Como fui das trilhas para um Meio-Ironman

Relato sobre a primeira vez da jornalista Maria Clara Vergueiro na prova clássica do triathlon

Maria Clara durante a etapa de 21 km de corrida do Meio-Ironman - Foto: Rafael Dalalana/Mundo Tri

Por Maria Clara Vergueiro*

EM UM IMPULSO, estimulada por uma amiga com um bom número de provas no currículo, eu me inscrevi para correr um Meio-Ironman, também conhecido como 70.3 (número que alude à distância total do percurso em milhas, e que representa metade das distâncias da prova de longa distância mais clássica do triathlon, o Ironman). Traduzindo para o português, o 70.3 vem com 1.900 metros de natação em águas abertas, seguidos de 90 km de ciclismo de estrada, finalizando com 21 km de corrida.

Minha precária matemática me induziu ao seguinte raciocínio quanto dei “enter” na minha inscrição: eu já corro 21 km com tranquilidade. Nado 2.000 metros em cerca de 40 minutos sem grande esforço. Recentemente, eu me saí melhor do esperava em uma prova de 42 km de mountain bike. Logo, pensei, não há de ser nada tão pesado; só é preciso acrescentar modalidades a mais na semana. Ledo engano.

Minha primeira semana de preparação foi um choque. Um treino de corrida de uma hora de tiros já era a minha dose mais-que-perfeita de intensidade e saúde. De um dia para o outro, tinha isso e mais 2.000 metros de natação. Mas espera: se eu vou nadar 1.900 metros no dia da prova, deveria nadar menos na rotina de treinos? Não. Ah tá. Ainda tinha mais. Surgiram na minha planilha pedais longos, combinados com uma série de musculação, no mesmo dia. Duas vezes por semana. Para coroar, não haveria mais nenhum sábado que não começasse com pelo menos duas horas em cima da magrela.

Levei um susto. Mas agora era tarde demais e só me restava abraçar a causa que eu mesma tinha inventado para mim. Seriam dois meses e meio de uma nova rotina e alguns sacrifícios. Em dez dias, meu corpo estava acostumado com a porradaria da jornada dupla. Por outro lado, surgiram um milhão de questões para ajustar e entender. “Preciso colocar um clipe no guidão da bike?”; “Roupa de borracha com manga comprida já me sufocou e eu quase morri”; “Não pega macaquinho com zíper atrás!!! É horrível para abrir na hora de fazer xixi na transição.”

Aos poucos, fiz meu próprio apanhado de escolhas: pedi um clipe emprestado e instalei na minha bike de estrada e achei excelente. Mandei fazer um macaquinho com o zíper na frente para facilitar a vida. Experimentei duas roupas de borracha, com e sem manga, e deixei para decidir qual usar no dia da prova. Como sou muito magra e não pretendia me autoconsumir com tanta demanda energética, passei por uma nutricionista triatleta que me orientou divinamente.

Maria Clara saindo da água na prova IRONMAN® 70.3® – Foto: Caco Alzugaray

Fiz dois treinos longos na Terra do Nunca dos triatletas paulistanos, o Riacho Grande. A estrada antiga, de mão dupla, margeada por uma grande represa fica a cerca de 30km de São Paulo. Quando saí da rodovia Anchieta e comecei a descer por ela, parecia que tinha atravessado um portal que me levava para um planeta alienígena. Eram centenas de ciclistas concentradíssimos, com seus capacetes aerodinâmicos, sem nenhuma preocupação com os carros – que, aliás, respeitavam os pelotões como se fossem caravanas de autoridades internacionais. Gente correndo no acostamento, os olhos grudados nos moderníssimos cronômetros-medidores-de-potência-velocímetros-monitores-de-frequência. Tendas de assessorias espalhadas pelas beiras, com galões de isotônico, frutas à vontade, água fresca, banheiras de gelo, estacionamentos com vestiários. Na represa, boias faziam a marcação dos 750 metros, enquanto caiaques e pranchas de SUP se encarregavam da segurança da galera. IMPRESSIONANTE. Não posso negar que o pessoal do triathlon se trata.

Usufruí tudo o que pude daquela estrutura e fiz o meu primeiro treino de natação fora da piscina ali naquela represa. O plano era dar duas voltas e completar 1.500 metros, uma distância enxuta, se comparada às que eu vinha nadando na piscina. Para o meu espanto, minhas braçadas amplas, a respiração compassada, a boa flutuabilidade, o estilo lapidado em décadas de aulas, não bastavam para aquela missão. Mergulhei nas águas turvas, não enxerguei um palmo diante dos olhos e de repente fiquei claustrofóbica. Olhei para trás e pensei em voltar para a margem e desistir daquela investida. Mas eu não podia. A prova estava chegando e eu não teria muitas oportunidades de vencer o medo que me pegou de surpresa naquele momento. Voltei a nadar, respirando a cada braçada, para conseguir olhar o céu e me sentir fora do breu dos meus olhos. Negociava internamente: vamos até a primeira boia. Respira. Olha o céu. Tem um caiaque aqui do lado. Calma. Só uma volta. E assim completei 750 metros e me dei por satisfeita naquele dia. Terminei o restante do treino – 53km de ciclismo e 8km de corrida – sozinha, vendo meus amigos bem de longe, nas suas bikes futuristas. Me senti vitoriosa, mas entendi que o que aconteceu na água era para ser enfrentado em mais de uma etapa.

Para se preparar para o Meio-Ironman, Maria Clara fez a prova Trófeu Brasil em Santos – SP – Foto: treinoonline.com.br

Minha coragem, muitas vezes, mora na minha ignorância dos fatos. Vendo tudo mais de perto e aprofundando um pouco os meus conhecimentos, percebi que eu tinha me precipitado com esse negócio de me inscrever para um Meio-Ironman sem nunca ter feito sequer um triathlon curto. Como eu ia largar para quase 2km de natação em águas abertas… sem ter nadado em águas abertas? Como sobreviveria àquela horda de nadadores frenéticos, se acotovelando para a travessia? Como meu corpo se comportaria fazendo as três modalidades, em sequência, sob a pressão da prova? Que estúpida, que pretenciosa, quanta arrogância. Para me livrar dos meus demônios, desci para Santos num domingo antes do sol nascer para fazer o meu primeiro triathlon olímpico. Aquele seria uma espécie de ensaio para as 70.3 milhas que me assombravam. Faltava duas semanas.

O dia estava azul, o mar calmíssimo. Passei por toda a logística que envolve uma prova dessas – mil horários, retirada de kit, tatuagem com o numeral, bike check-in, sacolas de equipamentos, géis, castanhas, e afins. Lá fui eu testar meus nervos e a roupa de borracha sem mangas. Era só um treino, eu dizia para mim mesma. Soou a buzina, todos os atletas, homens e mulheres, em disparada para o mar. Dei tempo a eles e a mim mesma. Fui entrando devagar, mirando os caiaques. Comecei a nadar em direção à primeira boia, mas logo decidi encostar na primeira embarcação. Eu precisaria de alguns segundos para seguir, só para organizar meus pensamentos. Me apoiei no caiaque. Um homem de uns 60 anos bem vividos era o condutor. “Que foi moça? Deu branco? Faz o seguinte: vai nadando, que eu vou do seu lado. Pode ficar tranquila, eu estou aqui”. Fez-se a luz.

Concluí os 1.500 metros com aquele anjo salvador no meu campo de visão o tempo todo. Depois foi só pedalar os 40km para chegar na parte mais fácil para mim, a corrida. Correr 10km cansada pode ser bem frustrante, isso eu te digo. Terminei exaurida e com ressalvas sobre a minha escolha: talvez fosse melhor não saber, permanecer ignorante até a hora H. Se eu sofri daquele jeito para correr 10km, o que seria correr os 21km do Meio-Ironman? Ou seja, nem mesmo a corrida se parecia com a minha corrida de sempre. Quanto mais eu me aprofundava, mais difícil parecia.

Depois disso, tive uma semana de treinos leves e uma semana de descanso. Eu havia feito tudo o que podia, de verdade. Me empenhei em seguir à risca a cartilha e descobri a pequena tenente que mora em mim. Às vezes parecia que tanto empenho estava mais ligado ao medo do que à vontade, mas acho que as duas coisas se encontraram no meu processo, me fortalecendo silenciosamente. Foram meses cheios de silêncio, na verdade. Colecionei conselhos preciosos e palavras de incentivo, mas a trajetória foi muito pessoal, solitária. Percorri mil quilômetros sozinha e sem música nos ouvidos. Cansei de mirar o asfalto, de sentir o cheiro quente do rio Pinheiros, de ouvir os meus próprios passos, de olhar o fundo da piscina, de me perder em pensamentos espiralados.

E finalmente lá estava eu. O dia nascendo aos poucos, o mar um tanto mexido, muita gente ao redor. Ganhei um abraço apertado do meu marido que me dizia “vai tranquila”. Duas das minhas parceiras de treino estavam do meu lado. De repente tudo aquilo estava começando de verdade. Abandonei o meu entorno e mergulhei. Fui tomada por um nível de concentração que não me lembro de ter experimentado antes. Éramos eu e o mar. Eu e a minha respiração. Eu e o céu que se tingia de laranja. Eu e uma gaivota que passava. Fui fluindo no movimento da água, junto com ela. Acho que aquilo era estar presente no momento, intensamente, porque embora eu estivesse concentrada no que se tornou um mantra, não me ausentava do objetivo de alcançar as boias, nadar na direção correta, dar braçadas eficientes. A sensação era boa. Nenhum medo, nenhuma expectativa a não ser a de me manter naquele estado.

Saí da água com os olhos brilhando e vi meu marido na beira, vibrando pelo que eu tinha acabado de fazer. Vi que tinha feito um bom tempo na natação. Segui para a transição (tira a roupa de borracha, pega a sacola, veste capacete, óculos, sapatilha, pega a bike, sai correndo) e me mandei para os 90km. Continuei concentrada no meu percurso, e confiando no bem-estar que havia se instalado em mim. Eu já não esperava fazer a etapa de ciclismo em menos de três horas, mas o percurso tinha mais desnível do que eu imaginei e muito vento contra, o que deixou tudo um tanto mais lento. Aproveitei para me abastecer o máximo que pude pensando que precisava chegar bem hidratada e alimentada para os 21km de corrida.

Maria Clara celebrando o fim da prova – Foto: olhonoatleta.com.br

Quando calcei o tênis e parti para a última etapa da prova, meu corpo lembrou que estava em casa. Apesar do desgaste natural e do sol já alto e quente, consegui imprimir um ritmo bom e constante ao longo de todo o percurso. Tentava fugir da pressa de acabar. Não queria correr o risco de quebrar no fim do percurso e ter que andar, embora àquela altura, para mim, qualquer coisa fosse válida. O mais difícil eu já tinha superado. “Tá sobrando!!”, eu ouvi algumas vezes das pessoas na rua. Eu estava feliz comigo mesma, era isso. Parece simples, mas pense bem: quando é que você fica feliz consigo mesmo, alimentado pelos seus próprios estímulos, sem nenhuma necessidade de validação externa? Era contraditório, porque aquilo era uma competição, com tempo, medalha, ranking, etc. Mas para mim foi outra coisa. Foi mais uma cruzada interior. E eu não pretendo me tornar triatleta, talvez eu nunca mais faça nenhuma prova parecida como essa. Na verdade, renovei meus votos com a montanha e com a lama, definitivamente onde eu gosto de estar. Mas se enfrentar olho no olho, se dizer algumas verdades de vez em quando e fazer as pazes consigo mesmo, é uma grande coisa. Esse foi o resultado do meu primeiro (e talvez único) Meio-Ironman.

*Maria Clara Vergueiro é diretora da Rocky Mountain Livros/Books e participou da prova IRONMAN® 70.3® FLORIANÓPOLIS 2018 que aconteceu no último domingo, dia 22 de abril.