Dançando nas nuvens

Em busca de espaço nos céus brasileiros, o speedfly aparece no horizonte como uma das mais versáteis formas de voo livre

O paulistano Rick Neves manda um giro em torno da própria asa (ou barrel roll) (Foto: Rick Neves)

Por Bruno Romano

A MAIS JOVEM E INDEPENDENTE modalidade de voo livre é um belo convite para uma exploração ágil dos nossos céus e montanhas. Mesmo assim, apenas um punhado de pessoas encara voos frequentes de speedfly no país. A modalidade ainda é bastante recente no Brasil, é verdade: chegou há menos de uma década e sequer possui homologação ou regras definidas – um trabalho que começa a ser fortalecido em 2017 pelos apaixonados pela brincadeira, incluindo novos cursos especializados. Entretanto, mesmo que as “asinhas” já tenham ganhado algum espaço, o speedfly ainda encontra muitos narizes torcidos em rampas de voo por aí. Para desmistificar de vez o assunto, falamos com um expert na arte de desenhar linhas com as pequenas asas flutuantes. O paulistano Rick Neves, 40, explica a seguir as manhas, os perigos e as possibilidades que o speedfly proporciona.

Rick se prepara para decolar do Pico do Gavião (MG) (Foto: Fabiana Marson)

1. ONDE VOCÊ VAI COM ESSE “PARAQUEDAS DE CRIANÇA”?
O fato de o speedfly ser menor não significa exatamente que seu tamanho pequeno vai aumentar, proporcionalmente, o perigo. “Voar com muito ‘pano’ também pode trazer grande risco”, defende Rick, paraquedista há 23 anos com mais de 6 mil saltos, que embarcou na onda do speedfly pelo gosto em voar e pousar em alta velocidade. Para responder às perguntas constantes que ouve por aí – tipo “como isso vai decolar?” ou “dá para pousar com uma geringonça dessa?” –, ele procura colocar os pés no chão. “Você precisa começar do zero, virar aluno de novo, saindo da zona de conforto”, diz. As asas pequenas, em si, não são exatamente novidade, o que muda no speedfly é o conceito, que envolve um ataque maior e um design mais embicado, deixando o conjunto bastante veloz e ágil.

Voo sobre a praia de Jeribá, em Búzios (RJ) (Foto: Kel Lopes)

2. ANDAR, PREPARAR, VOAR
O barato do speedfly começa no solo. Por ser pequeno, permite que seja levado nas costas em caminhadas rumo a picos nem sempre acessíveis a parapentes e asa deltas, duas modalidades “irmãs”. A independência de um avião e o fato de projetos poderem ser realizados de forma autônoma aumentam a gama de aventuras e a sensação de liberdade.

Rick se aventura com sua menor asa, de apenas nove metros quadrados, na Gávea (RJ) (Foto: Rick Neves)

3. MANTENHA OS PÉS NO CHÃO
“O lance do speedfly não é a coragem de sair voando, mas sim a capacidade de dominar a técnica”, conta Rick, que em suas primeiras investidas sofreu na pele com o ímpeto de voar. Depois de alguns apertos, deu passos atrás antes de decolar de vez, buscando entender a relação da asa com as condições do ambiente. “Ao mesmo tempo que existem riscos, os voos de speedfly podem ser supertranquilos se realizados com respeito à natureza”, conta. Um dos segredos é treinar o domínio do equipamento no chão. E o grande desafio, mais do que decolar e voar (a experiência em voos de parapente ajuda nesse ponto), é pousar, algo que o histórico no paraquedas certamente conta a favor. “Busque o máximo de informação e não queira provar nada a ninguém. A combinação de mídias sociais e esporte radical muitas vezes vira uma ‘bomba’ na busca absurda por ‘likes’”, ensina Rick.

Rick durante um voo técnico na região de Atibaia (SP) (Foto: Rick Neves)

4. TRIPULAÇÃO, DECOLAGEM AUTORIZADA
A máxima de todas as já consagradas modalidades outdoor também vale para o speedfly: esteja totalmente presente no momento; foque no “aqui e agora”. Não há técnica no mundo que vença um descuido de leitura ou uma ação atrapalhada fruto da desatenção. O ideal é seguir uma evolução gradual, dominando a atividade aos poucos. “O Brasil é ótimo para o aprendizado: temos todos os quadrantes, ventos e alturas disponíveis para quem está disposto a aprender”, afirma Rick, que tem sua base em Boituva (SP) e está sempre na estrada desbravando picos em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Santa Catarina, suas áreas preferidas para evoluir.

Voo pelas dunas da Joaquina, em Florianópolis (SC) (Foto: Rodrigo Ferrari)

5. O CÉU (NÃO) É O LIMITE
Com tudo seguindo um bom roteiro, abrem-se as portas para a inovação. O norte-americano Derek Dutton, por exemplo, tem feito pousos insanos em meio a construções no Havaí. Uma trupe de sul-africanos da Cidade do Cabo curte planar sobre o cenário urbano. O francês Valentin Delluc eleva totalmente o nível ao raspar com esquis nos cabos dos teleféricos de estações – tirando onda na base do speedride, modalidade originária do speedfly que une esqui com as velas sobrevoando montanhas nevadas. “Acho que o speedfly tem potencial para ser como outros esportes que antes eram vistos como ‘coisa de vagabundo’, porém acabaram se tornando inovadores e inspiradores”, aposta Rick, que se empolgou para fazer seus primeiros voos após ver alguns vídeos de neozelandeses praticando. “Cada dia com o speedfly é uma sensação nova, em voos inéditos que, muitas vezes, você não vai conseguir repetir”, conta ele, que tem de dedicado ao estilo proximity, tirando fina das montanhas. “O speedfly acende aquela chama de sacar quem realmente está ‘tirando um voo’”, diz. “Não sobra espaço para enganação, e um universo se abre para quem consegue juntar talento e conhecimento com atitude e estilo.”

Preparação para lift com ventos fortes no pico do Gavião (MG) (Foto: Fabiana Marson)

>> Asinhas de fora
Os especialistas em speedfly Rick Neves, Marcelo Ratis, Arthur Zanelinha e Bob Cusp decidiram propagar seus conhecimentos em novos cursos para iniciantes e iniciados em outras formas de voo livre. As saídas rolam em São Paulo, nas regiões de São Pedro, Botucatu ou Guaecá. Durante três a quatro dias, a equipe ministra aulas teóricas e práticas, evoluindo gradualmente para lifts, manobras e proximity. Contato: 11.98122-4959 e @rickdasneves (Instagram).

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