Dicas de localização com experts em montanhismo, trekking e trail run

Especialistas dão dicas valiosas para evitar situações de perigo

Por Thaís Valverde

O recente caso do desaparecimento do montanhista francês Gilbert Eric Welterlin, 54, no Pico dos Marins, na Serra da Mantiqueira, relembrou alguns cuidados e equipamentos que se deve ter ao praticar atividades outdoor. Gilbert foi visto com vida pela última vez no dia 15 de abril, quando saiu para praticar trail run. Seu corpo foi encontrado no dia 5 de maio. O francês levou equipamentos mínimos de sobrevivência: uma jaqueta impermeável, um cobertor de emergência e uma “head-lamp” (dispositivo de luz na cabeça). Para evitar situações de perigo, como a de se perder no meio do mata, praticantes experientes de trail run, trekking e montanhismo dão suas dicas de localização e equipamentos.

Sidney Togumi – treinador de trail run

Correr trilhas é uma atividade que exige alguns cuidados relacionados à segurança. Sidney recomenda sempre ter em sua mochila uma lanterna com bateria reserva, apito, manta de sobrevivência, um jaqueta impermeável e celular. “Eu utilizo uma headlamp da Petzl modelo NAO com 570 lumens. E uso um jaqueta anorak da marca Ultimate Direction”, disse o treinador.

Sidney, que já fez provas clássicas como a Ultra Trail du Mont Blanc, a Petit Trote à Leon e a La Mision Race 160km, já passou por uma situação de perigo quando fez a travessia da Serra Fina. Acompanhado de sua namorada, eles ficaram perdidos por mais de sete horas em um dia de muita chuva. “Sem os equipamentos que transportávamos teríamos passado um frio muito maior e poderíamos ter uma hipotermia e as conseqüências seriam bem piores.”

Quanto a fazer o treinamento de trail run, Sidney orienta a levar além de todo o equipamento e vestuário dito anteriormente. Além disso, um aparelho rastreador tipo Spot para que em caso de emergência você possa comunicar alguém e até mesmo as autoridades a sua necessidade de ajuda. É importante também conhecer o local da prática e avisar alguém sobre o caminho que pretende fazer com todas as informações possíveis. “Procure treinar acompanhado, pois em caso de um imprevisto você terá uma opção a mais de socorro”, orienta.

Pedro Hauck – montanhista

Por necessidade ao esporte, o montanhista e geógrafo Pedro Hauck aprendeu a manusear muito bem o GPS e todos os programas relativos a ele. “Desenvolvi uma boa habilidade de interpretação do relevo que não se aprende na academia, mas com muito trabalho de campo. Nisso as montanhas são o ambiente mais desafiador”. Atualmente Pedro usa o Garmin 62S. “Mas o GPS que mais gostei e que mais usei foi um antigo Garmin 60Csx”, afirma.

Mesmo assim, o montanhista diz que já se perdeu centenas de vezes. Mas a sua dica primordial é voltar e procurar o local onde você se perdeu. “Se você estava andando numa trilha e de repente está no meio do mato, volte por onde veio até achar a trilha e lá procurar onde errou”, explica. Pedro ainda diz que não se deve tentar varar mato achando que encontrará a trilha mais pra frente. “Quase sempre você se dará mal.”

No seu recente livro “Arrisque-se: 20 anos de montanhismo de Pedro Hauck”, relembra algumas das suas principais aventuras. A pior situação em que se meteu foi em 2015, quando conquistou o “Vulcão Parofes” nos Andes. “Foi um ataque ao cume muito longo, de mais de 14 km só de ida”, disse. Por conta do frio, Pedro relembra que ele e o também montanhista Jovani Blume fizeram a volta por um outro caminho e se perderam do alpinista e guia Maximo Kausch que estava há frente. “Ficamos sem pilhas para lanternas, sem bateria do rádio e também do GPS, e ainda por cima, a noite era de lua nova e não dava para ver nada.”

Há mais de 24 horas sem comer, exaustos, e enfrentando uma temperatura de menos 20ºC, os dois montanhistas conseguiram voltar ao ponto inicial, onde encontraram Maximo. “Ele havia apertado o passo para chegar ao acampamento com a luz do sol. Ele não somente conseguiu, como esquentou um chá e voltou para nos resgatar.”

Jorge Soto – especialista em trekking

Depois de tantos anos no mato, Jorge Soto diz que aprendeu a se deslocar e ter a liberdade de ir e vir em qualquer ambiente outdoor, sem precisar de guias ou monitores. “Aprendi principalmente em ter confiança em mim mesmo, de saber usar o bom senso e a intuição ao meu favor”, explica. Para isso ele aprendeu a navegar artesanalmente, à moda antiga. Basta uma simplória bússola, uma carta topográfica/mapa (ou até uma imagem aérea do google) e algumas noções básicas de navegação. E claro, esse processo não foi imediato. “Demandou tempo, experiência acumulada e muita tentativa e erro, da mesma forma que quando se aprende a dirigir um carro.”

Quando ocorrer uma situação em que você se perca na natureza, Jorge orienta a manter a calma, não se desesperar, pois isso dificulta em encontrar soluções. Segundo é avaliar a situação, ou seja, tentar saber quando foi a última referência correta de caminho e quão longe ela está. E terceiro é agir, ou seja, retroceder até essa última referência ou, se ela tiver muito longe ou for muito tarde, tentar passar a noite e na manhã seguinte ir até ela. “Não recomendo andar a noite, pois a possibilidade de se perder mais ainda é maior”. Claro que para isso você precisa estar preparado com equipamentos simples pra passar uma noite (desconfortável) no mato.

No ano passado, quando fez a Travessia Oeste da Mata dos Godoy, próximo a Londrina, no Paraná, Jorge sentiu falta da bússola. “Entrei no mato com a namorada e esqueci a bússola em casa, andamos sem trilha e perdi as referências. Estávamos sem equipamento de pernoite e se isso fosse necessário dormiríamos desconfortáveis”, conta. Mas o seu “bom senso” disse “vai por ai!”, e o casal retornou a uma trilha que os levou onde queriam. “Mas reconheço que se tivesse levado a bússola sairíamos desse perrengue muito mais rápido.”

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Equipamentos de localização

SPOT Gen3

O SPOT Gen 3 é um localizador pessoal com tecnologia 100% via satélite que mantém o usuário conectado mesmo nos lugares mais remotos do mundo. O aparelho envia mensagens, compartilha sua localização e permite pedir ajuda sempre que necessário. Preço: R$ R$619,00 com planos a partir de R$ 7,90 por mês.

 

Garmin GPSMAP® 64s

O GPS clássico para quem procura precisão e o GPS para te acompanhar por muitos anos. O modelo GPSMAP® 64s é Robusto, à prova d´água, e conta com dois sistemas de navegação por satélite, GPS e Glonass, o que garante que ele receberá sinal até mesmo debaixo de mata fechada ou na base de um cânion. Possui memória interna de 4 GB para trajetos e waypoints, slot de cartão micro SD para armazenamento de mapas adicionais e um sistema duplo de bateria otimizado para utilização externa. Também possui a função Smart Notifications, em que exibe notificações de e-mail, texto e alertas a partir do seu iPhone® 4s ou posterior (somente 64s). Para completar, o GPSMAP® 64s já inclui assinatura de 1 ano para imagens de satélite BirdsEye, basta fazer o download usando BaseCamp™. Preço: R$ 1.999,00.

Bússola NTK Tour

Nunca subestime a ajuda de uma bússola. Quando a bateria dos outros equipamentos digitais falharem, ter e saber usar uma bússola pode te salvar. Modelo NKT Tour da Nautika é bom tanto para quem se aventura em alto mar como na mata. Ela possui visada dobrável para fácil transporte e proteção, podendo prender a bússola na mochila ou colete, garantindo assim que ela fique sempre segura em seu corpo. Preço: R$29,90.

 

Suunto Spartan Ultra

O Suunto Spartan Ultra é um relógio com GPS esportivo avançado, com visor touchsreen (híbrido) colorido e resistência à água em até 100 metros. Possui também bússola e altitude barométrica com FusedAlti ™, que lhe assegura meios de se manter no percurso. O relógio possui também modos de 80 esportes pré-definidos e ricas métricas especificas de cada um. Os relógios Spartan Ultra são feitos à mão na Finlândia e montado para aguentar quaisquer condições. Preço: R$2.999,00.

 

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