E por que as pessoas estão tão loucas pelo CrossFit?

Por Verônica Mambrini e Bruno Romano*

Se bem aplicado, sim. Eis um método que tem se mostrado eficiente no estímulo de diversas capacidades físicas, ainda que viva um período relevante de “teste”, com um mix de elogios e críticas vindos de pesquisadores e de profissionais de outras áreas do esporte e da saúde. Vale ressaltar que as raízes e os exercícios do CrossFit – não um esporte em si, mas uma marca registrada norte-americana que já se espalhou por mais de 120 países – vem de modalidades antigas, com destaque para o levantamento de peso, a ginástica e o atletismo.

A prática engloba esses universos dando uma roupagem moderna para treinos de alta intensidade, agregando alguns toques de calistenia e demais atividades como correr e remar. Tudo é baseado em um sistema de treinamento criado durante a década de 1990 pelo californiano Greg Glassman, ex-ginasta e entusiasta do mundo fitness.

Certamente sua criação é o maior fenômeno do mercado de treinamento nas últimas décadas. E o coquetel tem estimulado muita gente a se mexer, de sedentários a atletas de elite, passando por entusiastas de esportes e pessoas cansadas de academias tradicionais. Não custa lembrar que o Brasil já se tornou o segundo país no mundo em número de boxes, nome dado aos locais de treino, ultrapassando a marca de mil afiliados da CrossFit Inc., ficando atrás apenas dos EUA, que somam mais de 7.000 unidades.

Em linhas gerais, o CrossFit promete a evolução geral nas nossas principais capacidades físicas. “Tudo no meu corpo hoje tem um propósito”, diz a canadense Camille Leblanc-Bazinet, referência há anos na elite crossfiteira e campeã do CrossFit Games, principal evento mundial da modalidade, em 2014. “Acho que o segredo para esse processo dar certo está em mudar o foco da aparência para a funcionalidade”, afirma Camille.

Para chegar lá, a aposta do CrossFit segue um caminho via combinações e variações de exercícios com intensidade, sempre de olho na boa técnica, o grande lance. Nos boxes e nos campeonatos, os atletas se desafiam em sequências de treinos (os WODs, ou workouts of the day) que mesclam força, potência, resistência aeróbica e anaeróbica. Alguns WODs “clássicos” são tão duros que recebem nomes de mulheres (como os tornados).

Quando conheceu a modalidade, o ex-atleta de elite de levantamento de peso Joel Fridman torceu o nariz. “Tudo parecia muito aleatório e simplesmente não entrava na minha cabeça”, conta Joel, que acabou revendo conceitos a ponto de abrir, no fim de 2009, o CrossFit Brasil, primeiro box do país, ativo em São Paulo. “Quando mergulhei nesse mundo mais empírico, tudo mudou: não só meu corpo como minha mente também”, relata Joel. Essa quebra de paradigmas tem dado o que falar, criando um verdadeiro cabo de guerra. Mas, aos poucos, os discursos vêm encontrando pontos em comum.

Um deles é a certeza de que os ganhos biomecânicos frutos de treinos como o do CrossFit conseguem de fato ser transferidos para esportes específicos. Isso porque o CrossFit, assim como o treinamento funcional, deixa efetivamente o corpo mais preparado para encarar a grande maioria dos desafios físicos. O problema, na verdade, não está aí, mas, sim, na empolgação exagerada de alguns alunos e/ou instrutores.

Apesar de a competição estar na essência do CrossFit – tabelas de pontuações e medições individuais ganham destaque no método –, as provas foram uma invenção que só começou a ganhar mais evidência a partir de 2007, com o início do CrossFit Games. Entender a diferença evidente do alto rendimento para a rotina dos praticantes amadores tem causado certa confusão.

“A essência deve ser preservada: promover atividade física com o intuito de reabilitar e melhorar a vida das pessoas”, defende Joel, que adora competir e organizar eventos como o Torneio CrossFit Brasil (TCB), tradicional no país. Mesmo assim, o pioneiro no assunto por aqui relembra que há uma diferença fundamental entre buscar resultados em performance de alto rendimento e estimular a superação de limites pessoais para qualquer nível de praticante, aparentemente o grande trunfo real do CrossFit.

*Parte da reportagem sobre treinamento da edição nº152 da revista Go Outside, junho de 2018