Entenda (de verdade) o que você come

"Sustentabilidade" começa pelo prato

Cena do filme "Carnage" - Divulgação

Por Mario Mele*

Se em 2017 os veganos entraram na lista dos seus “amigos mais chatos” do Facebook – ganhando até dos fãs de Game of Thrones –, pelo menos foi por uma boa causa: além da promessa de benefícios à saúde, uma dieta estritamente à base de vegetais tem um impacto climático 74% menor do que um regime alimentar onívoro. Esse número nós apresentamos em abril de 2016 na reportagem “Dez Ideias Corajosas”, na qual mostramos também que até atletas de elite, como a escaladora norte-americana Steph Davis, passaram a ter melhor desempenho depois de abolir alimentos de origem animal de suas vidas.

Nunca houve como agora tantas evidências de que o verdadeiro “ser sustentável” começa se preocupando com o próprio prato: em 2014, uma pesquisa publicada pela revista Nature revelou que nosso cardápio carnívoro poderá nos levar a um aumento de 80% nas emissões globais de gases de efeito estufa até 2050; e, em 2017, uma enxurrada de documentários chocou o mainstream ao mostrar, segundo a visão de especialistas das áreas do meio ambiente e saúde, que podemos estar realmente à beira do abismo.

What the Health é um dos que ilustram essa história sem cerimônia. O mais recente documentário de Kip Andersen (de Cowspiracy) alega que, além dos fatores ambientais, nosso sistema digestivo virou um negócio para os produtores de carnes e laticínios. Essas indústrias, que detêm nada menos do que 80% das terras cultiváveis do planeta para a criação de animais, só não são lucrativas ao planeta e a nós mesmos. Pelo contrário, “comer carne, peixe, frango e laticínios está nos causando câncer, diabetes e poluindo nosso organismo de toxinas” é dito em What the Health. A indústria farmacêutica, claro, agradece nossa intoxicação e doenças.

Recentemente, a lista de fi lmes que bateram de frente com a indústria da carne é extensa: Land of Hope and Glory, Eating Animals, Eating You Alive, Carnage: Swallowing the Past, The Game Changers… Em 2018, Eating Our Way to Extinction ainda quer mostrar, de uma vez por todas, que comer carne, além de ser uma prática cruel e custar uma fortuna inestimável, está nos levando à própria extinção a passos largos. “A mudança imediata para uma dieta à base de plantas é vital para salvar o mundo dos piores impactos das mudanças climáticas”, alertam.

A primeira coisa que podemos fazer, obviamente, é parar de comer carne. Mas nós amamos bife e churrasco, e essa mudança não pode ser “do almoço para o jantar”. Mas é viável se for colocada em prática aos poucos. Só em 2017, por exemplo, 57 bilhões de litros d’água e 2.000 toneladas de carne foram poupados no Brasil graças à Segunda Sem Carne, um programa criado em 2003, no Reino Unido, e lançado por aqui em 2009 pela Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB). “As pessoas têm que entender que cada refeição importa”, diz Mônica Buava, gerente de campanhas da SVB. “Se você não conseguiu abdicar da carne na segunda-feira, tente na terça, na quinta ou no domingo”, sugere. “Não importa o dia.”

A Segunda Sem Carne tem sido uma importante via de acesso ao “flexitarianismo”, termo usado para identifi car a dieta que privilegia os vegetais na maior parte do tempo, mas que ocasionalmente abre concessões à carne. “Atualmente presente em mais de cem municípios brasileiros, a Segunda Sem Carne age diretamente em cerca de 3 milhões de pessoas”, garante Mônica.

O avanço é visível: uma pesquisa feita pelo Datafolha em 2017 mostrou que 63% dos brasileiros pretendem reduzir o consumo de carne em breve. O mercado tem se ajustado à mudança: em menos de três anos de existência, o Selo Vegano, criado pela SVB, já está impresso em mais de 200 produtos de 25 marcas diferentes, em sua grande maioria de alimentos. Em uma época em que perseguimos conceitos sustentáveis, aderir às dietas flexitariana, vegetariana ou vegana é, sem dúvida, subir um degrau na consciência.

Mas outros cuidados e reparos em nossos hábitos diários ligados à alimentação continuam sendo importantes, como comprar, sempre que possível, alimentos orgânicos – mais nutritivos, saborosos e livres de agrotóxicos –, além de evitar o desperdício.

E por que também não tirar definitivamente o plástico de cima da mesa? Além das sacolas de supermercado, copos, canudos e outros utensílios descartáveis fazem volume nas 8 milhões de toneladas de plástico que chegam todo ano aos oceanos (de acordo com a ONG Plastic Oceans), causando um prejuízo incalculável à vida marinha. O assunto pode parecer batido, mas, enquanto cada um de nós não fizer a própria parte, teremos que conviver, quase diariamente, com notícias assustadoras sobre desastres naturais, que parecem cada vez mais frequentes e irreversíveis. Se já sabemos por onde começar, que tal então colocar em prática? Dica: ao pedir aquele suco na padaria, diga não ao canudinho de plástico – beber direto do copo (de vidro) não interfere em nada no sabor e faz uma diferença enorme para o planeta.

*Parte da reportagem #5 Atitudes Positivas Para 2018, publicada an edição nº 148 da Go Outside, jan/fev de 2018.