Uma abordagem mental para você se preparar para seu próximo desafio na escalada – quem sabe na vida

Por Jonathan Siegrest*

Você já percebeu aquela garota ou aquele cara no seu ginásio de escalada que está sempre 100%, que a cada movimento você pode dizer que está dando tudo de si para o sucesso daquela escalada? Essas pessoas costumam ser as primeiras a chegar e as últimas a sair da academia. Eles não se distraem com a multidão, com a música ruim e nem com as festas de aniversário comemoradas nos setores de top-rope. Não importa o nível em que escalam, a força está no treino duro. Não é só um movimento físico – é mental. Estes escaladores têm mais potencial para melhorar.

Antes de melhorar o seu corpo, você deve preparar a sua mente. Não há nenhum atalho para o crescimento e o treinamento é dificílimo – caso contrário, você nunca vai evoluir. Mas como você deve se preparar para este desafio? Como você pode condicionar sua mente para realmente empurrar seu corpo além?
Independentemente da rotina de treinamento que escolher, a foque na consistência. Consistência será o seu compromisso com o crescimento. Não importa o quão talentoso você é nem o quão excepcional é o ginásio em que escala. Muito menos quanto você pagou pelos seus equipamentos – sem foco, seus treinos nunca terão resultado.

O alicerce

Estabeleça uma meta. Não apenas para melhorar. Defina um objetivo real de evolução. É importante estabelecer metas para reconhecer o espaço entre você e a realização. Cada objetivo deve ser algo que naquela hora ainda não foi alcançado. Algo que exige certo crescimento. Algo que te intimida, que te assusta. Algo que parece ser o limite, mas não tão irreal a ponto de ser inimaginável. Você também precisa de motivação naqueles momentos em que quer desistir. Um sonho vai te manter firme durante horas de treinamento, te motivar por semanas ou meses de dedicação e sacrifício. Querer simplesmente melhorar é algo muito nebuloso; portanto defina uma meta de desempenho na qual você vai se testar.

Uma vez estabelecido o objetivo, comece a nortear o seu caminho. No mapa de progressão, você está atualmente no ponto A, e o seu objetivo é o ponto B. Você reconhece a distância entre os dois pontos e agora deve saber em quais forças e habilidades precisa melhorar – ou adquirir – ao longo desse caminho. Peça a outra pessoa para comentar sobre sua evolução. Pode ser um bom amigo, que conhece a sua escalada, um treinador, ou um total desconhecido. Implore pela honestidade deles, porque eles realmente vão te ajudar a enxergar suas fraquezas. Pesquise sobre o seu objetivo, aprenda tudo o que puder sobre ele. Com todas essas informações, agora é hora de escolher o método de treinamento.

Prepare-se para a batalha. Isso não será fácil – e às vezes vai ser chato. Na verdade, este pode ser um bom momento para você se certificar de que este objetivo é significativo. Imagine-se tendo sucesso – como você se sentiria? Será que vai valer a pena?

A persistência

Persistência é primordial. O progresso será lento, mas tente aceitar que cada pequeno passo é importante. Como seu foco e seu avanço podem ter altos e baixos, tente visualizar cada etapa como a mais importante. Não existem dias de treino fácil – todo dia é O DIA. Organize sua vida para que você possa manter seus treinos e descansar o corpo completamente do estresse do exercício quando necessário. Dê o seu melhor para acabar com as distrações.

Monitore o progresso. É importante quantificar e registrar as mudanças. Em primeiro lugar, porque no final do ciclo é importante ver a distância que você já percorreu e se perguntar, “Este treinamento realmente funcionou?”. Em segundo lugar, as pequenas melhoras te ajudarão a manter a persistência. Semana a semana, note as pequenas mudanças, este combustível é tudo o que você precisa quando se vê no meio caminho.

Mantenha sempre o objetivo em mente. Imagine que cada sessão de trabalho duro é uma parte de seu objetivo sendo realizada. Imagine-se dentro de alguns movimentos para escalar o projeto de boulder, a via de escalada esportiva ou o big wall – se você pode chegar ao final, desça ao último degrau e imagine-se ainda na luta nesta escalada – e vencendo. Deixe o objetivo motivar o seu treino porque, mais tarde, o treino vai motivar o seu objetivo.

A execução

Não há mais preparação, é hora de agir. Confie no trabalho que você fez até aqui. Seu corpo está treinado, adaptado, e agora você chegou ao Ponto B do seu mapa. Não importa o quanto o seu corpo esteja preparado, a sua mente ainda será o seu maior trunfo.
Talvez seu objetivo seja concluído com facilidade, e você tenha que voltar à prancheta rapidamente. Mas geralmente isso não acontece. Muitas vezes, o corpo exige mais adaptação à escalada do que realmente conseguimos prever. Seja paciente. Se todos os ingredientes estão lá, vai chegar um momento em que você precisa se render à escala. E tudo o que você pode fazer é tentar – já que é impossível estar no controle de todas as variáveis. Uma dessas tentativas será a “tentativa certa”, e então parece que “todos os planetas se alinharam”. Se entregue à meta – você consegue. Pode ser que não seja hoje nem amanhã, nem mesmo nesta viagem. Lembre-se das horas e semanas de sacrifício às quais você sobreviveu para estar aqui. Lembre-se do que sentiu quando estava no ponto A, olhando por toda a extensão que teria que percorrer. Parece algo meio louco, mas agora você está  no final.

Ganhar ou perder é sempre uma lição. Se você tiver sucesso, pegue a experiência e use-a como combustível para o próximo objetivo. Você já conhece o processo, basta seguir confiante em suas capacidades.

Se falhar, tente a todo o custo entender por que. Mau tempo? Azar? Ou você realmente não estava preparado? Quais as variáveis ​​que você pode mudar na próxima vez? O que saiu ou sempre esteve fora do seu controle? Peça a um amigo que responda com honestidade. A pior coisa que pode acontecer é não aprendermos com nossos erros.

O corpo é como a nossa ferramenta, e todos nós sabemos que o treinamento é sobre adaptar o corpo e melhorar esta ferramenta. Mas é na abordagem mental onde podemos aprender a operá-lo: mente em primeiro, corpo em segundo.

* Acostumado com a evolução gradual e constante da escalada desde 2004, quando começou neste esporte, Jonathan Siegrest tem hoje 31 anos e é um atleta profissional consagrado. Natural de Boulder, Colorado (EUA), atualmente vive na Catalunha.

(Texto originalmente publicado no blog da Arcteryx.com)