Amor ao ar livre

A história de um montanhista e uma executiva que se apaixonaram ao enfrentarem juntos alguns dos ambientes mais inóspitos da Terra

AMOR NAS ALTURAS: Carlos e Thais curtem um dia de sol em São Bento do Sapucaí (SP), meca da escalada paulista, onde têm uma casa (Foto: Caio Palazzo)

Por Fernanda Beck

O guia Carlos Santalena e a empresária Thais Pegoraro se apaixonaram durante o projeto dela de escalar as montanhas mais altas de cada continente, no qual os dois enfrentaram juntos ambientes inóspitos a milhares de metros do nível do mar. Aqui, eles contam como descobriram o melhor e o pior um do outro nas montanhas mais desafiadores da Terra

> THAIS PEGORARO, coach de carreira, 38 anos:

“Em março de 2014, fiz um curso para poder me tornar coach de executivos que querem descobrir novos potenciais na carreira e na vida. Foi nessa época que relembrei meu antigo sonho de um dia escalar o Everest. Pesquisei cursos de escalada em rocha e gelo e encontrei a Grade 6, agência de um talentoso e jovem guia de montanha chamado Carlos Santalena. Achei bacana e me inscrevi em um curso lá, sem conhecê-lo pessoalmente. Mesmo sem experiência em altas altitudes, meu objetivo era me habilitar para realizar um projeto conhecido como Sete Cumes [um dos desafios mais clássicos do montanhismo, que consiste em escalar as montanhas mais altas de cada continente]. Antes de partirmos para o que seria minha primeira expedição, ao Aconcágua, na Argentina, houve um encontro em um refúgio de montanha, para que o grupo pudesse se conhecer. Foi nessa ocasião que conheci o Carlos. Éramos ambos comprometidos, na época. Achei-o muito profissional e simpático, mas nada além disso.

Na montanha, Carlos se mostrou muito duro e exigente, até distante, por causa de seu profissionalismo. Tomei várias “porradas” dele durante a expedição, pois eu não tinha experiência e comecei meu projeto muito crua. É claro que entendo isso hoje, mas na época tinha até medo (risos). Fomos para o Aconcágua juntos, mas não consegui chegar ao cume, desisti a poucos metros do topo após uma queda que me desestabilizou. Ele se solidarizou e me chamou para sua próxima expedição, ao Denali, no Alasca, em junho de 2015. Ainda fizemos outra viagem juntos (porém sempre em grupo), para o Elbrus, na Rússia. Carlos me dava muito incentivo, tem uma força moral admirável.

TRANQUILIDADE: O casal posa para as lentes de Go Outside, em São Bento do Sapucaí (SP) (Foto: Caio Palazzo)

Em janeiro de 2016, nos encontramos novamente, para a segunda tentativa de cume do Aconcágua. Inicialmente, éramos em dez no grupo, mas seis desistiram ao longo do caminho e ficamos em quatro (incluindo eu e ele). Eu era a única mulher. Carlos me perguntou se eu me importaria de dividir a barraca com ele, para que pudéssemos levar apenas duas, diminuindo o peso das mochilas. Eu topei. À noite, na barraca, fizemos uma oração juntos, foi um momento muito íntimo, apesar de ainda não ter rolado nada. Mas pensei: “Que estranho, ele sempre foi distante, agora de repente quer fazer uma oração comigo…”. No dia seguinte, alcançamos o cume, e ele fez uma “meia declaração” para mim: disse-me que tinha se envolvido, porém ainda não sabia o que isso queria dizer. Acabamos ficando juntos, porém foram muitas idas e vindas entre janeiro e agosto do ano passado.

Estar na montanha a dois resulta em uma convivência intensa. Ficamos 60 dias lado a lado no Everest e foi quando vivemos nosso grande momento de paixão. É tudo intenso, sofrido, rola uma intimidade grande, até fisiológica. Acho que casais que estão juntos há décadas não viveram o que a gente passou lá… Creio que experimentamos o melhor e o pior de cada um. Ele é da natureza, do campo. Eu sou uma executiva urbana. Em comum, temos nosso amor pelas montanhas. Agora estou grávida, e estamos pensando em como será nossa vida de família outdoor. Queremos continuar a tradição montanhista com o bebê, em um projeto chamado “Família 8.000”.

A parte mais bacana da nossa história foi que nos conhecemos na montanha, não foi mais um caso de a mulher começar a praticar o esporte só porque o homem gosta, ou vice-versa; os dois já queriam estar ali. Agora pensamos nas nossas novas possibilidades, como a de eu levar meu trabalho de coach para o ambiente outdoor. Temos uma parceria em que ninguém se anula, um soma ao outro e, juntos, crescemos.”

DESCANSO: Carlos e Thais em Itatiaia (RJ), em preparação para escalar a Pirâmide Carstenz, na Oceania (Foto do celular da própria Thais)


> CARLOS SANTALENA, guia de montanha, 30 anos:

“Conheci a Thais em uma palestra em São Paulo. Ela já tinha feito cursos de escalada com a Grade 6, porém sem a minha presença. Nessa ocasião, ela me questionou sobre o Aconcágua, pois seria sua primeira montanha grande. Dei uma resposta bem técnica: disse que, depois do curso que fizera na Bolívia, eu achava que ela conseguiria mandar o cume no Aconcágua, pois adquirira treinamento o suficiente. A pedido dela, a Grade 6 traçou um planejamento para que realizasse o projeto dos Sete Cumes. Nesse primeiro encontro, ela me disse que tinha pressa, que previra um tempo determinado para fazer o projeto porque já havia outras coisas em sua mente, porque queria ter filhos. Achei estranho ela falar assim, mas gostei de sua determinação. Desde aquele momento, vi que estava diante de uma mulher diferente. Ela era determinada, decidida, mais do que os homens que nos procuram. Muito direta e com um plano de vida certeiro. Fiquei curioso para ver até onde ela iria.

Nossa primeira experiência juntos na montanha foi no Aconcágua, com um grupo grande e outros guias. Thais não tinha frescura com nada, não queria que ninguém carregasse sua mochila. Ela mesma alugou todo o equipamento de que precisaria, arrumou as coisas, fez o check-list sozinha. Vi que havia uma montanhista escondida dentro da executiva.

UNIDOS: O casal no campo base do Everest, entre os ciclos de aclimatação (Foto do celular da própria Thais)

No dia em que faríamos o cume do Aconcágua, ela acabou ficando um pouco para trás do grupo e não teve tempo de chegar ao topo. Foi aí que comecei a ficar realmente impressionado: apesar de não ter atingido seu objetivo, ela não abaixou a cabeça, comemorou com todo mundo como se tivesse chegado ao cume. Em vez de desistir ou reclamar, Thais estava feliz pela experiência, comemorando tudo o que aprendera. Então a convidei para se juntar a nós em uma expedição ao Denali, no Alasca. Disse-lhe que, já que o Aconcágua não rolara, começaríamos pela montanha mais difícil.

A expedição foi ótima, pegamos bom tempo e fizemos tudo em 15 dias, em vez dos 20 planejados inicialmente. Passei bastante tempo com ela, e começamos uma relação de amizade muito interessante, conversando sobre todos os assuntos, principalmente sobre o lado espiritual de estar na montanha.

Voltamos a discutir o projeto da Thais já como amigos. Agora trocávamos mensagens, emails, sempre com mais informações sobre as montanhas, cada vez mais descontraídos. Escalamos o Elbrus, na Rússia, novamente com um grupo grande. Depois disso, foi a vez do Kilimanjaro. Ela mostrava-se sempre feliz por estar na montanha, independentemente de qual fosse o resultado, um desprendimento que eu admirei. Eu tinha ido guiar um grupo no Aconcágua, e ela decidiu vir direto do Kilimanjaro nos encontrar e tentar escalar a montanha novamente.

Thais chegou de helicóptero – já estávamos no campo base quando ela se juntou a nós. Quando finalmente chegou, já a olhei diferente. Ela estava alegre, animada, motivou a todos na expedição, criou um clima bom. Começamos a escalada conversando muito, já bons amigos. Alguns clientes desistiram no meio do caminho, e não fazia sentido levarmos tantas barracas montanha acima. Perguntei se ela se incomodaria de dormir comigo, Thais disse que não. Costumo fazer uma oração antes de sair para tentar o cume das montanhas, e naquele dia peguei em sua mão para orarmos juntos. Pedimos proteção e agradecemos por estar ali, rolou uma energia bacana. Foi um momento especial, de forte conexão entre nós.

PRONTOS PARA OUTRA: O casal antes de embarcar no voo que iria da Oceania para a Ásia (Foto: celular Thais Pegoraro)

Alcançamos o cume, voltamos para a barraca cansados e desidratados. Comemos, conversamos e dormimos. No meio da noite, acordamos agitados, com o coração acelerado, um sintoma de desidratação. A solução era derreter gelo para poder beber água, reidratar o corpo e conseguir dormir. Ficamos derretendo a neve e conversando madrugada adentro. Na manhã seguinte, acordei com vontade de dar um abraço nela, e acabamos nos beijando.
Antes de irmos para o Everest, decidimos que o melhor seria manter a relação profissional – decisão que durou três dias. Ficamos dois meses no Everest, e nossos laços se estreitaram muito. Como éramos amigos, já conhecíamos bastante um ao outro. Mas, juntos na montanha, tiramos todas as máscaras, transcendemos os pré-julgamentos. Vivemos momentos de intimidade extrema, foi tudo nu e cru. Entre nós existia amor, parceria, cumplicidade, intimidade. Vi que podíamos fazer um milhão de coisas juntos.

Fomos para a Pirâmide Carstensz, a montanha mais alta da Oceania, na Nova Guiné, em uma expedição muito dura, fisica e psicologicamente. Quando voltamos dali, não tinha mais como não ficarmos juntos. Nosso amor era incondicional, puro, presente, de uma cumplicidade absurda. Pelo lado profissional, foi uma história um pouco estranha, mas não controlamos nossos sentimentos. Se tenho uma certeza hoje é a de que não controlamos tudo. Não temos hipocrisias mentais, nosso foco é sempre no momento presente. Ela não tira meu brilho, pelo contrário, o engrandece com suas atitudes.”


* Matéria publicada originalmente na Go Outside 138, de março de 2017.

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