetos do grupo.

“A arte é a melhor ferramenta tanto para descontruir algo como para criar situações irreais. E os esportes outdoor trazem infinitas possibilidades – a arte é uma delas. Filmar seria um terceiro elemento. Nós apenas juntamos tudo isso com as coisas que amamos fazer”, conta Julien, analisando os processos que geraram filmes como Le Petit Bus Rouge (2013), Metronomic (2015) e Retour Aux Fjords (2014), unindo performances dos participantes fixos com demais artistas e expedicionários agregados à bagunça.

Anicet Leone, em destaque, e os demais Franceses Voadores celebram o que chamam de “a beleza da inutilidade” – FOTO: Redbull Content Pool

Além de Julien e Antoine, todos esses conceitos têm feito sentido para outros três Flying Frenchies mais frequentes: Sébastien Brugalla, guia de montanha e de esqui alpino, Freddy Montigny, músico, e Anicet Leone, artista circense, todos franceses. Seguindo uma ideia de Anicet, aliás, o quinteto protagonizou uns meses atrás uma outra travessura em conjunto: o vídeo Surfing The Line, uma insana mistura de highline com surf e base jump.

Superando a perda de Trancrède, o coletivo retornou às montanhas de Vercors, na França, espécie de berço das expedições, para montar uma linha a 600 metros de altura. Do início da fita, eles partiam pendurados rumo ao outro lado, em estilo tirolesa, ou se equilibrando de pé em cima da prancha – um corajoso surf pelos ares. Equipamentos individuais de base jump estavam prontos para serem acionados.

“Sabe quando você está conversando sobre algo e logo ri da ideia, por ser engraçada demais para acontecer na vida real?”, fala Anicet. “A gente parte daí e pensa em uma maneira de colocar essas ideias em prática”, completa, em entrevista recente à Red Bull, uma das apoiadoras do último projeto. “Nossa intenção é inverter os valores dessa nossa sociedade, movida pelo lucro, e trocá-los pela beleza da inutilidade, nos dando um sentido à vida para além do esperado”, explica Anicet.

Desde a execução de Surfing The Line, os Flying Frenchies têm treinado e praticado vários outros “números” malucos por aí. Sem mídia no entorno, quase guardando os feitos em segredo, trarão o resultado de tudo o que rolou nos últimos meses em um novo filme, com lançamento confirmado para o próximo mês de outubro. A ideia não é soltar produções às pressas e a qualquer custo, segundo Julien. “Sempre há espaço para fazer mais, não é mesmo, porém para quê? É importante tomarmos cuidado para não cair nesse lado robótico dos esportes outdoor”, sustenta.

Quando as mensagens que os filmes pretendem passar para o público entram no assunto, Julien defende que a única “mensagem genuína” no meio das cenas, que, segundo ele, já deixam bem claro como os Frenchies se “comportam como cidadãos neste mundo”, seria algo em tom de paz e harmonia, nas leituras mais amplas e possíveis dos termos. “O resto é inútil: não seja enganado, nem mesmo por nós”, provoca Julien.

 Respeitável público!

A trajetória dos Flying Frenchies em sete atos  

*2009* Um encontro casual em uma via de escalada coloca os franceses Julien Millot e Tancrède Melet lado a lado.

*2010* Mais dois aventureiros-artistas embarcam nas empreitadas: Antoine Moineville e Sébastien Brugalla, guias de montanha. Completam uma arriscada expedição de escalada e highline no Mont Blanc invernal.

*2011* O filme independente I Believe I Can Fly explode nas redes, unindo base jump e highline.

*2012* O coletivo se completa com a chegada do artista circense Anicet Leone e do músico Freddy Montigny. As expedições autônomas culminam com o audacioso filme Le Petit Bus Rouge. 

*2014* Viram os Flying Frenchies e fazem um pioneiro highline entre dois balões.

*2016* Tancrède Melet sofre uma queda fatal durante uma performance. Os Flying Frenchies reforçam a continuidade do coletivo com o projeto Surfing The Line.

 *2017* Todas as suas criativas escapadas, desde Surfing The Line, são captadas para um novo filme, a ser lançado em outubro.

*Reportagem publicada na edição nº 144 de setembro de 2017