Bernardo é um empresário multitarefas e atleta outdoor

Por Bruno Romano*

A distância exata de uma maratona separa a porta de casa da cidade de Abaeté, no interior de Minas Gerais. Quem faz o cálculo e olha firme para o horizonte é Bernardo, de apenas 12 anos. No lar da família mineira, onde respira ar puro e se conecta com suas raízes, o inquieto garoto carioca decide lançar uma aposta para o tio. “Duvida eu correr sozinho até lá?”. Avaliando os 42 km da jornada, a dureza do terreno e a inexperiência do “competidor”, a conta simplesmente não fecha. O tio, no entanto, decide provocar: “Vou te deixar um copo cheio d’água na metade do caminho”. Só que Bernardo estava falando sério. Ele parte sozinho, vara estradas de terra, encara o calor, se perde, busca comida e, mesmo exausto, não desiste. Quilômetros à frente, nem mesmo uma tentativa de ser barrado por conhecidos da família ou uma posterior busca policial (da qual ele só soube depois) o impedem de completar seu primeiro grande desafio.

O menino completou o percurso em 9h15. “Percebi que eu tinha uma predisposição para conhecer meus limites, além de uma mentalidade forte para suportar adversidades”, diz o empresário e multiatleta outdoor Bernardo Fonseca, 40, que leva atualmente cerca de três horas para completar os 42 km de uma maratona oficial. Os anos que se passaram parecem ter sido uma analogia daquela ousada escapada, que acabou moldando para sempre seu perfil obstinado.

Bernardo é o atual CEO da X3M Sports Business, empresa de marketing esportivo, e organizador do XTerra Brasil, circuito de provas ao ar livre de destaque no continente. E não para por aí: ele ainda divide seu tempo como investidor, toca uma empresa de logística, a CDX, dá palestras, promove corridas dentro de comunidades no rio de Janeiro, no projeto Braços Abertos, e encara aventuras variadas, da ascensão invernal ao Elbrus (5.642 metros, a maior montanha da Europa) a ultramaratonas no Deserto do Saara e nos arredores do Everest – onde, aliás, já foi campeão dos 60 km da Tenzing Hillary Everest Extreme Ultra.

“O que me motiva em tudo isso é o desafio. E o que me desafia é encarar meus medos”, reflete Bernardo, que construiu uma imagem de perseverante e destemido, tanto na cena esportiva como na de empreendedor. “Quanto mais desafiador o plano, mais é preciso planejar e se preparar”, segue o carioca, que aposta em uma rotina superorganizada para dar conta de atender a tantas demandas. Seja para completar um Ironman, escalar uma montanha perigosa ou lançar um novo evento esportivo que atraia atletas e patrocinadores (alguns projetos que encarou nas últimas décadas), sua vivência tem lhe ensinado a ampliar as perspectivas, a valorizar o tempo e se manter comprometido.

Bernardo quando correu 100 km no frio da Antártida em 2010

Quando abraçou o plano de correr 100 km no frio da Antártida em 2010 – experiência que se tornou seu grande case pessoal de sucesso –, Bernardo se viu naquele exigente e arriscado lugar que ele mesmo costuma recriar constantemente: a bifurcação que divide o sucesso do fracasso. “Para ser bem sincero, eu não tinha a menor ideia do que significaria correr toda aquela distância sob condições tão severas”, diz. “Mas eu me comprometi imensamente com tanta gente (e comigo mesmo) que gastava um par de tênis a cada duas semanas de tanto me preparar; no fi m, deu certo”, analisa. A participação na Antartic Ice Marathon & 100 K Ultra race culminou com o título em dobro, nos 42 km e nos 100 km, um verdadeiro divisor de águas na sua vida.

Olhando de fora, esse fascínio por feitos improváveis pode soar como a busca por uma fuga do dia a dia puxado de trabalho ou até mesmo um mecanismo de marketing pessoal para ajudar toda a engrenagem rodar. Ao observar mais de perto, entretanto, o esporte se revela mais como seu combustível infalível – é ele que embala Bernardo até a linha de chegada dos objetivos profissionais e que o ajuda a renovar corpo e mente. “Ao viajar atrás de competições pelo mundo, absorvo muita coisa boa e também surgem várias ideias espontâneas enquanto estou praticando algum esporte.”

O problema começa quando o “sarrafo sobe muito”, como ele gosta de dizer. A expressão usada com naturalidade pelo empresário resgata a minuciosa disputa do salto em altura do atletismo. É um termo cheio de signifi cados e refl exões. Quanto mais se conquista, mais difícil é o próximo passo. E, quanto mais alto se sobe ou mais amplo se torna o leque de possibilidades, mais complicado é conseguir tempo para o que realmente importa. Nesse caminho tortuoso, Bernardo tenta fazer um paralelo entre sua mais ardente paixão outdoor atual, o montanhismo, com os negócios: “As pessoas só visam o cume profissional, mas não planejam e sequer pensam em como vão se sair na descida”, diz. “Descer quer dizer ter um negócio que funciona bem mesmo sem você, caso contrário, trabalha-se que nem louco até os 70 anos e não se vive.”

A linha tênue que marca a decisão entre atacar o topo e saber a hora de mudar o rumo é conhecida no montanhismo como summit fever, algo como a “febre do cume”. Tanto no universo aventureiro como no mundo empreendedor, ela define a sobrevivência. “Tem que tomar cuidado para ler o ambiente e não acabar padecendo da tal febre”, diz Bernardo, que tem buscado o equilíbrio. No jogo traiçoeiro de altos e baixos, ele associa a longevidade dos seus negócios exatamente à diversidade de opções e ao pensamento de longo prazo. “Várias portas se fecham no caminho, mas aí você precisa achar um jeito de entrar pela janela, ou seja, ou você ama o que faz, ou vai desistir logo”, fala.

Bernardo no cume do Aconcágua

Nesse ponto, a escolha de uma rotina multitarefa tem se mostrado um bom antídoto. Mas é claro que nem tudo são flores, como se diz. recentemente sua aposta em um novo produto esportivo, por exemplo, acabou gerando enorme expectativa, só que não saiu como o esperado. Na prática, deu prejuízo em dobro: de tempo e dinheiro. “Nessas horas cai um peso gigantesco nas costas, mas, como líder, você não pode desmoronar”, fala. “Na vida de empreendedor, isso acontece até com certa frequência, e é fundamental saber das responsabilidades e buscar saídas, tirando o melhor de cada pessoa ao seu lado.”

Está aí um dos segredos escondidos nessa trajetória. Bernardo não faria nada disso sozinho. No trabalho, conta com uma equipe grande para compor suas atividades diárias – cerca de 400 pessoas se envolvem diretamente em cada etapa do XTerra, circuito que cresceu de um evento único em 2005 para dez paradas no calendário de 2018 com sete modalidades diferentes. Seu maior “investimento” atual, portanto, envolve o aprimoramento e a gestão de pessoas. Tanto no trabalho como em casa – ele é pai de dois filhos, Maria Eduarda, 8, e João Paulo, 9 –, o empresário divide com os demais seus erros e acertos, batalhas e conquistas. “Ninguém escapa de dificuldades e problemas na vida, e é mais bemsucedido quem os supera”, fala. “Talvez um diferencial seja antecipá-los ou, quando isso não é possível, ser capaz de aguentar o sofrimento por mais tempo.”

Enquanto reflete sobre sofrimentos passageiros, Bernardo sente a dor latente do seu joelho inchado. Ele está aguardando a ponte aérea São Paulo-rio de Janeiro, um trajeto mais que costumeiro. Graças aos últimos anos de “pancada”, ele achou melhor dar uma geral e operar um antigo problema no menisco, além de uma hérnia inguinal. Pouco depois, ele já estava encarando morros e desviando de pedras durante uma etapa de corrida em trilha de um recente XTerra, em março deste ano. “O quanto antes voltasse às atividades, mais rápido retomaria a forma”, diz, misturando a alegria de voltar a correr com o leve arrependimento de quem sabe que se empolgou e forçou um pouco a mais. Ao esticar a perna e rever a situação, Bernardo respira um pouco e revela os dois grandes sonhos do ano: fazer o cume do Alpamayo (5.947 metros), no Peru, e do Manaslu (8.156 metros), no Nepal, duas escaladas técnicas e exigentes.

Sempre que traça novas metas – quase que diariamente –, Bernardo usa uma técnica de guerra: uma sigla de uso frequente militar em situações de sobrevivência, a ESAON. São as iniciais de Estacione, Sente- se, Alimente-se, Oriente-se, Navegue. “Pare, avalie com calma seu entorno e trace um novo rumo no esporte ou no trabalho antes de seguir adiante com mais confiança”, diz Bernardo sobre a estratégia que tem funcionado. Caso algo der errado no meio do novo trajeto, repita o processo. E vá em frente. Mesmo que o destino seja completar (sem experiência nem recursos) uma maratona que você mesmo inventou na sua cabeça. Afinal, o erro e o sucesso podem fazer parte do mesmo caminho.

*Parte da reportagem “As novas regras do trabalho” publicada na edição nº 150 da revista Go Outside, abril de 2018.